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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Ago16

Incêndios

José Carlos Pereira

Muito se disse e escreveu já sobre o flagelo dos incêndios que tem assolado o país, sobretudo no início deste mês. O desleixo e a negligência justificam muitos dos casos, outros revelam-se crimes deliberados. A incúria, contudo, não reside apenas nos privados. O Estado, seja central, regional ou local, tem dado mostras de não saber gerir o vasto património que lhe pertence ou que lhe é cedido pelos privados em obediência ao que está previsto na lei, assim como se tem demitido de fazer uma aplicação sensata e eficaz da legislação que compreende a gestão das faixas de combustível e a gestão das florestas.

A análise da investigadora em questões ambientais Luísa Schmidt identifica bem as causas e as soluções para ultrapassar este recorrente “ai Jesus” que nos sacode em cada Verão.

06
Ago16

Diário político 211

d’Oliveira

Trapalhões, imprudentes e a tomarem-nos por parvos

 

A triste historieta dos Secretários de Estado que foram ver a bola à custa da Galp obriga-nos antes de tudo a questionar o bom senso das criaturas e, mais do que isso, a inteligência das mesmas. A justificação apresentada por Rocha de Andrade peca pela arrogância (foi tudo dentro da normalidade e da adequação social) e pela impudência (vou já pagar tudo) dando a perceber que não entendeu ainda que as sus duas declarações são contraditórias. Pior: esqueceu-se de comentar, como devia e podia, que fora demasiado ingénuo (na melhor das hipóteses) ou insensatamente cúpido ao aceitar uma prenda tão choruda de uma empresa com quem o Estado, através do Ministério onde está integrado tem um longo e caríssimo conflito.

Pior do que ele, só mesmo o senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros ao vir admitir que o Governo vai criar um “Código de Conduta” para desincentivar a prática de gestos do mesmo género. O senhor Ministro parece desconhecer a lei que já tutela amplamente situações deste teor. A menos que seja amante de pleonasmos políticos e éticos (sobretudo estes)...

Os restantes comparsas, mais dois Secretários de Estado, tiveram o cuidado de não serem tão falazões como Andrade mesmo se, igualmente, tenham caído na esparrela de garantir que vão pagar as despesas com desveladamente a Galp os mimou.

Imaginemos, por um breve momento, que X, funcionário público se lembrava de ir ver os jogos. Teria no mínimo que “meter” um ou dois dias de férias para ir e vir. Os senhores Secretários, ao que se sabe, foram estiveram e vieram sem que alguém lhes apontasse a faltinha ao trabalho ou que eles imputassem às merecidas férias o(s) dia(s) franceses.

Há neste jardim à beira mar plantado, uma falta de pudor que só não espanta o aborígene lusitano por há muito estar este habituado ao forrobodó dos importantes. Em se apanhando num posto público de responsabilidade, esquecem-se que o público os pode escrutinar.

Rocha Andrade teve há dias uma confusa missão: fazer passar as novas regras das “vistas” para carregar o IMI como coisa boa e sensata. Esqueceu-se o cavalheiro que qualquer regra sobretudo em matéria de impostos tem de escapar inteiramente à arbitrariedade de quem a impõe, ou seja tem de obedecer a critérios claros e indiscutíveis.

Vejamos este (meu) caso. Vivo numa excelente zona (Porto, “Foco”) que na altura em que se construiu tinha por vizinhança um conjunto grande de fábricas em plena laboração e uma auto-estrada com um movimento já evidente (agora é pletórico). As fábricas desapareceram e deram lugar a prédios para classe média a tender para alta. Nos terrenos disponíveis que havia construíram-se duas escolas. Mesmo assim, do meu andar avista-se o mar, há um jardim bastante razoável no meio dos prédios e espera-se que nos terrenos aedificandi remanescentes nasçam zonas de lazer e serviços que aumentarão positivamente a qualidade do edificado. Quem adquirir doravante algum dos excelentes andares que continuamente aparecem para venda (a 1ª geração de moradores foi envelhecendo, morrendo ou depois dos filhos criados, achou os apartamentos demasiado grandes para um casal solitário) irá pagar que IMI? Porquê?

