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Incursões

Instância de Retemperação.

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24
Dez10

Au Bonheur des Dames 258

d'oliveira

Uma pessoa bem que quer fugir do básico, do hábito, do repetido. Nada feito. Em chegada a quadra, mister é que se digam duas banalidades e se  desejem as sempiternas boas festas mesmo se, em questão de festas, o país esteja onde está: num velório!

Mas, e não quero repetir o soturno homem de Santa Comba Dão, cuja biografia estou a ler com imenso prazer, o povo não está para tristezas: as despesas estes ano ultrapassam, e fortemente, os gastos do ano passado. O Titanic está à vista do iceberg mas a orquestra toca nos salões da primeira classe com tal entusiasmo que até os emigrantes lá no porão dançam encantados. O doutor Salazar, catedrático sem ter feito concurso, ao que acabo de saber, subido ao mais alto grau por mérito (mesmo assim um concursozito teria sido engraçado...) dizia que não há volta a dar a esta gente. Ler o que ele escreveu nos jornais durante a sua dura campanha contra Sinel de Cordes (a quem substituirá com êxito, como é sabido) parece profético nos dias de hoje.

Este Natal é o das cigarras. A família cr e associados passou-se para o lado das formigas e reduziu forte e feio nas prendas. Lembranças baratinhas e viva o velho! Livrinhos para a sobrinhada toda eis a receita mcr. Não gostam? Deitem fora. Mas ficam sem conhecer Shakespeare, Simon Leys ou os grandes poetas russos. Acabou o recreio!

Felizmente os miúdos parece que estão de acordo. Os que vão levar Shakespeare este ano apanharam com a trilogia do Calvino (Ítalo) no ano passado. Um a cada e que troquem depois de lerem. Assim se incute esse outro esquecido hábito de repartir, de co-descobrir. Este ano, são as peças históricas do bardo de Stratford. O mano O. come com uma dose reforçada de contos imorais do seculo XVIII. Uma copiosa antologia publicada pelo Laffont na excelente colecção “bouquins”. Mas, aqui, não é prenda de Natal mas de anos. Estabelecemos que os adultos não se presenteiam. Ocorre, porém, que ambos fazemos anos perto do Natal. Assim escolheu-se este dia para a troca de prendas. Toma lá pá, e vê se aprendes!

A CG teve direito a bónus: andava de asa caída por via de uma doença chata e dolorosa até dizer basta. Entretanto o tricot entusiasma-a e distrai. Toma lá uma enciclopédia de tricot e mais um grave tratado muito ilustrado sobre o mesmo assunto. Ficou esfusiante, jura que é uma (aliás duas) prenda originalíssima, já passou palavra à internacional das tricotadeiras e até (dizem-me) há quem me queira consultar sobre o sítio onde fui encontrar os calhamaços. Vai ser troca por troca: as profissionais da agulha fazem-me uns mimos e eu revelo a fonte de onde mandei vir estas “preciosidades”

Mas este tipo está a escrever ainda antes da ceia! Pois está! Abolimos a burrice de esperar pela meia noite, pela missa do galo (onde nunca pus o mimoso pé) ou até pela bacalhoada natalícia. Desde ontem que circulam algumas das minhas prendas. E não circulam todas porque os recipiendários ainda não foram encontrados.

Todavia, sem querer imitar o velho e astuto ditador, que sabia, olá se sabia, ser cínico e socarrão, sempre vos desejo ò leitorinhas e leitores meus, um bom dia, uma boa noite, uma boa semana e, mas ainda nos encontraremos antes, um bom ano. Não estou aqui para vos modificar, pelo menos para vos modificar à força, sequer pelo exemplo, que eu, bem prego mas quando me dá o vento norte, pimba, entro em parafuso e aí vai disto, mais livros, mais discos mais... (ah queriam saber? Não digo, não digo e não digo ó amantes das novas maravilhas informáticas, Lá para a frente vos contarei).

Boa noite. Boa noite, serena e passada com risos e saudades. Tratem dos vivos e lembrem carinhosamente os vossos mortos. Foram eles que vos fizeram  como vocês são e como andam a fazer a pequenada que vos rodeia. Agora ainda mais, visto que uma Mulher X se veio juntar à bela tropa dos Neanderthal para tornar mais interessante, mais variada, mais rica e mais excitante a nossa origem. Já estava farto de ser  só e apenas um homo sapiens sapiens. Com um bocado de sorte ainda descubro (para gozo e alegria do Manuel António Pina e meu)  que temos gatos entre os nossos antepassados comuns. Seremos dignos?

*a montra do meu gravateiro em Roma: Ezio Pellicano, um mestre!

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