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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

10
Mar17

o leitor (im)penitente 199

mcr

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 5

História breve de como tudo começou

 

Desta feita falar-se-á de uma obra ao alcance de todos. Ou melhor dizendo, atentos os tempos que correm, ao alcance de quem leia francês. E ponho esta ressalva porquanto verifico que, actualmente, o francês está em forte declínio entre nós. Razões há muitas mas a principal é sem dúvida a facilidade do inglês que, via música, se tornou para os de menos de quarenta ou cinquenta anos, uma língua franca.

De todo o modo, vou falar de uma obra mais ou menos feita em três partes (mesmo se cada uma delas é independente) que genericamente se chama “les aventuriers de l’art moderne”. Em grosso, trata da história da cultura europeia desde 1900 até 1949 e, neste campo, incide quase só na revolução cultural operada a partir da eclosão da arte moderna em Paris – e sobretudo das artes plásticas- entre Montmartre e Montparnasse. Em pano de fundo, a aventura surrealista, o dadaísmo, o cubismo, o futurismo. Num primeiro volume assiste-se ao absoluto milagre da concentração em Paris, ainda antes da primeira guerra mundial, de artistas vindos de todo o lado, sem eira nem beira, animados tão só pelo desejo de liberdade, pela ideia de que algo de novo estava na forja, e que rompem com todas as regras estabelecidas, com o salon, e proclamam o fim do século XIX que politicamente só ocorrerá bem mais tarde com a guerra. Local, Paris. Pintores e escritores em encontros e desencontros lançam as bases do modernismo, do futurismo, do surrealismo, da abstracção, do cubismo, quase ao mesmo tempo, num cenário dominado por Picasso, Matisse, Bracque, Gris, Chagal, Modigliani a que se juntam Appolinaire, Breton, Tzara, Aragon ou Éluard, Duchamp, Man Ray, Fujita, Hemingway e toda a lost generation, mais a madrinha deles (a monstruosa Gertrude Stein), duas livreiras de excepção   Adrienne Monier e Silvia Beach, alguns galeristas (depois grandes) e a imperecível “nouvelle revue française, mãe das edições Gallimard.

Disse Paris mas não posso excluir outros grandes centros (Berlin ou Munique, terra de promissão dos expressionistas) Turim, Milão e Roma ou Londres e, sobretudo Nova York que alimentou e se alimentou da transumância transatlântica de artistas e escritores americanos e europeus. É porém Paris que se assume como o centro da verdadeira “grande revolução cultural”, mesmo se este nome depois fosse traduzido num calão sórdido e venenoso por obra de um tormentoso vento de leste para citar um vago verso do “grande timoneiro”.

É em Paris que se desenrola uma aventura contada em três volumes por Dan Frank, autor dos “aventuriers...” (1. Le temps des bohemiens; 2, Libertad; 3 Minuit). Não conhecia o escritor e só por mero acaso vi um longo documentário (suponho que em 3 ou 4 episódios) sob o título acima enunciado. Terá sido na RTP2 ou, mais provavelmente, num dos canais generalistas franceses que ainda cá chegam (ARTE? TV5?). De todo o modo, trata-se de um pequeno milagre televisivo: linguagem simples, explicações claras, história q.b., um par de anedotas suculentas tudo conduzido por um fio narrativo preciso e eficaz.

Entusiasmei-me, claro e fui pelos meus dedos: internet, amazon fr., e dei com o filme e com os livros. Ainda por cima havia (há) uma edição de poche de todos os volumes o que significa uma boa economia. Naquelas mil e tantas páginas perpassam as noites loucas de Montparnasse (e as suas deusas: Kiki, Youqui, Peggy Gugenheim, Elsa Triolet, Gala Dali, Nush Éluard, a horrenda Gertrud Stein ou Clara Malraux. ) Assistimos à trágica história de amor de Modigliani e Jeanne Hébuterne, ao imparável crescimento de Picasso, à aventura surrealista bem como ao percurso extraordinário de Gide ou Malraux, gente que deu sentido e honra ao “engagement” político. Da grande Guerra onde se ilustram alguns estrangeiros que pegam em armas pela França que os acolhera (Apollinaire ou Cendrars) à guerra de Espanha palco de loucas mas heroicas aventuras de Malraux, até aos dias sombrios da Ocupação e à Resistência de poucos, ao silêncio de muitos e à escabrosa traição de artistas, actores, cantores e escritores que não hesitaram em aproveitar os convites de Berlin e as facilidades garantidas pelos ocupantes.

Vale bem a pena ler (coisa que, como diz o Manel Sousa Pereira a quem ofereci um volume, se lê sem conseguir parar) esta bela obra que não ficará nos anais da grande literatura mas que, sobretudo nos tempos de ignorância que correm, a ilumina, explica, divulga e glorifica.

Leitores, deem-lhe com força: à barca, à barca que temos gentil maré...

 

* na gravura Raparigas na paisagem de Jules Pascin (o Príncipe de Montparnasse) nascido Julius Mordecai Pincas, Bulgaria 1885 e morto (suicídio) em Paris 1930. Era conhecido, admirado e amado por toda a gente a tal ponto que, no dia do seu enterro, todas as galerias de arte de arte fecharam as suas portas. Sobre ele, Hemingway escreveu belas páginas ( in Paris era uma festa).

