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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

25
Nov09

Au bonheur des Dames 209

d'oliveira

Balada de Outono

O título é roubado, já sei. Ao Zeca, aliás. Tenho uma desculpa. Conheci-o desde muito cedo, fui amigo dele, li em primeira ou segunda mão alguns dos seus mais emblemáticos poemas e, com dois magníficos amigos (António Mendes de Abreu e João Nazaré) guardámos alguns poemas e cantigas que mais tarde lhe recordámos (entre essas o “Canto Moço” que o Zeca, pasmado, dizia, ó pá isto é bom, é mesmo bom, enquanto os dois alucinados cantavam a perdida canção). Eu que desafino até meter dó (ou seja eu desafino na escala completa do ao si sem apelo nem agravo) tinha apenas a função de corrigir algum eventual desvio da letra.

E a propósito de Zeca devo dizer que li já a fotobiografia da Irene Pimentel. Direi que há por lá um par de erros de datas e de circunstâncias que são de alguma consequência. Também me parece que se dá por oiro de lei alguns desabafos do Zeca que era temperamental até dizer basta. Por exemplo sobre a Coimbra dos anos sessenta que o admirava e sempre o convidou ao contrário do que parece ter afirmado. E, já agora, gostaria de acrescentar que o Estado Português, ou pelo menos uma sua emanação, a Secretaria de Estado da Cultura, via Delegação Regional de Cultura do Norte, reconheceu o seu talento e a sua importãncia ao convidá-lo para cantar no Auditório Nacional Carlos Alberto. Aliás, esse memorável concerto abriu portas dos teatros do Estado  todos os outros cantores de “intervenção” (Vitorino, Sérgio, Zé Mário etc...) que depois e pela mesma instituição foram convidados a apresentar-se no Porto.

Tal actividade, realizada durante o consulado de Rui Feijó, o primeiro Delegado Regional do Norte, foi asperamente criticada nos corredores da SEC e este vosso criado ouviu muitas e fortes à conta dessa nossa pretensa “actividade filo-comunista”. Poderia citar (descansem entretanto os seus autores) nomes de pessoas com tabuleta na porta da praça das Artes e Letras que desancaram o Rui (e mais a mim, que era quem estava á mão) por esta aventura. Ah, anos oitenta...

 

Perdi-me. Eu só queria justificar o título e o que aí vai. Só queria falar deste outono que entra e sai, que parece umas vezes Verão retardado, outras Inverno encolhido. Assim ninguém se entende. Nem alguns (vários) amigos meus que desataram a dar-me os parabéns por um aniversário que está perto mas ainda não foi. Não que eu não queira fazer anos. Ou perfazer que é mais exacto. Mas este ano, com esta loucura climática, anda tudo numa lufa-lufa. Até tentaram pôr-me no quadrado dos escorpiões. Escorpião eu? Sou, ao que parece, que disso nada sei, Sagitário de pura cepa. Nem sequer estou nesse(s) dia(s) fronteiriço mas sim e francamente nos dias do amável signo do arqueiro.

A CG que se afirma igualmente descrente destas balivérnias astrológicas (enfim, descrente o que se diz descrente, nem tanto. É mais para o cartesiana: tem dúvidas hoje e certezas ontem. Ou vice-versa, vá-se lá saber) está solidária comigo. Também é verdade que passei largos dias a partir nozes que ela comia com um desenfado digno de menção. Mais duas, pedia. E eu, zás!, agarrava em duas nozes e esmagava-as uma conta a outra na mão. E mais. E mais duas só... Até que, cansado, e vendo que não conseguia sequer provar uma noz, a ensinei a fazer o mesmo e agora é vê-la a aviar nozes mais depressa do que um esquilo vermelho.

Espero que o meu antigo colega Daniel me leia e me mande mais nozes que o saco que mandou já é só memoria.

 

Mudemos entretanto de bitola: eu há dias descobri estupefacto que boa parte da minha genial colaboração para o inc estava assinada por um misterioso incursões. Não se perdia grande coisa mas a verdade verdadeira é que aquilo me tocou. Anda um quiddam para aqui a dar ao dedinho computacional e depois nem isso lhe atribuem.

