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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Nov17

Au bonheur des dames 437

d'oliveira

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Santana, regressa que estás perdoado...

mcr em 22.11.17

 

Quando o inestimável dr. Santana era Secretário de Estado da Cultura teve, entre muitas, uma ideia brilhante: deslocalizar a sede da Delegação Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura. Do Porto onde estava instalada num belo palacete e onde está inserida a Casa das Artes, exilou-a para um cave em Vila Real, cidade como se sabe muito central para quem viva em Chaves. E, a partir daí, foi o que se viu. Da DRN nem novas nem mandados. Dos funcionários, cerca de 20, alguns mudaram-se para outros organismos e os restantes foram para casa onde todos os meses e ao longo de muitos e muitos anos chegava o ordenado.

Pela parte que me toca (relembro que era, na altura, Delegado Regional) demiti-me e fui procurar ser útil na Segurança Social, onde já estivera. E aí permaneci até à reforma. Tentei, baldadamente, convencer os governos socialistas (a partir de Guterres) da necessidade e da utilidade de “reverter” a tola medida de Santana. Nada! Foi preciso aparecer o governo Passos Coelho para o Delegado (agora Director) Regional aparecer definitivamente no Porto. Desconheço se na cave de Vila Real ainda vegeta algum serviço descentrado ou se, de uma vez por todas, se acabou com aquela fantasia imbecil.

Elos vistos, o dr. Costa entendeu agora refazer o percurso errático de Santana e transferir sem dizer “água vai” o INFARMED para o Porto.

Nem funcionários (quase quatrocentos!) nem a direcção sabiam da empreitada. A Câmara do Porto, ao que consta, ficou surpreendida pela benesse governamental. Num primeiro momento, Rui Moreira, um homem reconhecidamente inteligente, engasgou-se e falou de “ressabiamentos”. Não sei se se referia a trezentos funcionários e centenas de familiares que, de súbito, viam a sua vida ameaçada. Sei que apenas vinte funcionários aceitavam ir para o Porto. Os outros trezentos e tal devem ser os “ressabiados”...

Desconheço as “razões” do bodo que Costa quer oferecer ao Porto e, sobretudo, julgo que não poderá transferir ninguém contra vontade visto que a distância mais que decuplica aquela que se considera aceitável para forçar uma mudança de local de trabalho.

Assim sendo, temos que o Governo parece querer aumentar em mais de três centenas o número de funcionários públicos ou num regime semelhante e de efeitos semelhantes. De facto, não vindo os trabalhadores actuais do Infarmed para o Porto, haverá que recrutar outros in loco. E prepará-los, ensiná-los e garantir que serão, no mínimo tão eficazes quanto os que ficaram em Lisboa.

Claro que os “ressabiados” poderão ser alvo de chantagens várias, coisa que também não é de todo desconhecida na função pública. Sugestão aqui, ameaça acolá e a barca vai andando aos bordos sempre perto do naufrágio.

Uma das coisa que mais me espanta (ou nem isso, que eu já conheço as linhas com que um cidadão precavido se cose) é a falta de declarações sindicais ou de partidos ditos “amigos dos trabalhadores”. Nada! (pelo menos até hoje quinta feira).

E, já agora, tentemos perceber o que é que se passa na cabeça dos governantes. Quererão, bondosamente, compensar o Porto pela “perda” da Agência Europeia do Medicamento? Mas será que alguma vez alguma dessas fosforescentes criaturas governamentais sequer sonhou em ganhar a AEM? Desconheceriam (tudo é possível sobretudo para as risíveis mediocridades que trataram do dossier e informavam –intoxicavam – os media nacionais) que só por milagre da Rainha Santa, dos pastorinhos e do beato Nuno (todos juntos mais a “santinha da Ladeira” e a Senhora de Fátima) é que seria possível escolher o Porto?

Num país desvairado pelos fogos, pelo turismo que foge a sete pés do Mediterrâneo perigoso (e de Barcelona que registou este mês menos quarenta (40%) por cento de entradas de turistas e pela obra “intangível” (cfr. Cunha Leal) da geringonça, tudo é possível mas isto (a vinda da AEM) roçava as raias do delírio. O Porto pode ser muito giro para dois dias de trânsito turístico mas só por dois dias. É verdade que tem o dobro dos dias de sol de Amsterdão, metade do custo de vida de Milão e infinitamente menos racismo do que Bratislava. E que há mar menos poluído do que o Báltico ou o mar do Norte, um clima mais ameno do que noutras cidades concorrentes. Todavia, em termos europeus, é, definitivamente, uma cidade periférica. Tanto ou mais que uma romena ou finlandesa Que justamente também não abicharam nada.

Aliás, os funcionários da AEM já tinham manifestado a sua má vontade em vir para Portugal. Tanto ou mais quanto em relação a Bratislava.

O Porto ficou num “honroso” sétimo lugar, ao que sei. Eu, nestas coisas, sou muito pão, pão, queijo, queijo. Só um lugar interessa: o primeiro. O resto é lirismo nacionalista para entreter ingénuos.

Aliás, suponho, que no Porto ninguém acreditava neste milagre das rosas moderno. Por junto, as pessoas, usavam o mesmo raciocínio de quem aposta no euro-milhões: sem nos habilitarmos é que não vem prémio algum. E no dia seguinte, no quiosque do costume, compra-se o jornal e volta-se a preencher o papelinho. Não ficamos mais pobres mas, contra milhões de probabilidades, podemos ficar mais ricos. E durante dois dias gozamos que nem cabindas a pensar no que faríamos aquela dinheirama toda.

Voltando, porém, à vaca fria, quem por estes momentos andará por aí preocupado, angustiado, aflito ou indignado é o lote de funcionários do Infarmed que, como prenda no sapatinho, se vê estúpida e desnecessariamente (e ilegalmente) ameaçado pelo Governo.

O dr. Santana Lopes deve estar a babar-se: afinal as suas tolas mudanças de sede de organismos da ex-SEC estão justificadas. Convirá preveni-lo que uma burrice não apaga outra burrice. Apenas aumenta a primeira. Ouviu, dr. Costa?

 

*A Ilustração não pretende chamar seja o que for aos senhores Santana e Costa. Quanto mais não seja porque, os burros não são, como se poderia pensar, estúpidos. Bem pelo contrário são animais bem mais interessantes do que muitos humanos que por cá peroram e se mexem. 

13
Nov17

Estes dias que passam 346

mcr

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O “jornalismo” de referência de vez em quando descarrila

 

Sou um empedernido leitor de jornais. Sempre fui, parece-me. Mantenho com elas uma relação de fidelidade quase canina. Com “Le Monde” a relação tem 55 anos. O mesmo com “L’Express” mesmo se, ao longo destes anos, a revista tenha mudado muito, demasiadamente. Durante muitos anos fui um fiel leitor do “Diário de Lisboa”, um vespertino de que me saparei algum tempo depois do 25 A.

Quando o “Público” apareceu (vai para quase trinta anos) despedi-me sem saudades do JN e nunca mais comprei outro jornal diário (português). Volta e meia, irrito-me mas, genericamente (como no caso do “Le Monde”, “El País”, “La Republica”), não desisto.

Todavia, há dias em que me zango. E hoje é um deles. Desde há muito que no “Público” há uma secção chamada “espaço público” que normalmente acompanha o editorial. A coisa funciona assim. Alguém, os redactores, suponho, dão setas verdes ou vermelhas a pequenas notícias. Algo semelhante aos “altos e baixos” do Expresso. Hoje, segunda feira, havia duas notíciasa verde uma nem sim nem sopas e uma a vermelho. É sobre esta que quero escrever: o sr Rajoy foi à Catalunha apoiar o PP local e num comício pediu o voto da maioria silenciosa para “recuperar a região do caos do separatismo”.

O redactor notador achou isto péssimo, mesmo se não saibamos se é a frase em si (dentro de comas), a recuperação (perfeitamente alcançável dado o que sabemos) ou a referencia ao caos do separatismo.

Vejamos

A frase é perfeitamente plausível num político conservador ou até num político qualquer desde que não seja a favor do separatismo.

Que Rajoy apele a essa maioria (que raramente vota e que, segundo consta, é contra a independência) é absolutamente normal e se seta vermelha houvesse seria devido a não pedir esse voto.