 

09
Mar17

O leitor (im)penitente 198

mcr

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 4

 

O preço segundo a cara do freguês

 

Os atlas geográficos ocupam um lugar apreciado na lista dos livros em venda por alfarrabistas, nacionais ou estrangeiros. E os preços, ah, os preços!!!, são mais voláteis do que os gazes preciosos e raros.

De certo modo esta situação é compreensível. Os grandes atlas, os famosos, os nascidos com os séculos XVI e XVII são hoje mais do que raros, são raríssimos e os que existem, salvo pequenas excepções estão aferrolhados a sete chaves nas grandes bibliotecas ou em algumas universidade. Ao interessado (e eu sou apenas um interessado e não um bibliófilo) resta geralmente o recurso a algumas excelentes edições facsimiladas que, por um lado reproduzem exactamente o atlas desejado, por outro têm a vantagem de geralmente ser de preço acessível.

(este adjectivo acessível deverá ser entendido cum granu salis. No mundo dos livros a palavra estica-se bastante...)

Desde pequeno que a Geografia (com a História e com a História Natural) me fascinou. Nos anos de rebeldia liceal fui sempre bom aluno nessas cadeiras que despertavam a minha insaciável curiosidade a tal ponto que logo em Outubro já tinha lido, relido e voltado a ler os manuais. A paixão continuou vida fora e agora, adiantado em anos, continuo a apreciar tudo o que diga respeito a estes três grandes domínios.

Todavia, hoje, vou ser impertinente com a honrada classe dos alfarrabistas que, quando apanham um livro com ilustrações de qualidade ou com mapas entram numa espécie de festiva dança de S Vito e pensam ter ganho o céu ou, pelo menos, o totoloto.

Para tal bastam três historietas.

A primeira tem como personagem um atlas vulgar mas interessante, de 1903, que se editou em dois volumes sob o título “Atlas Ibero Americano de Geografia”. Para o efeito interessa-nos o volume dedicado a Portugal e Colónias. Estado razoável, pequenas escoriações na capa a pedir intervenção de encadernador, nada de muito grave mas longe de se poder considerar um exemplar claramente bom.   Dezoito mapas dupla folha (encarcelada: isto é a folha inteira assenta sobre uma outra muito estreita cozida ao volume. Deste modo o mapa lê-se na sua totalidade sem partes escondidas no miolo), mais 457 páginas de texto e ainda a cópia em 26 novas páginas do Censo de 1900 por freguesias. Para um abelhudo como eu esta é a parte mais interessante pelo que descreve de um Portugal de há mais de cem anos.

Vi o atlas em questão num alfarrabista que frequento sem grande periodicidade e perguntei o preço. “Quinhentos euros mas a si faço 350! E olhe que traz um mapa final em tela que eu poderia vender por cem euros

Eu, que já tenho o dito cujo mais pelado do que um macaco, quando vejo tais ofertas desconfio. Respondi que o preço era ainda assim excessivo e retirei em boa ordem. Semanas depois, nova visita e insistência do vendedor. Que se eu quisesse substituía o mapa em tela por uma boa fotocópia – e agora há-as excelentes- e retirava mais umas dezenas de euros ao preço. “Já te estou a ver o sim senhor”, pensei com os meus botões e voltei a dizer que a coisa requeria mais e ulterior estudo.

Entretanto, uma epifania súbita fez-me ir dar uma volta pela Internet. Em três penadas dei com o mesmo exemplar publicitado como em “estado muito bom”, enriquecido por uma folha extra que dava conta de uma menção honrosa atribuída pela Sociedade de Geografia de Lisboa e oferecido (já com portes ultra-rápidos para Portugal) por um total de 128 euros. Dois dias depois aterrava triunfante cá em casa o Atlas que, de facto parecia saído do armazém do editor.

A segunda história tem a ver com uma versão primorosa do famoso Atlas de Abraham Ortelius, o primeiro atlas na moderna acepção do termo (o termo atlas pertencerá a Mercator mas é a Ortelius que se deve a primeira versão). Trata-se do Theatrum Orbis Terrarum, nado nos finais do sec. XVI. Ortelius contratou umas dezenas de cartógrafos, impôs-lhes as medidas – todas iguais- (1ª vez!) e publicou o belíssimo volume ilustrado e a cores. Em 1954 uma editora suíça (Sequoia) editou um sumptuoso fac-simile que teve cópia autorizada americana pela American Elseviere Pub. Comp, anos depois.

A excelente livraria Nova Eclética pela mão de um dos rebentos Gonçalves pôs um exemplar em leilão por um preço que até eu considerei baixo. Licitei pelo dobro mas não tive sorte. Alguém possuído pelas Fúrias ou outras criaturas de igual talante, atirou-se ao leilão e numa absurda corrida contra outro provável inconsciente acabou por adquirir o livro por pouco mais de seiscentos euros o que representava três vezes a minha oferta.

Desolado, recorri à Internet e, mais uma vez, um livreiro americano de Long Beach oferecia o meu actual exemplar em perfeitas condições por cerca de 180 euros transportes incluídos. A gloriosa alfandega de Lisboa ainda achou que sobre este preço total e não sobre o preço do livro (€127) havia de cobrar umas alcavalas que ultrapassaram ligeiramente a barreira dos 200 € que eu oferecera no leilão.

