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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

09
Dez16

estes dias que passam 343

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O caimão desdentado

(se va el caiman , se va el caiman...)

 

A cantiga que vem em subtítulo fala de um homem que se transformou em caimão e vem a propósito de um revolucionário educado pelos jesuítas que, em poucos anos, se transformou em ditador e, durante muitos mais, agiu como tal.

Em 1960 éramos poucos os que exaltavam a figura tutelar (mas muito próxima de outras duas, já lá iremos) da nova Cuba. Cheguei a ir à embaixada de Cuba em Lisboa e durante algum tempo recebi (e lia interessadíssimo) algumas publicações de que só recordo a “bohemia” (cfr ilustração) e um par de revistas culturais razoavelmente vanguardistas e com grande diversidade cultural. Foi sol de pouca dura.

Cuba e Fidel, com Guevara e Camilo Cienfuegos, diziam muito aos meus dezoito-vinte anos. Como diziam alguns escritores e poetas subitamente divulgados e lidos ansiosamente (Guillen, Lezama Lima, Guillermo Cabrera Infante, Alejo Carpentier, a que se seguiriam, bastante mais tarde, Reinaldo Arenas, Herberto Padilla, Severo Sarduy, já claramente desiludidos, perseguidos e encarcerados). Era outra, e boa, excelente literatura, toda ela, mesmo no caso de Guillén, muito longe dos postulados do “realismo socialista”.

Todavia, Fidel começou rapidamente a morrer: o caso dos mísseis russos apontados aos EUA, retirados depois do ultimato a Kruschev e do enfrentamento de barcos americanos e soviéticos apontava cruelmente para um certo aventureirismo do soviético e mais ainda do cubano a quem, aliás, o russo nem sequer comunicou a retirada do armamento.

Depois disso, Cuba passou a depender exclusivamente da ajuda soviética que náo supria cabalmente todas as necessidades. Entretanto, campanhas alucinadas para o corte da cana de açúcar lembravam, em mais patético, outras campanhas russas ou chinesas em que o alarde da mobilização escondia o desperdício de energias e a falta de produtividade no campo.

Cuba já não era mais do que um satélite longínquo de Moscovo, caro e impertinente. Servia para irritar os Estados Unidos, para albergar uns escassos centos de refugiados latino americanos e, a certa altura para exportar combatentes para guerras de libertação exteriores. Pouca gente para a Guiné Bissau, mais para a Etiópia e um fortíssimo exercito para Angola. Sem a ajuda de Cuba seria outro e bem diferente o regime de Luanda. Está por esclarecer a razão (a verdadeira razão) da purga do general Ochoa (comandante do exército que salvou o MPLA) e de tantos oficiais seus. A teoria abstrusa e falsa do tráfico de droga e de diamantes nunca se comprovou. Há quem lembre o exemplo das purgas stalinistas em relação aos enviados soviéticos a Espanha ou a decapitação do Exército Vermelho nas vésperas da IIª Guerra mundial. A popularidade interna e externa de Ochoa ameaçariam Fidel e torná-lo-iam um candidato credível à direcção de um país crescentemente fragilizado pela obediência à URSS e pela incapacidade em alimentar o seu povo.

Junte-se ao quadro a persistente fuga de cidadãos que arriscavam a vida ao cruzar os noventa quilómetros de mar até à Florida. Bem antes do Mediterrâneo onde morrem emigrantes e fugitivos da guerra, havia esse pedaço de mar que foi túmulo de milhares de cubanos desesperados. No mínimo a percentagem de refugiados atingiu 12 a 13% da população total cubana.

Não há admiração que resista a esta permanente sangria de gente, fundamentalmente de gente jovem e educada.

Depois, e quase desde o início, houve uma persistente caça aos opositores políticos, aos intelectuais e a até a quadros da primeira resistência. Está ainda por explicar o desaparecimento de Camilo Cienfuegos que, na versão governamental, pereceu num desastre de aviação quando viajava para Havana. A tese de que uma tempestade súbita fez desviar o avião para o mar cai por terra ao não haver registo de qualquer modificação do tempo na região alegadamente sobrevoada por um Camilo já crítico da direcção fidelista.

A partir dos anos oitenta a história do PCC e de Fidel registam maiores e piores desastres: a desaparição da URSS mergulhou um país pobre e subdesenvolvido numa trágica corrida para o abismo. Anos e anos de privações de toda a ordem, onde a fome passou a ser algo de recorrente, evidenciaram a existência de duas Cubas: A primeira, oficial e governamental, e a segunda a que pertence a imensa maioria dos cidadãos, esfomeada se desesperada. A clique dirigente lembrava, para pior, o pior dos anos Brejnev. Velhos, incapazes, doentes e agarrados ao poder. E uma pequena mas resoluta resistência popular de apoio aos presos políticos e a reformas que não chegavam, aparecia e era cada vez mais apoiada internacionalmente a começar pela Europa.

