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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

11
Set16

Estes dias que passam 339

mcr

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 Mário Silva 

(1929-2016)

 

Eu acabava de chegar à faculdade, ignorante de tudo ou quase mas convencido como qualquer caloiro que se prezasse, o que nem sequer me tornava original. De pintura nada sabia ou tão pouco que dava no mesmo. Tinha, em abono da minha boa vontade, começado a comprar uns livrinhos da Hazan de que só resta um dedicado a Utrillo com o título "Montmartre". Vejo agora que  o adquiri em Setembro de 59, na Figueira e traz o nº de ordem da minha biblioteca "1A" (provavelmente isto quereria dizer 1Arte. Recordo vagamente que depois vinha outro da mesma série sobre Renoir. Gostaria de pensar que já nesses meus 17/18 anos andava às voltas com arte quase moderna mas, de facto, fui comprando os livrinhos que a pequena livraria tinha meio perdidos e a preço de ocasião nas estantes.

A primeira vez que se me deparou pintura ao vivo, nessa Coimbra que eu começava a a percorrer como jovem toleirão e vivaço, foi  uma exposição do Mário Silva que na altura (inicios dos sessenta) causou farto escândalo não só porque ninguém estava à espera daquilo (pintiras, catálogo e, se não me engano, o traje do artista durante a vernissage) mas também, porque, noutro ponto da baixa Mario Silva apresentava uma composição que consisti  num arame farpado do qual pendiam esfaceladas duas luvas grossas raiadas de vermelho.

O Mário era um velho cábula bem disposto, vagamente aluno de Ciências, filho de um notabilíssimo professor da Universidade afastado pelo Estado Novo. Isso, o seu inato talento para o desenho, e o seu claro desejo de escandalizar a pacífica e iletrada burguesia coimbrã deram-lhe imediatamente naquele mar de águas paradas um perfil de audácia cultural e política que ele, posteriormente, justificou com nobreza, coragem e bom humor.

De facto, em Maio de 62, ei-lo que se junta sereno e corajoso, ao grupo de estudantes que ocupam pela segunda vez a sede da Associação Académica que a polícia selara depois de uma outra e anterior ocupação. 

A PIDE entendeu transferir para Caxias quarenta e quatro desses ocupantes. Entre eles, Mário Silva e quem estas linhas vai debitando. Foi uma estreia absoluta para ambos e uma espantosa lição de vida e de camaradagem para quantos ali penaram nas casamatas do reduto norte da cadeia de Caxias. 

Dessas forçadas férias, guardo com ternura e comoção um desenho do Mário oferecido "ao companheiro de cela Marcelo com um abraço do Mário silva, Caxias 29 de Maio de 62" Quiz digitalizá-lo mas a minha conhecida inépcia não soube aviar as linhas do desenho pelo que optei por uma fotografia do pintor.

A partir daí, tornámo-nos amigos e ao longo destes últimos cinquenta anos fomo-nos encontrando de longe em longe mas com alguma constância sobretudo quando eu regressava à Figueira da Foz, cidade que Mário Silva escolheu nos anos 80 para viver. Honra seja feita à minha cidade: há desde há vários ano, uma praia e um largo com o nome do pintor e um busto dele. 

O Mário nunca perdeu o seu ar de boémio bem humorado, mesmo se isso lhe tirava clientes ou lhe diminuía credibilidade como artista. Sempre que o via, irradiava entusiasmo,esquecia sacanices, tentava manter-se fiel à sua juventude e ao seu longínquo projecto artístico O Mário era, cum granu salis, uma réplica tardia mas limpa de uma certa maneira de estar no mundo que ia buscar atitudes e rebeldia à "escola de Paris", mesmo se ele nunca tivesse tentado ser um epígono: ele tinha imaginação, sensibilidade e cultura mais que suficientes para evitar ser um discípulo retardado.

Todavia, a alegria, a vitalidade e a honradez intrínseca do Mário deixarão um rasto nos amigos que restam (e já não somos assim tantos...).  Para mim, esta é uma semana negra dois amigos no mesmo dia é dose. Dois artistas plásticos é uma coincidência triste. Ficamos todos mais pobres e mais sós. 