Curiosamente, na habitual feira dos alfarrabistas (sábados, Rª Anchieta) acabei por conhecer o comprador que vencera o leilão. Quando eu lhe disse, a pedido dele, que comprara o meu exemplar pelos duzentos e poucos euros, teve o descaramento de dizer que fora isso o que lhe custara o dele!... os ouvintes, todos alfarrabistas que conheciam a história, riam dissimuladamente para o lado.

Terceira e última: Há um “Atlas encyclopedique contenant la geographie ancienne et quelques cartes geographiques sur le moyen age, la geographie moderne et les cartes reltives a la geographie physique para M Bonne, Ingénieur Hydrographe de la Marine et para M. Desmarest de l’Academie des Sciences pour les cartes de geographie physique”, publicado em Paris, Hotel de Thou, rue des Poitevins em 1788” que não tendo a importância dos dois já citados é uma excelente peça e, no caso, a raríssima 1ª edição.

Vi-o, cobicei-o mas perante o preço (preço bem gordo, gordíssimo, a gordura em pessoa) entendi explicar ao livreiro, pessoa aliás amável e educada, que aquilo estava muito acima do que eu poderia pensar oferecer. O senhor afirmou-me que podia esperar por melhor reflexão mas eu afirmei-lhe que não perdesse a venda caso aparecesse quem estivesse disposto a abrir os cordões à bolsa. Pouco mais de uma semana depois, recebo um telefonema com uma redução de 30% do preço. Voltei a agradecer mas reiterei que ainda era muita areia para a minha camioneta. Mais uma semana e a coisa já ia nos 50%. Lá apareci e, à Lagardere, dei a minha estocada final: ofereci 40% do preço primeiramente pedido. Foi aceite! Ainda hoje me pergunto o que sucederia se tivesse oferecido, por exemplo, 30%... De todo o modo, fiz uma compra por um preço mais ou menos idêntico ao do único exemplar encontrado na Internet que, aliás era, apenas, um preço indicativo de início de leilão on line.

Estas três historietas servem tão só para demonstrar que nem sempre os preços que correm em alfarrabistas merecem crédito. De quando em quando é necessário “marralhar” como quando se vai por um quarteirão de sardinhas à peixeira da esquina.

Aliás, os livros por muita nobreza que se lhes atribua também estão sujeitos às leis do mercado e a famosa regra do preço fixo não funciona de todo em todo. Os grandes grupos (FNAC, Bertrand ou Wook) torpedeiam o preço oferecendo no mínimo um desconto de 10%. No caso da Wook ainda há a oferta dos portes de correio e por vezes mais uns truques.

 

*na gravura: frontespício do Atlas de Mercator

 

 

09
Mar17

Estes dias que passam 346

mcr

Adenda ao post das ratazanas

 

Afinal os estudantes reunidos em Assembleia Geral (ou RGA) que protestaram contra a conferência de nogueira Pinto eram 24! Vinte e quatro criaturas descerebradas que se creem portaoras da verdade revolucionária dos novos tempos. Se aquilo é uma assembleia digna de crédito eu sou um usbeque. 

Pior do que as duas dúzias de criancinhas tresmalhadas é o papel do director da faculdade uma criatura de nome Francisco Caramelo. Conhecem-no? Eu também não. Felizmente!...

Eu não sei para que serve um Director destes numa faculdade dita de Ciências Sociais e Humanas. Algo aqui está a mais, seja a Faculdade, seja a Ciência seja o Social seja o Humano. Ou então é só o presumido "director" a quem um jornalista hoje acusava de cobardia intelectual (O intelectual está a mais: aquilo é apenas cobardia pura e chã).

O Reitor da Universdiade lá tentou emendar a coisa afirmando que a conferência não fora cancelada mas apenas "adiada para momento mais oportuno" depois de um "debate alargado".Isto vindo de um Reitor apenas prova que o analfabetismo dos estudantinhos já chegou ao mais alto escalão da instituição.  

Primeiro um cancelamento não é um aiamento

Segundo, se para uma mera conferência é preciso uma data oportuna (por exemplo 30 de Fevereiro de 2045) e um debate alargado então porue chamar conferência a uma coisa que ira pelo menos ter a espessura azeda de um "seminário", quiçá de um "congresso"?

O dr Rendas, inestimável Reitor da Nova poderia ter dito. Desculpem lá qualquer coisinha. O que aconteceu foi uma burrice de 24 tolinhos e uma parvoejada de um director. Eu, enquanto Reitor, entendo que a conferência se deve fazer, e já para cortar pela raíz qualquer comentário malicioso (p.ex de um certo mcr que nos odeia). 

A posição do dr Rendas, mesmo se mais burilada do que a do Director, sofre da mesma absurda e vergonhosa doença: medo, pavor, obediência ao vozear de duas dúzias de rapazolas que mostram à saciedade não saber nada e muito menos ter a noçaõ de que "compactuar" (palavra muito em voga entre ignorantes e pretensiosos e usada na proposta da assembleia geral) substitui mal o portuguesíssimo verbo pactuar. Mas isso é gramática disciplina que provavelmente não tem curso naquela faculdade dita de ciencias sociais e humanas.