Que a Catalunha enfrenta grandes dificuldades futuras ninguém duvida. Fugiram, até sábado passado, 2700 empresas. Pelo menos metade (aliás um pouco mais) dos votantes nas últimas legislativas é anti independentista e já se tem manifestado com uma força semelhante às manifestações independentistas. Que uma “república catalã” ficaria absolutamente isolada na Europa (ou na Europa da UE) é, até à data, uma clara certeza. Que os cidadãos catalães ficariam fora do euro, de Schengen, idem. Que o principal mercado catalão (a Espanha) pode fugir, boicotar, diminuir é outra verdade de La Palisse. Que isso criará dificuldades enormes e protestos identicamente fortes é uma evidência. Que o primeiro ministro de Espanha não queira uma situação deste género nem merece discussão.

Portanto, pergunta-se à criatura que assina RS onde é que ela vê razão para uma seta vermelha.

Claro que RS pode não gostar de Rajoy. Pode detestar o PP e os conservadores onde quer que seja. Pode ter um profundo amor pela “causa catalã”, pelo senhor Puigdemont, pela senhora Forcadell, pela CUP. Pode detestar medonhamente a Espanha, a União Europeia, o euro e sei lá o que mais.

Todavia, para isso, só tem de pegar na caneta e escrever um artigo de opinião. Se a tem. Se é capaz de falar do assunto com um mínimo de conhecimento e, já agora, de qualidade. Não pode, ou não deve, fingir que a sua seta tem razão de ser numa notícia de dez escassas linhas. A menos que ache que Rajoy é um fascista encapotado que, de faca nos dentes, está a invadir a Catalunha para sufocar pela força das armas o que alguma lei (qual) direitos ofendidos e legítimos.

Já por aqui falei dos padeirinhos de Aljubarrota espécie indígena que traz nos meigos coraçõezinhos a lembrança imperecível dos batalhadores da época joanina, dos restauradores de 40 e a cólera pelo roubo de Olivença. Não suporta “castelhanos”? Pois que não vá ao “El corte Inglês”, que não compre na “Maximo Dutti”, na “Zara” que não tenha conta no Santander Totta ou no Millenium (hoje de “La Caixa”, empresa que logo no primeiro dia abandonou a Catalunha). Que indague cuidadosamente se as laranjas ou as cenouras ou as cebolas que compra no supermercado vêm ou não do odiado país. E cuidado com o peixe que vem de Espanha às toneladas. E com os camarões congelados, os carabineiros sem falar do bacalhau (há três ou quatro grandes marcas espanholas a impingir-nos o bacalhau deles. O mesmo se passa com o atum. O melho seria mesmo fazer uma campanha contra os milhões de turistas espanhóis que invadem o país nas datas festivas (brevemente cairão por cá durante o feriado da proclamação da Constituição). Coño, RS, a por ellos!

E "visca Catalunya liura"...

09
Nov17

Au bonheur des dames 436

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O menino Jesus chegou antes do Natal e chama-se Nuno Maria

 

É como se fora do meu sangue. A minha enteada Ana (com a ajuda do marido Nuno) presenteou-nos a mim e à CG com um menino são como um pêro que dorme a sono solto.

A CG flutua a uns bons vinte centímetros do chão e continua a tricotar furiosamente roupinhas para o bébé que não vai conseguir usar todo o enxoval que já tem. É o costume, claro.

Ontem, dia do nascimento, logo de manhã já me pediam notícias do viajante pois sabia-se que a coisa estava a rebentar.

Os pais do infante comunicaram à babada futura avó que o internamento seria ontem, que se seguiriam análises e exames e que, depois, o médico diria quando é que o parto teria lugar.

Era uma piedosa mentira destinada aos familiares (quatro avós maternos e uma avó paterna), bisavós e demais antepassados variados, amigos e colegas.

Pessoalmente, eu tinha uma vaga desconfiança de que as coisas se passariam mais depressa: Já por alturas da licenciatura, a Ana nada dissera e deu-me o prazer (e a honra) de ser o primeiro a saber logo que o último exame terminou. Na altura, explicou-me que queria evitar a choradeira da mãe, o nervosismo do pai. Por isso, eu estava em alerta mínimo e tranquilo. Quando a CG me deu a notícia, ouvia-a impávido.

Depois começou o bailinho da Madeira: a CG a alertar (a amotinar) amigas, parentes e demais povo. Os alertados respondiam com salvas de perguntas, guinchavam metaforicamente pelos novos meios de comunicaçãoo. O meu sábio irmão, médico de profissão, pai e avó endurecido, ligou-me a perguntar se já havia novidades. A cunhada dele, ao lado perguntou se o menino era bonito.

“Ó Maria Manuel, então isso pergunta-se?”

Respondi-lhe que estava em frente do alucinado pai (que andava com dores de parta há umas boas semanas) e que medindo quase dois metros, calçando 48 biqueira larga, me poderia agredir no caso de eu dizer qualquer coisa menos simples do que afirmar que a criaturinha era maravilhosa.

Com este subterfúgio escapei ao nariz de cera habitual e cortei cerce qualquer pedido para dizer com quem a criança era parecida.

Os bébés, à nascença, parecem-se com outros bébés, ponto, parágrafo.

A minha excelente Mãe já se tinha adiantado com um cheque simpático para o menino começar a ter conta no banco. Em troca exigiu uma fotografia verdadeira, em papel como deve ser, nada dessas mariquices no telefone. A Old Lady tem cataratas e quer ver com olhos (os dela) de ver. Pede pouco mas bom. Uma fotografia que o caixilho há-de me encarregar de comprar. Como de costume.

“E coisa boa, nada dessas quinquilharias tão na moda!” É para já Senhora, minha Mãe: vou num pé e venho noutro!  

Os filhos e netos, nossos ou dos nossos parentes e amigos,  são,  sempre, um milagre.

Por junto, hoje, mandei um mail à Zé Albarran explicando que o menino se parece com a avó porque dormia com a boca aberta. Enquanto estive no quarto da parturiente não se dignou abrir o olho e dormiu regaladamente. Isto de nascer cansa, está visto.

Que cresça bem, rodeado de amor e carinho e que o mundo a que chega seja melhor do que aquele a que cheguei num longínquo Novembro de 41.

Agora, cá o espero para o ensinar a jogar bilhar, ouvir muito jazz e alguma ópera, provar uns patés decentes e passear com este imprestável avô até ao café ao pé do jardim. E para o que mais for preciso.

09
Nov17

Au bonheur des dames 435

mcr

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Da Galiza para Portugal

(em memória de Luís Seoane e para Xesus Alonso Monteiro com profunda admiração)

 

A Galiza tem uma área que é cerca de um terço da de Portugal. Essencialmente é uma região montanhosa com profundas rias por vezes rodeadas de vales não demasiadamente extensos. Com excepção da Guardia e da Corunha as principais cidades estão relativamente afastadas do mar mesmo se este é a origem da maior riqueza galega: o peixe e os mariscos. Além da vinha, a floresta é outra das riquezas da região. Foi esta floresta que sofreu em Outubro passado incêndios violentíssimos que devastaram 50.000 hectares, mataram quatro pessoas e fizeram 2400 desalojados.

Uma semana depois da calamidade, a Junta da Galiza começou a tomar medidas. Assim foram logo fixadas as indemnizações para quem perdeu casa (quer a primeira habitação quer a segunda respectivamente de cem mil e quarenta mil euros. Num conjunto de 30 pontos rapidamente aprovados (passa agora um mês sobre os fogos) foram decretadas e começaram a ser executadas medidas contra a ocorrência de novos fogos, indemnizações aos empresários, reconstrução de estruturas agrícolas (currais, redis, armazéns, silos). Estipularam-se novos perímetros de defesa contra fogos, de limpeza da floresta, de posse administrativa de terras sem proprietário conhecido, de fiscalização florestal, de novos meios de combate a incêndios.

E começaram já os cortes de árvores ardidas!

Também já estão a ser pagas as indemnizações por morte de pessoas (75.000 euros).

A Galiza é “apenas” uma região autónoma espanhola sem ter sequer poderes tão latos quanto outras. Não é rica senão de gente abnegada, generosa, risonha apesar da “morriña”, que fala o velho galego dos “labregos e marinheiros” e se entende às mil maravilhas com os trezentos mil portugueses que a invadem no Verão e com os restantes espanhóis que lhe procuram as praias e a belíssima gastronomia. Nunca vi (e eu sou um habitué da Galiza, das suas livrarias, dos seus pequenos restaurantes, de Vigo, de Pontevedra, de Santiago) um local deixar sem resposta outro espanhol que não sabe galego. Nunca!

Entre o período visigótico e a ascensão do reino de Leão, a Galiza constituiu um breve reino que pouco durou. Ou melhor: o reino centrou-se em Leão e as terras galegas (como as do norte de Portugal) eram feudatárias dessa entidade política. Depois, o reino desapareceu. Afonso Henriques, já livre do suserano leonês, tentou por duas ou três vezes conquistar territórios galegos com incursões entre Tui, A Guarda e Vigo mas foram apenas pequenos triunfos sem consequências. O Minho impôs-se como fronteira até hoje.