Permita-se-me que neste adeus ao Mário, o junte a uma já extensa lista de desaparecidos no grupo dos presos de Caxias em Maio de 62 (apenas citarei os mortos de que tenho a certeza, podendo infelizmente haver mais)

Abilio Vieira, António Ferreira Guedes, Alfredo Soveral Martins, Alfredo Fernandes Martins, José Martins Baptista, Francisco Delgado, Jorge Manuel Bretão, João Quintela, Luís Bagulho. Curiosamente, ou talvez não, todos eles se distinguiram no combate cultural, na organização da democracia  e são, foram, exemplos de vida  e de ética. Orgulho-me deles, orgulho-me muito deles.Que falta me fazem. 

10
Set16

Au bonheur des dames 415

d’Oliveira

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 Zé  Rodrigues  

(páginas de um catálogo)

 

1

Há séculos que a filha de Herodíade dança. Não por ela, muito menos por nós, mas tão somente para obter por prémio a cabeça daquele que a si próprio se chamou a voz que clama no deserto.

 

 

Véu a véu sela-se, fatal, a sorte do Baptista que fustiga pecados, anuncia a vinda de um outro a quem, é ele que o afirma, nem sequer merece apertar a correia da sandália.

 

Verão os seus olhos "como carbúnculos" a sorte funesta que a dança de Salomé lhe promete? Não é João, como dizem todos, do Tiberíades até ao Jordão, um profeta? Ou, por saber do futuro dos outros está-lhe negado conhecer o seu?

 

2

 

Poetas, músicos e pintores repetem, desde há séculos, esta história; encenam a morte de João, a cabeça decepada, a nudez perversa de Salomé, a cobardia do Tetrarca e a vingativa determinação da adúltera Herodiade.

 

Dir-se-ia que, graças à mestria deles, João ressuscita constantemente apenas par outra e outra vez, perder a cabeça e a vida.

 

A dança da virgem e a morte de João confundem-se a tal ponto que já não sabemos se esta não é mais do que a neccessária consequência da outra, como se a História apenas fosse um capricho de um Deus sarcástico e indiferente.

 

3

 

Da mão do Zé Rodrigues solta-se uma outra estória, porventura menos trágica mas singularmente mais próxima:

 

O olhar do Baptista continua penetrante mas, agora, há nele também o eco de um desejo, a misericórdia do perdão.

 

Salomé é apenas uma adolescente cuja sensualidade ingénua é temperada pela graça de um corpo humanamente imperfeito e a dança não pede a morte mas a vida, pede o corpo todo do visionário, oferece ao profeta, não o amor que ela ainda não conhece mas um momento de descanso, de refrigério para quem se consumiu em todos os desertos da Galileia.

 

4

 

Contra a dança da morte, a mão do escultor criou o toque da vida. Não é por acaso que ele vive e trabalha neste Porto em que o profeta é festejado numa noite imortal como protector de amores, de namorados, de vida vivida ou, pelo menos, sonhada.

 

 

 

Marcelo Correia Ribeiro

(Porto 3 de Novembro de 1977)

 

 

Em 1997, o José Rodrigues aceitou o meu convite para se expor nas instalações do Centro Regional de Segurança Social do Porto, na sequência de outros eventos do mesmo teor em anos anteriores e para os quais também contribuí com textos para os respectivos catálogos.

É o caso desta prosa acima republicada

Foi uma prova de generosidade e de amizade que vinha na sequência de outras e que marcava uma bela amizade de muitos anos.

Agora morre-nos, assim, no fim do Verão mesmo se o seu estado não augurasse nada de bom nestes últimos tempos.

Noutro país menos ignorante, noutra cidade menos esquecida, o Zé teria feito uma carreira internacional e hoje a sua morte viria em todos os noticiários. Por cá nem a televisão se incomodou...

 

* vai este folhetim para Alfredo Vieira e Manuel Sousa Pereira, dois amigos leais, fieis do Zé que estiveram com ele sempre, até hoje. Um abraço para ambos.

09
Set16

Proselitismo desportivo

José Carlos Pereira

presidente do meu clube esteve esta semana em Marco de Canaveses na inauguração da Casa do FC Porto, que alguns amigos colocaram de pé e aos quais desejo o maior sucesso. Mas num momento muito crítico, após a renúncia de um administrador da SAD e vice-presidente do clube e na sequência de três anos marcados pelo insucesso desportivo no futebol, que agravaram a depauperada situação financeira, Jorge Nuno Pinto da Costa parece não ter mais para comunicar do que uns ataques a jornais e comentadores por notícias falsas e críticas despropositadas. Um discurso que já não prestigia o clube e que nada adianta para ganhar o futuro.