Claro que a pertinaz oposição dos EUA e o bloqueio económico, tiveram uma enorme importância na estagnação de Cuba. E, sob certo prisma nem sequer foram eficientes. Cuba transformou-se num símbolo da luta popular, numa ilha cercada pelo imperialismo e tudo isso fortaleceu objectivamente a posição de Fidel. Criticar “el comandante” era afinal trair o país cercado e bandear-se com “los gusanos” anti-castristas, termo que por ali se transformou em anti-cubanos. De certa maneira, o bloqueio serviu os interesses da direcção cubana e foi a desculpa sempre repetida dos desastres da “revolução”

Boa parte da aura de Fidel deveu-se a uma esquerda romântica e cansada do sovietismo, do comunismo chinês e de outras gerontocracias do mesmo teor. O seu principal ideólogo foi Régis Debray cujo livro “révolution dans le revolution” se transformou na bíblia de uma aparente teoria do foco guerrilheiro baseado nos campos.

Debray chegou a tentar a aventura guerrilheira junto a Guevara mas este mandou-o embora por, alegadamente, o intelectual ter medo. Foi, entretanto preso pelo exercito boliviano e graças às declarações que prestou (sem tortura!), que ocorreu a prisão do Che. Claro que este estava já completamente isolado sem apoio na população que, autisticamente, pretendia libertar. A liberdade não vem nunca de fora, como no caso peninsular se viu com a invasão dos exércitos napoleónicos. Como de costume condenação de Debray a uma pena de prisão duríssima foi anulada pelo presidente Barrientos e regressou a França surpreendentemente aureolado pela glória militar revolucionária! É assim que se faz a história.

Obviamente, mesmo tendo dado longas entrevistas a Debray, Fidel não é responsável pela absurda teoria foquista de Debray. De resto, Fidel nunca se proclamou um teórico do marxismo mesmo se, nos seus longuíssimos e numerosos discursos, tenha ensaiado um par de vezes uma que outra novidade ideológica. Era um homem de acção e não exactamente um pensador.

Durou quarenta e seis anos como “líder máximo” e mais dez como fantasma persistente, trocando a farda caqui por um horrendo fato de treino. Deixou ao irmão Raul, personalidade menos carismática, a tarefa de governar e de ir, cautelosamente, enterrando alguns dos mais persistentes mitos e práticas revolucionários.

A sua última e definitiva morte (esta) por muito que o cortejo fúnebre impressione já não comove. Mesmo tendo a seu favor algumas importantes medidas sociais desde a reforma da saúde até ao combate ao analfabetismo, ficam de permeio a perseguição desenfreada aos opositores, a absoluta falta de liberdade cidadã, a incapacidade de criar uma economia eficiente, incluindo nela a capacidade para alimentar, mesmo espartanamente, a população.

Corre por aí, com estranha insistência, a tese que não houve culto da personalidade de Fidel. De facto, ele mesmo consignou que não queria medalhas, estátuas, nome em ruas ou o retrato em selos. É verdade. Todavia, por interpostos comités populares de defesa da revolução ou outros, instalou-se desde cedo na ilha o culto do “líder máximo” do “comandante”, a referência constante ao mais ligeiro dos seus ditos tornados verdades absolutas que convinha respeitar.

A humildade de Fidel lembra a de um outro governante perpétuo que fazia gala da pobreza, das solas esburacadas e da frugalidade. Também, por altura da sua (igualmente segunda) morte multidões encheram o país de prantos e de homenagens. Haja quem se lembre desse sombrio principio de Verão de 1970.

  • o dr Louça, alegado profundo conhecedor da literatura cubana actual opinou do alto da sua consabida cultura livresca que em Cuba havia tanta liberdade que até Leonardo Padura conseguia publicar os seus livros. Tirante o facto de desconhecer outros autores a quem a edição foi sempre negada, convém lembrar que Padura começou a ser publicado nos anos noventa já no auge dos anos difíceis e contou sempre com o apoio dos seus editores espanhóis. Não foi a edição cubana quem o consagrou mas a espanhola. E, até, a portuguesa. E o facto de, mesmo quando retrata Trotsky, optar por um tipo de romance “policial” permitiu-lhe, como ele próprio afirmou, passar entre as gotas da chuva.

 

 

 **na gravura: capa da revista "bohemia"

 

06
Dez16

O pós-referendo em Itália

José Carlos Pereira

Os mercados não penalizaram tanto como era esperado o resultado do referendo em Itália. Ainda bem. Espera-se agora que os principais responsáveis italianos, das mais importantes instituições aos partidos políticos, saibam reagir convenientemente. Um país com uma dívida pública das mais elevadas da zona euro e com problemas graves no seu sistema financeiro precisa de tudo menos de cair nas mãos de políticos populistas e extremistas, que cavalgam a vaga anti-UE e anti-sistema. E os parceiros da UE têm de agir com moderação, compreendendo que de nada adianta encostar os italianos à parede.

