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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

26
Abr09

Diário Político 107

mcr

“Má retórica, péssima mesmo”, dizia o Zé Albuquerque, em Trieste, nesse ano de 75, enquanto tómavamos uma granizatta numa esplanada carregada de raparigas. A Juliette, francesa bonita mas rancorosa, adivinhando os nossos olhares de lobos libidinosos, ia dizendo que “les filles italiennes se font femmes trés tot mais que trés tot vieillissent”.

"A franciú é parva ou faz-se?", perguntava o alburcas, primeiro exilado do Portugal a caminho do socialismo (era o que ele pensava), coisa abominável para ele que vivera como bolseiro dois anos na Austria e fora a Praga um bom par de vezes.

"É parva.", sosseguei-o. Não era. A pobre da francesa achava que o Zé era sapato para o seu pé, mas este, o Zé, não o pé, estava mais para as italianinhas em flor e para uma de política comigo.

"Tu voltas lá para baixo?", perguntou-me. Disse-lhe que sim, que voltava mesmo sabendo o que sabia.

"Ó pá mas aquela esquerdalhada é do piorio", revolvia-se o Zé. "Aqueles tipos aprenderam o marxismo no livro vermelho e na Marta Harnecker e não distinguem a mais valia do lucro…" O Zé lera os seus clássicos e estimava Marx sobre todos além de ter uma profunda repugnância por Lenin, “esse pequeño merceeiro da revolução” como dizia. 

E durante um par de horas em que passámos da granizatta para a cerveja e desta para um vinho fabuloso a acompanhar um peixe assado a que só a Francesa fez má cara, fomos discutindo as hipóteses do Portugal em PREC.

Confesso que foi nesse momento que percebi, de uma vez por todas, algo que me vinha incomodando desde o Outono anterior. A verborreia revolucionária escondia uma total incapacidade de perceber o país em que vivíamos e que não merecia aquela avalanche palavrosa de lugares comuns e langue de bois. Não havia na esquerda radical uma ideia, uma só!, que servisse de base a um governo de salvação nacional, a um governo que livrasse o pobre, desgraçado, país que era o nosso, da sina fatal que o atara ao carro de Salazar. O panorama não melhorava com o PC que via tudo com os óculos da revolução de 17, expurgada e revista pelos sucessivos Breznev, último pseudónimo de um Stalin suavizado pelos anos e pela necessidade. Os socialistas limitavam-se a um exercício defensivo. Sabiam-se fracos, mal implantados, não tinham sequer uma organização experiente e experimentada e (sobre)viviam divididos entre uma ala maximalista e o medo de parecerem demasiado burgueses. A Direita apoiava abertamente o golpismo, via hordas bolcheviques em todo o lado, e receava os excessos de Sá Carneiro.

Finalmente, toda a gente, ou quase, olhava para os militares com um misto de esperança e zanga (ao fim e ao cabo foram vocês que nos meteram nisto… pareciam dizer, num queixume). Resumindo, um país que vivera sob tutela e isolado não conseguia dar um passo na rua. Tudo lhe fazia medo, tudo era novo, terrível e estranho. As elites nacionais, até elas, ainda não tinham conseguido digerir o milagre dum golpe militar não sangrento.

Havia, aliás, quem suspirasse por algum sangue, por alguma violência, para apurar campos, para separar as águas para sair de um impasse que durou todo o inverno de 74 e ameaçava ocupar, como paraticamente ocupou, todo o ano de 75.

Recorria-se a toda a espécie de truques e mascaradas. Até se inventaram uns SUV (soldados unidos vencerão) uma espécie de papões, o bolchevismo nas casernas, como se os soldados do contingente geral, já livres de África e sem qualquer espécie de disciplina ou de treino militar, servissem para alguma coisa. Os próprios inventores dos SUV chegaram a acreditar na balela monstruosa que tinham inventado. Convenhamos que o “post-palco” revolucionário é, as mais das vezes, ridículo. No meio disto tudo, poder-se-ia pensar que a máquina do PC esperava pacientemente. É provável que, de certo modo, isso acontecesse. Todavia, a rua, a rua dominada pelos slogans exaltados e pelas massas desorganizadas, impôs aos comunistas (que também estavam ainda a fazer a difícil digestão da passagem de um partido clandestino de quadros para um partido com cem mil militantes)um alinhamento  que não era o deles nem os favorecia. O PC, não sendo um mero satélite da URSS, não era também um partido liberto das tradicionais e usuais vassalagens tácticas e estratégicas em uso no antigo Komintern e nos organismos que o substituiram. Aliás, desde o cisma sino-soviético, a influência de Moscovo acentuara-se. A “hipótese revolucionária” portuguesa não estava na ordem do dia. Isso era visível no estrangeiro, sobretudo nos editoriais do italiano “Unità” e do francês “L’Humanité”. Se aquilo não eram recados então não sei o que seriam.

É por estas, e por outras, que falar no 25 de Abril, mesmo a trinta e cinco anos de distância, tem muito que se lhe diga. É que não se pode falar apenas do dia, sequer da semana até ao 1º de Maio. O processo desencadeado não conheceu paragem significativa até 28 de Setembro, o primeiro sinal de que algo não estava a correr segundo uma agenda clara. E continuou nos meses seguintes até ao segundo sinal, o da abortada conspiração de Março. À distância de tantos anos não se percebe quer a inépcia da direita quer a incapacidade da esquerda. O país vivia de boatos, de medidas legislativas dramáticas e ineficazes, de fugas de capitais, de ameaças tremendas que, depois da Fonte Luminosa, começaram a ser postas em prática. Entretanto, o tempo da esquerda esgotara-se. Mesmo que esta só o tenha percebido em Novembro. Foi, porém, em Julho/Agosto de 75 que a esquerda perdeu o combate. Perdeu a rua e começou a ser alvo das bombas. Se a violência revolucionária não teve grande repercussão, a contra-violência  conseguiu por sua vez ocupar a rua. A rua que fora durante um ano só da esquerda. Da esquerda que se via acossada e a começar a ser derrotada. Mais por demérito próprio do que por mérito dos adversários. E porque, provavelmente, o país não estava disposto a a tornar-se uma democracia popular. E também porque o bloco de Leste já tinha suficientes problemas para ter de aguentar uma segunda Cuba ao lado da Espanha. As revoluções socialistas ficam muito caras… 

Era disto e da esbelteza das italianas que, nesse dia, em Trieste, falávamos. Com uma francesa zangada que nos ouvia sem perceber e que apenas queria um pouco de atenção do Zé Albuquerque. Que, por sua vez, apenas queria alugar um apartamento barato, conseguir um lugar de assistente na universidade enquanto “lá em baixo” uns compatriotas tiravam as castanhas do lume por ele.

Trinta e quatro anos depois, pergunto-me por onde andará o “alburcas”. Não vale a pena perguntar por onde andam os corifeus da revolução popular: deixaram-se disso há muito e agora é vê-los nos corredores do poder, menos despenteados, mais engravatados mas com a mesma eterna bazófia de quem, não conhecendo o país em que vive sabe, contudo, que com um bocado de sorte se pode safar. Basta não ter escrúpulos e, à falta de Marta Harnecker ou do “livro vermelho” do finado presidente Mao, recitar qualquer resumo para principiantes de um bom manual do liberalismo.   

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