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Incursões

Instância de Retemperação.

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23
Out09

Estes dias que passam 186

d'oliveira

 

Com o Mali e a Costa Rica?.....

Se escrevesse para o mainstream teria o cuidado de indicar num mapa onde ficam estes dois, aliás, simpáticos países que, de resto, têm a seu favor a população (e a cultura) Dogon e o facto de não ter exército respectivamente. E faria isso porque conheço (infelizmente) os programas de ensino vigentes e a noção assaz aproximativa que os alunos do secundário (e até da universidade...) tem da geografia política.

É que a ileteracia, os fracos níveis de ensino e de educação básica costumam andar ligados à falta de liberdade tout court ou à falta de algumas liberdades específicas.

No caso em apreço temos que num ranking de “liberdade de imprensa” no mundo caímos do 16º para o 30º lugar ex-aequo com os dois citados países.

A responsabilidade deste ranking é dos “Repórteres Sem Fronteiras”, organização que goza genericamente de boa reputação e que já nos atribuiu um 25º e um 10º lugares. Na altura terá havido, como é costume, manifestações de entusiasmo nacionais e governamentais mas agora só se ouve o “som do silêncio” se me permitem citar Simon & Garfunkel.

Claro que ainda não há informação completa sobre quantos jornalistas foram ouvidos, quais os itens (entre 40) onde fraquejámos e quais as movimentações relativas de países da nossa área cultural e social.

Para já estamos na pior posição de sempre, ao lado do Mali e da Costa Rica. Seguramente estamos acima do Irão, do Afeganistão e de mais umas dezenas de exemplos idênticos. Resta saber se alguém da Europa ou, mais geralmente, do Ocidente nos acompanha.

Várias vezes aqui mesmo me esforcei por tentar chamar o assunto á colação. Falei, se não erro, da liberdade de imprensa como um bem único e exemplar. Mostrei, até, que aquilo que entre nós escandaliza (jornalismo agressivo, televisão audaciosa, constante intervenção dos meios informativos na vida governamental) é coisa comum em todo o mundo civilizado. Basta aliás ver os grandes programas das televisões americanas, a dureza dos jornais da direita espanhola, a coragem de alguns jornais italianos que desafiam o Berluscão e as massas que abjectamente o votam e apoiam mesmo nos casos em que o Cavagliere manifestamente sai do trilho, asneia, ofende e é repelente. Ainda ontem, num programa cultural transmitido pela oficialíssima TV5 o ministro da cultura francês era ridicularizado (e não pelos seus hábitos sexuais, previna-se desde já) a começar pelo apodo com que o brindam (“Fredo”) e a terminar pela dureza das citações e das críticas.

Cá, isso seria tomado como crime de lesa majestade, como campanha negra, a TV5 já estaria encerrada ou pelo menos o director do programa demitido.

A verdade é que estamos para ali, com a Costa Rica e o Mali. Os três na trigésima posição! Longe dos nossos parceiros políticos e económicos, afundados numa tabela que seja qual for o critério nos diferencia da Dinamarca, do Canadá ou do Brasil. Para pior.

Esta não é uma má notícia. A má noticia é a prática nossa, de todos nós, o medo de falar, de apontar o dedo, de pôr em causa os de cima, os que mandam, a banca, as empresas, os intelectuais parolos. Somos todos responsáveis por este feio lugar, pese embora a simpatia da desarmada Costa Rica ou a opulência da mitologia Dogon, a beleza absurda das suas grandes máscaras, a esplêndida cosmogonia desse povo.

 

(Hoje deveria começar a publicar uma série a que chamei “O 7º de Praia (latim e grego por fora)” que mais não é do que um punhado de historietas acontecidas ou inventadas, vá lá saber-se, a um punhado de amigos com alcunhas tão surpreendentes como Tatão Cachimbinha, Joca Tripé, K, James Dininho, W, Tom Mix, Miro Mirão, Alf Alfa, Leôncio Rex etc... Algum humor, pelo menos é o que se espera, a gabardina da fantasia sob a crueza da realidade, enfim, algum delírio. A porcaria do “real quotidiano” (valha-nos S Mário Cesariny!) deixa para as calendas esse projecto. Isto foi praga do raphanus raphanistrum, planta malcriada muito na moda). 

* as ilustrações: máscara dogon e uma "toguna" ou casa dos homens e das palavras, sítio onde se reunem os homens e se tomam deliberações. Também funciona como casa de administração da justiça.