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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

24
Dez09

Au Bonheur des Dames 214

d'oliveira

Fruta da época

Convenhamos: as festas são uma enorme estopada mesmo se, como é o caso se disfarcem de “festa da família”. Há pouco, pediram-me, aflitivamente, para ir por uns pacotes de leite, ao supermercado aqui mesmo ao lado. Eu, estava acampado num cafezote manhoso mas que tinha uma mesa livre a tentar ler o jornal. Todos os outros me tinham dado tampa: mesas arrumadas a um canto e bolaria à venda.

Lá fui para o super sem grande desgosto pois, de facto, fazia-me falta a velha esplanada, o par de amigos, o jardim em frente, os cães que por lá correm e o gato, o gato cinzento, que agora é o incontestável proprietário do espaço. Sem isso chega-me um café bebido à pressa.

O super estava a rebentar pelas costuras. Diante de cada caixa uma boa dúzia e meia de pessoas com carrinhos carregados até dizer chega. "É a crise", murmurava um filósofo ao meu lado, agarrado a duas garrafas de whisky e uns pacotes de aperitivos. Já te estou a topar, pensei eu, vais encher a mula e apanhar uma bezana das antigas. E mirei-lhe o garrafame para ver que tal se tratava. Pois nada mal, não senhor, duas garrafinhas de vinte anos, coisa decente e apropriada à festividade. E pus-me a tentar perceber se aquilo era para consumo próprio ou se o cidadão , carregado de fraternidade e amor cristãos, ia dividir com amigos e familiares.

"Temos para três quartos de hora ou mais", informou-me ele quando viu o meu olhar cúmplice. Mais, cortou alguém lá da frente, "já aqui estou há trinta e cinco minutos e isto nem anda nem desanda."

Ai ele é isso?, perguntei-me a mim próprio. E abandonei as embalagens do leite (na mesma estante de onde as tirara, quand même) e telefonei à CG avisando que se tudo estivesse como aquele supermercado ela bem poderia desistir de fazer o seu famoso arroz doce que aliás já ia em meio. Mas está toda a gente à espera..., retorquiu-me pesarosa. E é verdade: há duas inteiras casas de família que se lambem só de pensar no arroz doce da CG. Quando o vêem atiram-se a ele que nem gatos a bofe, uma vergonha! Já dei por um sobrinho, não vou dizer qual, que à sorrelfa comia uma garfada do tradicional bacalhau e duas colheradas de um pratinho de arroz doce escondido atrás dele.

E não é caso único que uma vez, preparei uma lebre das verdadeiras, das bravas, caçada sei lá onde, e convidei o nosso relapso confrade Simas Santos. A mesa que estava preparada para a festa incluía uns pratinhos de bombons belgas (um primor de bombons, desses que apetece comer sozinho para não perder sequer um, mas eu generoso, ou melhor a minha perdulária cara-metade, pusera-os inadvertidamente na mesa). Pois o nosso SS devorou a lebre que lhe competia entremeando cada garfada com um bombom. Quando fomos por eles, sobrava uma escassa meia dúzia que deviam a sobrevivência ao facto de estarem demasiado longe da mão daquele desgraçado guloso.

Bom, já me perdi, como é meu hábito. Eu (que remédio!) falava do natal da tribo Correia Ribeiro e aliados. Uma lufa-lufa! Felizmente, é o meu irmão (mais novo mas mais prolífico) quem se encarrega de receber-nos. Nós vimos de longe, com um par de prendas, alguma fome e o tal arroz doce. Dantes a minha mãe (em cuja casa nos aposentamos nestas faenas) ainda fazia as rabanadas mas, aos oitenta e três anos, proclamou a sua independência: ”Acabou-se. Se quiserem pago a quem as faça mas eu é que não!”

Houve um ano em que assumi tal encargo (honrosamente cumprido, com palmas e volta à arena) mas agora nem isso. A minha desculpa é que não me entendo com o fogão a gás... E não me entendo, mesmo, graças a Deus!

De maneira que, lá mais para a noitinha, transportarei a old lady, o arroz doce, as prendas, agora só para os mais novos (que os adultos decidiram –graças e louvores sejam dados ao proponente! – abolir as prendas entre os “economicamente independentes”. Ai que alivio, leitorinhas gentis! O que eu passava, o que eu espremia as meninges para inventar prendas interessantes, originais, diferentes, de ano para ano. Agora, que é só para a juventude impecuniosa corro-os todos a livros e filmes. Com a vantagem que podem emprestá-los depois uns aos outros. Este ano vão conhecer Ítalo Calvino e a trilogia alucinante do cavaleiro inexistente, do barão trepador e do visconde cortado ao meio. Espero que gostem que aquilo é do melhor que há.

E por aqui me fico. Trouxe uma reserva de revistas que amanhã não há jornais, tenho o Expresso pronto a ler, farei uma autentica gincana à procura de um sítio decente para beber os meus cafés da manhã, encontrarei outros tantos peregrinos à procura do mesmo, comerei demais, falarei demais e lembrar-me-ei demais dos antepassados próximos que, nesta altura, tomam silenciosos e graves, o seu lugar à mesa da alegria e da melancolia. Limparei com as costas da mão alguma furtiva lágrima e, como bom ateu que sou, pedir-lhes-ei que velem pela tribo, pelos mais novos e indefesos, pelos mais velhos também, rogando-lhes que intercedam à Senhora da Encarnação, padroeira oficiosa de Buarcos, pelos que estão, pelos que não estão e pelos que, cedo ou tarde, irão. Alegria à mesa e uma boa morte quando a nossa hora chegar.

E bom natal para vocês todos que me vão aturando e até aqui chegaram.

A gravura deste postal: a gata Ingrid Bergman, a maníaca da água e, como se vê, do fogo. Mete a pata, queima-se, lambe, volta a meter e assim sucessivamente...

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