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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

28
Jul10

Au Bonheur des Dames 239

d'oliveira

Isto está de estorricar os untos...

(Variações sobre estação calmosa)

Uma amiga escreve-me contando da primeira e nova neta. Vê-se que, mesmo fingindo distanciamento, está embevecida. E não é para menos: uma neta, sobretudo a primeira, é sempre uma bênção.

À uma, são os pais que lhe aturam as noites, os choros, o cocó enquanto nós as podemos alegremente deseducar. Depois, temos outra visão das coisas e do mundo, outra paciência, outra urgência.

A minha amiga, a propósito da neta dá-me “secretas” novas dos avoengos. De um par de amantes da música que deixaram um nome honrado e honroso no deserto da nossa crítica musical; de um brioso e valoroso militar nos anos em que ser militar nas guerras ditas de ocupação das colónias era qualquer coisa. Hoje, olhamos para esse tempo com olhos cansados e do século XXI. Não percebemos aquela elementar verdade do último quartel do século XIX quando toda a  Europa entendia dever ter colónias e retalhar a pobre África já gasta pela escravatura infrene e pelas guerras que isso provocava. Ser “colonial” era, nesses tempos esquecidos, uma honra, um título e um sinal de inequívoco progresso. Boa parte da propaganda republicana assentava na imperiosa e civilizadora acção colonial. Quando os pobres soldados foram mandados para o matadouro da Flandres na 1ª Grande Guerra, um dos argumentos mais brandidos (e menos provados) foi o da defesa das “colónias”. O ultimato inglês sobre a retirada de qualquer autoridade portuguesa do mapa cor de rosa (as questões do Chire e dos macololos) foi um dos momentos mais altos da campanha republicana contra a Monarquia que “se vergava” frente a John Bull.

Aliás, quando penso nessa gloriosa inutilidade que é a vaga união dos países lusófonos, suspeito sempre que ainda por lá andamos enfeitiçados pela ideia de que “aquilo” é obra nossa. E se for preciso meter naquele saco de gatos a Guiné do Obiang podem ter a certeza que a meterão. Bem podem Mia Couto ou Eduardo Lourenço protestar. Aliás, os intelectuais servem para isso, para protestar. Protestar e não serem ouvidos. “Coitado. O gajo é bom escritor mas de política não percebe nada....” É por isso, ou também por isso, que Manuel Alegre (a quem Soares não reconhece “estatura”!!!...) vai perder para Cavaco Silva. Este, não pratica sonetos, sequer rimas mas “sabe da poda”... e de Economia.

Eu, que apoio Alegre por mil razões a menor das quais não será um ramalhete de afectos de origem coimbrã, já nem me irrito com isto. Já não tenho idade para discutir as insanidades do dr. Soares que em tempos bem difíceis apoiei (e no princípio contávamo-nos pelos dedos de uma mão, frente a zenhistas, comunistas, pintassilguistas e outros freitistas), coisa de que me não arrependo. Ao dr. Soares faltou sempre um golpe de asa para fazer de contrapeso às duas figuras que o atormentaram até bem tarde (Salazar e Cunhal) e também não foi contemplado com o quantum satis de “mais azul e mais além” que lhe permitisse ombrear com Mandela ou com Sandro Pertini, “il babbo” presidente da Itália com um honroso passado de socialista e “partigianno”. Ficou-se por uma embevecida tradução para português do amigo Miterrand. Com uma agravante: a tradução é como o francês que Sª Exª pratica: desenvolto mas trapalhão e fortemente aldrabado. Paciência...

A CG está como as cinco chagas. Aproveitou a minha ausência em Lisboa por um par de dias para desmaiar e cair em cima sei lá de que móvel. Resultado, toda ela é uma dor. Então as costelas nem se fala. Daqui a dias devíamos partir para a Galiza mas assim a coisa está complicada. E ela que anda a sonhar meio ano com aquelas escassas semanas à borda d’agua (a nossa casa está a três metros da maré cheia, dormimos embalados pela ligeira rebentação da ria de Pontevedra, à vista dos golfinhos e da meninada que guincha naquelas mansas águas.

E dorme mal, claro, com as dores. Eu fui exilado para outro quarto para lhe deixar espaço mas nem assim. Não tem posição para dormir e nem a companhia da gata Kiki de Montparnasse a consola. A Kiki, de vez em quando vem ao meu quarto certificar-se de que durmo o sono dos injustos. Salta para a cama e, ronronante, dá-me cabeçadas até acordar. Logo que verifica que estou vivo, vai embora e deixa-me a pensar em gata à bordalesa ou, pelo menos, estufada com ervilhas.

Os dispensáveis carinhos nocturnos da Kiki, o vento leste que hoje pela madrugada até assobiava, o cheiro persistente a queimado, quase que me fazem desejar a invernia.

Como as leitorinhas gentis (e pacientes, pacientíssimas!...) perceberam já, estou (como o chorado rei D Duarte) de humor merencório. Nem a campanha lisboeta me melhorou a disposição. Tinha visto num catálogo de um alfarrabista uns dicionários de makua-português e de xironga-português (e vice versa) mais um estudo sobre a importação de palavra portuguesas para o suhaíli  e um outro sobre questões conexas e fui entusiasmado por eles. Nada! Népia! Tinham sido todos vendidos, sem excepção. Convenhamos que já é galo.

Alguém, daí, desse lado do ecrã, perguntará: “para que é que o maduro do mcr quer dicionários de vernáculos africanos?” A resposta, esperemos que a não entendam como neo-colonialista, é simples. Em tempos que já lá vão, vivi parte da adolescência em Moçambique. Aprendi tantas palavras quanto pude das línguas faladas em Lourenço Marques (hoje Maputo quando deveria ser Xilinguine) e em Nampula. Eram os criados que nos ensinavam. Mais tarde, tentei saber um pouco mais sobre as línguas do ramo bantu (bantu convém explicar é plural de muntu, o homem. Nada mais mas, quer se queira quer não, passou a caracterizar uma multidão de povos provenientes de um mesmo tronco comum que vindos da África Ocidental avassalaram grande parte da África tropical e do sul quer a ocidente (Congo, Gabão e Angola) quer a oriente Uganda, Kénia Tanganika Mocambique e África do Sul sem esquecer as a Zâmbia o Zimbabué e o Malawi, entre outros) e prometi a mim mesmo tentar aprender um pouco mais. Vou tarde mas tenho todo o tempo que me resta. E o amor por essas línguas e gentes a par do louco pensamento de que, assim, recreio a juventude.

É uma ilusão mas antes isso que passar pela vergonha de ser deputado...

 

* a gravura: mulher makua (provavelmente do Ibo)