Durante a curta República (a 2ª) a Galiza dotou-se de certa autonomia, como o País Basco e a Catalunha (que entretanto não se podiam gabar dos mesmos antecedentes históricos...) mas a “cruzada” franquista rapidamente liquidou as aspirações galegas. Durante a guerra civil, e mesmo depois, ainda havia pequenos focos de guerrilha no “monte” havendo mesmo na raia muitos portugueses que acolheram os prófugos galegos. Em 1950, nada restava desse pequeno grupo. Nos finais do franquismo, apareceu a UPG e houve pequenas acções armadas de escassa importância. Com a democracia, a UPG constituiu um bloco independentista mas a tendência, depois de um apogeu no fim dos anos oitenta, decresceu significativamente enquanto o Partido Popular ia aumentando significativamente a sua influência. Até hoje. O governo Feijoo tem maioria absoluta na região e tudo indica que assim continuará.

Do ponto de vista cultural, a Televisão Galega é seguida (até em Portugal), há algumas editoras de livros em galego (curiosamente, muitas delas dedicadas à produção literária galaico –portuguesa com belíssimas antologias indispensáveis para quem queira saber da nossa comum origem literária). Editam-se, com tiragens decentes, alguns escritores galegos desde a eterna Rosalia deCastro até Manuel Rivas passando pelos incontornáveis Castelao, Cunqueiro, Celso Emílio Ferreiro e, pasme-se!, Rodrigues Lapa, insigne filólogo português respeitadíssimo no Além-Minho.

Curiosamente, alguns dos grandes escritores galegos do sec XIX ou do XX, escreveram sempre em espanhol e em alguns casos recusaram a tradução das suas obras para o galego. Tinham, de resto, uma excelente razão: parte do encanto da língua que usaram tinha galeguismos em profusão e isso dá(va) um encanto especial à narração (falo de Camilo José Cela, Torrente Ballester e do extraordinário Ramón del Valle Inclan, autores que não me canso de reler.)

Os leitores que me desculpem. Eu ia só falar da rapidez, da eficácia, da generosa solidariedade dos governantes galegos e comparar a atitude deles com o que por cá se passa.

Uma catástrofe obriga a medidas extraordinárias. E a medidas rápidas. Há demasiado sofrimento, demasiadas vítimas e nenhum tempo a perder. Os galegos, bem mais pobres do que nós, mais emigrantes do que nós (a maior cidade galega é Buenos Aires...) deram, neste capítulo, uma lição às nossas elites governantes. Aliás, já tinham, ao contrário de nós, tirado a devida lição dos grandes fogos (o último a que assisti foi em 2006), criando um comando único de ataque ao fogo (prevenção e combate), profissionalizando os corpos de bombeiros retirando grande parte das competências aos chamados “voluntários” que podem ser generosos e heroicos, mas não são suficientemente profissionais e eficazes.

(um jornal de hoje relata em página inteira como o ex-Secretário de Estado Jorge Gomes recusou o recrutamento de 40 novos bombeiros para a Força Especial de Bombeiros com o argumento de que ainda não estava concluída a regulamentação do Estatuto da FEB. A proposta vinha do presidente da ANPC, Joaquim Leitão e pretendia colmatar falhas ainda durante a futura “fase Bravo”. Não irei ao ponto de dizer que a falta destes quarenta homens em Pedrógão levou à morte de dezenas de pessoas. A história não se inventa nem se reescreve. Todavia, a falta deles não só não ajudou como seguramente prejudicou o combate aos fogos.

Este país adora perder-seem burocracias enquanto a barca do Estado mete água e vai lentamente soçobrando em evitáveis naufrágios.

Por uma vez, imitem os galegos. Ou vão até lá aprender. É perto e há bom marisco, vinho albariño e uma gentileza fraternal. E entendem-nos e não nos pedem para falar galego!

 

 

07
Nov17

Diário político 226

mcr

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A revolução de Outubro foi em Novembro (II)

 

(d'Oliveira fecit 7.XI.17)  

Passam hoje cem anos sobre o inicio da revolução bolchevique (e não Revolução russa, como por aí corre: esta começara havia meses, logo no início do ano com a deposição do Czar e as tentativas de formar um governo que conseguisse segurar a rua, manter a guerra, alimentar o povo e os soldados e criar estruturas democráticas duradouras. Dentre os diversos grupos revolucionários (e eram bastantes) os chamados bolcheviques (maioria) não se distinguiam particularmente. Era mesmo duvidoso que, dentro do Império Russo fossem a maioria do antigo Partido Operario Social Democrata Russo, como começou por se chamar. A minoria (mencheviques) fora batida no exterior (Suiça) mas hoje parece pacífico que no “interior” teria mais adeptos.

Logo que a Revolução se tornou conhecida, Lenine e um grupo de partidários, exilados na Suiça, conseguiram regressar à Pátria num “comboio selado” fornecido pelos alemães que esperavam, com fortes razões, que a chegada deste grupo a Petrogrado aumentasse as dificuldades do Governo Provisório. Corre, em alguns meios, a acusação de Lenin ser um agente dos alemães. Nada o confirma, tanto mais que, desde o primeiro dia, o dirigente bolchevique lançara a palavra de ordem “Paz imediatamente”. Claro que isto favorecia os alemães que assim ficariam livres de uma enorme frente onde aliás a guerra lhes corria de feição. O exército russo, mal armado, mal preparado, mal dirigido só tinha a pequena vantagem do número mas nem isso era importante tanto mais que os exércitos dos impérios centrais tinham soldados de vinte etnias e línguas (muitas delas eslavas) o que enfraquecia sobremaneira a cadeia de comando além do que, como já era conhecido, não garantia a fidelidade de muitos combatentes.

Lenin não é (nem era) flor que se cheire mas agente dos alemães é demasiada ousadia.

Como se sabe, ou não, a palavra de ordem “todo o poder aos sovietes” ou seja aos conselhos nascidos espontaneamente à imagem e semelhança do que sucedera em 1905, foi o argumento usado para desacreditar e enfraquecer os poderes do Governo em funções.

Lenin era um temível estratego e percebeu, mesmo entre duas fugas para local mais acolhedor, que se a rua tivesse o poder as possibilidades de êxito de um pequeno mas disciplinado grupo de revolucionários, eram incomparavelmente maiores. Mais, com o controle do soviete de Petrogrado (por Trotsky) dotava-se de uma vaga legitimidade que mesmo sem a respeitar, lhe servia para desacreditar os adversários.

A tomada do Palácio de inverno foi um passeio. A defesa deste desmoronou-se antes de começarem os combates e só uns vagos pelotões de mulheres soldados opuseram algum frágil resistência. Hoje em dia, passam nas televisões filmes heroicos sobre esse curtíssimo episódio mas isso deve-se tão só ao génio de eisentein e de outros seus discípulos. O dia é descrito como uma enorme confusão, com o poder a desabar sem defesa eficaz, sem reação dos sus partidários e perante a indiferença de quase todos. Posteriormente, o golpe de Estado que expulsou a maioria eleita de deputados (não bolcheviques), apenas demonstrou que com audácia, mera audácia, muita sorte e uma gigantesca confusão havia um novo poder. Poder absoluto, não partilhado, que esmagou um a um os adversários (primeiro a esquerda, depois o resto) como até se consegue perceber em John Reed (o cavalheiro americano que escreveu o hagiográfico voluminho “1o dias que abalaram o mundo”).

A Russia exausta queria apenas comer e deixar de morrer na guerra. Exércitos inteiros retiraram-se das frentes de batalha, os sindicatos “contra-revolucionários” desorganizaram tudo nomeadamente os transportes o que permitiu aos bolcheviques, assentar o poder em Petrogrado e Moscovo, recrutar nas fábricas as suas tropas de choque e começar a organizar (sempre Trotsky) o incipiente Exército Vermelho.

De todo o modo, a escassez alimentar não cessou, as perdas militares continuaram e em breve a guerra civil voltou a aumentar as dificuldades, a fome e a morte de civis.

O Governo (o “conselho de Comissários do Povo”) bolchevique não hesitou em usar mão dura contra os opositores, coisa aliás, muito em voga na Rússia onde o poder nunca fora meigo e muito menos defensor de quaisquer direitos humanos. A temível Okhrana dos czares foi substituída pela Tcheka que se notabilizou logo de seguida na repressão a anarquistas, socialistas revolucionários sem esquecer obviamente os partidários do antigo regime.