Enquanto os sócios e adeptos do FC Porto ficarem satisfeitos com esta forma de comunicar e não sentirem a necessidade de um escrutínio mais rigoroso, temo que se continue a perpetuar no meu clube um modelo de governação fechado em si próprio e ultrapassado.

08
Set16

Estes dias que passam 341

d’Oliveira

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“... fogo que arde sem se ver...”

 

O Verão é mau conselheiro e a prova mais evidente disso é o conjunto de trapalhadas em que o governo se meteu. Não vale a pena falar dos três briosos Secretários de Estado que aproveitaram a boleia da GALP para ir ver a bola. Parece que não se demitem e, espantoso!, ninguém os manda dar uma volta ao bilhar grande. Vão continuar por aí, diminuídos na sua tarefa, olhados pelo público como gente que se vende por pouco, incapacitados de meter o bedelho desavergonhado nos problemas da GALP (e não só...), vistos com desconfiança por boa parte dos agentes económicos e apontados a dedo pela Direita que, desta vez tem três bombos da festa à disposição.

Mas parece que eles não percebem, o que diz muito da inteligência das criaturas e, mais ainda, da ética delas.

A Caixa Geral dos Depósitos então, é um sufoco. Um escândalo, um sinal de parvoíce daquele pobre Ministro das Finanças que, dia a dia, mostra eloquentemente a verdade do famoso “princípio de Peter”. Aquele pobre diabo era um técnico razoável e tinha, com mais uma dúzia de luminares,, fabricado uma espécie de plano financeiro para o P.S.. Depois, com os acordos da “geringonça” o projecto tantas voltas sofreu que mais parecia a túnica de S Sebastião mártir.

O homenzinho aguentou a desfeita e, deslumbrado pelo poder, seguiu em frente com a barriga recheada de sapos.

Não percebeu, não aprendeu (duvida-se que sequer aprenderá), e aí anda ele com todas as previsões a saírem-lhe furadas. Agora esta aventura da direcção da Caixa é o que é: a opinião pública, o Presidente da República e os parceiros da frente popular dão-lhe com os mimosos pés. Desconheço o que farão as personalidades imprudentemente convidadas e recusadas pelo BCE. Algumas optarão por fazer o mesmo que Leonor Beleza (que não precisava disto e que se dispunha a exercer o cargo de borla) e já avisou que não dá nada mais para o peditório.

Depois, mesmo que haja naquele banco mastodôntico e cheio de fífias, culpas de anteeriores Governos, a opinião geral virar-se-á sempre contra o actual. A CGD não é uma entidade simpática e, sobretudo, foi sempre algo de lento, perro, burocrático e tristonho. Eu que, como dezenas de milhares de aposentados da função pública, aturo a inércia da Caixa por mera preguiça descubro estupefacto que são precisos mais de cinco mil milhões para por aquele naufrágio à tona. Para já!

Claro que somos nós todos, os do costume, os que pagam impostos, os que não conseguem fugir às investidas do fisco, quem pagará esta brutalidade. Sem garantias de que, desta vez, fique tudo bem! Sem garantias de que não haverá despedimentos! Claro que vai haver! Sem garantias de que permanecerão os mesmos balcões. Claro que muitos encerrarão!

Tudo em nome do “banco público” que nunca procedeu como tal. A CGD estava no terreno tal qual os bancos privados, gorda à custa de ser o banco pagador de centenas de milhar de funcionários, gerida por criaturas escolhidas a dedo pela sua competência (veja-se Vara!!!) que deram aval a operações que se traduziram em prejuízos gigantescos e a este buraco negro que só o BE e o PC pintam alegremente de vermelho.

Deixemos, entretanto, estas miudezas e passemos aos fogos.

E comecemos pela imbecilidade maior. Alguns cavalheiros e, mormente, a rapaziada do Governo, não perceberam que a teoria do fogo posto (que obviamente existe) não justifica a teoria de que somos vítimas de uma conspiração de incendiários medonhos. Sobretudo o argumento cretino que que muitos fogos “começaram de noite”. Se essas criaturas tivessem um mínimo de testa poderiam dizer isso mas temperando a afirmação com estoutra: tais incêndios foram detectados de noite o que é um pouco diferente. O mato poderia já estar a arder brandamente mas só com a escuridão, o vento e a força crescente das chamas é que verdadeiramente se deu pelo incêndio. Como diz a epígrafe (mesmo se aplicada a outra circunstância) ele há fogo que arde sem se ver. Pelo menos quando começa.