A displicência (e de novo a arrogância) com que Andrade respondeu a estas questões dizem muito, quase tudo, do modo como encara as suas funções. Ele tem razão porque sim. Porque pode, quer e manda. O resto é a paisanagem a quem, de quatro em quatro anos, se permite votar (mesmo se o seu voto nem sempre se traduza numa clara preferência pelo Partido que alcandorou este Secretário de Estado ao mister que exerce.

O Governo pela voz de Santos Silva acha que pode pôr uma pedra no assunto. (“Dissipar” foi o verbo que Sª Exª usou para falar do problema. Conviria ao senhor Ministro ir ver todos os significados da palavra para perceber que nem sempre dissipar ou dissipado são termos que indiquem limpeza... )

Para o Ministro este “deslize” está resolvido com um tardio cheque que, se paga alguma despesa feita pela Galp, não paga o desgaste nem a desconfiança dos portugueses em quem os governa.

Mesmo que a PGR não conclua pela existência de “recebimento indevido de vantagem” fica sempre a leviandade e a inexistência de um pedido de desculpas público. É quanto basta para (como antigamente) se aconselhar estes senhores governantes (nem que seja para “português ver”) a porem os seus lugares à disposição. Ou voltarem à actividade privada, quem sabe ao serviço da Galp ou outra amável empresa do mesmo género.

Mesmo que o façam com a notória irrevogabilidade que Portas usou.

02
Ago16

diário político 210

d’Oliveira

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A vitória (in)esperada

 

Parece que Portugal, ou boa parte dele se transformou no arcanjo Miguel e matou o dragão. Ou seja a Europa. Ou a comissão, ou o Ecofin. Ou os invejosos do Norte que não tem sol (mas tem dinheiro).

A não aplicação de sanções que criou uma patriótica cruzada chefiada à vez por Marcelo e Costa foi insistentemente referida como uma vitória da justiça por todos e até pela dr.ª Ferreira Leite.

Lamento estar, como de costume (arre que vício tão feio!), a contracorrente. Não houve nenhuma vitória nacional apesar das cartas, dos telegramas, dos telefonemas do senhor Presidente e do senhor Primeiro Ministro. Ou do senhor Passos Coelho, o principal interessado em passar través das malhas duras dos Tratados europeus. Afinal era o Governo dele que precisava de ser ilibado...

O novo milagre das rosas europeu chama-se tão só Espanha. Espanha, o nosso parceiro peninsular e, igualmente, o nossos parceiro alvo das hipotéticas sanções.

Estivesse a Espanha fora do deficit excessivo alguém acredita que não comíamos pela medida grande? Mas a Espanha e a sua economia, uma das cinco mais poderosas da Europa, estava atravessada no caminho vingador dos que ainda acham que os tratados devem ser cumpridos (pacta sunt servanda) custe o que custar. Portugal, para um holandês ou um finlandês, é coisa pouca mas com a Espanha a coisa fia mais fino.

Aliás, o senhor Rajov, logo que ouviu a sirene europeia, pôs as barbas de molho e anunciou medidas de redução de despesa que valiam 6.000 milhões de euros. Por cá o Governo fez ouvidos de mercador e persistiu na patriótica ideia de que os tratados eram meros papéis (onde é que eu já ouvi isto?) e que seria uma injustiça punir o já longo e habitual desregramento financeiro. Curiosamente, mesmo sem querer, o Governo actual desculpava implicitamente o anterior Executivo quanto ao deslize do deficit.