 

08
Mar17

estes dias que passam 345

mcr

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Os aprendizes de ratazana e a necessária digna resposta

(ponto prévio:não conheço e não gosto do sr. dr. Jaime Nogueira Pinto que, nos meus longínquos tempos de estudante, representava a Direita radical na Universidade. Ficou-me desse tempo uma antipatia visceral pela personagem mesmo se admita que os tempos mudam muito quando não mudam tudo. Em teoria, estou disposto até a acreditar que JNP seja actualmente um pacífico conservador pronto a aceitar a Democracia em todos os seus aspectos).

A questão: parece que o dr Nogueira Pinto ia proferir uma conferencia na Universidade Nova sobre Democracia e Populismo. E que a dita conferencia seria apadrinhada por uma organização chamada “Nova Portugalidade”.

Pelos vistos, a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas entende que a desconhecidíssima Nova portugalidade é “nacionalista e colonialista” pelo que a conferência de Nogueira Pinto mesmo se trata de questões absolutamente diferentes sê-lo-ia também!!!

Vai daí a AE avançou com um protesto que coenvolveria ameaças à boa ordem dos trabalhos. O diligente director da FCSH aproveitou a boleia para cancelar a alegadamente incómoda conferência receando eventualmente pela vida ou pela saúde do dr Nogueira Pinto ou de qualquer eventual espectador.

Nada de novo sob a roda do Sol. Por razões não muito diferentes (sempre a ordem pública) foram proibidas as Conferências do Casino patrocinadas pelos díscolos da Geração de Setenta (o melhor que Portugal teve no século XIX).

Um bando de rapazinhos patetas e provavelmente ignorantes faz um berreiro, grunhe um par de ameaças veladas e lá se vai o verniz democrático de uma Faculdade, dos seus dirigentes e dos seus estudantes que provavelmente desconheceriam o evento na sua esmagadora maioria.

Conheço, de raspão o senhor Coronel Vasco Lourenço e a Associação a que preside (A Associação 25 de Abril onde tenho comido uns magníficos cozidos à portuguesa, numa ambiente simpático e caloroso com amigos de sempre).

A Associação 25 de Abril é claramente – e com todo o direito – uma associação progressista, conotada com a Esquerda e que reúne boa parte dos chamados militares de Abril. Nada pois que permita associá-la a Jaime Nogueira Pinto, claramente um dos vencidos do 25A.

Todavia, nem o facto de JNP ser, eventualmente, um adversário político perturbou o claro pendor democrático e abrangente da Associação 25 de Abril que, ao saber do cancelamento canalha da conferência, imediatamente pôs os seus salões à disposição do conferencista. Chama-se a isto “espírito democrático”, nobreza democrática e amor à liberdade e à discussão livre.

A associação 25 de Abril não precisava de mais louros para se estabelecer como organismo digno e relevante na sociedade portuguesa. Porém, ao perceber ameaçada uma das liberdades que fizeram nascer o movimento que lhe deu corpo e razão de ser não hesitou em mostrar o caminho. O caminho da liberdade, da troca franca e leal de opiniões. Em breve, com os amigos do costume, lá irei para mais um almoço de cozido. Desta feita, entrarei mais contente, mais grato e mais consciente de que piso uma zona livre e digna.

 

*Ao senhor Coronel Vasco Lourenço (de quem por vezes discordo) à Direcção da A25A aos seus associados e frequentadores o abraço do cronista: o 25 A faz-se todos os dias mesmo que isso pese aos imbecis de alguma associação de estudantes e aos que com eles tergiversam, fogem, escondem-se ou calam.

07
Mar17

Estes dias que passam 344

mcr

Debaixo de fogo

 

Tenho tentado alhear-me (aqui, só aqui!) da discussão política em curso no jardim à beira mar plantado. 

Não nego que depois do sufoco anterior sabe bem respirar um pouco mais à vontade.

Sabe ou saberia?

A dúvida que se põe tem alguma base. Mudaram os nossos hábitos de indisciplina económica e financeira? Alguém já tentou saber a que se deve a euforia gastadora dos últimos tempos? Será que o aumento do consumo interno apenas abrangeu produtos nacionais ou, pelo contrário, como tudo aliás indica (cfr as compras de automóveis para não ir mais longe), tal se deve à comprar de produtos importados que fundamentalmente só enriquecem alguns importadores e os países exportadores? Será que o milagre do deficit se deve a uma sábia governação ou apenas e fundamentalmente ao PERES e aos maiores cortes de sempre no investimento público? Será que, para este ano, também vão existir economias do mesmo teor ou já as esgotámos? E se sim, qual vai ser o défice (sobretudo no caso de se voltar a um investimento público já não digo idêntico ao  do plano Centeno - quem ainda se lembra dele?- mas pelo menos semelhante? Os gastos das famílias aumentaram com a consequência de uma grave diminuição do aforro privado e -paralelamente -de um aumento da dívida privada. A dívida pública cresceu. O total dos impostos cobrados não cobre a despesa efectiva. Vão ser necessários mais empréstimos para pcobrir esse diferencial. A que juros? Os bancos parecem apostados em emprestar para despesas pouco ou nada produtivas. E se é verdade que alguns parecem apostados no equilíbrio provisório das suas contas ainda ninguém exclareceu como é que a Caixa, a nossa querida, pesada, vetusta, política Caixa se distraiu em 5,5 mil milhões. Isto para já que ainda há muita conta para se fazer. 