A segunda desculpa é a de que as medidas propostas há cerca de dez anos são caras. Claro que são. Mas para quem não quer o pais ainda mais “litoralizado” é pela prevenção, é a juzante que se tem de começar, aliás, falar de custos aqui é algo de ignóbil. Mesmo poucos, os cidadãos do interior não podem constar de um deve haver burocrático que os reduz a uma enxurrada de campónios velhos, fracos, doente e feios.

Não há um cadasto sequer medíocre, dos proprietários florestais mesmo que se saiba que dezenas de milhares ou mais de um centena de milhares são desconhecidos e, porventura, como é o caso de um amigo meu que se descobriu herdeiro de umas bouças perdidas no interior profundo, ignorantes da sua parca, exígua riqueza.

O meu amigo referido, mesmo que quizesse visitar os seus domínios florestais, teria de encontrar quem o guiasse, quem reconhecesse marcos perdidos e pudesse (mesmo pagando) mostrar-lhe três pinheiros e muito mato à solta.

O cavalheiro (um ministro) que disse duas pacoviadas sobre este assunto nem percebeu que há milhares de proprietários rurais que não limpam os terrenos por as despesas serem sempre superiores ao valor das árvores que lá estão.

Todavia, a questão central permanece: sem cadastro não há solução. Ou há: confisquem-se todas as terras ardidas de que se desconhece dono e/ou responsável por medidas de prevenção. Parece que há cavalheiros que propõem esta solução deveras drástica.

Outra questão: porque é que não ardem, ou ardem raramente, as florestas propriedade das grandes empresas de papel? Será porque, ao contrario dos pequenos e médios proprietários (e muitas vezes do Estado ou das autarquias) pagam e mantém batalhões de sapadores e vigiam a todo o tempo as suas matas?

Outro ponto: há alguma política que preveja, proteja, incentive a plantação de floresta tradicional portuguesa, ou afinal só se protege o eucalipto (árvore que até se dá bem com o fogo) e o pinheiro? Ao que sei, mas posso estar mal informado, os carvalhos, os castanheiros, as faias ou os teixos ardem menos. Claro que investir nestas (e noutras) espécies tradicionais é investir a longo prazo, não dá lucro fácil, demora muito a ver as plantações crescidas.

A floresta, todos o sabem, arde. Cá ou na Califórnia, na Austrália ou na China. A floresta siberiana arde. Mas não arde com esta impetuosidade quase anual. Até há dias, metade da área ardida na União Europeia era portuguesa! Isto não espanta os tolinhos que tem responsabilidade no sector? Será que só cá é que há uma praga medonha de incendiários, a soldo sabe-se lá de quem, que tem por fito devastar o ridente campo português?

Fiquemo-nos por aqui neste descoroçoado rosário de queixas antigas. Ou melhor: faça-se uma referência à tragédia da Madeira. Ao que parece, apesar de tudo, e do Jardim, há um projecto para reflorestar as zonas invadidas por espécies exógenas e voltar à boa e vlha laurissilva e ao arvoredo indígena. Há, viu-se, uma actuação decidida e rápida para minorar a vida de quem perdeu tudo. Todavia, conviria recomendar ao senhor Presidente do Governo Regional mais cautela quando (esperemos que não se repita) houver outro incêndio. Sª Exª deverá ser menos, muito menos, assertivo. Bem sei que lhe cabia o ingrato papel de tranquilizador dos turistas que lá estam e dos que para lá irão. Foi porém imprudente quando anunciou ter a situação controlada. Foi impudente quando declarou que não precisava de auxílio exterior (parecia o seu antecessor). Precisou, obteve-o e vai precisar ainda de muita solidariedade nacional. Aos governantes não compete parlapiar tecnicamente. Isso é com quem sabe e Albuquerque não é metereologista nem bombeiro. É um político e apesar de tudo está a dissipar a imagem daquele Bokassa (cito o brilhante Jaime Gama que lapidarmente definiu o cidadão Alberto João) insular que o antecedeu.

