O homem que caminha vai para onde?
Uma escultura de Giacometti, “o homem que caminha" foi vendida em leilão pela bonita soma de 103 milhões de dólares. A um anónimo, como vem sendo costume. Isto de aparecer à luz crua do dia para desembolsar mais de oitenta milhões de euros não está para os dias de hoje. A avidez do público, o voyeurismo que se cola ás celebridades e aos milionários nem sempre convém a estes últimos. É que alguém poderia achar escandaloso o preço da peça (previa-se no máximo vinte milhões de euros...) e sobretudo, o Estado, seja ele qual for, de que o comprador é cidadão, poderia começar a averiguar o estado (sem letra grande) das finanças do novo e feliz proprietário da peça.
Por outro lado, cidadãos há que, por razões nem sempre as mais límpidas, gostam de identificar os ricos. Ainda não há muito tempo a policia de uma importante cidade americana resolveu um par de roubos quando descobriu que os roubados tinham todos licitado em leilões e por preços que enterneceram os malfeitores. O curioso é que entre as vítimas dos roubos havia dois gangsters de certo gabarito e um fugitivo á justiça fiscal. O resto eram ricos comuns e imprudentes.
Convenhamos que os tempos que correm recebem estas notícias com esse misto de pasmo e de inveja que a ostentação de uma grande fortuna causa. Agora, os ricos, que temperam o orgulho com a prudência, tornam-se esquivos e imitam a contragosto os ricos antigos que achavam indecente (ou contraproducente) a exibição da fortuna. Os outros arriscam-se.
Numa visita ao Museu Metropolitano de Nova Iorque dei comigo a anotar mentalmente a lista dos mecenas daquele gigantesco estabelecimento. Alguns causaram-me uma profunda impressão. Havia bom gosto, coerência e inteligência nas colecções doadas. Outros, e o caso mais exemplar era uma senhora que deixara uma fortuna ao Museu para que houvesse sempre flores frescas nas zonas mais nobres, tinham legados extremamente curiosos. E depois, depois, havia uma série de “anónimos” doadores. Anónimos, pelo menos para os paisanos como eu, que, mais tarde, alguém me murmurou que o segredo daquele anonimato era meio segredo. Os anónimos escapavam à “plebe” mas nos “sítios que contam” os seus nomes eram conhecidos e a sua acção mecenática apreciada.
Todavia, entre o anónimo de hoje, o dos oitenta milhões de euros/cem milhões de dólares, e esses anónimos “virtuosos” vai alguma, bastante, distância. Num caso, a obra estará escondida dos olhos do público (no caso do público estar interessado em ver “o homem que caminha” pelo seu intrínseco valor artístico e não pelo preço ora alcançado) e no outro pode ver-se nos museus americanos um gigantesco espólio de arte que poderia servir de exemplo à Europa e às suas raquíticas leis sobre mecenato.
A última questão é saber se a obra do suíço Giacometti merece esta tão súbita alta de preço. A resposta não é fácil. Por um lado Giacometti é, desde há muito, um artista consagrado, reconhecido e “felizmente" morto. Ou seja: o número de obras dele não aumentará, a menos que algum genial falsário se ponha para aí a fazer giacomettis, o que parece demasiadamente hipotético. A raridade crescente de obras disponíveis no mercado torna mais apetecível o autor independentemente do seu “intrínseco” valor, da sua "cotação". Mas, mesmo assim: como é que se passa de uma previsão na ordem dos 20/25 milhões de euros para um valor triplo ou mesmo quádruplo? Será que num tempo de crise económica as obras de arte se assumem como valores refúgio?
Estará em curso alguma obscura operação especulativa cujos contornos não se percebem e que, a exemplo de uma situação semelhante há alguns anos, se esteja a tentar preços artificiais para Giacometti ?
Entre nós, aconteceu algo de parecido nos anos 80/90. Porventura, alguma leitora lembrar-se-á do súbito boom de galerias ocorrido nesses anos, da surpreendente quantidade de “vernissages”, da frenética busca de novos valores, no subida constante dos preços dos quadros que em poucos meses, de venda em venda atingiam o dobro, ás vezes o triplo do preço original. Artistas jovens vendiam-se com preços de consagrados, os consagrados indígenas atingiam preços parisienses. Certa vez, vindo de Paris, descobri que o meu parceiro de lugar no avião era um “marchand” que se fora abastecer de telas de um conhecido pintor radicado em França, e lá reconhecido. Todavia, as suas obras estavam a cotar-se cá com uma impressionante rapidez e o meu companheiro de viagem já as tinha “colocado”. Os fregueses tinham até adiantado sinais vultuosos, “Sem ver as peças?”, espantei-me. “Viram os preços”, respondeu-me.
Essa súbita e geral subida dos preços afastou do mercado centenas de pequenos coleccionadores, normalmente gente culta e interessada, que não poderia comprar no novo e artificial mercado. Porém, Portugal é uma pequena praça que não aguenta (e não aguentou...) esse género de espiral de preços da arte. As galerias sumiram-se, os grandes compradores cansaram-se e foram especular noutras mercadorias e os artistas apressadamente promovidos sofreram fortes perdas e viram diminuída, fortemente diminuída a sua “cotação”. O mal estava entretanto feito e nunca mais (ou pelo menos até agora) reapareceu parte da pequena multidão de amadores. Muitos dos “talentos” descobertos nesses tempos de vacas engordadas artificialmente, desapareceram. Pura e simplesmente não eram assim tão interessantes... Ou não tiveram tempo de o vir a ser...
De Giacometti, o magnífico à pequena tribo de ex-alunos das Belas Artes portuguesa vai um passo de gigante. Tudo os separa, até a época. Subsiste apenas um pequeno traço comum: não são imunes à cobiça e à especulação.