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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

26
Nov09

diário Político 130

mcr

 

a verdade, a áspera verdade...*

Não queria estragar o triunfo da cantora Mariza e, muito menos, a esforçada tentativa de mostrar o país sob um aspecto menos desagradável. Percebo que em épocas de escuridão seja necessário um pouco de luz (Mehr Licht, terá murmurado Goethe no leito de morte... mas isso eram outroa tempos). Todavia, por muito que um disco de world music conforte os auditores, tenho por mim, que hoje, as notícias são definitivamente menos lisonjeiras.

Já aqui falei da infâmia absoluta que é o acosso das mulheres. Em Portugal no que vai de corrente ano, vinte e seis foram assassinadas pelos seus cônjuges, ex-cônjuges companheiros ou ex-companheiros. Ainda não estamos na média da Espanha (uma morta por semana) mas para lá vamos.

Também o quadro das mulheres agredidas merece algum relevo: este ano, ou, melhor, nos primeiros nove meses deste ano registaram-se 8.400 mulheres agredidas. Registaram-se, notem bem, faltam na lista as que calaram por vergonha ou por medo. Ao que parece isto representa mais 700 (10%) de agredidas do que no ano passado.

As notícias dizem igualmente que os assassinatos foram mais violentos, as agressões mais ferozes e que começam cada vez mais cedo.

A segunda notícia do dia diz respeito ao escândalo BNP. Ao que se sabe, foram desviados 9700 milhões de euros através de um balcão virtual no tal “banco insular”. Nove mil e setecentos milhões! Alguém daí faz ideia do que representa esta pipa de massa? Não vos dá vertigens?

Bem, ao banqueiro não deu. Onde é que pára esse dinheiro e quem é que vai recuperar o que, depois, lá se meteu imprudente e impudentemente? À boleia de um nunca provado risco sistémico, pagámos todos os muitos centos de milhões que se atiraram para aquele buraco negro. E iremos pagar, estejam descansados, os depósitos dos depositantes que ainda hoje ocuparam desesperados mais uma dependência do banco.

Ainda não estamos ao nível do Madoff (ou lá como se chama o homem) mas para lá caminhamos. Depressa, e a passo de corrida...

A terceira novidade é ainda mais intrigante. A Associação dos Senhorios Portugueses verificou que cerca de 20% dos contratos de arrendamento não são cumpridos pelos inquilinos. Não pagam. Assim de simples. Ao fim do mês, mandam dizer que não estão. No segundo mês idem e assim por diante.

E não são despejados?, pergunta alguém. Alguém muito ingénuo. Em Portugal uma acção de despejo dura eternidades. Cinco, seis anos, diz-se. Os senhorios, que não podem esperar do Estado senão impostos, dos tribunais senão demora, resolveram criar um ficheiro de devedores.

A curiosa associação dos inquilinos portugueses veio gravemente dizer que isso é uma infâmia e um abuso. Senhorio é especulador e rico e mau. E não faz obras. E pede mundos e fundos. Por tudo isso e por mais coisas que não me lembro, eis que acusam os senhorios que pretendem defender-se dos maus pagadores profissionais. Até poderia parecer que na briosa e honrada associação dos inquilinos há também uns rapazes dados à falcatrua. Não há, claro. Aquilo é boa gente. Tem de ser, senão seriam senhorios e não inquilinos.  O número de débitos atinge, só no patamar das rendas superiores a 500 euros, mais de vinte mil contratos. Em conta simples isto significa mais de cinco milhões de euros mês. Coisa pouca ao lado do BNP ou da autorização de emissão de dívida pública apresentada ao parlamento (4900 milhões de euros!)

(Diga-se em abono do governo que a soma ora pedida é inferior ao saque do BPN.)

As boas almas indignam-se com a aleivosa intenção dos senhorios e falam da lei da protecção de dados. Esquecem que para as dívidas do telefone já existe autorização para a lista negra. Claro que aqui não são os senhorios os beneficiados mas apenas três ou quatro bondosos grupos capitalistas que gastam em publicidade o equivalente a um largo par de meses de rendas em atraso. E têm sucesso! E investem no estrangeiro. E são famosos lá. Como a Mariza, por exemplo....

*expressão atribuída a Danton

d'Oliveira fecit  

 

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