Do mesmo modo, acho indecente, os ataques à Ministra da Administração Interna por não ter acorrido ao primeiro sinal. A ministra também não é bombeira e a sua presença no local só ia prejudicar a já dificl tarefa dos bombeiros. Dizer que a criatura foi para uma festa na hora em que estlou um incêndio é uma canalhada. À Senhora pede-se bom senso, direcção política e, já agora, que tenha a força suficinte para convencer o Governo a fazer o que há dez anos se propôs e foi esquecido. Se calhar está-se a pedir demais. Esperemos que no próximo ano de incêndios (e este inda vai no meio) alguma coisa esteja feita. Até, para quem é crente, só resta reza.

(este texto foi escrito ainda em Agosto mas o computador de Lisboa agora recusa-se a entrar no blog!  Manias de quem é velho e não vê quem o passe à reforma.)

 

 

 

 

 

19
Ago16

Incêndios

José Carlos Pereira

Muito se disse e escreveu já sobre o flagelo dos incêndios que tem assolado o país, sobretudo no início deste mês. O desleixo e a negligência justificam muitos dos casos, outros revelam-se crimes deliberados. A incúria, contudo, não reside apenas nos privados. O Estado, seja central, regional ou local, tem dado mostras de não saber gerir o vasto património que lhe pertence ou que lhe é cedido pelos privados em obediência ao que está previsto na lei, assim como se tem demitido de fazer uma aplicação sensata e eficaz da legislação que compreende a gestão das faixas de combustível e a gestão das florestas.

A análise da investigadora em questões ambientais Luísa Schmidt identifica bem as causas e as soluções para ultrapassar este recorrente “ai Jesus” que nos sacode em cada Verão.

06
Ago16

Diário político 211

d’Oliveira

Trapalhões, imprudentes e a tomarem-nos por parvos

 

A triste historieta dos Secretários de Estado que foram ver a bola à custa da Galp obriga-nos antes de tudo a questionar o bom senso das criaturas e, mais do que isso, a inteligência das mesmas. A justificação apresentada por Rocha de Andrade peca pela arrogância (foi tudo dentro da normalidade e da adequação social) e pela impudência (vou já pagar tudo) dando a perceber que não entendeu ainda que as sus duas declarações são contraditórias. Pior: esqueceu-se de comentar, como devia e podia, que fora demasiado ingénuo (na melhor das hipóteses) ou insensatamente cúpido ao aceitar uma prenda tão choruda de uma empresa com quem o Estado, através do Ministério onde está integrado tem um longo e caríssimo conflito.

Pior do que ele, só mesmo o senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros ao vir admitir que o Governo vai criar um “Código de Conduta” para desincentivar a prática de gestos do mesmo género. O senhor Ministro parece desconhecer a lei que já tutela amplamente situações deste teor. A menos que seja amante de pleonasmos políticos e éticos (sobretudo estes)...

Os restantes comparsas, mais dois Secretários de Estado, tiveram o cuidado de não serem tão falazões como Andrade mesmo se, igualmente, tenham caído na esparrela de garantir que vão pagar as despesas com desveladamente a Galp os mimou.

Imaginemos, por um breve momento, que X, funcionário público se lembrava de ir ver os jogos. Teria no mínimo que “meter” um ou dois dias de férias para ir e vir. Os senhores Secretários, ao que se sabe, foram estiveram e vieram sem que alguém lhes apontasse a faltinha ao trabalho ou que eles imputassem às merecidas férias o(s) dia(s) franceses.

Há neste jardim à beira mar plantado, uma falta de pudor que só não espanta o aborígene lusitano por há muito estar este habituado ao forrobodó dos importantes. Em se apanhando num posto público de responsabilidade, esquecem-se que o público os pode escrutinar.

Rocha Andrade teve há dias uma confusa missão: fazer passar as novas regras das “vistas” para carregar o IMI como coisa boa e sensata. Esqueceu-se o cavalheiro que qualquer regra sobretudo em matéria de impostos tem de escapar inteiramente à arbitrariedade de quem a impõe, ou seja tem de obedecer a critérios claros e indiscutíveis.

Vejamos este (meu) caso. Vivo numa excelente zona (Porto, “Foco”) que na altura em que se construiu tinha por vizinhança um conjunto grande de fábricas em plena laboração e uma auto-estrada com um movimento já evidente (agora é pletórico). As fábricas desapareceram e deram lugar a prédios para classe média a tender para alta. Nos terrenos disponíveis que havia construíram-se duas escolas. Mesmo assim, do meu andar avista-se o mar, há um jardim bastante razoável no meio dos prédios e espera-se que nos terrenos aedificandi remanescentes nasçam zonas de lazer e serviços que aumentarão positivamente a qualidade do edificado. Quem adquirir doravante algum dos excelentes andares que continuamente aparecem para venda (a 1ª geração de moradores foi envelhecendo, morrendo ou depois dos filhos criados, achou os apartamentos demasiado grandes para um casal solitário) irá pagar que IMI? Porquê?