(convém recordar que a hostilidade para com os socialistas revolucionários levou uma militante (Fanny Kaplan, presa de 1906 a 1917 na Sibéria) a atentar contra a vida de Lenin. Não teve todo o êxito que previa mas na verdade o dirigente bolchevique nunca mais se recompôs dos ferimentos.)

Não vale a pena desfiar o rosário dos dramáticos acontecimentos que se seguiram mas que podem reconduzir-se a quatro ou cinco pontos (esvaziamento rápido dos poderes dos sovietes, governamentalização dos sindicatos, desaparecimento rápido das independências das nações submetidas ao Império mesmo se estas tenham subsistido formalmente na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A ditadura do proletariado esfumou-se atrás da ditadura do partido único, a repressão política depressa cresceu exponencialmente até ao momento dos processos de Moscovo onde foi liquidada toda a velha guarda revolucionária e bolchevique. Antes, aliás, já tinham sido esmagados (por Trotsky) os famosos marinheiros de Kronstad, ferro de lança da revolução e últimos defensores do falecido slogan “todo o poder aos soviets”. A guerra civil e as grandes fomes (especialmente a da Ucrânia que se mediu em milhões de mortos e em cenas atrozes de canibalismo) consecutivas à perseguição dos kulaks não impediram um crescimento gigantesco da industrialização mesmo se até fins do século a URSS sempre tenha sido um país de severo racionamento de bens fabricados desde os sapatos aos automóveis privados e destes até, pasme-se, aos pensos higiénicos. A repressão atingiu paroxismos nunca igualados que mesmo se mitigados nunca fizeram desaparecer o gulag ou seja a miríade de campos de trabalho forçado que durou até à era de Gorbatchev. Do ponto de vista cultural, o panorama também foi assustador. Ainda hoje se fala da estranha morte de Gorki, dos suicídios de Marina Tsvetaeva Maiakowsky ou Essenin, de Ossip Mandelstam e Isaac Babel (mortos no gulag) e censura a muitos outros, Vassili Grossman, Ana Akmatova ou Boris Pasternak, dos músicos silenciados (e aí vale a pena recordar o fim de Prokofiev e da perturbada vida de Shostakovitch, herói durante o cerco de Leningrado e acusado de formalismo anos depois, esteve em risco iminente de ser deportado). A grande revolução das artes plásticas durou o momento de um suspiro e se hoje se fala de pintura russa apenas se podem referir os emigrados (Kandinsky ou Chagal) que os não saíram foram rapidamente considerados formalistas e inúteis. Não foi preciso Stalin, Lenin e apaniguados espojaram-se em críticas que, mais tarde, Jdanov levou ao delírio absoluto.

Dentre o grupo de dirigentes de topo apenas dois se deram ao trabalho de defender os intelectuais: Bukarine e Lunatcharsky

Em boa verdade, são estes dois bolcheviques quem melhor teorizaram a revolução e as suas consequências. Bukarine foi executado, sorte a que Lunatcharsky escapou porquanto morreu ainda antes dos processos.

Para fazer um balanço da revolução seriam necessárias dez crónicas e mesmo assim ainda hoje não há nenhuma conclusão segura que escape à ideologia. Mesmo com a URSS enterrada, o bloco socialista convertido no que se sabe, o comunismo num estertor medonho que o desvairado líder da Coreia muito bem documenta, a URSS teve uma vida agitada. No fim dos anos 30, Stalin decapitou o Exército Vermelho tornando-se, por isso o principal responsável das primeiras e violentas derrotas sofridas contra os alemães. É bom relembrar que estes tiveram um caloroso apoio da URSS durante praticamente dois anos de guerra (Setembro de 39 -Junho de 41)

Posteriormente, também convém lembrar a fortíssima ajuda americana nos primeiros meses após a invasão alemão. em termos quantitativos os americanos forneceram material e diversos suprimentos no valor de nove mil milhões de dólares o que, se é três a quatro vezes menos do que à Inglaterra é quase vinte vezes mais do que a ajuda à China. Não foi isto que decidiu a guerra, sequer a vitória soviética mas a ideia de que a URSS venceu sozinha e que isso a torna credora do reconhecimento universal é risível. Globalmente, os aliados enfrentaram dois exércitos fortíssimos (o alemão e o japonês) e durante vários anos a iniciativa pertenceu ao Eixo.

De todo o modo, a URSS saiu vencedora e comportou-se como tal fazendo cair sobre metade da Europa uma cortina de ferro que durou quarenta anos. Depois, tudo esboroou como um castelo de cartas. entretanto a “Revolução”, o “socialismo num só país”, a “pátria dos trabalhadores” e outros narizes de cera rapidamente mostraram o que valiam. E os protestos não tardaram. Em Berlim (17 junho 1953), na Hungria em 1956, a “ordem” só foi restabelecida pelos tanques russos. A mesma ordem voltou a cambalear em 1968 em Praga. E a receita foi a mesma. O “Bloco socialista” disfarçava mal um império e, nesse capítulo os dirigentes soviéticos foram discípulos fieis de Stalin. quando foi necessário. Krutchev viu-se “obrigado” a liquidar Beria, depois de vencer Malenkov, Molotov e Bulganin; depois da crise dos mísseis durou pouco e foi substituído pelo imóvel e medíocre Brejnev e durante anos viveu semi preso em casa.

De qualquer modo, o calcanhar de Aquiles da “Revolução” foi sempre a economia. E mesmo os grandes êxitos (inicio da corrida espacial) ou a criação de uma formidável indústria de guerra foram interiormente “compensados” por uma escassez crónica de bens de consumo, pela falta de habitação nas grandes cidades, pela existência de passaportes internos que dificultava a circulação de pessoas no território soviético. O Partido comunista era tão só uma imensa teia burocrática incapaz de inovar, de pensar o século XX, de estabelecer metas para o futuro. E como agora se percebe, criou as bases para as grandes fortunas russas do presente onde a ideologia visível se reduz ao poder do dinheiro e a um novo riquismo insultuoso. Não espanta que só meia dúzia de saudosos celebre o centenário. Numa frase de um cinismo aterrador, Lenin terá dito que o “comunismo era o poder dos sovietes mais a eletrificação da Rússia”.   E de facto assim sucedeu. Os ideais marxistas, a herança das duas primeiras Internacionais, foram grosseiramente postergados. A geração revolucionária foi morrendo rapidamente, na guerra civil, durante os processos de Moscovo, na deportação e no exílio. Nem Trotsky, refugiado no México, escapou. Como não escaparam os comissários políticos enviados pelo mundo fora e particularmente para a Espanha. Como não escaparam os agentes secretos do Komintern na Europa. Nem os espiões que informaram sobre a invasão alemã. Hoje em dia, questiona-se o heroísmo e a eficácia de Trepper o mítico dirigente da “Orquestra Vermelha”. A verdade é que, no fim da guerra foi preso e passou dez anos na prisão. Todavia, se como afirma um historiador recente, ele tivesse ajudado os alemães não há duvida alguma que teria sido executado. Assim, limitou-se a sofrer as consequências de ter sido agente comunista. A regra geral era a seguinte: quem tivesse passado demasiado tempo no Ocidente, tornava-se só por isso um perigo pelo que ou o internavam num campo siberiano ou o fuzilavam imediatamente. Nem as centenas de milhares de prisioneiros de guerra soviéticos na Alemanha escaparam a esse destino.

As revoluções não exactamente jogos de salão, nem folguedos de uma noite de Verão. Todavia, a Revolução de 17 deu origem a um imenso desastre, político, cultural, étnico e económico que aliás teve sequências no Revolução Cultural ou nos poucos mas sangrentos anos de domínio dos kmeres vermelhos no Cambodja.

Pelos vistos há quem a queira celebrar. E há saudosos. Exactamente como em Itália há ainda quem celebre o triste Mussolini enquanto na Alemanha aparecem uns cabeças rapadas travestidos de Juventude hitleriana. Mas, neste (e noutros casos em outras latitudes) caso é bom lembrar Marx: A história repete-se mas da segunda vez é como farsa.

*na gravura: cartaz dos tempos da Revolução. Com Lenin, um extraordinário estratego mesmo se, do ponto de vista teórico, deixe bastante a desejar. As suas grandes obras -aliás pequenas e muito datadas- tem a ver com o dia a dia revolucionário. E são nesse domínio certeiras. Ao contrário, as suas incursões pela filosofia (Materialismo e Empirocriticismo" ) deixam muito a desejar: longas, chatas e francamente desinteressantes.

** Sobre os "conselhos operários" não são os russos quem interessa. cita-se para quem queira dois autores Anton Pannekoeke e Rosa Luxemburgo que teorizaram sobre o conceito que deu origem aos sovietes. 