17
Nov16

o leitor (im)penitente 195

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Dylan, Bob Dylan

(ou: uma centelha pode incendiar toda a pradaria)

 

Conheço Dylan (pelas canções, evidentemente) há mais de cinquenta anos. É o que dá ser velho (e não sénior ou idoso como agora o politicamente correcto propõe); ser velho e gostar de música e de poesia.

De facto é de poesia que venho falar. Parece que foi um escândalo o Nobel. A um cantor? A um ícone da cultura pop? A um insubmergível poeta que desde fins dos cinquenta não para de nos espantar?

Li, entre divertido e irritado, um par de opiniões de umas criaturas que tem publicado os seus ignorados livrinhos por aí. Tirante a absurda arrogância das pobres gentes que se dão à tarefa de poetar para a gaveta e para o esquecimento, o que me admira é a argumentação de que a poesia de Dylan é para ser cantada e que só vive do acompanhamento musical, o que nem sequer é verdade. Dylan lê-se com extrema facilidade e alegria. E prazer. E proveito!

Se me perguntassem se Dylan era o meu favorito para o Nobel, diria que não. Estava à espera da consagração de Adonis, um poeta sírio extraordinário de quem acaba de sair uma tradução em português. Ou do eterno Roth, um romancista de mão cheia que há mais de dez anos é dado como nobelizável.

Todavia, Dylan é uma excelente escolha e uma prova de vida estimável para a Academia Sueca que nunca conseguiu libertar-se do labéu de conservadora e de míope.

Porém, tudo isto vem a propósito da publicação de Dylan em português. Agora, como é sabido, há dois sólidos volumes das “Canções” (Relógio d’Água, ed) numa cuidadosa edição bilingue, lançada este ano.

No entanto, não é esta a primeira edição em livro de poemas de BD. De facto, em 1985, uma pequena, mas corajosa, editora lançou um “Poemas 1” (a indicar continuação o que nunca sucedeu) de Dylan numa colecção de poesia que juntou mais de cinquenta autores sendo de destacar vários cantores mormente americanos. Essa editora chamada “Centelha” foi fundada em Coimbra no início dos anos 70 e a sua causa directa prende-se com a grande crise académica de 1969. Umas dezenas de activistas de que só refiro dois mortos (Alfredo Soveral Martins e João Bilhau) entenderam ser não só útil mas também necessário constituir uma biblioteca fundamental para o movimento saído da crise e para alguns milhares de estudantes que nela tinham ganho as suas esporas de militantes da liberdade e da democracia.

Tenho toda a simpatia pela “Relógio d’Água” que é provavelmente a mais interessante editora nacional. Porém, o seu a seu dono. Foi a Centelha quem, há mais de 30 anos, editou o Dylan em Português. Era apenas um punhado de poemas mas era o princípio. Depois, distribuidores em falta e falidos, a morte do Alfredo e demasiados incobráveis, ditaram a morte da Centelha. Morreu de botas calçadas no meio de muita indiferença, incluindo, valha a verdade, a de muitos dos seus sócios.

......................

Morreu o Leonard Cohen! Deixa uma herança generosa e uma glória indesmentível. O Nobel poderia ter-lhe sido atribuído com as mesmíssimas razões apontadas pela Academia para coroar Dylan. Bonito e original poderia ter sido um Nobel ex-aequo mas provavelmente isso não está nos estatutos e nem sequer lembrou aos suecos. Vivemos num mundo pouco disposto a inovar e, muito menos, a ousar o escândalo. Como se o acto poético fosse conservador!

Mais uma vez, o dedinho editorial da Centelha esteve presente: Cohen foi editado (“59 canções de amor e ódio”) com a colaboração da “Fenda”, uma revista libertária, situacionista, corajosa, exemplar. Nascida em Coimbra, apareceu também com o nome “Pravda” e durou uma dúzia de maravilhosos números. Como editora produziu talvez um quarteirão de livros, alguns dos quais belíssimos.

Agora, os raros exemplares que aparecem nos alfarrabistas cotam-se a forte preço.

Morte, onde está a tua vitória?

 

 

 *Vai esta em memória do João Bilhau e do Alfredo Soveral Martins, dois que estiveram em todas, de 62 a 69, por Coimbra a dos lavados ares. E com um abraço ao Rui Namorado, outro fundador da Centelha, representando todos os outros companheiros daquela aventura editorial, política e ética.

 

16
Nov16

As reflexões de Jorge Sampaio e Augusto Santos Silva

José Carlos Pereira

Nestes tempos algo incertos que se seguem ao choque provocado pelo resultado das eleições nos EUA, os textos publicados no jornal "Público" por Jorge SampaioAugusto Santos Silva ajudam-nos a reflectir sobre o futuro próximo e a maneira de defender a União Europeia e as democracias liberais e sociais construídas no pós-guerra.

15
Nov16

o leitor (im)penitente 194

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de um leitor (im)penitente para outro leitor (im)penitente

 

Morreu o Miguel Veiga. 