A displicência (e de novo a arrogância) com que Andrade respondeu a estas questões dizem muito, quase tudo, do modo como encara as suas funções. Ele tem razão porque sim. Porque pode, quer e manda. O resto é a paisanagem a quem, de quatro em quatro anos, se permite votar (mesmo se o seu voto nem sempre se traduza numa clara preferência pelo Partido que alcandorou este Secretário de Estado ao mister que exerce.

O Governo pela voz de Santos Silva acha que pode pôr uma pedra no assunto. (“Dissipar” foi o verbo que Sª Exª usou para falar do problema. Conviria ao senhor Ministro ir ver todos os significados da palavra para perceber que nem sempre dissipar ou dissipado são termos que indiquem limpeza... )

Para o Ministro este “deslize” está resolvido com um tardio cheque que, se paga alguma despesa feita pela Galp, não paga o desgaste nem a desconfiança dos portugueses em quem os governa.

Mesmo que a PGR não conclua pela existência de “recebimento indevido de vantagem” fica sempre a leviandade e a inexistência de um pedido de desculpas público. É quanto basta para (como antigamente) se aconselhar estes senhores governantes (nem que seja para “português ver”) a porem os seus lugares à disposição. Ou voltarem à actividade privada, quem sabe ao serviço da Galp ou outra amável empresa do mesmo género.

Mesmo que o façam com a notória irrevogabilidade que Portas usou.

02
Ago16

diário político 210

d’Oliveira

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A vitória (in)esperada

 

Parece que Portugal, ou boa parte dele se transformou no arcanjo Miguel e matou o dragão. Ou seja a Europa. Ou a comissão, ou o Ecofin. Ou os invejosos do Norte que não tem sol (mas tem dinheiro).

A não aplicação de sanções que criou uma patriótica cruzada chefiada à vez por Marcelo e Costa foi insistentemente referida como uma vitória da justiça por todos e até pela dr.ª Ferreira Leite.

Lamento estar, como de costume (arre que vício tão feio!), a contracorrente. Não houve nenhuma vitória nacional apesar das cartas, dos telegramas, dos telefonemas do senhor Presidente e do senhor Primeiro Ministro. Ou do senhor Passos Coelho, o principal interessado em passar través das malhas duras dos Tratados europeus. Afinal era o Governo dele que precisava de ser ilibado...

O novo milagre das rosas europeu chama-se tão só Espanha. Espanha, o nosso parceiro peninsular e, igualmente, o nossos parceiro alvo das hipotéticas sanções.

Estivesse a Espanha fora do deficit excessivo alguém acredita que não comíamos pela medida grande? Mas a Espanha e a sua economia, uma das cinco mais poderosas da Europa, estava atravessada no caminho vingador dos que ainda acham que os tratados devem ser cumpridos (pacta sunt servanda) custe o que custar. Portugal, para um holandês ou um finlandês, é coisa pouca mas com a Espanha a coisa fia mais fino.

Aliás, o senhor Rajov, logo que ouviu a sirene europeia, pôs as barbas de molho e anunciou medidas de redução de despesa que valiam 6.000 milhões de euros. Por cá o Governo fez ouvidos de mercador e persistiu na patriótica ideia de que os tratados eram meros papéis (onde é que eu já ouvi isto?) e que seria uma injustiça punir o já longo e habitual desregramento financeiro. Curiosamente, mesmo sem querer, o Governo actual desculpava implicitamente o anterior Executivo quanto ao deslize do deficit.

Claro que nesta maratona de falsas generosidades financeiras e verdadeiros mergulhos na realpolitik algo ficou destruído: a Europa ou a União Europeia tal como a conhecíamos que começa cada vez mais como uma união a la carte. Este presente ao “nobre povo, nação valente”, é um presente de grego. Hoje perdoam-nos uma multa, amanhã exigirão uma capitis diminutio politicamente mais onerosa. Ou diminuirão verbas com destino ao Portugal.

Vamos pagar a nossa incerta aventura deficitária com língua de palmo. Quando e como é coisa que não se pode antecipar.

d'Oliveira fecit 2-8-16

 

14
Jul16

Estes dias que passam especial

d’Oliveira

Alto e pára o baile!

