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Incursões

Instância de Retemperação.

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29
Jul10

Au Bonheur des Dames 240

d'oliveira

 

Da praia, da nortada e do mar que "é um cão"

Um leitor (também os tenho, que isto não é só leitorinhas gentis...) espanta-se com a minha indiferença quanto à praia. E, sinal de que me lê esforçada e atentamente, recorda-me que sou de Buarcos, terra de pescadores (e de mineiros de carvão, acrescento) mais praia que serra, mais mar que horta, mais fome que fartura.

Sou de Buarcos, claro que sou, mesmo se fui nascer à maternidade de Coimbra por ter sido prematuro e o meu pai, médico jovem mas prudente, ter achado que era melhor ter mais colegas para me partejar.

Brinquei na praia anos seguidos,  para o que bastava atravessar a estrada, que aquilo, a rua de Buarcos, depois, rua almirante Tenreiro e agora qualquer coisa mais condizente com a democracia (Av do Brasil?) era, de facto, uma estrada que ligava a cidade à antiga vila piscatória. Mais concretamente vivíamos num sítio chamado “Palheiros” cuja memória estará perdida. Palheiro, no litoral centro, é uma casa de madeira onde se vive (ou malvive) se guardam apetrechos de pesca, quiçá até, se há um andar superior para viver, um barco na parte de baixo. O lugar de Palheiros tinha, mesmo por trás da minha casa, um fortim, onde terá estado uma bateria de artilharia que “cruzaria fogo” com as fortificações de Buarcos e o forte de Santa Catarina, à entrada da barra da Figueira. Tudo obra de D João I e depois dos Filipes que assim protegeram aquela extensa baía da piratagem. Que estas defesas seriam eficazes prova-o, mesmo a contrario, o facto de durante a ocupação de Junot, os ingleses terem desembarcado, em piores condições mas com mais segurança na zona da Gala a sul do Mondego, longe dos canhões.

Sou, pois, da praia. Usei-a com excesso até há meia dúzia de anos e ainda hoje quase não há para mim paisagem que não tenha mar. E se possível, mar de inverno, mar com ondas, mar que se veja. Todavia, na zona para onde habitualmente vamos, as “rias bajas”, o mar é manso, não tem uma onda,  por pequena que seja, não se pode entrar nele de corrida a terminar num mergulho sob a vaga prestes a rebentar.

Brincar com as ondas, “picar uma carreira”, apanhar com elas em cheio limpa a alma, amassa o corpo e lembra-me a meninice. Ora, em Areas, praia bonita e com três ou quatro excelentes esplanadas onde se petiscam tapas e raciones variadas, o mar é chão. Bom para meninos em idade de desmame. A CG gosta mas tem desculpa que ela é dos confins da Beira Alta, de Trancoso. Para os serranos as ondas são seguramente ameaçadoras e a água quer-se em sossego, calminha, com pé. Agua-pé?

De modo que, vou para a Galiza sem especial entusiasmo banhista. A praia uso-a cum granu salis: um par de horas matinais, sentado à sombra do guarda-sol a ler um livro. De meia em meia hora levanto-me, espreguiço-me, vou molhar o mimoso pé, dou três braçadas e já está.

Logo que se aproxima a hora refeiçoeira, retiro-me com a dignidade possível para a esplanada, carregado de guarda-sol, cadeira e demais bagagem, e espero pelas mulheres da família afinfando-lhe com uma caña e alguma tapa. E penso sempre que, ali, com o mar à vista mas sem areia, sob a sombra protectora de um toldo se está muito melhor. Só a vergonha me impede de fazer da esplanada o meu poiso balnear. E seria tudo vantagens: basta erguer uma mão e trazem-nos café ou, pelo menos, aquilo a que os galegos chamam um café solo.

Mas receio que a CG considerasse isso “uma desconsideração” e um cavalheiro da minha idade não pode dar-se a esses desvarios. Cumpro, penitencialmente, a minha dose diária de duas horas de areia incómoda, mar manso e cadeira desconfortável. Ao fim e ao cabo são só duas semanas e, com sorte, há sempre um ou dois dias sem sol para se poder ir sem remorsos até uma cidade próxima ver livros, manuseá-los, comprá-los e até, mas não é obrigatório, lê-los.

* na gravura: Buarcos, a praia, os restos da muralha e, à direita, em cima, o resto do castelo, a “Unha do Castelo”.

 

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