02
Nov17

Estes dias que passam 345

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O regresso do presidente

ou o não regresso

ou...

 

Parece que o senhor Puigdemont volta à “pátria” desalmada, depois de não ver Bruxelas em festa com a sua fulgurante presença (e nem refiro os seus consellers igualmente em trânsito pela capital belga). A conferência de imprensa, não obstante ser dada em três línguas (não me pareceu ouvir catalão, provavelmente porque ninguém perceberia) foi de uma pobreza dramática. Eu não sei se o sr. Puigdemont se apercebeu do ridículo da sua posição, da inabilidade da sua fuga precipitada, da impossibilidade (legal, teórica, política e ética) de alguém lhe conceder asilo político.

Também não consigo entender como é que alguém se lembra de desandar para paisagens mais amenas e deixar para trás cinco companheiros de Govern, para não falar em milhares de cidadãos desamparados, desesperados e (eventualmente) envergonhados com a deserção do chefe.

A menos que.... a menos que o pobre Carles quisesse fazer um frete a Rajov. Este, se bem conheço o galego, deve ter esfregado as mãos de contente. Um “sedicioso” em fuga confessa todos os crimes mesmo os que não ocorreram.

.................................

Estava eu entretido com outras coisas, sem terminar o texto que acima se lê, quando afinal verifico que o fugaz fugitivo não voltava à “terra liura” porque tanto suspirava. À terá onde, em conferência de imprensa, jurou voltar. Em duas ou três horas mudou mais uma vez, e como é seu costume, de opinião. Puigdemont não só erra a cada momento como é errático. Com esta (sei lá se derradeira) posição complica a vida dos seus companheiros. Dos que ficaram e dos três que, tendo-o acompanhado, entenderam vir defender-se em Madrid. Dar a cara. Ter a coragem das suas opiniões e convicções, mesmo se delas se discorde. Carles, o insubmisso inconstante, ficou no quentinho de Bruxelas, amparado por um advogado flamengo que já se distinguira por defender os pistoleiros da ETA. Está, pois, em boa companhia mesmo se qualquer pessoa dotada de senso duvide que ele, Puigdemont seja capaz de brandir uma pistola mesmo contra um adversário desarmado. Carles é tímido, para não dizer que é um cobardolas até dizer basta.

Afirma ele, pelo advogado dos mafiosos, que não confia na Justiça espanhola que, porém, inspira todos os restantes -e são uma boa dúzia- de dirigentes independentistas. A menos que os anime uma fé de mártires (sempre convenientes para uma causa nada e criada na boa burguesia catalã), eles esperam poder enfrentar a juíza que os vai ouvir hoje sem grande sobressalto. Todavia, e é aí que bate o ponto, a fuga de Puigdemont e de três ou quatro ex-consellers, basta, segundo juristas de várias tendências (incluindo no lote catalães), para se ordenar a prisão preventiva por receio de fuga. Aqui temos um belo exemplo da solidariedade do ex-President e do desnorte que campeia no bando nacionalista. Isto, esta caótica e insensata retirada do campo (incruento) de batalha, permite ver mais claro como a campanha independentista foi, como se alimentou de mentiras (Junqueras garantia mesmo depois da saída da “Caixa” que aquilo era mero folclore e que tudo regressaria à normalidade depois da declaração de independência), de obsessivos erros continuados (uma Catalunha independente da Espanha não teria nunca lugar na União Europeia, não exportaria os seus produtos com a actual liberdade, não conseguiria para os seus cidadãos a livre circulação na União, perderia seguramente grande parte do seu mercado exportador (que é, lembremos, intra-espanhol) não conseguiria para os seus habitantes um mirífico estatuto de dupla nacionalidade (como se anunciava) para não falar nos entraves que uma Espanha ferida poderia criar-lhe na fronteira (que é duas vezes maior do que a francesa). É duvidoso que conseguisse voos que sobrevoassem o espaço aéreo espanhol para o seu aeroporto e arriscava que as empresas estrangeiras até agora sedeadas em território catalão continuassem lá, sobretudo as que exportam (industria automóvel por exemplo). A propaganda independentista baseava toda a sua propaganda na aceitação cordial, simpática, construtiva do negregado “Estado espanhol”, sobretudo deste Estado ora governado pelo Partido Popular.

À margem: leiam o programa do partido de Puifdemont ou da Esquerra Republicana e tentem vislumbrar na sua filosofia intrínseca e nos princípios para que apelam, diferenças substanciais com o programa do PP.

Ainda mais à margem: uma gloriosa mas escassíssima minoria de entusiastas portugueses (os padeirinhos de Aljubarrota) sentiram-se profundamente irmanados com o agrupamento CUP que, numa região eminentemente burguesa e intrinsecamente capitalista por convicção e tradição, propõem sair da Europa, do euro e mergulhar nas delícias de uma espécie de via albanesa ou coreana( do norte, entenda-se).

Eu bem sei que estes lusitaninhos ardentes estão a dois passos de passar a colaboradores, ou aliados íntimos, do PS, de eventualmente, nele se integrarem. Vontade não lhes falta e muito menos descaramento mas que a coisa vem aí, ai vem, vem. Podem estar certos. O poder cheira deliciosamente a quem está à frente dele e não lhe toca. Ou como alguém já disse: o poder corrompe. Muito ou pouco, mas corrompe, desvaria, enlouquece.

31
Out17

Au bonheur des dames 434

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Carta a um aspirante a padeira de Aljubarrota

 

Ex.ª Senhora

Entendamo-nos: longe de mim tentar apouca-la, retirando-lhe algum eventual título universitário que possua. Mesmo que padeira seja uma profissão eminentemente útil, eventualmente mais útil e mais, muito mais, necessária que um quarteirão de licenciaturas ornamentais que as nossas universidades prodigam. De pão precisamos todos, se possível fresco, bem feito, bem tostado e com pouco sal.

Isto de padeira é apenas para lembrar a lendária Brites, padeira nos arredores da Aljubarrota que terá mandado ad patres sete castelhanos fugidos da curta mas definitiva batalha que garantiu o trono a João, Mestre de Avis contra João I, rei de Castela e marido de Beatriz, herdeira legítima de seu pai Fernando, o Formoso, ou melhor de Fernando o rei da lei das sesmarias, o reconstrutor da muralha do Porto e muitas outras fortalezas do Reino, enfim o marido apaixonado e cego de amor de uma intrigante mulher, inteligente e ambiciosa que conseguiu mal dispor o povo, os mercadores de Lisboa e alguma aristocracia.

Não há provas da valentia da gentil padeira nem da mortandade infligida aos invasores e ainda menos da história dos infelizes soldados terem sido atirados para o forno. Porém, a lenda ficou. Ficou como o milagre de Ourique (que um meu antepassado terá testemunhado) ou a bela, verdadeira e pungente história de Duarte de Almeida, o Decepado.

(Verifico neste momento que estou para aqui a gastar o meu latim com uma jovem (enfim uma senhora com metade da minha idade) que provavelmente teve nos seus anos de secundário uma passagem breve e descuidada pela História pátria. )

Já aqui, neste blog malicioso e inconveniente se referiu a padeira de Aljubarrota nomeando alguns entusiastas recentes da Catalunha liure (escrevi liure, que é catalão, língua em que me aguento) que, ao arrepio da história recente ou pregressa, amam desmesuradamente aquela terra, Gaudi e a “botifarra” enquanto abominam medonhamente Castela e a sua natural extensão a Espanha. É o nacionalismo português em toda a sua empáfia, o nacionalismo “brigadeiro” citado por Eça (Eça, Ex.ª Senhora é um escritor do século XIX), a afirmação bem lusitana da nossa pertinaz liberdade republicana.

Note que, V.ª Ex.ª não é única: no ridente torrão de açúcar não faltam os inimigos de Castela que ainda não perceberam que, depois dos Reis Católicos (trata-se de um casal já antigo de que poderei fornecer biografia caso queira) deixou de existir tal reino e apareceram a Espanha, o Império etc... Normalmente, é gente conotada com os conservadores quem usa Castela mesmo sabendo (e eles sabem História) que o termo é redutor e inadequado. De todo o modo, há entre a lusa e fera gente um sólido horror ao vizinho, maior, mais próspero, mais conhecido, mais rico. Perpassa neste estremecimento de patriotismo desvelado a lembrança dos reis Filipes (I,II e III ou II,III e IV de Espanha) que depois da morte do aventureiro Sebastião, foram reis de Portugal (ou seja Portugal nunca foi anexado a Espanha mas permaneceu como reino independente mesmo se a sua sorte estivesse ligada à de Espanha e à mercê das guerras que esta travava com ingleses, holandeses, franceses). Terá sido, justamente a última guerra de independência (1640-1668) dita da Restauração, que desatou, por cá, um estremecido amor pela Catalunha. Corre por lá um pio convencimento de que os combates na Catalunha salvaram Portugal. Conviria lembrar que o teatro de guerra espanhol era bem maior do que a Catalunha e com adversários bem mais formidáveis. A Catalunha, de per si, nunca impediria uma intervenção militar em Portugal que, aliás, ocorreu e com alguns insucessos para as nossas armas até ulteriores vitórias, nossas e dos nossos aliados, e um tratado de paz celebrado em 1668.