Não vou dizer que não o esperava. Há pouco mais de um mês, ou nem isso, estivemos os dois no lançamento de um livro do Alvaro Laborinho Lúcio. Lado a lado. O Miguel na cadeira de rodas, o sorriso esmorecido, o olhar inquieto de sempre, pouco ou nada disse. 

Logo ele, um falador contumaz! 

A morte preparava o cerco e o homem que ali estava e que eu conhecia desde os anos setenta, com quem varara intermináveis, inúmeras, noites, a falar de tudo, a discutir tudo, a rir de tudo ou quase, era já uma recordação. 

E o Laborinho, sempre atento, sempre amigo, reconheceu-o. Dedicou-lhe algumas palavras, saudando no Miguel todos os leitores e amigos que ali estávamos. 

Recordo o Miguel no 21, um bar amável onde, no ano da 1ª eleição de Mário Soares, tínhamos uma mesa repleta, a mesa do MASP, como o João, jovem barman na altura (e hoje já avô e sempre barman) a apelidou. E até cometeu o irreparável: reservava-a para nós até à chegado do primeiro contertúlio. Desse grupo já lá vão vários desde o Pedro Sá Carneiro, do Zé Valente até ao Zé Portocarrero. Começo a sentir-me um sobrevivente e, sobretudo, alguém cada vez mais só, rodeado de sombras, importunado pelas memórias (que no caso do Miguel são sempre de alegria), sem remorsos por estar vivo mas aflito pela falta de companheiros de conversa. 

E foi uma longa conversa a que mantivemos, desde os tempos em que eramos vizinhos na Foz, na avenida do Brasil, até um jantar que organizei só de vinhos e queijos (e pão) onde descobri que o Veiga, que inspeccionou demoradamente as minhas estantes, que tínhamos um enorme grupo de autores, franceses e portugueses, em comum. A coisa entrou pela noite alta, pela madrugada baixa e por pouco que não se transformou numa directa. 

Leio no Público, um par de testemunhos sobre o Miguel. Sobre o mimo, a ousadia, alguma desfaçatez, a cultura, o riso, a ironia e o profisionalismo do advogado que ele sempre foi. Patilho tudo, estou de acordo com tudo, incluindo a frase do Octávio Cunha, outro meu amigo de sempre (que lhe chama o principe da cidade). 

O Miguel era vaidoso, quase insolente,  tinha defeitos, olá se tinha, mas compensava-os com a generosidade, com a lealdade e com um sentido de fidelidade raro.

Dizem que nunca aceitou ser ministro ou deputado.É verdade mas isso não se devia especialmente ao Porto mas sim a uma irredutível liberdade. Levantar e sentar o cu no Parlamento, aceitar o "sentido de Estado" de um Ministro, eram coisas que ele sentia como insuportáveis. A Manel Alegre disse uma vez que o Miguel tinha sido o primeiro social democrata que tinha conhecido. Retorqui-lhe que o que o Veiga era , era um anarquista, um advogado do diabo, alguém que propunha sempre uma pausa no entusiasmo (logo ele que se entusiasmava demasiado) e uma análise fria dos factos. 

Sobre ser "um Senhor", que o era, o Miguel era um intelectual e um cidadão.

Exemplar em ambos os casos.

 

* na gravura: parte dos livros que o Miguel , atento e divertido, examinou lá em casa.

14
Nov16

Estes dias que passam 342

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Procuram-se seis milhões e quinhentos mil votos

Ou

Não foi Trump quem ganhou mas Hillary que perdeu

 

Há pouco mais de oito anos, discutia eu diariamente com o Iduíno Gomes, médico, luso-americano com trinta anos de hospitais em Boston. O Iduíno era filho de emigrantes no Massachussets mas ficou retido em Portugal durante a guerra e cá se formou em Coimbra.

Era um homem bom, generoso, eficiente e trouxe com ele, depois do 25 A, todo o seu saber na luta contra a droga. Ainda está de pé muita da legislação que ele propôs e Almeida Santos, seu velho amigo de Coimbra, redigiu.

Na altura eu era por Obama e o Iduíno por Hillary. Um dos seus argumentos era este: aquela era a última oportunidade para quem já passara a barreira dos sessenta anos. “Veja M, se o Obama ganha, ela só poderá candidatar-se com quase setenta anos. Este país (os EUA) não é para velhos, muito menos para mulheres velhas!”

Valha a verdade que, uma vez vencida nas primárias a sua candidata, o Iduíno, democrata leal e americano liberal (e socialista português), prontamente se declarou “obamiano”.

Não vou recordar o que, já naquela altura, me intrigava em Hillary. Nem sequer a áspera campanha por ela travada contra o seu rival. Convém, todavia, lembrar como o cavalheiresco Obama a nomeou para um altíssimo cargo e sempre a defendeu e apoiou.

Clinton, desde logo se percebeu, não desistiu de ser Presidente. Ao longo destes últimos oito anos, vimo-la tecer pacientemente uma rede de apoios, consolidar uma posição e impedir a progressão de uma nova geração de eventuais candidatos à nomeação pelos Democratas.

