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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

25
Fev11

Au Bonheur des Dames 268

d'oliveira

 

 

 

Lucullus Lucullo edit

 

É isso mesmo, caros leitores. Hoje isto vai fiar fino, finíssimo. Comi ontem em casa de um amigo, de um velho amigo, de um excelente amigo, dado o cuidado com que se ocupou não da salvação da minha alma imprestável mas do meu corpinho mimoso e naturalmente necessitado de carinho gastronómico.

Este amigo, convém dize-lo é uma criatura das arábias, feita ainda no tempo da guerra (a 2ª e mundial) com os cuidados e a atenção que esses desvairados anos pediam. Feito à mão, artesanal, está bem de ver. Com a passagem dos dias cresceu, fez as tropelias políticas do costume (do costume, o tanas! Fez as tropelias de que só uns quantos happy few podem gabar-se – mas não se gabam) e que davam direito a muitos e variados dissabores, tornou-se um professor emérito, cientista de renome especializado em bichezas pequeninas e horrendas que para encurtar são os vírus e as bactérias, tudo ou quase coisas malignas ou que se tomam como tal. Não contente com esta inusitada ocupação, é um leitor sôfrego, um cinéfilo viciado e vicioso, um amador da boa música e, pasme-se!, um cozinheiro de mão cheia. O raio do homem até publicou um livro de receitas, coisa tremenda que só de a ler já nos entra pelas carnes um colesterol dos diabos.

Eu e mais dois desregrados companheiros da Coimbra de lavados ares (ou isso presumíamos) já nos tínhamos feito ao piso. Que gostaríamos de provar alguns daqueles pitéus que ele inventara ou simplesmente recolhera com amor e tenacidade. Mas a criatura ou não ouvia, ou fazia que não ouvia. Chutava para canto. Até que o mais atrevido dos três lhe terá posto a faca aos peitos. E o João baqueou. E marcou o repasto. Para ontem. Ameaçando servir-me um polvo em vinho tinto à moda da sua ilha natal (S Miguel). Protestei porquanto, antecipadamente lhe declarara a minha absoluta incapacidade para ingurgita o raio do cefalópode, ódio antigo e de estimação que vem da alvorada dos tempos, dos meus, pelo menos, da escola de Buarcos para ser mais preciso.

E o João acrescentou ao menu inicial umas favas com língua e baço  salteado e fígado de porco com especiarias. Uma belíssima senhora a quem só posso apontar o defeito de aturar o João, entendeu dar um ar da sua graça com um feijão à angolana (com azeite de dendém, ah!, o azeite de dendém....) acompanhado de sua farofa e de uns enchidos amáveis.

Convenhamos que para jantar a ementa era, digamos, audaciosa. E peso as minhas palavras!

Valha a verdade que isto era, afinal, o pretexto para um par de horas (foram seis|!!!) de conversa, de discussão de piadas, enfim, umas horas de encontro entre amigos que já dobraram os sessenta anos e que só se vêem de longe em muito longe. Melhor dizendo, agora temo-nos visto com alguma, escassa frequência, sabemos uns dos outros por mail e por interpostos blogs e respectivas caixas de comentários, mas na verdade andámos dezenas de anos sem nos encontrarmos. E foi graças ao João, que também passou algum tempo em Coimbra, que nos juntámos de novo há uns meses.

Que dizer do que comi, excepto que dei ao dente com apetite (traduza-se gula pecaminosa) que lhe perdoei o fígado, víscera que, desde os anos de colégio interno, quase bani da minha mesa, o baço (outra que tal e que terá sido para mim uma estreia absoluta) ou mesmo das favas (que eram deliciosas favas secas e não as que tradicionalmente se comem por aí. Do feijão, já acima deixei implícito que estava que fervia, bom até dizer basta. Foi aliás a prova de que o mundo injusto: uma mulher bonita, simpática e inteligente e que sabe cozinhar!!! Onde é que já se viu disto? A minha particular teoria é que algum defeito medonho terá. E escondido! Será que, à semelhança do conto das Lendas e Narrativas de Herculano, terá pé de cabra? Será o diabo disfarçado, ou, carrément, uma diaba vinda de propósito desses afrodisíacos infernos tropicais para perder a alminha ingénua e inquieta do João, natural de terras já de si vulcânicas e enxofrosas? Seja como for: tantas qualidades reunidas numa única pessoa são a prova provada que os ateus necessitam para afirmar que não há Deus. Anda por aí tanto camafeu, tanta burrinha de atar, tanto susto, que aparecer de repente, como que surdindo do mar, a senhora em questão, me parece pelo menos grave destempero ou erro absoluto e grosseiro por alturas da Criação do mundo.

E o título?, perguntarão os que do latim nada sabem. Pois o título, à letra, quer dizer Lúculo come em casa de Lúculo. Este cavalheiro foi um notável general romano que passou à posteridade mais pela qualidade da sua mesa do que pela indiscutível bravura com que se portou à frente das suas legiões vitoriosas. Tão bem se comia em sua casa que, um dia, funesto dia, em que não tinha convidados, o cozinheiro lhe apresentou uma refeição menos conseguida. Furioso chamou o servo que se justificou da menor qualidade do repasto alegando que não havia convidados. Lúculo majestosamente ter-lhe-á retorquido que havia, sim senhor, que nesse dia, malfadado, Lúculo ele próprio comia em casa de Lúculo. Se non é vero...

A expressão passou a significar que se comeu excelentemente. Aliás e se me permitem, ouso este entorse à frase célebre: Marcellus Lucullo edit.   

 

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