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Incursões

Instância de Retemperação.

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28
Mai10

Estes dias que passam 205

d'oliveira

Andam a dar-me música!...

Ora vamos lá escrever uma crónica semi-estival, coisa leve, para fim de semana com sol, ameaças de praia, promessas de Verão e uma fugaz esperança numa pratada de sardinhas assadas com uma salada de pimentos.

Comecemos então pelo relatório anual de actividades e contas da Casa da Música. Vem no “Público” em destacável de oito páginas, mas é provável que o mesmo suceda com outros jornais.

Abstraindo de outros números e, sobretudo, da espessa e fraca prosa das mensagens e do relatório, escrita num misto de langue de bois e português primitivo e indigesto, vamos só praticar com três números:

1  total de “eventos”: 1561

2 total de espectadores e participantes em actividades educativas: 211.152

3 total de bilhetes vendidos: 110.237

Façamos agora umas continhas:

A venda de bilhetes corresponde apenas a  (+ ou -) 52% do número de espectadores e participantes;

A média de espectadores por “evento reduz-se a 135 pessoas!

As leitoras (e os distintos cavalheiros que  as acompanham) tirarão as suas conclusões.

(nb: aparece ainda um número de visitantes e de visitas guiadas que ascende a 252.000 pessoas (42.000 +210.000) Convenhamos que nada ou pouco se retira disto, mesmo na hipótese do 2º número ser rigoroso)

 

Maria João Seixas deu a sua primeira entrevista enquanto Directora da Cinemateca Portuguesa. No “Público” mais uma vez. Eu sei que alguns leitores se enfurecem com este jornal mas a verdade é que, com todos os defeitos que se lhe podem apontar, é o único que se atreve a questionar estas realidades da cultura.

MJS entrou para a Cinemateca no rescaldo da morte do João Bénard da Costa. A sua chegada acalmou o burburinho que entretanto se “alevantava” e que tinha pouco a ver com aquela casa e muito com ambições pessoais e intrigalhada político-cultural. Conhecendo-a mal, mas conservando dela uma boa impressão, temi que a João se visse rapidamente trucidada. Pelos vistos enganei-me, e ainda bem.

E que é que diz MJS?  Pois duas “coisinhas” simples e andadeiras.

A primeira consiste na ideia de criar um circuito nacional de cópias digitais de grandes filmes (eu iria mais longe: grandes e razoáveis, pois não há bom cimnema sem muito cinema, bom, mau médio, assim assim) que iria a todo o lugar com um mínimo de custos e um máximo de eficácia.

A segunda é esta: MJS entende que uma segunda cinemateca (no Porto) não é uma prioridade.

Uma vez, depois de um belo discurso dela (No encerramento dos Estados Gerais) eu disse, alto e bom som: quem fala assim não é gago. Foi uma risota naquele composto grupo que ocupava o palco do Coliseu e a João fez-me o favor de perceber que aquilo era um elogio bem humorado.

Quem por aqui me atura, lembrar-se-á, certamente do que escrevi sobre esta matéria cinéfila. Considerei aberrante um pretenso abaixo-assinado de quatro mil e tal preopinantes que pedia em alta grita uma cinemateca para o Porto. Baseava a minha observação, desencantada e pessimista, numa longa prática cineclubista, na minha experiência de muitos anos na Delegação Regional do Norte do Ministério da Cultura, e na frustração tantas vezes sentida de deparar com uma falta absoluta de público em ciclos de cinema clássico promovidos em colaboração com a Cinemateca.

Eu, quanto a abaixo assinados deste tipo, tenho uma opinião escandalosa. Só acredito quando os abaixo-assinantes pagam forte e feio. Como quem garante que vai até ao fim na sua exigência. Pedir coisas ao Estado é fácil e não custa nada. Pedir, garantindo contrapartidas claras, é mais trabalhoso. E MJS dá o saboroso exemplo de um ciclo de cinema em Serralves de tal maneira às moscas que alguém perguntou aos raros espectadores se eles ali estavam em representação da multidão vociferante e cinéfila.

Uma cinemateca é algo pesado, caro, de manutenção difícil que não dá para andar a brincar aos quatro cantinhos com um par de rapazolas que do cinema tem uma noção mais do que elementar. Uma cinemateca não é só uma salinha escura e confortável mas também uma biblioteca, um centro de documentação, um laboratório e sobretudo uma garantia de nível internacional quanto ao manuseamento e projecção das “fitas”. Desculpem lá: isto não é para amadores. Como a João diz, e muito bem, quem quer ver “pintura antiga” vai ao Museu das Janelas Verdes. O mesmo se passa com os grandes e ultra-sensíveis filmes clássicos que a Cinemateca guarda, preserva, mostra e publicita. Ponto final.

Parece, porém, que a senhora Ministra, bem como o seu antecessor de fraca memória, terá outra ideia. Se é que a referida Senhora tem ideias que ultrapassem aquela tão espampanante da Tauromaquia...

Como consolo, fiquemo-nos com esta vaga segurança. Para já a crise e a falta endémica de dinheiro, retira toda a eficácia à promessa ministerial. E, enquanto o pau vai e vem, é possível que o bom senso regresse e a Ministra parta. Estrelinha que a guie.