Claro que nesta maratona de falsas generosidades financeiras e verdadeiros mergulhos na realpolitik algo ficou destruído: a Europa ou a União Europeia tal como a conhecíamos que começa cada vez mais como uma união a la carte. Este presente ao “nobre povo, nação valente”, é um presente de grego. Hoje perdoam-nos uma multa, amanhã exigirão uma capitis diminutio politicamente mais onerosa. Ou diminuirão verbas com destino ao Portugal.

Vamos pagar a nossa incerta aventura deficitária com língua de palmo. Quando e como é coisa que não se pode antecipar.

d'Oliveira fecit 2-8-16

 

14
Jul16

Estes dias que passam especial

d’Oliveira

Alto e pára o baile!

 

Os escassos leitores que ainda me aturam sabem que respeito escrupulosamente o direito (deles) de comentarem os meus textos.

Tento com isso, manter tanto quanto possível um diálogo que vá um pouco mais além do que ocorre com outras plataformas onde, para entrar numa "conversa", é preciso obedecer a várias condições.

Aqui é simples: opino sobre o que quero ou me cai à mão e, se alguém estiver para aí virado, comenta e inicia-se, eventualmente, um diálogo civilizado. 

Ocorre, porém, que, de longe em longe, um aprendiz de comentador, entende vir falar de bugalhos quando eu me fiquei pelos alhos. Ou seja, não bate a letra com a careta.

Isso ocorreu num post da série "Estes dias que passam" onde a propósito de um bom poeta e velho amigo que muita falta faz, eu tratava entre, outras coisas, de uma grosseira manipulação da história cometida por um cavalheiro que tem tabuleta e lugar fixo num jornal de referência e azucrina os leitores com umas crónicas onde se mistura muita parra, muita interpretação e pouco facto histórico correcto. 

Um leitor SILVA lembrou-se de vir falar num casino, num despedimento colectivo e em juizes segundo ele corruptos. Nada a ver, nadinha, com o meu pobre texto. Ando um pouco preguiçoso, metido noutras cavalarias e passo dias sem vir ao blog. Quando dei pela nota "Tem um comentário para aprovar" fiquei envergonhado com o meu desleixo e, entre dois goles do primeiro café da manhã, despachei logo a autorização para publicação. Depois iria ver se valia pa pena reponder.

Depois..., depois esqueci-me e publiquei três ou quatro textos sem nunca mais me lembrar do comentário. Um dos meus diligentes companheiros de viagem incursional, lembrou-me hoje do comentário que nada comentava.  

Obviamente, esse comentário merece ser apagado e sê-lo-á se eu conseguir perceber como é que a coisa se faz. Entretanto, aqui venho, de corda ao pescoço, muito cheio de mea culpa, mea maxima culpa, pelo meu deslize. 

E prometo vir a ter mais atenção. 

13
Jul16

Governo questiona sanções

José Carlos Pereira

António Costa segue a via certa ao não se acomodar e ao contestar as sanções da UE, quaisquer que elas sejam. Recorde-se que a aplicação de sanções é inédita, apesar de a regra europeia de um défice abaixo dos 3% do PIB já ter sido violada em 114 ocasiões (a França ultrapassou o limiar dos 3% por 11 vezes, seguindo-se Grécia, Portugal e Polónia, todos por 10 vezes, Reino Unido, com nove infracções, Itália com oito, Hungria com sete, Irlanda e Alemanha, em cinco ocasiões cada).

É caso para questionar: porquê sanções só agora?!

12
Jul16

Au bonheur des dames 416

mcr

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“Ai Portugal se fosses só três sílabas...”

 

Imagino que muitos dos meus leitores (se porventura ainda os tenho) se zangarão comigo. De facto, não comungo da alegria a rodos que campeia por aí. Não que esteja triste, furioso ou que desejasse outro campeão para a Europa. Simplesmente, entendo que houve outras ocasiões em que o nosso futebol e os nosso talento mereceriam mais do que hoje o lugar de campeão.