O senhor Presidente da República anda imparável no comentário político a pontos de se poder pensar que ele presidia mais ao país quando comentava aos domingos do que agora quando nada mais faz do que andar aos beijinhos, posar para selfies e transpirar felicidade, alegria e progresso na pátria amada. Ninguém pede uma criatura carrancuda no palácio presidencial mas conviria, de quando em vez, alguma contenção, algum bom senso, alguma cautela. Isto é dito sem saudades do anterior mas sem parvamente se pensar que o país precisa de um novo Candide sem a qualidade de Voltaire mas com o pretensiosismo de Cascais. 

Finalmente duas palavras sobre Carlos Costa e Teodora Cardoso. O primeiro, convém lembrar foi nomeado em tempos do senhor José Sócrates. Passos Coelho apenas o manteve. Esta pequena lembrança vai para o distraído senhor Louça, essa espécie de catecúmeno que faz de economista nas horas vagas e que até, quem acreditaria?, o levou a "conselheiro" do Banco de Portugal (tal se deverá claro à sua experiência!) 

A segunda, que ninguém se atreve a considerar de Direita ou sequer conservadora, está sob fogo real por ter explicado que os milagres (sejam os de Fátima nos quais piamente acredita Marcelo, o quarto pastorinho, sejam os da mera economia real) têm sempre uma razão clara e evidente como já aima se disse. 

Para Costa, as "forças do progresso" (boa piada!) pedem a defenestração (coisa que nunca fizeram ao anterior titular do cargo que não viu, ouviu ou pressetiu o BPN) enquanto que para Teodora advogam o fim o do Conselho de Finanças Públicas. 

Chama-se a isto varrer para debaixo do tapete ou, pior, enterrar a cabecinha sonhadora na areia. 

24
Fev17

O livro das quintas-feiras

José Carlos Pereira

O embaixador Seixas da Costa disse aqui o que eu diria sobre o último livro de Cavaco Silva, com a vantagem de o ter lido, coisa que me dispenso de fazer. Bastaram-me alguns resumos. É prosápia a mais, sobretudo quando refere, mais do que uma vez, e com a humildade que lhe é própria, que tem a certeza de que o exercício dos seus mandatos presidenciais fez melhor a Portugal do que se tivesse sido outro candidato a ganhar as eleições.

O livro servirá para uns ajustes de contas pessoais, mas não serve certamente para Cavaco Silva recuperar a sua imagem junto dos portugueses.

20
Fev17

Os SMS e o resto

José Carlos Pereira

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Já todos perceberam o que se passou na Caixa Geral de Depósitos (CGD) no processo que envolveu o Governo, empenhado em encontrar uma solução de capitalização que não fosse considerada ajuda de Estado, por causa do défice, e a anterior administração liderada por António Domingues. Mário Centeno procurou satisfazer as reivindicações do presidente escolhido e terá laborado em erro ao considerar que a alteração do Estatuto do Gestor Público seria suficiente para responder ao capricho dos administradores, que não queriam divulgar rendimentos e património. António Domingues e a sua equipa, por sua vez, queriam o impossível: gerir um banco público sem as limitações impostas por lei. Daí à nebulosa criada foi um instante.

A administração mudou entretanto e a questão da CGD não passa, por ora, de mera arma de arremesso político. Contudo, enquanto a generalidade dos meios de comunicação se centrou na questão da declaração de rendimentos e património, creio que o mais relevante das exigências colocadas por António Domingues estava para além disso. O ex-presidente pretendia que a CGD deixasse de estar adstrita ao cumprimento de orientações estratégicas do Governo, que os administradores ficassem desobrigados de cumprir orientações ou recomendações fixadas pelo Governo e que a sua autonomia não ficasse restringida em função dos resultados apresentados ou de avaliações negativas. A administração também deveria ter autonomia para decidir sobre aquisição ou alienação de participações sociais, constituição e extinção de empresas. As exigências contabilísticas e de nomeação de órgãos sociais deveriam ser as mesmas do sector privado. Ou seja, António Domingues e a sua equipa queriam gerir a CGD à margem de qualquer concertação com o Governo, como se se  tratasse de um banco privado. Mas sem responder aos accionistas...

O ministro das Finanças não andou bem no processo, foi permissivo em demasia face a tamanhas exigências, mas um experiente banqueiro como António Domingues deixou ainda mais a desejar. E já não falo na consultora que contratou quando ainda não estava na CGD, nas reuniões em que participou enquanto se mantinha em funções no BPI, no escritório de advogados que não se percebe quem pagou ou na escolha atrapalhada dos administradores chumbados pelo BCE. Continuasse António Domingues em funções e creio que seria um fartote de casos, uns atrás dos outros.

17
Fev17

o leitor (im)penitente 197

d’Oliveira

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 3

 

Passage d’un livre (cinquenta anos de desencontros)

O título desta crónica brinca com o verdadeiro título de um livro que, nas minhas mãos, tem tido uma(s) vida(s) singular(es). Refiro-me a “Passage de l’homme” de Marius Grout, prémio Goncourt de 1943.

E que vidas são essas que o trazem ao encontro de um par de leitoras mais distraídas que passam por este blog à falta de melhor ocupação?