 

Os escassos leitores que ainda me aturam sabem que respeito escrupulosamente o direito (deles) de comentarem os meus textos.

Tento com isso, manter tanto quanto possível um diálogo que vá um pouco mais além do que ocorre com outras plataformas onde, para entrar numa "conversa", é preciso obedecer a várias condições.

Aqui é simples: opino sobre o que quero ou me cai à mão e, se alguém estiver para aí virado, comenta e inicia-se, eventualmente, um diálogo civilizado. 

Ocorre, porém, que, de longe em longe, um aprendiz de comentador, entende vir falar de bugalhos quando eu me fiquei pelos alhos. Ou seja, não bate a letra com a careta.

Isso ocorreu num post da série "Estes dias que passam" onde a propósito de um bom poeta e velho amigo que muita falta faz, eu tratava entre, outras coisas, de uma grosseira manipulação da história cometida por um cavalheiro que tem tabuleta e lugar fixo num jornal de referência e azucrina os leitores com umas crónicas onde se mistura muita parra, muita interpretação e pouco facto histórico correcto. 

Um leitor SILVA lembrou-se de vir falar num casino, num despedimento colectivo e em juizes segundo ele corruptos. Nada a ver, nadinha, com o meu pobre texto. Ando um pouco preguiçoso, metido noutras cavalarias e passo dias sem vir ao blog. Quando dei pela nota "Tem um comentário para aprovar" fiquei envergonhado com o meu desleixo e, entre dois goles do primeiro café da manhã, despachei logo a autorização para publicação. Depois iria ver se valia pa pena reponder.

Depois..., depois esqueci-me e publiquei três ou quatro textos sem nunca mais me lembrar do comentário. Um dos meus diligentes companheiros de viagem incursional, lembrou-me hoje do comentário que nada comentava.  

Obviamente, esse comentário merece ser apagado e sê-lo-á se eu conseguir perceber como é que a coisa se faz. Entretanto, aqui venho, de corda ao pescoço, muito cheio de mea culpa, mea maxima culpa, pelo meu deslize. 

E prometo vir a ter mais atenção. 

13
Jul16

Governo questiona sanções

José Carlos Pereira

António Costa segue a via certa ao não se acomodar e ao contestar as sanções da UE, quaisquer que elas sejam. Recorde-se que a aplicação de sanções é inédita, apesar de a regra europeia de um défice abaixo dos 3% do PIB já ter sido violada em 114 ocasiões (a França ultrapassou o limiar dos 3% por 11 vezes, seguindo-se Grécia, Portugal e Polónia, todos por 10 vezes, Reino Unido, com nove infracções, Itália com oito, Hungria com sete, Irlanda e Alemanha, em cinco ocasiões cada).

É caso para questionar: porquê sanções só agora?!

12
Jul16

Au bonheur des dames 416

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“Ai Portugal se fosses só três sílabas...”

 

Imagino que muitos dos meus leitores (se porventura ainda os tenho) se zangarão comigo. De facto, não comungo da alegria a rodos que campeia por aí. Não que esteja triste, furioso ou que desejasse outro campeão para a Europa. Simplesmente, entendo que houve outras ocasiões em que o nosso futebol e os nosso talento mereceriam mais do que hoje o lugar de campeão.

Todavia, o futebol é assim mesmo: nau incerta em mar proceloso. Desta feita, coube a Fernando Santos e à sua equipa a sorte que outras vezes foi esquiva. A carreira neste campeonato não foi exactamente brilhante: 3º lugar na primeira parte, nenhum jogo ganho nos 90 minutos regulamentares, mais sorte nos penáltis, adversários pouco perigosos, pese embora a surpresa islandesa.

De todo o modo, ganharam. E ganharam porque Santos foi corajoso, porque a equipa soube ser humilde, porque a defesa foi mais italiana do que os italianos. E porque houve uma mobilização extraordinária da emigração em França que deu uma lição de civismo (veja-se o caso do menino Matisse –belo e luminoso nome!- a consolar o choroso adepto francês e adulto –que soube corresponder com emoção e dignidade à palavra de uma criança de dez anos-), de amor ao país padrasto e longínquo e às terras pequenas e dispersas de onde os emigrantes ou os seus pais vieram fugidos da miséria e da falta de trabalho.

