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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

28
Nov09

o leitor (im)penitente 52

d'oliveira

Que seja pelos meus pecados...

Sou um leitor do “Publico” desde o primeiro número. Não é virtude mas também não é pecado e, assim como assim, acaba por ser, a meus olhos, o jornal diário mais vivo, mais interessante e mais abrangente, no que toca a colaboração, de todos os que conheço em Portugal. É o único jornal de referência que temos. À medida portuguesa, mas de referência, apesar de tudo.

Não estou sempre de acordo, não estou muitas vezes de acordo, já aqui fartamente o provei, mas aqui respira-se indubitavelmente liberdade e profissionalismo.

Leio, pois, com atenção os textos dos comentadores mesmo quando, á primeira linha, vejo que vou detestar o que por ali vem. A ideia geral é que se o comentador usa de seriedade merece ser lido. Seriedade, disse.

Ora, de há algum tempo a esta parte, aparecem, travestidos de comentadores, uns abencerragens que mais não fazem do que vender a farinha exígua dos respectivos moinhos políticos. Umas vezes, trata-se de dirigentes ou quadros políticos conhecidos, no activo, e desses podemos escapar. Outras, aparecem sem menção de partido, identificados com profissões neutras que não dão sinal algum de preferência politica militante.

Entre estes avulta um singular “especialista em sistemas de comunicação e informação”, signifique essa esdrúxula apresentação o que significar. De seu nome Vilarigues (como um antigo membro da direcção do PC desde a clandestinidade, Sérgio Vilarigues, homem que passou pelo Tarrafal e que depois viveu muitíssimos anos na clandestinidade conseguindo ao que julgo um recorde notável de vida furtiva escapando à policia, o que não é pequeno mérito e impõe respeito a qualquer um que saiba quão dura e difícil era aquela [não]vida), debita no Público uns artigos que nem primários são, de tão vesga comunicação e omitida informação.

Desta feita escreveu sobre a responsabilidade de várias forças, sectores e classes sociais no aparecimento e fortalecimento do nazismo. E, à boleia, debitou mais umas vulgaridades, dignas não de Marx, sequer de Cunhal mas digamos (e por piedade) da estafada Marta Harnecker que teve o seu pequeno momento de glória entre alguns rapazolas nos idos de setenta e oitenta. O Manifesto era uma chatice? Lia-se um resumo da Harnecker e já estava. A senhora foi muito popular na América Latina e os resultados vêem-se...

Hitler, e o partido que ele recriou (o NSDAP) a partir de formações da direita conservadora e de um parco grupo vagamente populista, apoderou-se da Alemanha graças a várias circunstâncias, entre as quais avultam a crise económica, a dureza francesa quanto ás reparações de guerra (que levou até a uma mini-invasão do Sarre) o apoio primeiro reticente e depois crescente de grandes estratos da classe média baixa e do operariado, bem como, evidentemente o também crescente apoio dos representantes da oligarquia alemã (industriais, banqueiros, grandes proprietários etc...) Todavia, mesmo assim, havia na Alemanha forças politicas, religiosas, sindicais que poderiam ter levado de vencida a ofensiva legal, ilegal e para-legal do partido nazi e das suas milícias. Refiro-me, além das igrejas,  aos Sindicatos e aos dois fortíssimos partidos da esquerda alemã, o socialista e o comunista. 

Detenhamo-nos nestes dois últimos. Viveram eles em paz, tiveram, apesar das divergências importantíssimas que os separavam, alianças tácticas contra o inimigo comum? Se não as tiveram, a que se deve?

Ora bem, convém esclarecer que a chegada da nova IIIª Internacional não se fez sem profunda comoção e convulsão nas sociedades desenvolvidas da Europa. Os partidos criados à imagem e semelhança do Partido Comunista da Rússia (bolchevique) (PCR(b))  apareceram por cisões na velha social democracia. Foram capitaneados por emissários (comissários políticos clandestinos) do Komintern e, sobretudo no início, a sua propaganda violenta e os métodos usados para ganhar sindicatos ou cindi-los foram a negação da “fraternal discussão politica” que apregoavam. Ao longo dos anos, nas grandes cidades alemãs o PC crescia animado pelo slogan “Klasse gegen Klasse” em que o papel da classe traidora e servidora da burguesia era atirado para cima dos socialistas. Não que estes não tivessem antigas responsabilidades, pois é bem sabido que não souberam, ou não puderam, opor-se à guerra. Mas isso ocorreu em toda a parte, inclusive na Rússia e no partido onde Lenin militava. Este, quando se refugiou na Suíça (de onde saiu em plena guerra num comboio selado com destino à Rússia, mediante licença das autoridades alemãs...), representava uma ínfima fracção do Partido Operário Social Democrata da Rússia. E mesmo essa fracção cedo se cindiu em mencheviques e bolcheviques dando azo a uma troca de documentos, discussões e acusações quase tão violentas quanto as que, a partir de finais dos anos vinte, levaram á liquidação impiedosa de um número impressionante de dirigentes revolucionários soviéticos para já não falar na hecatombe que se abateu sobre os simples militantes do partido sob a batuta de Stalin. Basta relembrar que dos 139 titulares e suplentes do Comité Central do PCR (b) eleito em 1934, 98 foram presos e executados em 1937/8 e que 1108 dos 1966 delegados ao XVIIº Congresso foram presos e, quase todos, eliminados.

Isto que se passava na URSS teve como contraponto nos restantes partidos comunistas, estreitamente ligados ao soviético, consequências temíveis. Primeiro, afastou dirigentes considerados fracos ou social-traidores. Depois, diminuiu a já escassa margem de critica e de liberdade permitida a militantes e dirigentes. Finalmente, e como não podia deixar de ser, lançou o partido alemão na senda do sectarismo e isolou-o completamente. Pelo caminho, ficaram também muitos socialistas combatidos de modo terrorista pelo PC.

Mas há mais.

Hitler cresceu e tornou-se ousado. E a sua ousadia teve inesperados dividendos quando em vésperas da guerra, consegue levar a cabo o pacto germano-soviético, garantindo assim a tranquilidade das fronteiras orientais, ganhando na passagem metade da Polónia enquanto os soviéticos ficavam com mãos livres para a outra metade que ocuparam bem como os países bálticos.

Em termos claros, simples, evidentes: o pacto germano-soviético teve não só o resultado já enunciado acima mas também, e não é coisa pouca, o silenciamento da propaganda anti-nazista por parte dos grandes partidos comunistas ocidentais especialmente o francês. É bom não esquecer que, já com os alemães em Paris, ainda houve edições do Humanité à venda! E o PCF só passou, enquanto organização, à resistência depois da invasão da União soviética pelos alemães, já a guerra tinha quase dois anos.

Vir agora, um especialista em sistemas de comunicação e informação tirar castanhas do lume sobre a ascensão de Hitler sem recordar estas triviais verdades parece no mínimo tonto. Aliás deste mesmo especialista saiu ainda há pouco um outro artigo onde, numa redacção deficiente, se tentava minimizar o gulag, o número de vítimas e consequentemente o numero de crimes políticos cometidos pelo poder na ex-União Soviética. Quando leio coisas deste teor apenas penso em como seria interessante ver estes escribas metidos naquela sociedade e naquele tempo. Que é quel lhes teria acontecido?

Teriam desaparecido também na “noite e nevoeiro” siberianos ou seriam apenas meros guardas na Lubianka?

 

* A fotografia: assinatura do pacto germano soviético. Reconhecem-se Stalin, Molotov e Ribbentrop. Tão amigos que eles eram.... 

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