Eu conto: nos primeiros anos de 60 (Ui! Há quanto tempo!...) o António Manso Pinheiro que viria a ser o grande editor da “Estampa” e eu próprio gastávamos as noites das férias em longos passeios por uma Figueira adormecida. E discutíamos tudo, o mundo, a poesia, nós, as raparigas por quem nos íamos apaixonando e claro, a nossa última e grande descoberta, o surrealismo. Não sei por que razão, entendi levar o António à casa da tia Néné e do tio Marcos (Viana), professor e forte conhecedor de literatura francesa. Nessa tarde, ao saber-nos interessados pelo surrealismo, o tio Marcos arregaçou as mangas e falou duas horas sobre o assunto. Nós espantados, esmagados, encolhidos por aquela torrente de entusiasmo, de saber, de gosto literário apurado e o Tio Marcos a cem à hora, tu cá tu lá com o Breton, o Desnos, o Eluard, o Aragon e sei lá com quem mais, uma multidão.

À saída, aturdidos, o António só me dizia: “porra, pá, porra. O gajo sabe tudo, leu tudo e nós a armar-nos em carapaus de corrida!!!”

E lá seguimos exaltados e entusiasmados jurando ir ler tudo o que o tio Marcos nos contara e propusera. Entre as obras de que falara, ressaltava uma afirmação original: que havia um cavalheiro de seu nome Marius Grout (e o tio soletrava G,R,O,U,T) que escrevera aquilo que ele, MV, considerava o “único grande romance surrealista” e que obtivera o prémio Goncourt. O livro em causa chamava-se “Passage de l’homme” e fora obviamente editado pela Gallimard.

O António e eu naqueles nossos buliçosos e inquietos vinte anos não tínhamos hipóteses de ir em busca do livro provavelmente desaparecido depois de vinte anos de edição.

Todavia, já nos finais de 68 um dia em Paris com o Jorge Delgado (meu então sogro e companheiro de deambulação pelas livrarias da margem esquerda) e eram tantas, tantas, que desaparecidas conto eu ainda agora mais de vinte, dei de caras com o abençoado “Passage...” O livreiro quando lhe apresentei a relíquia para pagamento disse-me que o livro tivera o “goncourt” ao que retorqui que já sabia, coisa que o espantou a ele, por eu ser um portuga e ao meu sogro que, mesmo sabendo da minha paixão, achou estranho tal conhecimento. Lá lhe falei do Tio Marcos que seria, afirmei, o primeiro leitor. Por razões que desconheço, o livro extraviou-se logo que cheguei à pátria madrasta.

Anos depois, talvez em 1973, fui a Paris visitar o eu irmão exilado e fugido à guerra. Numa livraria da rue Galande dei de novo com o livro, notoriamente em segunda ou terceira mão. Trouxe-o e, uma vez no Porto, contei a história daquela segunda descoberta a um amigo que me implorou que o deixasse ler logo ali. Deixar, deixei mas esse meu amigo era a criatura mais desordenada que conheci. Deixou o livro num canto da casa e a empregada ao encontrá-lo em cima de uma cadeira fez o que costumava. Meteu-o no primeiro buraco da estante mais próxima. Este meu grande amigo, morreu em 95 e ainda hoje a mulher vai encontrando livros meus de mistura com os dele e vai-mos trazendo. O azar é que este 2º Grout ainda nem assinado estava. Resultado: missing in action, desaparecido naquele vórtice livreiro do Pedro.

Quando me acostumei à internet, deu-me para, sem grandes esperanças, procurar novamente o livro. Já não seria possível empresta-lo ao tio Marcos, entretanto desaparecido mas havia ainda o António Manso Pinheiro presumível leitor interessado. Para minha surpresa depois de uma busca breve, apareceu um vendedor e o livro voltou à minha mão e foi convenientemente registado no ficheiro da minha biblioteca com o número 13422, o que o atira para os primeiros dias de Dezembro de 2000. Por qualquer razão, o livro foi para o lote dos “a ler” e lá permaneceu imerso tanto tempo  que daí transitou (?) para lugar incerto. Lugar de tal modo incerto que, hoje, quando fui por ele, não o encontrei. Procurei-o na estante dos livros franceses, numa outra de franceses mas em poche, nas estantes do surrealismo mas nada. Eu, prevenido que estou contra o meu anarquismo vitalista, sou extremamente cuidadoso com a livralhada. Se me perguntarem por um livro posso seguramente indicar a sala (são cinco) a parede e mesmo a estante onde o livrinho mora. Ainda por cima estão classificados por géneros e, no caso da ficção e da poesia, a organização ainda contempla a língua usada. Evidentemente, que é sempre possível meter um livro de uma secção noutra totalmente diversa mas isso é coisa que nunca me aconteceu. Portanto tudo aponta para que a “passage” IIIª tenha tido o destino das duas antecessoras. Ele há livros assim, irrequietos, sujeitos a bruxedos ou a milagres, ávidos de mundo e de aventura, descontentes com o seu possuidor, livros a quem dá doida e se emancipam sem saber que saindo de mãos seguras e amigas se arriscam a acabar os seus dias como papel para embrulhar peixe, como bem conta Lawrence Durrell em “as ilhas gregas”, livrinho que se deve ler a par e passo com “reflexões sobre uma vénus marinha” do mesmíssimo Durrell, um nobelisável esquecido (como Graham Greene, de resto).