Esbarrou, apenas, em Bernie Sanders, um velho, e opiniático, senador, membro da ala esquerda do Partido Democrático.

E logo, na corrida pela nomeação, se viu onde estavam os jovens, os millenials, a nova geração do partido. Também é verdade que, provavelmente, o radicalismo de Sanders o impediria de bater o adversário republicano, fosse ele qual fosse. (Ou não! Sabe-se lá o rumo que a roda da História desenharia...)

Depois, começámos todos, pelo menos os que vêm talk-shows (Fallon ou Colbert que passam na tv portuguesa a horas das telenovelas), a ver que, se Trump era detestado, Hillary apenas conseguia aparecer como um mal menor. E não era por ser mulher, por ser competente, estudiosa e inteligente. Ela era, superlativamente, isto tudo como também aparecia como ambiciosa, fria, calculista e ligada aos grandes interesses corporativos (Já Obama lhe dissera o mesmo, lembram-se?). Advogada, senadora, Secretária de Estado, Hillary amassara juntamente com o marido, aliás um bom presidente com um único e grave defeito na América (womanizer, isto é mulherengo) e um erro de palmatória chamado bombardeamentos no Iraque (os Bush só vieram completar o já iniciado por ele), uma fortuna colossal não isenta de reparos e de críticas.

Hillary partiu para a batalha eleitoral, acossada à esquerda, lembrada como “falcão” e finalmente desarmada pelas reticências com que a esquerda do partido pareceu apoiá-la. Pior do que isso, o eleitorado democrata não parecia entusiasmar-se.

Hillary, como o bem aconselhado Trump avisou, representava o “sistema” seja lá isto o que for, não respondia aos desejos ou sonhos dos brancos (que ainda são a maioria) pobres e afastados do progresso. A América não é só Harvard ouYale, Springsteen ou Beyouncé, não é só o Upper East Side ou Wall Street. Se Hillary tivesse ouvido, pelo menos uma vez, as canções do Boss teria percebido isso. E teria percebido que Trump, milionário, canhestro, filho de emigrantes, era, apesar de tudo, uma das representações do sonho americano. E que talvez não fosse boa política ampará-lo na luta contra os outros candidatos à nomeação pelo Great Old Party, gente mais apresentável mesmo se entre eles estivessem dois “latinos” (Cruz e Rubio) fortemente ancorados à Direita. Ou Jeb Bush, outro representante do sistema e da aristocracia política republicana.

Em segundo lugar, tenho a ideia, porventura errada, de que os democratas viveram este ano que passou num estado de autismo político. Ouviam apenas o queriam ouvir e não perceberam a mensagem das primárias republicanas onde todos os candidatos “respeitáveis” morderam o pó sem apelo nem agravo. Trump, o grosseiro, o racista, o predador sexual, não só proferia as mais absurdas declarações como as repetia se atacado. E em dose reforçada. É verdade que alguns beaux esprits do GOP desviavam o olhar com ar horrorizado mas não as multidões que acudiam aos comícios. E mesmo as sondagens, sempre com os mesmos alvos, ouvindo as mesmíssimas pessoas, nunca deram a Clinton uma vantagem apreciável. Provavelmente, se os sondadores se tivessem dedicado a insistir nos swing states, talvez tivessem percebido que era ali que tudo se poderia passar.

Teria sido melhor pensar que um habitante de Detroit, cidade que tenta sair da horrível falência em que caiu, esperaria fervorosamente as promessas de Trump, de regresso à indústria americana tal como todos os “laissés por compte” do perdido império americano.

Em terceiro lugar, se é verdade que os EUA se criaram com emigrantes, nunca o número destes (dos nascidos fora do país foi tão forte em percentagem: Há vinte anos representavam 5% do total da população, agora, ouvi-o ainda hoje, tal número ultrapassa os 17%. Juntem-lhe a mundialização que é sentida como uma real perda de empregos pelos mais frágeis que, como na Europa, entendem que os seus benefícios vão genericamente para os mais ricos.

Trump, na América não diz nada de substancialmente diferente do que os populistas europeus dizem. Qualquer adepto do Brexit o compreende perfeitamente e, mais, o apoia. Basta ver como a srª Le Pen ou os populistas italianos festejaram esta vitória. Cujos ecos chegaram a Amsterdão, a Budapeste ou a Berlin e Varsóvia.

As reacções de que vou tendo notícia são surpreendentemente mais violentas do que as que Erdogan (que ainda ontem prometia regressar ao tema da “grande Turquia que não cabe nos 780.000 quilómetros quadrados” de hoje!) desperta. Ou a boa vontade que parece aureolar a China, país onde a democracia prospera como se sabe. Trump não gosta de emigrantes. Será que a nossa Europa, que nos enche de empáfia, trata melhor os milhões de fugitivos que batem à sua porta, quando se não afogam?

