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Incursões

Instância de Retemperação.

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15
Fev17

0 leitor (im)penitente 197

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 2

(para Nuno Canavez, intrépido livreiro da “Académica”

Os leitores impenitentes são de uma raça persistente, pacífica mas imparável. Perseguem os livros com afinco, paciência, paixão e a melhor imagem que me vem à cabeça seria aquela que mostra Camões a nadar no meio do mar com um braço fora de água segurando um punhado de folhas.

Tenho oficial e oficiosamente 60 anos redondos de comprador de livros. Usando o meu dinheiro, no caso nicial a parca mesada. Uma das primeiras livrarias onde entrei foi a “Académica”, no Porto, um alfarrabista que me ficava em caminho entre o Colégio e o Mundo (a 2ª etapa era a “Divulgação”, posteriormente “Leitura” onde deixei uma bela fortuna.)

Voltemos, porém à Académica que hoje é propriedade de Nuno Canavez. Em boa verdade, o Sr. Canavez já lá trabalhava quando eu passava pela livraria. Ali se fez o grande livreiro que hoje é, um homem que sabe tudo de livros e que não tem papas na língua. Graças ao seu saber e à sua generosidade, Mirandela dispõe de um acervo sobre a terra e sobre Trás-os-Montes sem igual em parte alguma. Canavez pesquisou, juntou, pagou e depois enviou para a terra natal mais de três mil volumes!

Todavia, não é disso que quero hoje falar mas, tão só de uma das melhores compras que alguma vez fiz na “Académica”.

Os leitores talvez desconheçam mas nos alfarrabistas há ainda o civilizado costume de entrar apenas para uma vista de olhos e, se possível, uma bela conversa sobre livros. Há sempre dois ou três contertúlios prontos a conversar sobre qualquer assunto, mormente livros.

Num dia, logo de manhã tive de ir ao centro da cidade e, despachando-me, cedo passei pela Académica. Depois de trocar duas palavras com o Sr. Canavez caíram-me os olhos em dois belos volumes, ricamente encadernados (encadernação de editor) folhas a ouro, estado impecável, edição in folio, 39x29, 1500 (mil e quinhentas!!!) gravuras, datada de 1852 se não erro. Uma beleza!

A medo, perguntei o preço. –“100 euros. Para o sr. dr. 90!” – “É para já”, respondi e saí a correr para o multibanco mais próximo para levantar o cacau.

Despedi-me, rapidamente e, ajoujado, ao peso dos dois grandes volumes, marchei para o meu quartel general das manhãs, ou seja esta esplanada de onde escrevo. E comecei a explorar a compra. Era ainda melhor do que me parecera.

Resolvi ir pesquisar o título à Internet “Tableau de Paris” de R Texier. Espantei-me ao ver os preços a que a edição corria nos mercados francês e italiano. De um mínimo de 450 até uns tremendos 900!

A manhã de sol levou-me a pensar que o livreiro, mesmo amigo, mesmo conhecedor, estaria equivocado. Aquilo, a noventinhas, era ao preço da uva mijona. Desassossegado voltei, dias depois, à livraria e prudentemente lá fui sussurrando que, se calhar, o livro fora demasiado barato, que talvez houvesse engano, enfim que talvez eu, comprador, estivesse a explorar o vendedor.

Canavez imperturbável replicou-me: Primeiro o livro era um calhamaço e já ninguém estava disposto a ter de arranjar sítio para o arrumar; depois o livro era em francês e, agora, toda a gente ignorava a bela língua e só jurava pelo inglês comercial; finalmente perguntava se os preços que eu vira eram de livros vendidos ou para venda. Tendo eu respondido que eram para venda, olhou-me triunfante e disse-me: “Viu? Ainda não os venderam pois não? Aposto que daqui a seis meses, um ano ou mais ainda por lá andam sem comprador.”.

Quatro anos depois tenho que lhe dar razão. Não garanto que seja nos mesmos exactos sites mas a verdade é que este maravilhoso “Tableau de Paris” continua à venda em vários livreiros d’além Pirenéus.

 

*não quero confundir algum leitor mais atento. De facto, existe um outro e mais famoso, “Tableau de Paris”, o de Mercier, obra notável que, porém, padece, na comparação, ao não ter uma única gravura.