Todavia, o futebol é assim mesmo: nau incerta em mar proceloso. Desta feita, coube a Fernando Santos e à sua equipa a sorte que outras vezes foi esquiva. A carreira neste campeonato não foi exactamente brilhante: 3º lugar na primeira parte, nenhum jogo ganho nos 90 minutos regulamentares, mais sorte nos penáltis, adversários pouco perigosos, pese embora a surpresa islandesa.

De todo o modo, ganharam. E ganharam porque Santos foi corajoso, porque a equipa soube ser humilde, porque a defesa foi mais italiana do que os italianos. E porque houve uma mobilização extraordinária da emigração em França que deu uma lição de civismo (veja-se o caso do menino Matisse –belo e luminoso nome!- a consolar o choroso adepto francês e adulto –que soube corresponder com emoção e dignidade à palavra de uma criança de dez anos-), de amor ao país padrasto e longínquo e às terras pequenas e dispersas de onde os emigrantes ou os seus pais vieram fugidos da miséria e da falta de trabalho.

O resto, o Senhor Presidente, o Senhor 1º Ministro e os outros figurões, foi só folclore e populismo. O resto, televisões, rádio e jornais, foi lastimavelmente frouxo, reles, palavroso e patrioteiro. Como de costume.

Se os leitores, que até aqui chegaram, me permitem, direi que me entusiasmaram Rui Patrício, Pepe, Nani, Quaresma ou até Éder que resolveu tudo com um golaço que merecia mais repetições de visão televisiva. Sei que estou a ser injusto, que devia falar de outros, Renato Sanches ou os luso franceses que optaram por este pequeno país quando, provavelmente teriam lugar na selecção francesa que, de facto, teve pouca sorte. Mas o futebol, mesmo o feio, é isto: quantas vezes me irritaram os italianos e o catenaccio!

Entretanto, tudo isto está passado e a realidade, a desagradável realidade já volta a bater-nos à porta.

Só mais um ponto: nada tenho contra as medalhas mesmo se são atribuídas por quem ainda ontem afirmava que isto era um país demasiado medalhado. Mas o Senhor Presidente é o que é e não há uma eventual momento de populismo que não aproveite mesmo quando parece mais justificado o comendador jogador de futebol do que qualquer ex-primeiro ministro sem qualidades.

Por tudo o que vem de ser dito, atrevo-me a afirmar que o título do “Público” (“hoje temos mais razões para acreditar em Portugal”) é uma tolice, uma bazófia e um erro crasso. Não temos mais nem menos razões: o futebol é apenas ligeiramente menos seguro do que a roleta.

 

E passemos ao segundo acto deste comédia: o senhor Durão Barroso. Confesso que a criatura sempre me foi antipática desde os seus prodigiosos momentos MRPP, onde assumiu o papel de trauliteiro até à sua súbita conversão às virtudes do parlamentarismo, via PPD sob a intermediação de Santana Lopes. Barroso vestiu então a opa de sacristão mor que exercia de Ministro dos Negócios Estrangeiros e de proto-candidato à gloria primo-ministerial.

Quando o cavalheiro chegou a S. Bento, alguém o avisou sibilinamente, recitando “sigamos o cherne”. Poucos entenderam, porque poucos sabiam como o poema acabava:

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,


Já morto, boiar ao lume de água,


Nos olhos rasos de água,


Quando mentido o cherne a vida inteira,


Não somos mais que solidão e mágoa…

Barroso não era um cherne mas tão só a imagem dele, já morto. O acaso (se a tonta decisão de demissão de Guterres não foi mais do que isso) que o levou ao poder onde só produziu uma declaração útil mas não escutada (“o país está de tanga”) e a sua subsequente ida para a Comissão Europeia (onde só chegou porquanto os “grandes” o achavam incolor, insípido e inodoro como a água destilada) foram passos de uma biografia perdida há muito.