O resto, o Senhor Presidente, o Senhor 1º Ministro e os outros figurões, foi só folclore e populismo. O resto, televisões, rádio e jornais, foi lastimavelmente frouxo, reles, palavroso e patrioteiro. Como de costume.

Se os leitores, que até aqui chegaram, me permitem, direi que me entusiasmaram Rui Patrício, Pepe, Nani, Quaresma ou até Éder que resolveu tudo com um golaço que merecia mais repetições de visão televisiva. Sei que estou a ser injusto, que devia falar de outros, Renato Sanches ou os luso franceses que optaram por este pequeno país quando, provavelmente teriam lugar na selecção francesa que, de facto, teve pouca sorte. Mas o futebol, mesmo o feio, é isto: quantas vezes me irritaram os italianos e o catenaccio!

Entretanto, tudo isto está passado e a realidade, a desagradável realidade já volta a bater-nos à porta.

Só mais um ponto: nada tenho contra as medalhas mesmo se são atribuídas por quem ainda ontem afirmava que isto era um país demasiado medalhado. Mas o Senhor Presidente é o que é e não há uma eventual momento de populismo que não aproveite mesmo quando parece mais justificado o comendador jogador de futebol do que qualquer ex-primeiro ministro sem qualidades.

Por tudo o que vem de ser dito, atrevo-me a afirmar que o título do “Público” (“hoje temos mais razões para acreditar em Portugal”) é uma tolice, uma bazófia e um erro crasso. Não temos mais nem menos razões: o futebol é apenas ligeiramente menos seguro do que a roleta.

 

E passemos ao segundo acto deste comédia: o senhor Durão Barroso. Confesso que a criatura sempre me foi antipática desde os seus prodigiosos momentos MRPP, onde assumiu o papel de trauliteiro até à sua súbita conversão às virtudes do parlamentarismo, via PPD sob a intermediação de Santana Lopes. Barroso vestiu então a opa de sacristão mor que exercia de Ministro dos Negócios Estrangeiros e de proto-candidato à gloria primo-ministerial.

Quando o cavalheiro chegou a S. Bento, alguém o avisou sibilinamente, recitando “sigamos o cherne”. Poucos entenderam, porque poucos sabiam como o poema acabava:

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,


Já morto, boiar ao lume de água,


Nos olhos rasos de água,


Quando mentido o cherne a vida inteira,


Não somos mais que solidão e mágoa…

Barroso não era um cherne mas tão só a imagem dele, já morto. O acaso (se a tonta decisão de demissão de Guterres não foi mais do que isso) que o levou ao poder onde só produziu uma declaração útil mas não escutada (“o país está de tanga”) e a sua subsequente ida para a Comissão Europeia (onde só chegou porquanto os “grandes” o achavam incolor, insípido e inodoro como a água destilada) foram passos de uma biografia perdida há muito.

Que agora, a exemplo de tantos outros,   nacionais e estrangeiros, vá para um cadeirão onde pouco ou nada fará, já não acrescenta seja o que for ao que ele pensa que foi. Barroso, pese a sua publicitada inteligência e cultura, é apenas mais um portuguesinho espertalhaço, uma sardinha que se toma por um tubarão, um ambicioso que, como no poema, um dia destes dará à costa, picado pelas gaivotas e mais morto do que a sua reputação.

O terceiro passo está todo na notícia da restituição dos filhos a Liliana Melo, a senhora negra, emigrante e cabo-verdiana que,  há quatro anos ,viu um imenso aparato policial levar-lhe de casa as crianças. A Segurança Social e o Tribunal saem muito mal na fotografia, felizmente corrigida ao fim de quase 1500 dias por um acórdão do STJ. Relembre-se, sempre segundo o jornal, que boa parte das acusações contra Liliana não tinham fundamento (falta de emprego, higiene das crianças ou padeciam de insanável infâmia como era o caso de (à velha moda higienista e fascista) lhe exigirem a laqueação das trompas!

Isto sim, esta tardia sentença do tribunal superior é que é uma razão ponderosa para se acreditar mais em Portugal. Pena é que demorasse tanto tempo. E, já agora, mbravo e muito obrigado às advogadas que ao longo de todo este tempo, representaram “pro bono” uma mulher só, infamada, negra e humilde. Às vezes sabe bem ter concidadãos e concidadãs como estas Senhoras mesmo que ninguém as torne comendadoras ou sequer saiba da existência delas.

* O título e a citação pertencem a um grande, enorme, poeta português: Alexandre O’Neil