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Incursões

Instância de Retemperação.

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27
Dez10

Estes dias que passam 222

d'oliveira

O inverno é isto

Há um belíssimo poema do Fernando Assis Pacheco onde se diz “eu vi as putas da Avenida gelar ao griso de Janeiro...” e é isso que, repentinamente me vem à cabeça ao olhar o jardim, lá fora, aqui, da esplanada mais ou menos envidraçada vagamente aquecida por um aparelho feio e a gás. Está um griso da capadócia. Um taró, dizia-se em Coimbra, nos meus anos de menino e moço, que Coimbra naqueles tempos era fria até dizer chega. E as aulas, obrigatórias, nos “Gerais” não ajudavam nada. Imensos anfiteatros carregados de rapaziada, embiocada em capas e batinas, a ouvir (ou a desouvir) o lente que repetia numa cansada litania a sebenta que aliás fizera ou dera a fazer.

Ai, leitorinhas gentis, aquilo era um pesadelo: a malta mal acordada, que subira a todo o vapor as “escadas monumentais”, que varara a antiga e esquecida “rua larga” até à “Porta Férrea”, guardada por um archeiro transido e sofrera a chamada ou pelo menos a marcação das faltas pelo bedel, de planta da sala em punho, quase que adormecia ao som da voz monocórdica e fatigada do professor, perdão do senhor Doutor, por extenso.

Se bem me lembro, o Fernando também cumprira um penoso ano nesse claustro onde se acotovelavam os juristas em flor e alguns alunos de Ciências que tinham Matemáticas Gerais no mesmo local. Mas, desertara rapidamente para pastagens mais apetecíveis na Faculdade de Letras onde o ar era, apesar de tudo, mais respirável.

E o frio... Uma vez, lá fui, integrado numa “comissão” de alunos pedir ao director da faculdade aquecimento nas salas imensas e lúgubres. S.ª Ex.ª recebeu-nos com ar severo mas paternal mas ao nosso requerimento respondeu não. Que éramos “juristas” (ou aprendizes disso) e que tínhamos o privilégio de ter aulas num “monumento nacional”! Ficámos esclarecidos.

Às vezes penso que o rei D João III, o verdadeiro benfeitor da universidade, o homem que mandou construir uma inteira rua de “colégios maiores” (a Sofia) que ofereceu o Paço das Escolas, que, de facto, constituiu definitiva e solenemente a universidade coimbrã, melhor dizendo, a Universidade (tout-court) fizera mais pelas escassas dezenas de estudantes do seculo XVI do que as pífias autoridades políticas e académicas do meu tempo.

Mas, voltemos ao frio. Está que racha! E o céu cinzento também não ajuda. Não admira que as pessoas, as que podem,  se refugiem em casa. A “festa da família” deve muito ao frio, olá se deve...

Está frio, está feio, as árvores despem-se de tudo para hibernar, são raros os transeuntes. Devem estar entretidos a abarrotar os centros comerciais, na troca das prendas, nos saldos, a gastar mais do que deviam e sobretudo do que têm.

O inverno é também isto. Um inverno, vejam bem, que mal começou e já pôs de pantanas os aeroportos europeus mal preparados para os frios que descem da Escandinávia por via de um qualquer fenómeno atmosférico. Um inverno que terá aguçado o engenho de algumas empresas, como abaixo se pode ler, os espertalhões fazem caridade com o nosso dinheiro e ainda por cima nos põem a elogia-los. Quem quer fazer bem, dirija-se depressa não a estes ogros mas a uma ONG ou, à falta dela, mesmo que não seja religioso, a uma igreja. Encontra de certeza gente séria e capaz. Mais capaz e menos rapaz!

Mas o inverno é também outra coisa: um homem com oitenta anos, um homem que corria ruas e praças, livrarias, museus e alfarrabistas, que lia, que discutia, que sabia, que era curioso. Agora, o olhar parado, desliza sobre livros e coisas e esquece imediatamente o que viu. Um alzheimer insidioso e infame, transforma este homem, de resto saudável, numa sombra, num esquecimento, num remorso.

Anos e anos, dezenas de anos, andámos por aí numa buliçosa descoberta de livros, de pequenos restaurantes, de cafés e de tertúlias, de ideias novas e menos novas, desafiando a vida e o futuro, rindo-nos das pequenas misérias do presente, encontrando-nos com prazer, tio e sobrinho, amadores de Eça, de Stendhal, de Vailland, de Cardoso Pires e Aquilino. Agora, o tio Quim jaz vivo e esquece sistematicamente tudo o que há um minuto viu e ouviu. Está morto e não sabe. Está morto e respira. O inverno é, também, isto.

 

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