Que agora, a exemplo de tantos outros,   nacionais e estrangeiros, vá para um cadeirão onde pouco ou nada fará, já não acrescenta seja o que for ao que ele pensa que foi. Barroso, pese a sua publicitada inteligência e cultura, é apenas mais um portuguesinho espertalhaço, uma sardinha que se toma por um tubarão, um ambicioso que, como no poema, um dia destes dará à costa, picado pelas gaivotas e mais morto do que a sua reputação.

O terceiro passo está todo na notícia da restituição dos filhos a Liliana Melo, a senhora negra, emigrante e cabo-verdiana que,  há quatro anos ,viu um imenso aparato policial levar-lhe de casa as crianças. A Segurança Social e o Tribunal saem muito mal na fotografia, felizmente corrigida ao fim de quase 1500 dias por um acórdão do STJ. Relembre-se, sempre segundo o jornal, que boa parte das acusações contra Liliana não tinham fundamento (falta de emprego, higiene das crianças ou padeciam de insanável infâmia como era o caso de (à velha moda higienista e fascista) lhe exigirem a laqueação das trompas!

Isto sim, esta tardia sentença do tribunal superior é que é uma razão ponderosa para se acreditar mais em Portugal. Pena é que demorasse tanto tempo. E, já agora, mbravo e muito obrigado às advogadas que ao longo de todo este tempo, representaram “pro bono” uma mulher só, infamada, negra e humilde. Às vezes sabe bem ter concidadãos e concidadãs como estas Senhoras mesmo que ninguém as torne comendadoras ou sequer saiba da existência delas.

* O título e a citação pertencem a um grande, enorme, poeta português: Alexandre O’Neil

 

 

11
Jul16

Uma conquista histórica

José Carlos Pereira

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A vitória na final do Europeu de futebol frente à França conduziu-nos ao galarim dos países com grandes conquistas internacionais na modalidade. Depois de uma final europeia perdida em casa em 2004, que vivi no palco da decepção, o Estádio da Luz, e de outras cinco meias-finais perdidas, duas em mundiais e três em europeus, Portugal alcançou por fim o lugar mais alto.

Esta não foi a equipa que apresentou o melhor futebol, a que reuniu os melhores jogadores, a mais dotada e a mais querida de todas aquelas que Portugal fez alinhar nas grandes competições. Mas foi por certo a mais unida, a mais determinada e a mais alinhada com os propósitos de treinadores e dirigentes.

Creio que o grande artífice desta conquista foi Fernando Santos. Nunca se vira um grupo tão coeso e um reconhecimento tão grande dos jogadores pela acção do seu líder. Portugal, que costumava ser o país dos casos, das polémicas e das meias verdades nas fases finais, foi desta vez a imagem da tranquilidade e da assertividade.

Encheu-se a boca dos críticos por causa do futebol praticado, nomeadamente na fase de grupos, exigindo à selecção os floreados que ela não podia dar. Fernando Santos percebeu isso bem cedo e tratou de fazer prevalecer o pragmatismo, focando-se nos resultados e não tanto nas exibições. Resumiu bem a questão quando disse que não éramos os melhores do mundo, mas que também ninguém nos ganharia com facilidade. E as vicissitudes da final vieram valorizar ainda mais o papel do treinador nacional, que soube guiar a equipa de modo a ultrapassar os revezes e a tomar opções, arriscadas mas ponderadas, que nos conduziram à vitória.

O futebol português e o país estão em festa. Merecidamente. Uma festa que percorre cada canto do planeta onde há um português ou um descendente de portugueses. E foi precisamente dos emigrantes que veio a força suplementar de ânimo e vontade que muito ajudou à vitória dentro do campo.

Viva Portugal! 