Esta utilização estranha de u livro lembra uma outra história ocorrida com Sartre. Parece que, algum tempo depois de publicar a “Critica da razão dialética” ou “ o Ser e o Nada” começou a haver uma surpreendente forte procura do livro que até ali se vendia à razão de um dois por mês. Vai-se a ver e afinal o pesado tomo sartriano era comprado aos pares para perfazer um quilo exacto, pois faltavam pesos em todos os mercados e mercearias de França nesses tempos de post guerra e míngua.

Voltando à vaca fria: hoje mesmo fiz nova encomenda de “passage de l’homme” via amazon fr. Primeira edição, claro, mesmo se depois tive notícia que em 1999 se fizera uma nova edição do celebrado livro de Grout. Acho vou colar na primeira folha de guarda um anúncio: “dão-se alvíssaras a quem entregar este livro a mcr seu desastrado proprietário. Assunto sério.” E junto-lhe o telefone e o mail para mais facilidade.

 

Vai esta crónica para Manuel Abrunhosa, meu primo segundo, criaturinha mais curiosa do que um gato e neto mais novo do meu querido tio Marcos Viana. Às vezes ao ouvir este primo digo para mom próprio que ele tem a quem sair seja pela mãe, seja pelo pai, tudo gente - mais o tio Marcos e o Avô Manuel - que valeu a pena conhecer e que me é grato recordar com respeito, saudade e ternura. Saravah!

* na gravura Marius Grout

16
Fev17

Diário Político 211

d’Oliveira

Umade política outra de bom senso (variações)

Os leitores (e as leitoras) lembrar-se-ão de que nem sempre apreciei Francisco Assis. Todavia, igualmente recordarão, que sempre lhe celebrei a coragem (física e intelectual) e o facto de tentar perceber o mundo usando a sua cabeça.

Agora, está na moda atacá-lo por “mijar” fora da púcara da actual frente popularucha. Curiosamente, o que seria surpreendente era que ele, Assis, muito franciscanamente entendesse uivar com os lobos, mesmo se os considerasse irmãos. O que Assis vem dizendo nos jornais é exactamente o que ele disse há meses e há anos quando se dispôs a dirigir o PS.

Eu percebo, olá se percebo, que algumas medíocres e jovens luminárias do PS (a começar pela criatura que queria pôr os alemães a tremer perante o arreganhar de dentes do pobre e sacrificial cordeiro português) queiram fazer curriculum com ataques a um adversário supostamente minoritário. Isto de ser cães pisteiros do circunstancial chefe está no sangue, e na alma, de muitos. Sobretudo quando estes já nem sequer disfarçam a falta de ideologia e de convicções políticas profundas mostrando apenas a sua sede de poder e de poleiro.

Nem sequer me perturba, dali já nada me perturba, a súbita declaração de guerra do senhor Louçã, último abencerragem de Lev Bronstein, o carniceiro de Kronstadt, político irascível que tarde de mais percebeu que Stalin o amarrara de pés e mãos antes de o mandar assassinar ( que excesso!) numa perdida terra mexicana.

Louçã é consequente quando detecta em Assis o seu principal adversário dentro de um PS ideologicamente exangue e perigosamente manobrista. Louçã joga num outro tabuleiro em que a miopia pantanosa do PS permite o “entrismo” de elementos radicais que ponham, enfim, o BE (ele próprio ou um renovado) na órbita do poder. Qualquer leitor da história do(s) trotskismo(s) (e aí é exemplar o exemplo francês) sabe como isto se faz e em que isto descamba.

Todavia, vá lá saber-se por que bulas, Louçã aparece agora travestido de guru político, liberto de cadeias partidárias, uma espécie de senador (como se já não bastassem Marques Mendes, Freitas do Amaral, Ferreira Leite & similares que inundam mesas redondas onde peroram sobre a marcha dos negócios públicos)”independente” e fiável por isso mesmo.

“Est modus in rebus”: Louçã terá saído da direcção fáctica do BE, terá preferido deixar lugar a quem conseguisse ser mais flexível e, por isso mesmo, mais próximo da área do poder, mas nem por isso renegou da sua profunda crença na radicalidade trotskista por muito que esta nada mais seja do que o encanecido fantasma de uma revolução que se perdeu a si própria nos “hiers que jamais ont chanté” (se me permitem o trocadilho). O trotskismo é como a “causa monárquica” um suspiro bafiento do passado (como o “maoísmo”, aliás), uma seita de irredutíveis conservadores para quem o mundo ainda é o que se anunciava nos alvores dos anos 20/30 do século passado.

Dir-se-á que não estão sozinhos num mundo que vê Trump chegar ao poder, animado, ele também, de uma nostalgia de um passado em que a América era grande e isolacionista, branca, protestante e anglo-saxónica.

Não que eu compare o amarelado americano, velho mas desbocado, ao austero Louçã, politicamente correcto por fora e intransigente desde sempre por dentro. Um foi à luta, anunciou a cor e ganhou contra todos os prognósticos. Soube captar o “ar do tempo” e mobilizar os que, por fas ou por nefas, estavam excluídos do sonho americano ou, pelo menos, assim se sentiam. O outro dispara cartuxos de ideologia já rançosa sobre quem tenta perceber os novos tempos. Em ambos todavia, um desprezo absoluto sobre quem discorda deles. E uma radical condenação dos adversários às gemónias, claro.