Não fomos salvos pela Catalunha nem, aliás, esta região autonómica desempenhou em relação a Portugal qualquer papel de relevo. Aqui para nós, o que existe é um enorme desconhecimento que vai desde o não haver cem portugueses que consigam ler catalão até uma gigantesca massa de compatriotas que sabem tudo sobre o Barcelona FC, menos todavia do que os que sabem tudo sobre o Real Madrid onde pontifica o “melhor jogador do mundo”.

Passa-se, entre alguma esquerda portuguesa, quanto à Catalunha o mesmo que antes se passara quanto à Grécia. A mesma ignorância espessa e o mesmo arroubo que morre ao primeiro choque com a realidade. Tsipras já só é um fantasma, Varufakis uma ilusão e os dirigentes catalães agora em parte incerta (Molenbeeck, Bruxelas?) um par de heróis falidos e falhados de uma causa inexistente.

A “república catalã” durou, nesta fase, o tempo de um suspiro para não referir uma outra e menos agradável exalação corporal. Aquilo foi fogo de vista, uma acendalha claramente de Direita soprada por uma CUP dita de extrema Esquerda, baseada numa história de mentirolas repetidas até à exaustão e que condenavam cinco milhões de pessoas a uma existência pária numa Europa que os não recebe, os não aceita, os não compreende. A Catalunha que V., num artigo de opinião, exaltava nunca existiu historicamente, viveu sempre confortavelmente dentro de uma Espanha plural e, como diz uma expressão muito em uso nos meios catalães mais nédios mas a la mode, foi sempre uma “metrópole que queria libertar-se das suas colónias”. A resposta aos devaneios de um tonto Puigdmont ,de uma senhora Forcadell, de um cínico Junqueras, foi dada nas ruas e não serão os fascistóides flamengos da Bélgica quem amparará os escafedidos consellers ora em fuga.

Os dirigentes “independentistas” pensaram que, nas ruas, o povo se insurgiria, que a repressão criaria vítimas e emblemas sangrentos que, a posteriori, justificariam aquelas discursatas vãs, aquele caminho aventureiro percorrido nos últimos meses. A economia, realidade cruel, encarregou-se do primeiro aviso. Duas mil empresas transferiram as sedes para territórios mais seguros, destinatários dos seus produtos. Nem os bascos fizeram mais do que uma piscadela de olhos. Rajov não é, queiram eles ou não, um discípulo de Franco. De resto, vem da mesma família ideológica de Puigdemont, da Esquerra Republicana que de esquerra nada e de republicana só o nome (a última vez que se ouviu falar dessa gente foi para se ficar a saber que não gostavam de árabes, mormente emigrantes). Metade da Catalunha é constituída por 1ª ou 2ª geração de emigrantes galegos, estremenhos, andaluzes e outros espanhóis. Estes, trabalhadores modestos, na maior parte não estão interessados numa independência e numa república que não só os afasta das suas origens mas sobretudo ameaça os seus empregos . Por outro lado, outros catalães de pura cepa também não se reveem num país que se “enroca” e nada propõe que não seja um hino semi selvagem (Els segadors”), uma bandeira que deu as cores à de Espanha e um par de dirigentes que foge do eventual perigo mais depressa do que uma lebre assustadiça. E que deixa os seus cidadãos sós e desamparados, provando, assim, que apenas os considera como carne para canhão. O fugidio Puigdemont esperava que Rajov mandasse os tanques e que os independentistas que povoaram as ruas no sábado, embrulhados na senyera estellada se portassem como os checos diante do exército vermelho em Praga. E que alguém, se possível um jovem, se imolasse pelo fogo (foc). Azar! nem tanques nem gente nas ruas. Ou melhor umas centenas de milhares de cidadãos defendendo a unidade nacional, jurando que também eles são Catalunha e Espanha.

De há um par de dias, os enganados independentistas vagueiam pelas ruas azabumbados. O céu caiu-lhes em cima mas eles não são o chefe gaulês de Asterix. Quanto aos do Govern, os corajosos passeiam-se na Grand Place sob a proteção de um flamengo fascistóide para mostrarem à Europa quão europeu é o problema catalão.

Ex.ª Sr.ª, eu sei que o meigo coração de Vexa se arrebata por qualquer longínquo clarão no horizonte. Onde esvoaçou um bandeira vermelha e amarela com um estrela no canto, V terá visto, claramente visto, o lume vivo do heroico proletariado de Barcelona. E lembrou-se dos dias gloriosos da semana sangrenta quando o exército reprimiu duramente a revolta dos populares que se recusavam a ir para a guerra. Ou recordou os outros mais próximos da reacção popular e anarquista durante os inícios da guerra civil. Provavelmente, esqueceu que foi justamente em Barcelona, e um pouco por toda a Catalunha, que o “verdadeiro partido do operariado” esmagou na rua e depois nas “checas” o que restava de anarquistas e, sobretudo, os militantes do POUM. Perante a indiferença, aliás, da população que, à semelhança da burguesia quinta-colunista, aguardava a chegada das tropas franquistas que entraram na cidade sob aplausos e flores bem ao contrário da Madrid malvada que aguentou sozinha um cerco de anos. Mas isto é História antiga e V não se ocupa dessas peripécias. V ama ternamente Puigdemont, Junqueras e Forcadell e as bravatas soltadas num Parlament desertado pelas forças políticas constitucionalistas.

E, acaso, esperava, sonhava com uma Comuna de Paris traduzida em catalão. Enganou-se, Ex.ª Sr.ª a História só se traduz em calão e quando se repete a coisa torna-se uma farsa.

Está, pois, V.ª Ex.ª órfã, outra vez. Órfã política, órfã de causas, entenda-se. Terá de esperar pela próxima. A Escócia é pouco provável, na Itália, a Lombardia e o Veneto apenas querem maior autonomia, resta a Flandres que não anda nem desanda. No resto do mundo, há sempre a causa da Venezuela ou a da Coreia do Norte que a China já se declarou marxista-leninista-maoísta-capitalista e agora só aceita o pensamento inefável do seu actual presidente.

É chato.

“se corres sempre endins

de la nit del teu odi

............

el fuet i l’espasa

t’han de governar”

 

Deixo-a com uns versos de Espriu que seguramente saberá entender. Ou não. Se calhar não. Definitivamente, não!

*a ilustração:  Joan Miró

31
Out17

Um novo ciclo para o Tâmega e Sousa

José Carlos Pereira

A edição online do jornal "A Verdade" publica um texto de opinião no qual reflicto sobre o novo ciclo político na região do Tâmega e Sousa, que passou a contar desde as últimas eleições com uma larga maioria de autarquias presididas pelo Partido Socialista:

 

"Os resultados das últimas autárquicas pintaram de rosa a região do Tâmega e Sousa, com o PS a conquistar a presidência de oito municípios (Resende, Cinfães, Baião, Marco de Canaveses, Castelo de Paiva, Paços de Ferreira, Lousada e Felgueiras, aqui em coligação com o Livre), deixando para o PSD apenas três autarquias (Celorico de Basto, Amarante e Penafiel, nestes dois últimos casos em coligação com o CDS).

Esta nova realidade política traz responsabilidades acrescidas ao PS, aos seus autarcas e dirigentes, na medida em que se espera que o mandato que agora se inicia possa imprimir uma nova dinâmica às políticas de desenvolvimento e coesão imprescindíveis no âmbito da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Tâmega e Sousa. Para tal será necessário encontrar uma liderança política forte, algo que não sucedeu no último quadriénio.

Desconhece-se se os autarcas e as estruturas partidárias já definiram quem é que está mais bem posicionado para presidir à CIM, mas essa decisão deve ser convenientemente ponderada, de modo a que o território possa contar com a liderança de um autarca proveniente de um dos municípios com peso demográfico e político, experiente, capaz de gerar consensos e de agregar todos os municípios da região em torno de uma estratégia mobilizadora. Isto depois de ficar esclarecido quem está de corpo inteiro na CIM do Tâmega e Sousa, pois na campanha eleitoral foi mais uma vez evidente o propósito do presidente da Câmara de Paços de Ferreira de vir a integrar o seu concelho na Área Metropolitana do Porto, seguindo o caminho já trilhado por Paredes.

