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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

30
Dez09

Diário Político 134

mcr

 Ano vai, ano vem

Nessa invenção europeia que se chama Kosovo e que existe por obra e graça de bombardeamentos e de ajuda maciça internacional vigora algo que relembra o mais detestável do passado recente: no caso quem apanha são as suas minorias locais: os ciganos e os sérvios. Hoje, um noticiário retratava a vida das comunidades ciganas nessa hipótese remota de país. Não basta o estarem privados dos mais elementares direitos (desde a segurança social até à educação pois de um lado não os reconhecem e de outro não os recebem) mas sabe-se agora que mesmo com policia internacional e nas barbas das ONG das instituições internacionais de ajuda e controle há diariamente espancamentos, perseguições e ameaças. Milhares de ciganos vivem na mais aflitiva situação tanto mais que ninguém os quer receber. Uns por que entendem que eles devem permanecer na terra natal, outros por que os não querem pura e simplesmente.

O ano de 2010 não vai ser melhor, evidentemente mas tem grandes hipóteses de ser pior para estes outros europeus.

Um terrorista nigeriano embarcou tranquilamente com a sua carga mortal num avião com destino aos Estados Unidos. Só a sua imperícia evitou um massacre tanto mais que a explosão que preparava ocorreria sobre o aeroporto. As boas almas acham que a prevenção nos aeroportos e as medidas a ela associadas são uma intromissão desmesurada nos direitos humanos! Têm razão: um terrorista só se realiza matando. Matando muitos e cegamente. Culpados e inocentes. Muitos, de qualquer modo. Se o impedem de fazer isso o pobre homem fica sem um destino. E sem os jardins de Alá e as huris que o esperam no paraíso para o premiar.

O ano de 2010 começa sobre perspectivas risonhas. E esotéricas. E eróticas ao que se supõe, a menos que as huris sejam como os anjos assexuadas...

No “torrãozinho de açúcar” reina a calma. Chove, como é hábito, as viagens para destinos quentes e aconchegados bateram recordes, não há lugares disponíveis nos salões de festa, os saldos começaram batendo as expectativas mais optimistas dos comerciantes, enfim, parece que a crise é apenas uma invenção da oposição. Será?

 

Jornais e revistas fazem o “balanço da década”. Como se os números quisessem significar qualquer coisa e a magia do 10 fosse uma fronteira entre um antes cinzento e um depois dourado. Os balanços valem o que valem ou seja muito pouco. Sobretudo se feitos a quente e baseados num número que nada quer dizer. Dispenso-me dessa tarefa sem, todavia, me dispensar de vos desejar um Bom Ano. Com uma pequena prevenção: somos nós (e um pouco a nossa circunstância, é verdade) quem faz o futuro. Se formos mais cidadãos, menos circunspectos, mais exigentes, mais solidários, mais interessados na coisa pública, é possível que o ano que começa em breve seja ligeiramente mais agradável do que o que passou. Desejo-vos, pois, a paz e a indignação, a alegria e a vigilância, o amor e o humor. E o amor, outra vez.

Seja-me permitido um voto absolutamente particular: o Miguel Esteves Cardoso e a mulher, Maria João, se não me engano, estão a enfrentar um cancro na mama. Estão porque, pelo que leio, o Miguel acompanha a mulher em tudo e anima-a, estimula-a e sente. Um ateu como este que se assina apenas pode desejar-lhes que 2010 seja o ano da vitória, da primeira vitória por que depois há cinco anos incertos pela frente.  Força Maria João, um abraço Miguel.

D’Oliveira fecit 

a gravura serve para homenagear o grande David Levine, morto há dias. quanto ao Marx, apeteceu-me. antes ele que os medíocres arautos do socialismo que agora se pavoneiam por este mundo.