05
Jul16

Sancionar ou não sancionar, eis a questão

José Carlos Pereira

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A Comissão Europeia reuniu-se hoje e na agenda de trabalhos esteve a análise aos défices de Portugal e Espanha em 2015 e a eventual aplicação de sanções por incumprimento das regras orçamentais. Como já se previa, não houve uma decisão do colégio de comissários, restando esperar para ver se a mesma chega a tempo de ser comunicada ao Ecofin antes da reunião da próxima semana, que será a última do Conselho de Ministros das Finanças antes de férias.

Esta é uma matéria que tem ocupado o centro do debate das questões europeias, com vários “falcões”, com o ministro alemão Schäuble à cabeça, empenhados numa punição clara de países como Portugal e Espanha. Esses dirigentes, que tiveram um papel determinante nas políticas seguidas nos países sob ajustamento nos últimos anos, como foi o caso português, pretendem agora castigar o facto de essas mesmas políticas não terem sido bem sucedidas e os défices terem ficado acima das metas estabelecidas. Há alguma triste ironia nesta postura, mas infelizmente já pouco nos pode espantar hoje em dia na Europa.

Dizem alguns que as regras europeias têm de ser cumpridas e que, se houve incumprimento, então é natural que surjam as sanções. Pois bem, o passado recente mostrou-nos que vários países de grande dimensão tiveram défices e excedentes orçamentais acima dos limites fixados e tal não deu origem a quaisquer sanções. Os exemplos francês e alemão aí estão para o comprovar. O comissário Pierre Moscovici dissera hoje numa entrevista que as regras "são inteligentes, não são punitivas e devem ter em conta a situação económica". Muito gostava de saber o que é que, neste quadro, Moscovici preconizou para Portugal.

Se o que está em cima da mesa é uma avaliação do incumprimento do défice de 2015 em 0,2 pontos percentuais, na sequência de um programa de ajustamento que depauperou os portugueses e exauriu a economia, os nossos recursos e os próprios bancos, é absolutamente descabido prever sanções neste momento. Se o que guia os arautos da linha dura europeia é o facto de Portugal ter em funções um Governo que não subscreve essa política e procura dar novos estímulos ao crescimento e à coesão social, bem como uma notória desconfiança face às metas orçamentais fixadas para o ano em curso, então as injustificadas sanções não são mais do que um travão a essas políticas e uma forma de procurar vergar o Governo de esquerda.

Quando a Europa enfrenta tormentas como os efeitos do “Brexit”, o crescente radicalismo anti-europeu, a crise dos refugiados, o terrorismo ou o desemprego, que apresenta taxas assustadoras entre os mais jovens, é decepcionante ver a Europa eleger como prioridade a punição de países que já foram obrigados a passar por experiências duríssimas.

Entre nós, Presidente da República, Governo e partidos políticos têm defendido com firmeza a não aplicação de sanções, mas é evidente o desconforto que este tema causa no PSD e no CDS, sobretudo nos sectores mais comprometidos com a governação seguida até às últimas eleições. A preocupação maior dos seus dirigentes é tentar escapar às responsabilidades que tiveram no incumprimento orçamental de 2015 e procurar associar as eventuais sanções às incertezas criadas pelas políticas do actual Governo.

É por isso que quando ouço certas personalidades do PSD, como foi o caso ontem de Silva Peneda, na apresentação do mais recente livro do secretário de Estado José Luís Carneiro, e Mota Amaral, encontro uma sinceridade na crítica às sanções e ao discurso punitivo que não encontro no discurso de Passos Coelho e da sua entourage. Mas creio que os portugueses também percebem isso bem e saberão retirar as suas ilacções quanto à forma mais adequada para, neste contexto, defender Portugal e os portugueses.

 

29
Jun16

Diário político 209

d’Oliveira

 

 

 

Para que serve o referendo?

A senhora Catarina Martins proferiu um discurso muito aplaudido no convenção do seupartido. É normal. Os líderes são sempre muito aplaudidos digam eles o que disserem. Quando a feira encerra, estala o foguetório e toda a gente corre para apanhar as canas.