Parece que quem ataca Assis ataca uma hipótese de líder em formação. Há mesmo os que o acusam de “ambição” como se para ser dirigente seja do que for não fosse necessária uma boa dose de ambição! Outros veem em Assis a sombra maldita do “renegado” Kautsky ou Bernstein (o terrível “revisionista”)pais do SPD alemão e, de certo modo, de toda a social democracia europeia. E, já agora, vencedores da dura luta que os opôs quer a Lenine quer à dupla Luxemburg-Liebknecht. Assis terá bebido muito nestas fontes que, aliás, são as mesmas do partido socialista português. Isto no caso de neste partido ter havido algum esforço ideológico para além da tralha de um “programa comum” grosseiramente (e mal) traduzido do francês. E, de certo modo, é isto, esta bagagem teórica, que incomoda os jovens turcos (e nunca uma imagem foi tão significante, hoje) do actual PS. Há nestes escorregadios políticos um desejo informe de “unidade a todo o custo”, redutora da diversidade que anima a democracia e, sobretudo a social democracia. Aliás, é bom ter “inimigos” (e não adversários...) Os inimigos, verdadeiros ou presumidos,permitem a formação em quadrado, a chamada às armas, a obediência incontestada ao chefe e o expurgo dos mal pensantes. Para um partido à deriva é sempre bom haver um alvo a abater.

15
Fev17

0 leitor (im)penitente 197

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 2

(para Nuno Canavez, intrépido livreiro da “Académica”

Os leitores impenitentes são de uma raça persistente, pacífica mas imparável. Perseguem os livros com afinco, paciência, paixão e a melhor imagem que me vem à cabeça seria aquela que mostra Camões a nadar no meio do mar com um braço fora de água segurando um punhado de folhas.

Tenho oficial e oficiosamente 60 anos redondos de comprador de livros. Usando o meu dinheiro, no caso nicial a parca mesada. Uma das primeiras livrarias onde entrei foi a “Académica”, no Porto, um alfarrabista que me ficava em caminho entre o Colégio e o Mundo (a 2ª etapa era a “Divulgação”, posteriormente “Leitura” onde deixei uma bela fortuna.)

Voltemos, porém à Académica que hoje é propriedade de Nuno Canavez. Em boa verdade, o Sr. Canavez já lá trabalhava quando eu passava pela livraria. Ali se fez o grande livreiro que hoje é, um homem que sabe tudo de livros e que não tem papas na língua. Graças ao seu saber e à sua generosidade, Mirandela dispõe de um acervo sobre a terra e sobre Trás-os-Montes sem igual em parte alguma. Canavez pesquisou, juntou, pagou e depois enviou para a terra natal mais de três mil volumes!

Todavia, não é disso que quero hoje falar mas, tão só de uma das melhores compras que alguma vez fiz na “Académica”.

Os leitores talvez desconheçam mas nos alfarrabistas há ainda o civilizado costume de entrar apenas para uma vista de olhos e, se possível, uma bela conversa sobre livros. Há sempre dois ou três contertúlios prontos a conversar sobre qualquer assunto, mormente livros.

Num dia, logo de manhã tive de ir ao centro da cidade e, despachando-me, cedo passei pela Académica. Depois de trocar duas palavras com o Sr. Canavez caíram-me os olhos em dois belos volumes, ricamente encadernados (encadernação de editor) folhas a ouro, estado impecável, edição in folio, 39x29, 1500 (mil e quinhentas!!!) gravuras, datada de 1852 se não erro. Uma beleza!

A medo, perguntei o preço. –“100 euros. Para o sr. dr. 90!” – “É para já”, respondi e saí a correr para o multibanco mais próximo para levantar o cacau.

Despedi-me, rapidamente e, ajoujado, ao peso dos dois grandes volumes, marchei para o meu quartel general das manhãs, ou seja esta esplanada de onde escrevo. E comecei a explorar a compra. Era ainda melhor do que me parecera.

Resolvi ir pesquisar o título à Internet “Tableau de Paris” de R Texier. Espantei-me ao ver os preços a que a edição corria nos mercados francês e italiano. De um mínimo de 450 até uns tremendos 900!

A manhã de sol levou-me a pensar que o livreiro, mesmo amigo, mesmo conhecedor, estaria equivocado. Aquilo, a noventinhas, era ao preço da uva mijona. Desassossegado voltei, dias depois, à livraria e prudentemente lá fui sussurrando que, se calhar, o livro fora demasiado barato, que talvez houvesse engano, enfim que talvez eu, comprador, estivesse a explorar o vendedor.

Canavez imperturbável replicou-me: Primeiro o livro era um calhamaço e já ninguém estava disposto a ter de arranjar sítio para o arrumar; depois o livro era em francês e, agora, toda a gente ignorava a bela língua e só jurava pelo inglês comercial; finalmente perguntava se os preços que eu vira eram de livros vendidos ou para venda. Tendo eu respondido que eram para venda, olhou-me triunfante e disse-me: “Viu? Ainda não os venderam pois não? Aposto que daqui a seis meses, um ano ou mais ainda por lá andam sem comprador.”.

Quatro anos depois tenho que lhe dar razão. Não garanto que seja nos mesmos exactos sites mas a verdade é que este maravilhoso “Tableau de Paris” continua à venda em vários livreiros d’além Pirenéus.

 

*não quero confundir algum leitor mais atento. De facto, existe um outro e mais famoso, “Tableau de Paris”, o de Mercier, obra notável que, porém, padece, na comparação, ao não ter uma única gravura.