Voltemos à eleição americana. E aos seus números: Em relação aos votantes de Obama, Clinton regista uma perda segura de quase sete milhões de votos. Trump não melhorou o score republicano do anterior candidato e os resultados globais para as duas Câmaras provam-no. Se os democratas não ganham nos Representantes e no Senado não é menos verdade que melhoraram e os republicanos tiveram paralelamente algumas perdas. Nem o triunfo dos primeiros nem a perda dos segundos modifica decisivamente as perspectivas do novo Presidente que, para já, poderá nomear um juiz conservador para o Supremo Tribunal. Só isso terá consequências gravíssimas. As promessas de novos muros, de repatriamento massivo de emigrantes ou mesmo de retaliações contra o Irão, o Daesh são meras hipóteses dada a dificuldade em levar a cabo tais actuações.

Voltando, de novo, à eleição: parece que em muitas cidades americanas (quase todas de maioria democrata) há manifestações contra Trump. Parece que apesar do óbvio triunfo de Trump, há quem se bata na rua contra a escolha dele. Trata-se de um fenómeno marginal ou é algo mais? E se for assim, porque é que tanta gente se mostrou horrorizada quando Trump, “sempre esse homem fatal”, deixou no ar a ameaça de não aceitar a vitória de Hillary? Será que o protesto de esquerda é o único que vale?

Faço parte dos derrotados nas eleições americanas. Não morro de amores por Hillary mas sufoca-me a ideia de Trump ser o novo Presidente dos EUA. E, mesmo não sendo americano, aterra-me a ideia de que Trump vai ser uma fonte de inspiração para muitos europeus. Na França, no Reino Unido, na Itália, na Holanda (ai minha querida Amesterdão!...) . Isto não falando na Europa Central onde o trumpismo já é de regra. Assusta-me a ideia de que provavelmente já não verei (estou a dias de (per)fazer 75 outonos) um democrata na Casa Branca. Que diabo, um homem tem o direito de morrer descansado e o único Donald de que gosto é o pato.

*A jornalista Teresa de Sousa pede que não se faça de Hillary o bombo da festa. A culpa que morre sempre solteira, não é da senhora mas eventualmente de todos nós.

Vários outros abencerragens do comentário político culpam a Constituição Americana e o sistema dos grandes eleitores. Ou seja, são contra as regras do jogo quando este não tem o resultado que lhes agrada.

  • o comentador Rui Tavares andou dias e dias a confortar-nos com uma vitória de Clinton. Só de o ler, comecei a temer o pior. Tavares toma os desejos dele pela realidade. E, como de costume, engana-se.
  • Quando referi que só donald Duck me entusiasmava, esquecia-me do grande Donald Byrd, o trompetista revelado pelos Jazz Messengers e principal autor do disco “Black Byrd”, um must. Glória e paz à sua amável memória.

 

09
Nov16

O elefante (republicano) destruiu a sala

José Carlos Pereira

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vitória de Donald Trump surpreendeu o mundo inteiro, já que poucos consideravam verosímil que o magnata do imobiliário conseguisse ser o candidato nomeado pelos republicanos, primeiro, e vencer as eleições presidenciais depois, mesmo sem o apoio de algumas elites do Partido Republicano.

Com efeito, acabou por impor-se mais alto a verborreia de Donald Trump, as setas apontadas contra tudo e contra todos – os imigrantes, os estrangeiros, as minorias, os políticos, as políticas saúde, com o "Obamacare" à cabeça, o ambiente, os tratados internacionais – apostando numa América voltada para dentro, para os seus, à procura de assim recuperar o fulgor económico e industrial de tempos passados. Um discurso que tem mais de extremista do que de conservador e que já víramos medrar em outras paragens, particularmente na Europa. Não foi por acaso que a Aurora Dourada, a Frente Nacional e outros partidos radicais do espaço europeu logo se apressaram a congratular-se com a vitória de Trump e a identificar-se com as suas ideias.

Quem pôde acompanhar os relatos oriundos dos EUA via como uma parte significativa do país se identificava com o discurso de Trump, do mesmo modo que nunca se sentiu uma adesão significativa à campanha de Hillary Clinton. A experiente candidata democrata não foi capaz de descolar da imagem de lídima representante do status quo político, dos grandes interesses, da elite que governa a pensar mais em si própria do que nos cidadãos. Os incidentes com o uso do seu email pessoal enquanto secretária de Estado só vieram agravar a desconfiança já latente em muitos norte-americanos.

As promessas de Donald Trump, com mais indústria e mais emprego à cabeça, cativaram o eleitorado menos qualificado e com menos poder económico, que normalmente vota nos democratas, o que acabou por ter um peso determinante no desfecho eleitoral, designadamente na designada cintura industrial. Mais do que o exemplo de empresário de Donald Trump, implicado em vários negócios duvidosos, fuga aos impostos e outras trapalhadas, o que terá motivado muitos americanos foi o seu tom desafiador perante os privilegiados do meio político e financeiro e a promessa de retoma económica. Que, pelo caminho, Trump pretenda descer abruptamente os impostos, com o consequente recuo dos serviços públicos prestados aos mais débeis, é algo que esses apoiantes só sentirão na pele mais tarde.

