Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

31
Dez10

Diário Político 156

mcr

Ai o torrãozinho de açúcar!

 

Dois amigos a quem reconheço inteligência e espírito critico mandam-me uma espécie de decálogo de coisas boas portuguesas recomendadas por um embaixador do Reino Unido em Portugal.

Dando de barato que a estulta declaração poderá não vir do citado diplomata, eis-nos diante de um chorrilho de banalidades em tom menor e fadista que relembram irresistivelmente todas os narizes de cera piegas que ornamentavam os nossos livros escolares em uso no tempo do Estado Novo. Ponhamos que a toada é acompanhada pela “é uma casa portuguesa con certeza” e vejamos.

S.ª Ex.ª, ou algum cómico por ela, descreve o torrãozinho assim:

os jovens falam com os velhos, há intenso dialogo inter-geracional;

a paisagem é variada, muito variada, desde o vale do Douro até às falésias algarvias;

há no povo luso doses infindas de tolerância para com os estranhos;

os cafés são muito acolhedores e não há nada melhor do que um pastel de nata quente;

a inocência jorra impetuosa em qualquer rincão e a prova disso é um par de adolescentes a dançar o malhão (ou o vira) em Vila Real;

o espírito de independência é forte e a prova é sermos independentes da Espanha;

as mulheres portuguesas são o fim da picada de tal modo que S.ª Ex.ª até casou com uma lusitana;

os tugas são infinitamente curiosos de povos, de costumes e culturalmente;

o dinheiro não é tudo, não há nada que substitua um peixe grelhado acompanhado de um copo de vinho.

 

Deus fez-nos assim, terá pensado o enviado da Rainha a esta confusa e remota região cujos nativos, mesmo se pitorescos, são felizes na sua parcimoniosa miséria, nos seus batuques folclóricos, nas almoçaradas em família pontuadas pela babada contemplação das egérias do lar e da paisagem circundante!

Que a paisagem portuguesa, toda montanha e mar, factor de dificuldade para qualquer invasor que, ainda por cima, não encontra grande pitança no território a conquistar, é variada e mesmo, em muitos casos, bela, não há dúvida. Que dessa beleza nunca se viveu, também. A atestá-lo a persistente emigração do interior para o litoral e do país para fora, inclusivamente para a Grã Bretanha onde hoje existe uma apreciável colónia emigrante portuguesa.

Que ainda há jovens que convivem com os seus familiares mais velhos é igualmente possível mesmo se, como ocorre em geografias próximas, se comece a verificar cada vez menos o citado dialogo inter-geracional. Se o distinto diplomata quer mesmo ver esse fenómeno, que vá até África e perceba quão longe estamos desse relacionamento que ele exalta. Por cá os “cotas” são-no cada vez mais no olhar pouco sensível de uma juventude com poucos horizontes.

Os cafés portugueses já foram. Há, mesmo se S.ª Ex.ª não percebe, cada vez menos cafés. E piores! E os que há, os tradicionais (que ainda resistem) estão cada vez mais transformados e snackbarizados. À hora do almoço (que extraordinariamente Sexa vislumbra em casa) é ver (nas grandes cidades, onde se amontoa 70% da população) as mesas e balcões atulhados de gente a comer à pressa a tal sopa e o tal prato quente exaltadamente cantados pelo enviado do Foreign Office. O pastel de nata quente diz tudo do gosto do nosso visitante pelo que piedosamente não se comenta.

Ainda no capítulo culinário-económico, só um espírito simples, demasiado simples (!) é que acha o “peixinho grelhado” ao alcance de qualquer um e a qualquer hora. É verdade que nisto nos diferenciamos dos amadores de fish and chips embrulhado em papel de jornal. Mas não chega. É verdade que somos ainda um dos principais povos consumidores de peixe. É verdade que, em certas épocas do ano, há peixe não direi barato mas pelo menos não demasiado caro. Partir disso para concluir que o peixe grelhado num restaurante está ao alcance de todos é miopia ou astigmatismo feroz. E partir disso para concluir que no imaginário português o dinheiro vem “depois”, muito depois, de outras preocupações será prova fatal que o diplomata precisa urgentemente de ir a casa refazer os óculos. Tirando a Espanha, aqui ao lado, somos quem mais investe em totolotos e quejandos; temos uma densidade de casinos alarmante; falamos de dinheiro a cada momento, emigramos por falta dele e quando o ganhamos gastamo-lo com a exuberância e a sofreguidão de um novo rico.

É provável que, aos olhos de um britânico,  sejamos tolerantes. A tolerância nunca foi prática e, muito menos, virtude, aos olhos dum povo que se quis isolado, ilhéu e imperial. Nós, mais modestos, andámos mar fora e, fazendo das nossas fraquezas força, optámos por nos miscigenar nos cafundós para onde a miséria e a ambição nos atiravam.  Mas inventámos uma escala de cores (mulatos, cafusos e cabritos) para provar que branco é branco e preto é preto, ou parecido. E quando o império ruiu e a debandada trouxe ao “continente” os retornados e os refugiados, a proclamada tolerância amansou. E com a actual emigração, as coisas não melhoraram, bem pelo contrário. Os bairros ghettos à volta de Lisboa e arredores, as notícias exaltadas sobre gangs escurinhos superam até a tradicional ojeriza pelos ciganos. Ultimamente, para além do preconceito contra emigrantes brasileiros (e sobretudo brasileiras) a antipatia começou a alcançar os oriundos do leste (uma vez mais os ciganos, desta vez romenos, e depois os outros).

Não estamos no patamar odioso de países em que a emigração atingiu números expressivos e por isso mais ameaçadores. Não temos, entre nós, como em boa parte da   Europa, minorias muçulmanas pelo que ainda não é público nem notório o novo espírito de cruzada que anima franceses, suíços ou alemães. Por cá as mesquitas são discretas e os seus frequentadores vem sobretudo da África e da Índia portuguesas. O grupo é tão restrito que não suscita alarme nem reacção significativos.

Que levará um representante diplomático (se de um diplomata se trata) a usar um argumentário tão pueril e primitivo? Será que agora recrutam estes cavalheiros entre a população menos culta ou, por ser para Portugal, bacalhau basta?

E que levará os meus dois inteligentes e sensatos amigos a reenviar-me este texto bacoco? É para se rirem de mim, infeliz destinatário? Endoidaram? Combinaram-se? Estarão a fazer a limpeza dos ficheiros, seguindo aquela velha tradição de fim de ano de deitar janela fora todas as inutilidades, todos os trastes, todas as quinquilharias e inutilidades que subrepticiamente lhes invadiram a casa? E eu sou o caixote dos lixos deles? Ah, miseráveis, hei-de vos apanhar a jeito!

 

d'Oliveira fecit 31.12.2010

3 comentários

Comentar post