Uma das almirantes desta barca bem me sussurrou que eu fora avisado dessa possibilidade e que (para espanto dela) encolhera metaforicamente os ombros como quem diz para a frente que atrás vem gente. Só por gentileza é que a amabilíssima colega pode pensar que eu sequer percebi o que ela me dizia. Declaro aos quatro ventos que sou um analfabeto nestas coisas mas ela provavelmente não terá avaliado a profundidade da minha ignorância nem a espessura da minha inépcia. Bom, seja como seja, o caso está resolvido. Aquelas croniquetas (e parece que eram bastantes) regressaram como o filho pródigo à casa paterna e eu perdi uma oportunidade de apontar “uma perseguição soez ao meu génio incompreendido” à cara do país.

A propósito de génios incompreendidos, um houve que, ainda que bom poeta, alimentou contra a pátria madrasta uma desesperada zanga. Eu sempre achei que muitos, a maioria, dos intelectuais têm genericamente uma alta opinião de si próprios. Neste caso, a coisa raiava o doentio. Nada o acalmava muito menos os elogios. Que eram provas de uma descabelada má fé, ataques insidiosos, sei lá que mais.   

Depois de morto, apareceu nos escaparates um livro com tanto fel quanto falta de qualidade literária,  ética e profissional. Nele vinham canhestra mas vilmente atacados muitos dos que, mal ou bem, mais mal do que bem, eram tidos pelo autor como émulos, adversários ou inimigos. O livro, preparado minuciosamente, apareceu apenas depois da morte do autor. Uma vingançazinha. Uma cobardia e uma canalhice. Ou de como o outono da nossa vida nos prega partidas.

Outonal, mas em paz comigo e com o mundo, recuso-me a dar o nome do escritor mal-humorado. A sua poesia salva-o enquanto poeta e os mortos devem permanecer assim. Mortos e enterrados. Definitivamente.

Relembrando outro outono, o de há vinte anos, li, entre espantado e divertido, as descrições líricas de alguns intelectuais (arre!) sobre a vida na antiga RDA, vulgo Alemanha de Leste. Eu não vivi lá. Limitei-me a ir a Berlim e daí a passar o muro vezes sem conta. Primeiro em 1970 e depois em 76! Já aqui deixei algumas impressões dessas estadias. A pobreza, a polícia omnipresente, o medo, a resignação, a falta gritante de artigos ridículos (até de bananas!), as conversas sussurradas, os milhões de fichas da Stasi, os mortos na tentativa de passar o muro, a descrença, o delírio económico – a gigantesca bancarrota que se lhe seguiu – nada disso comoveu estes nossos compatriotas que na  RDA estudaram. Claro que nem terão percebido que eram privilegiados em relação aos cidadãos comuns do país que os recebia, que eram tidos como representantes dos partidos irmãos do SED (o partido único este-alemão) e por isso cordialmente detestados, alvo de desconfiança.

Todas essas evidências  gritantes que negavam a pura palavra “socialismo” eram atiradas para o ligeiríssimo “deve” contra o forte “haver”  que eles traduzem em ballet, em museus, em orquestras, no teatro. Pobre gente: desconhecem que a liberdade é a única condição sine qua non da cultura. Sem isso a orquestra desafina, o teatro é revisteiro, o bailado manco e os museus cemitérios.

Dir-se-á, todavia, que nesse leste policiado e fechado a sete chaves havia igualdade. Nem isso é verdade. Havia alguns que eram mais iguais que outros. Havia os membros do partido e as massas. Havia a nomenklatura e o resto.

E depois... nas prisões também é costume dizer que os presos são todos iguais! Iguais mas presos! E nem assim tão iguais, como se sabe.

Os muros, e o muro propriamente dito, caíram pois por milagre para estas nossas gentis boas consciências.  E os milagres, é sabido, são sempre reaccionários. Mesmo este de apresentar como paraíso um inferno de tristeza e desespero.

A ilustração: Quarto stato de G. Peliza da Volpedo (Milão , Museo del Ottocento)