O que será a presidência de Donald Trump? As suas promessas serão para cumprir? Creio que neste momento ninguém estará em condições de prognosticar. Continuará o presidente eleito a ser capaz de submeter o Partido Republicano aos seus propósitos ou, pelo contrário será a máquina republicana, que contará com a maioria no Senado e na Câmara dos Representantes, a tomar os destinos da Casa Branca e da acção legislativa e executiva? Algum domínio sobre a “espontaneidade” de Donald Trump não traria mal nenhum…

04
Nov16

A responsabilização pessoal dos autarcas

José Carlos Pereira

Nos tempos que correm, bem sei que não estarei a ser politicamente correcto ao dizer que concordo com a medida incluída na proposta de Orçamento do Estado sobre a responsabilização pessoal dos autarcas. Mas a verdade é que não vejo razões para que os autarcas sejam tratados como políticos de segunda e tenham um quadro de responsabilidades diferentes de outros governantes.
Recordo que esta medida, reivindicada pelos autarcas desde sempre, apenas se aplica a decisões tomadas na sequência de propostas ou informações favoráveis provenientes dos serviços da respectiva autarquia, pois as decisões contrárias aos pareceres dos serviços ou tomadas de ânimo leve sem consulta prévia dos mesmos continuarão a justificar uma responsabilização financeira e/ou criminal dos autarcas.

25
Out16

au bonheur des dames 416

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Saberá ele o que quer dizer “orçamento”?

 

Não sei se quero falar do “orçamento”. De facto aquilo ainda não é senão um projecto. Só depois dos pais e mães (e filhos) da Pátria se ajuntarem e discutirem é que a coisa se transforma em Lei.

Todavia, alguma coisa já se pode dizer sobre o documento.

Comecemos pelo mais fácil. O Sr. Ministro Centeno veio dar-nos a extraordinária novidade de aquilo ser um “orçamento de escolhas”. Conviria lembrar a S.ª Ex.ª , seguramente um luminar de finanças mas um fraco conhecedor de português que um orçamento, qualquer orçamento, é sempre uma (ou um conjunto de) escolha.

E tanto o é que, ao contrário dos cavalheiros do anterior Governo (também eles luminares da ciência financeira), este governo escolheu outros meios de financiar o Estado e enfrentar a despesa pública que, pelos vistos, não só não desce mas, porventura, subirá.

Em segundo lugar (e esta vai par outra luminar, desta feita do BE) convém avisar que ir buscar aos ricos para pagar pensões aos pobrezinhos não existe. O Orçamento é um todo, os impostos correm para um bolo único e nada nos pode fazer pensar que a quantia sacada aos ricos (e os ricos em Portugal são, noutras latitudes, gente remediada) vai direitinho para as pensões. Isto aqui não é uma agência de consignações. Se fosse, os meus descontos para a Segurança Social teriam por objecto único a minha reforma, por exemplo.

A terceira observação é que este “orçamento” vai dar aos ricos mais dinheiro do que aos pobres mais pobres.

Em quarto lugar, se eventualmente for verdade uma descida do IRS, convém lembrar que uma boa parte dos novos impostos (ou dos impostos indirectos que são agravados) vai penalizar as classes menos favorecidas. Ou alguém acha que os talassas andam no fast food, nos refrigerantes ou se passeiam em carros a gasóleo. Proporcionalmente, os impostos indirectos atingem mais os de baixo rendimento do que os malvados capitalistas e as classes suas aliadas.

Em quinto lugar, a ideia peregrina de baixar o IVA da restauração (baixa, aliás, um tanto ou quanto restrita) não só não significa uma baixa de preços mas sobretudo beneficia os turistas que, por pouco que gastem, sempre comem duas vezes ao dia. Chegou-me aos ouvidos que poderão ser mais de vinte milhões os turistas neste ano. O que significa pelo menos quarenta milhões de refeições se apenas se demorarem um dia no torrãozinho de açúcar lusitano.

Caso demorem mais de três dias a coisa significa que o número de refeições vendidas a estrangeiros será superior às fornecidas a portugueses. Como, ainda por cima, os nossos preços são muitíssimo inferiores aos dos países de onde nos vem os turistas, isto significa uma perda brutal de receita. É a reversão em todo o seu esplendor.

As medidas sob o património já tiveram um resultado: fogem capitais a todo o vapor para sítios já conhecidos. Consta que as transferências para a Suíça ultrapassaram os mais loucos sonhos dos banqueiros da Confederação.