O facto de o PS ter conquistado a maioria das autarquias numa altura em que também está no Governo constitui uma oportunidade para os autarcas socialistas da região se empenharem em ajudar a conduzir o Tâmega e Sousa para um patamar superior na generalidade dos indicadores socioeconómicos. Com a ampla maioria de municípios conquistada pelos socialistas, deixam de fazer sentido, por sua vez, os anteriores acordos de rotatividade na CIM entre autarcas do PS e do PSD, que se compreendiam quando era equivalente o número de municípios presididos por um e outro partido.

Há um longo caminho a percorrer no Tâmega e Sousa e defendo há muito tempo que a CIM não se pode cingir a uma mera estrutura técnica que concentra a gestão de projectos e fundos comunitários. Dentro das competências que já estão ao seu alcance e das que a anunciada descentralização lhe venha a atribuir, a CIM deve assumir um protagonismo crescente em áreas transversais como a mobilidade, infra-estruturas, ambiente e recursos naturais, turismo, cultura, educação, economia e emprego.

A região enfrenta problemas sérios de mobilidade que devem ser colmatados com transportes públicos que liguem os pólos urbanos com maior conectividade, em estreita relação com a linha ferroviária do Douro que atravessa vários concelhos do Tâmega e Sousa e está próxima – assim se espera! – de ver concluída a electrificação até Marco de Canaveses. O acesso aos hospitais públicos de Penafiel e de Amarante, que tanto transtorno causa às populações mais afastadas, deve ser privilegiado por essa política de transportes. Outros investimentos em infra-estruturas, como o IC 35 e as ligações à ponte da Ermida e de Marco de Canaveses a Cinfães, que aproximam as duas margens do Douro, têm de ser prioridades reivindicadas incessantemente pela região, seja quem for que ocupe o poder em Lisboa.

Também no ambiente e recursos naturais há margem para a gestão a cargo da CIM melhorar a situação actual. Seja na gestão e defesa da floresta, na preservação e limpeza de montanhas e rios, na valorização e tratamento de resíduos sólidos e industriais ou no abastecimento de água e saneamento, que ainda se encontra num nível deficitário em vários concelhos, alguns dos quais fizeram opções de concessão das quais hoje se arrependem e que muito ganhariam com uma solução à escala supramunicipal.

O ensino deve ser uma preocupação central num território que apresenta índices elevados de abandono e insucesso escolar e, a jusante, défice de qualificações e emprego. É necessário encontrar uma estratégia articulada que tire partido das excelentes instalações hoje à disposição e defina a aposta no ensino e na qualificação como única forma de assegurar o emprego e o futuro dos mais jovens. Os responsáveis políticos devem procurar reforçar a oferta existente no ensino superior politécnico e no ensino profissional, diagnosticando a procura que chega do mercado de trabalho num esforço articulado com as associações empresariais e empresas de referência da região. Cabe, de igual modo, aos poderes públicos estimular a vocação e a iniciativa empreendedora dos activos mais jovens, disponibilizando-lhes infra-estruturas, programas e incentivos para esse efeito.

É fundamental que o tecido económico do Tâmega e Sousa, pujante em áreas como o mobiliário, a metalomecânica, o têxtil ou a indústria extractiva de granito, se sinta acarinhado e apoiado nos seus esforços de internacionalização e de conquista de novos mercados. Do mesmo modo, seria vantajoso que a região contasse com uma estratégia integrada de captação de investimento, tirando partido das áreas de acolhimento empresarial, dos recursos e dos incentivos existentes em cada um dos municípios. A competição saudável pela atracção de investimento não significa que os 11 concelhos devam permanecer de costas voltadas. A escala regional proporciona ganhos na promoção do território impossíveis de alcançar quando se trata cada um dos municípios de forma isolada.

O turismo e a cultura, intimamente ligados, têm já iniciativas de vulto que envolvem toda a região e que tiram partido do relevante património cultural e natural existente. A Rota do Românico é o grande cartão de visita, mas muito há ainda a fazer a partir dos eventos que já se realizam, dos equipamentos existentes e dos produtos endógenos de excelência, à cabeça dos quais se encontra o vinho verde, distinguido nacional e internacionalmente. A promoção turística em torno do património, dos produtos locais ímpares, da gastronomia e de recursos tão valiosos como os rios internacionais que atravessam a região ganhará com uma estratégia que capte turistas que visitem mas também permaneçam entre nós.

São muitos os desafios que se colocam aos próximos responsáveis da CIM do Tâmega e Sousa, que estão longe de se esgotar nos domínios atrás enunciados. Caberá aos cidadãos, às empresas e às forças vivas da região elevar o seu nível de exigência perante quem nos representa e avaliar a capacidade demonstrada pelos autarcas, não apenas de intervirem no seu concelho mas também de se preocuparem com a região como um todo."

30
Out17

Diário político 225

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o incendiário palavroso 

d'Oliveira fecit 30 Out 17

 

Domingo, noticiário das oito. Subitamente o ecrã aparece ocupado por uma criatura exaltada, crispada, tonitruante, ameaçadora. Primeiro poder-se-á pensar que se trata de um porta voz do Daesh, de um radical catalão, de um adepto furioso do Brexit. Depois, as coisas tornam-se mais simples: a criatura falava português, um português primário mas português, apesar de tudo. E ameaçava.

Vai-se a ver trata-se de um homenzinho presidente eterno da Liga dos bombeiros que, num dia extremamente perigoso, se reunira numa espécie de congresso a que o Primeiro Ministro teve de assistir.

De seu nome Jaime Marta Soares, consta do seu currículo que foi sete vezes deputado, varias vezes presidente da mesma câmara e candidato infeliz à de Coimbra, há poucos meses. Terá passado pela Faculdade de Direito mas não concluiu o curso que na altura, anos 60, tinha as suas pequenas dificuldades. todavia é, ou foi, bombeiro e preside à Liga.

Já há uns meses, tinha anunciado com espalhafato que sabia umas coisas do incêndio de Pedrógão. Pelos vistos tal declaraçãoo morreu solteira e na praia perante as insistências do Ministério Público. Na altura, alguém me disse que a criatura tinha muito destas atitudes: entradas de leão e saídas de sendeiro. Porém, as televisões adoram-no. O abencerragem é um sanguíneo, um espalha brasas (o que é mau num bombeiro mesmo sem actividade na linha da frente) e tem topete coisa que fará muito efeito nas sociedades recreativas por onde passeia a jactância e o bigode e barba farfalhudos.

Ontem, perante um Costa surpreendido mas calmo, o “revolucionário” Soares ameaçava com “os bombeiros na rua”! Ai querem afrontar-nos? Pois vão ver em que se metem!

Cheguei a temer que, muito cgtpinamente prometesse uma greve tremenda: o país a arder e os soldados da paz a assobiar para o lado. Parece que nem tanto. Os bombeiros ofendidos e unidos ocuparão ruas e praças do país em boa e civilizada gritaria contra Costa, contra a profissionalização, conta a futura Alta Autoridade, contra a unidade de missão, contra sei lá que mais coisas. Pelos vistos, sentem-se injustiçados. E vítimas! Às tantas foram eles que morreram às dezenas por esses pinhais fora onde ninguém os via. Também quem os não viu não volta a vê-los: debaixo de sete palmos de terra os falecidos não atinam com os vivos que passam perto. Nem com o tal Jaime Soares.

Para minha surpresa, Costa, desta feita, respondeu com prudência, contenção, civilizadamente, à berrata que, dizem-me, foi coroada de aplausos.

Não duvido que numa casa onde não há pão todos gritem e ninguém tenha razão. No momento actual, com meio país ardido, é fácil encontrar culpados e, mais ainda, encontrar desculpas. Agora, que se tem de rapidamente arranjar soluções (reconstrução, pastos para o gado sobrevivente, alfaias agrícolas, destino a dar ao material ardido, solução urgentíssima para as colmeias que restas cujas abelhas correm o risco de morrer à fome na terra queimada e devastada, etc) conviria que o cavalheiro Soares adoptasse uma pose menos comicieira, menos ameaçadora, menos de ferrabrás de feira e, mesmo se, provavelmente, ambos não tenhamos Costa em alta estima, tratar com respeito um primeiro ministro que até foi ao congresso. A um congresso que se realizou quando o país corria riscos elevadíssimos de novos fogos! Ou, por outras palavras para ver se me entendem: A um congresso que, no caso de catástrofe repentina como a última, poderia ser responsável por forte inacção dos bombeiros cujos comandos ali estavam todos para re-eleger o senhor Soares que, há que dizê-lo já tem idade para deixar essa tarefa a gente mais nova. Mas, pelos vistos, a criatura é assim: quarenta anos de poder local, sete vezes deputado, dezenas de anos bombeiro e variadíssimos presidente da Liga. E não se cansa ou pensa que não se cansa, que é imprescindível, o melhor da rua. A triste cena do congresso prova à evidência, mesmo se o reelegem a 70%, que a criatura está gasta. Tão gasta quão gasta e inútil foi a sua deposição sobre os incêndios de Pedrogão.