O BE está ainda em maré alta, fruto não tanto da real vontade de mudança dos portugueses mas tão só de uma aliança dirigida contra a Direita (ou o que exageradamente se considera como tal, e espero nunca ver uma Direita a sério como por exemplo o PP espanhol ou os “republicanos” franceses). Se os leitores bem se recordam, o PSD/CDS ganhou as eleições mas Jerónimo de Sousa, um derrotado, conseguiu convencer António Costa outro ainda mais derrotado (face às espectativas) a inverter o resultado apostando numa aliança de que o primeiro tem sido o mais recompensado mesmo se o segundo esteja tão só a ganhar tempo e espaço para sacudir os incómodos sócios e governar se conseguir (como espera) uma maioria nas próximas eleições que ocorrerão logo que o PS julgue poder ganhá-las.

Não referi o BE no anterior parágrafo mesmo se não ignore o seu expressivo resultado em votos e mandatos. Creio que tal votação assentou num voto de protesto contra a austeridade que terá mesmo mobilizado largas fatias de eleitorado “social democrata”. A perda do PPD não se transferiu para o PS mas sobretudo para o BE num claro sinal de irritação e desconfiança de eleitores classe média que se sentiram “roubados” e não pensaram que tal voto fosse decisivo (e de facto, à luz dos costumes tradicionais na formação de governos não o seriam) para modificar a situação política.

Creio, também, que o BE (que todavia já sentira na pele o “efeito acordeão” de votações sucessivas e desencontradas) terá julgado que a sua súbita boa fortuna se devia à sua acção propagandística. Não deixa de ser curioso o facto deste partido não ter influência que se veja em sindicatos, movimentos sociais ou autarquias mas apenas em lugares no parlamento.

Deixemos, entretanto, a curiosa vacuidade do BE e analisemos o discurso de Martins no que toca a um implausível referendo. A ingénua senhora não leu seguramente os tratados a que Portugal se obrigou no que toca às obrigações dentro da União Europeia. Também não deve compulsarcom a devida frequência qualquer modesto dicionário de língua portuguesa como veremos.

Em primeiro lugar, seria bom esclarecer a fogosa líder bloquista do irremediável facto de, ao não cumprir os limites impostos do deficit, haver lugar a sanções. A coisa está bastamente escrita e já foi glosada de todas as formas e feitios. Quem não cumpre come com uma multa. Ponto final.

Se tal multa tem, ou não, sido aplicada como se deve é outra questão e suscita problemas diferentes que poderão, ou não, sugerir um pedido português para escapar ao estipulado.

Vir agora, em tom arrebatado, exigir da Europa outra atitude (ou melhor dizendo, sic: (não) aplicar uma sanção inédita, inaceitável e provocatória pelo mau desempenho das contas” do anterior Governo) ameaçando “pôr na ordem do dia um referendo para tomar posição contra a chantagem”.

Desconhece-se, provavelmente por mau feitio próprio, onde reside a chantagem e sobretudo em que é que uma sanção regularmente prevista pode ser provocatória, inaceitável ou sequer inédita.

Reside neste grupo de palavra aquilo a que, enquanto cidadão pagador de impostos (de onde uma parte vai para o parlamento para pagar as tropelias discursivas de dona Catarina & coleguinhas), este cronista chama  ignorância pura da língua nacional e do significado das palavras que a senhora Martins usa.

Depois, é patética a ideia de convocar um referendo sobretudo quando tal atitude envolve a direita mais sinistra e canastrona que a Europa vai segregando, graças também, é bom recordá-lo, às tolices de uma esquerda que vem do passado mais estalinista e vergonhoso, duma esquerda que nada aprendeu mas tudo esqueceu.

Claro que, depois da ameaça infantilóide e ridícula, mais nehuma força política se moveu, sequer mostrou especial indignação. Aquilo, aquele arroto de histeria política, ficou dentro da sala congressional e, pelos vistos, nem aí foi tomada muito a sério.