E isto, esta procissão–debandada, ainda vai no adro. A ideia peregrina de taxar violentamente o alojamento local (que, parece, tem permitido, o restauro de bairros inteiros de Lisboa e Porto) poderá trazer uns tostões a curto prazo mas matará a galinha dos ovos de ouro, duradouramente. Ou voltar-se-á ao aluguer clandestino, especialidade portuguesa que vigorou impune e impante durante dezenas de anos. De todo o modo, haverá consequências para o investimento no ramo. E menos emprego.

Deixo, por inútil, a discussão sobre o investimento e a criação de empregos. Quem é que virá suicidariamente meter o seu dinheirinho num país que tem a instabilidade fiscal como princípio de vida?

Os nacionais ou não têm dinheiro ou preferem pô-lo a salvo. Os estrangeiros receiam as mortaguices ingénuas mas perigosas com que as campeãs do anti-capitalismo diariamente nos ameaçam.

Graças a esta gente, tornei-me subitamente rico. Não aumentei o meu património imobiliário, bem pelo contrário. Até vendi (com mais dois familiares comproprietários) dois miraculosos apartamentos cujos inquilinos quase centenários abandonaram este mundo de tristezas por outra, e melhor, vida eterna. Só que, com todos os truques sobre o IMI e com esse limite baixíssimo para a fronteira da riqueza, eis que prédios antigos mas bem (e custosamente!) conservados começam a parecer-se com a Trump Tower de Nova Iorque. Só diferem nesse pequeno pormenor que é a rentabilidade. Só para dar um exemplo: num dos prédios, a substituiçãoo do elevador custou mais do que a soma das rendas durante dois anos. Acrescentem-se as taxas, as taxinhas, as despesas gerais, a limpeza e a iluminação das partes comuns e veja-se a fortuna dos infortunados proprietários.

Um orçamento é, devia ser, um momento de esperança, uma aposta sobre o futuro, uma garantia ou, pelo menos, uma previsão, de melhores tempos.

Este orçamento é, tão só, uma ideia de continuar na mesma, de sobreviver amparada numa curiosa especulação sobre melhorias que não parecem estar no horizonte próximo. E se for verdade a previsão sobre os países que importam mais de Portugal, então o futuro vagamente rosa com que a medo nos acenam será bem menos colorido do que os sonhos de Centeno e Costa presumivelmente são.

Mas isso é, vai ser, outra (e pior) história.

(quanto ao famoso deficit abaixo dos 3% é bom lembrar que o Banif não entra nessas contas. O que só por si representaria uma acréscimo de 1,4%!!! E para o ano teremos 5.000 milhões para a CGD que também não irão entrar nas contas. Mas saem-nos do bolso, ai isso saem)

06
Out16

António Guterres na ONU

José Carlos Pereira

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 O Conselho de Segurança da ONU aprovou hoje, por aclamação, a indicação do nome de António Guterres para secretário-geral da organização. A sua eleição pela Assembleia Geral da ONU deverá ocorrer na próxima semana. Caminha assim para o fim um longo processo, de inédita transparência, que António Guterres liderou em todas as votações intercalares. Os países que integram o Conselho de Segurança concluíram que o curriculum e as provas dadas pelo antigo primeiro-ministro português faziam dele o candidato mais bem preparado para a função.

É certamente a vitória dos enormes méritos pessoais de António Guterres, que tirou partido da projecção internacional que alcançou ao longo dos anos, como primeiro-ministro e presidente da Internacional Socialista, e do seu desempenho no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), mas também a vitória da diplomacia portuguesa, liderada pelo ministro Augusto Santos Silva. As jogadas de bastidores mais ou menos evidentes que uniram certa direita europeia e norte-americana, bem como algumas declarações menos felizes do actual secretário-geral, não foram suficientes para o derrotar.

Ver António Guterres como secretário-geral da ONU é motivo de orgulho para a maioria dos portugueses e particularmente para aqueles que se habituaram a constatar as suas invulgares capacidades políticas. Tive oportunidade de testemunhar, por diversas ocasiões, o enorme apreço que o então primeiro-ministro gerava mesmo entre aqueles que não eram da sua família política. A presidência portuguesa da União Europeia em 2000 foi um caso paradigmático. Os seus governos ficaram marcados pela sensibilidade social que caracteriza António Guterres desde a sua juventude. A educação, a cultura, a ciência, as questões sociais, as pessoas em suma, foram uma prioridade dos seus executivos. A mesma prioridade que o conduziu no ACNUR e que o guiará na ONU.

O homem que levou Portugal à moeda única não conseguiu alcançar a maioria absoluta em 1999, o que o marcou profundamente, permitindo depois que o seu segundo governo minoritário acabasse vítima do final antecipado de um ciclo político. Agora na ONU, pelo contrário, é um novo ciclo estimulante que se inicia, os seus desafios serão à escala global, as suas capacidades de diálogo e de persuasão serão fundamentais para gerir os equilíbrios entre os principais contribuintes da ONU e intervir nos conflitos internacionais em aberto, sem perder de vista a necessidade de reformar a organização e a sua capacidade de actuação. Acredito convictamente que António Guterres será um grande secretário-geral da ONU.