Façam-lhe uma estátua, dediquem-lhe duas ruas e mandem-no para a reforma, aparar o bigode.

26
Out17

Au bonheur des dames 433

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A remoção da moção

 

Por mais que uma pessoa não queira espantar-se, as circunstâncias não a deixam em paz. Desta vez, temos a moção de censura do CDS.

Ora atente-se: esta moção como duas dúzias de outras anteriores no actual regime, estava condenada ao fracasso. Politicamente, este fenómeno não passava de um anunciado nado-morto.

Não havendo maioria para a votar, a moção ia morrer de morte macaca. O CDS sabia disso perfeitamente e, supõe-se que a geringonça não o ignorava.

Isto dito, pergunta-se: então, supondo que a professora doutora Cristas não é tonta (e pelo que se sabe e vê, não o é) que efeito pretendia o CDS?

A princípio, tinha um conjunto de propostas sobre o modo de combater os fogos, a situação decorrente dos mesmos e o reordenamento de todo o interior. É facto que boa parte das propostas do CDS estavam, ou iriam estar, abrangidas pelas medidas propostas pela Comissão Independente. Sobravam algumas que ou não foram ainda acolhidas ou poderão ser desnecessárias para já. De todo o modo, na altura do anúncio da moção ainda não se sabia com segurança que medidas exactas iria o Governo tomar num Conselho de Ministros extraordinário. Claro que o bom senso parecia apontar no sentido de serem acolhidas todas as propostas da CI mas uma coisa é o bom senso e outra a política quotidiana.

Uma vez anunciada a moção, começou a berrata. Que aquilo era uma vileza, uma canalhice, que o país estava de luto, que havia aproveitamento político...

Lembremos que quando se apresenta uma moção de censura é porque, para além da sua eventual justeza, alguém quer tirar dividendos políticos. Por isso mesmo, houve já um quarteirão de moções perdidas. A maior parte delas, aliás, vinha da Esquerda que, agora, se disfarçava de virgem pura e incapaz de querer dividendos políticos de uma acção normal em qualquer Parlamento democrático.

Se quisermos verificar a cronologia, decerto notaremos que entre a decisão de um Conselho de Ministros (ao sábado) e a discussão da moção (uma terça imediatamente a seguir) pouco espaço resta para eventualmente modificar a agenda da Assembleia.

Mas há mais: o CDS nunca terá sequer sonhado com uma vitória. Aquela gente terá defeitos mas ainda deve conhecer a aritmética.

Resta, pois, tentar perceber o que é que o partido “centrista” (convenhamos conservador com uns laivos de Democracia Cristã) queria. Será que apenas (e já não é nada pouco) queriam mostrar ao país alarmado e em estado de choque, quem estava com um Governo que, não há volta a dar-lhe, falhou clamorosamente (uma Ministra incompetente, uma Direcção da Protecção Civil sem preparação, sem qualidade, nomeada as mais das vezes com base em critérios políticos, uma tibieza generalizada por parte dos poderes públicos, um Primeiro Ministro incapaz de mostrar uma réstea de comoção) e mortes, muitas mortes. ).

O CDS pretendeu, e conseguiu, mostrar aos portugueses, ou a alguns portugueses que BE e PCP, falam muito, exigem muito mas que, quando a coisa é a sério, não tiram da sua vozearia as consequências que poderiam parecer impor-se. Que o PS, claramente fragilizado, como aliás afirmou um dos novos ministros, só se aguentava graças à muleta da geringonça.

Poder-se-á retorquir que isso é coisa por demais sabida. Desde o dia em que um Costa, derrotado nas urnas, ressuscita da tumba eleitoral, para formar um governo que não tem paralelo na UE e que só durará enquanto este instável equilíbrio se mantiver. Até há meses, futurava-se que Costa, mal se apanhasse com as costas quentes e a popularidade em alta, tentaria novas eleições e a maioria absoluta. E, por isso mesmo, durante, longo tempo, PC e BE nem se mexiam. Não havia greves, manifestações, protestos públicos, mas tão só umas mansas admoestações, uma espécie de pedidos a medo, ora deem lá qualquer coisinha para isto e para aquilo.

Com os fogos, esta idílica paz estoirou. Primeiro, porque o que se passou foi medonho. Depois, porque os muletas do PS fugiam a sete pés de qualquer responsabilidade na actual situação, finalmente porque o próprio PS ficou atordoado e incapaz de se mobilizar a tempo e horas. Tudo isto, notem, depois de uma eleições autárquicas que confortaram o PS, nada deram ao BE e mostraram um cartão vermelho vivo ao PC que perdeu de uma assentada dez municípios. Entretanto, o PPD afundava-se e o CDS registava um score a todos os títulos notável. Claro que as perdas do PSD são eventualmente reversíveis e a vitória do CDS é, tão só a vitória de um pequeno partido. Não faz mossa a ninguém. É bom para o ego de Cristas mas ainda não foi desta que se fez História com H grande.

A discussão da moção foi um espectáculo pungente. Primeiro, a moção estava esvaziada pela assumpção das medidas propostas pela Comissão Independente. Depois, porque já tudo fora dito antes, quer pelos adversários, sobretudo, mas também pelos defensores da moção. Finalmente, porque daquele delirante gargarejo de tenores áfonos pouco ou nada saiu de novo.

É bom lembrar que, entre nós, apenas uma moção de censura teve um imerecido êxito. Aquela suscitada por um partido nascido do nada e a ele, feliz e rapidamente, regressado, contra um governo minoritário de Cavaco Silva. Com uma confrangedora miopia política, o PS apoiou o PRD (um ajuntamento sebastianista, eanista e populista) e, apesar dos avisos de Mário Soares (na altura Presidente da República), Cavaco tombou para depois se levantar com duas esmagadoras maiorias absolutas.

Só que, enquanto o PS pouco tinha a perder e o PRD corria o risco de quase desaparecer, Cavaco tinha tudo a ganhar. E o PC, por seu lado, olhava para aquilo e sentia que, fosse qual fosse o resultado, alguma migalha lhe cairia no regaço.

Desta vez, Cristas nada tinha a perder. Queria, e conseguiu, colar o PS ao BE e ao PC (não vale a pena falar nos inexistentes verdes e no PAN. Uns, porque são um pseudónimo pouco original do PC e outros porque nunca conseguiram explicar ao que vinham, como, porquê e para quê. Além do mais são um puro produto urbano, uma espécie de escoteiros laicos e pouco imaginativos. Eventualmente, devem o seu solitário deputado ao voto de protesto mas nem isso merecem.

Não vou referir o PSD. Cumpriram a sua parte mas estão metidos numa eleição interna que, até à data apresenta dois candidatos piores um que o outro, envelhecidos e sem imaginação. De todo o modo, quem ganhar vai ter de atravessar o deserto da oposição e pode mesmo acontecer que, se as coisas melhorarem, apareçam outros candidatos mais credíveis, mais novos e menos cansados.

Em último lugar: a derrota da moção fortalece ou fragiliza o Governo. Costa tentou dizer que a derrota da moção fortalecia o Governo. Não é verdade a menos que o seu resultado fosse imprevisível. Não o era. Sabia-se, sem dúvida alguma, que a hipótese da moção vencer era inimaginável. E tê-lo-á fragilizado? Também não parece garantido. O Governo vive do apoio do BE e do PC mas isso já não é um mistério para ninguém. De todo o modo, PC e BE tiveram algum trabalho par explicar o seu apoio. Foi por isso, e só por isso, que repartiram a resposta em dois planos. Criticaram, sem especial convicção, o PS e atiraram-se que nem gatos a bofe ao CDS. Mas se a primeira acção não resultou convincente, a segunda por estridência demasiada também não teve especial êxito.

E se bem repararem ninguém discutiu efectivamente a essência da moção. Uns tentaram fazer um processo de intenções e o acusado tentou defender-se. Nada mais.