O país, embriagado pelo sucesso futebolístico contra a Croácia, também não pestanejou. Duvido mesmo que tenha sequer ouvido o apelo de Martins, o histérico nacionalismo bacoco que representa e a crassa ignorância do que está em jogo.

A senhora Catarina Martins não gosta da União Europeia. Como a senhora LE Pen em França, acrescente-se ou como outros variados eurocépticos que juntam a essa fobia outras mais quais sejam um sólido horror aos estrangeiros, ao capital ou aos imigrantes que não querem suportar.

De todo o modo, têm sido a União Europeia, as organizações inter-estaduais e comunitárias que a antecederam que são o garante da paz e do bem estar dos europeus. Portugal, pese a sua pequenez é um beneficiário líquido da União quer em fundos quer em acolhimento de milhões de emigrantes que na UE trabalham, prosperam e são respeitados.

Vir agora com farroncas e ameaças vãs e tontas é apenas, isso sim, algo de vagamente provocatório quer para os europeus quer para os cidadãos portugueses que aturam benevolentemente os espirros assanhados de Catarina. Os primeiros nem lhe ligam e os segundos, nós, têm direito a não serem incomodados por quem não fala em nome deles se é que fala em nome de alguém.

É tempo de Catarina crescer se é que isso (politicamente) ainda é possível.

E de ler os tratados e, já agora, de passar as mãos pelo dicionário. Nem que seja o da Academia, o tal que terminava no fim da letra A.

 

21
Jun16

Diário político 208

d’Oliveira

Canavilhas 2

A senhora Canavilhas insiste. Na televisão e no jornal Público (que ela diz ser o seu jornal de referência) veio agora dizer que o Público (não a policia!) mentiu ao falar em 15000 manifestantes e não no número apresentado pela FENPROF, por acaso parte interessada na matéria. E acha que o uso (ou abuso?) do twiter se reveste de um carácter ligeiro pelo que, presume-se, toda a burrice é desculpada.

Na televisão veio com ar cândido e ofendido afirmar que tem direito à sua opinião como se a sugestão de despedir uma jornalista fosse uma opinião tão inocente quanto aquela que temos de um romance.

Quando, sendo apesar de tudo uma figura pública, se pergunta porque é que uma profissional que cita fontes respeitáveis não é despedida está-se a macaquear o antigo Estado Novo que despedia profissionais em todo o lado (directa ou indirectamente) por delito de opinião, que prendia pelo mesmo motivo (e estou á vontade para o testemunhar) ou outros regimes que parecendo ter cor diferente partilhavam o mesmo horror visceral à liberdade de imprensa.

A senhor Canavilhas é livre de soltar quanta tolice quiser e for capaz e, agora vê-se, no seu argumentário que pode ir longe nesse domínio, mas o facto de ser contraditada nos seus propósitos inquisitoriais e espurgadores não é uma ameaça a nenhuma liberdade dela. Bem pelo contrario: ao censurar-se-lhe de viva voz a sua posição partidária e sectária está-se a defender a liberdade de quem ela ataca e a dela própria se é que a senhora Canavilhas percebe o que aqui vai escrito. Ela pode odiar a jornalista em causa, amar desmesuradamente o senhor Vitor Nogueira e a frente que ele representa, julgar que a escola pública é um paraíso e a privada um infame complot de capitalistas, imperialistas, monopólios e forças obscuras da reacção, a mão invisível do clericalismo mais obscurantista. Está no seu pueril direito. O que não pode é seja ela quem for (ou quem se julga!...) propor medidas coercivas contra quem nada mais faz do que ser uma jornalista.

Ao publicar-lhe a triste prosa, o Público, dá-lhe mais uma lição de civismo, liberdade e tolerância. Será que a criatura aprende?

d'Oliveira fecit 21-06-16