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Incursões

Instância de Retemperação.

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29
Mar11

“Para o inglês ver”

sociodialetica

Quando é “para o inglês ver” o acontecimento não se inscreve na nossa realidade. O que interessa não é “a nudez dura da realidade”, mas sim “o manto diáfano da fantasia”. Cada povo cria as suas próprias defesas contras as formas de dominação. Os escravos inventaram a “capoeira” como forma de dança e luta. Os portugueses utilizaram a argúcia, quiçá a “esperteza saloia”,  para tentarem enganar “a nossa mais velha aliada”, a Inglaterra. Esse país com quem estabelecemos uma aliança desde o tratado de Windsor (1386), a quem cedemos o lançamento da nossa industrialização no Tratado de Methuen (1703), que nos ajudou a apagar os sinais na Revolução Francesa quando das invasões Napoleónicas (1807/10), que deram nome às marcas de vinho do Porto e outros comércios, cujos súbditos continuam a visitar-nos no Algarve, onde mantêm uma parte da propriedade.

Quando se entrou na Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia, muitos analistas concluíram de imediato que essa dependência de Portugal iria diminuir, mas que certamente outras surgiriam, tais a debilidades da nossa estrutura produtiva. Já então se antevia que a sabedoria popular deveria juntar ao “para o inglês ver” o “para o alemão ver”. Antevisão validada e reforçada quando Portugal sobranceiramente aderiu ao jovem euro e a Inglaterra optou por outros percursos.

Talvez porque a linguagem da populaça não é tão sábia, talvez porque o “alemão” é mais dissonante que o “inglês”, talvez pela subordinação da iniciativa à tradição, a "populaça" continuou a designar o logro, o fingimento, a não inscrição, o faz de conta por “para o inglês ver”, enquanto os eruditos foram reconstruindo a linguagem aplicável às mesmas situações: “para os mercados verem”.

Honra seja feita. “Mercado” soa melhor que “alemão”. “Mercado” é uma terminologia mais correcta porque hoje a relação de dependência não é apenas entre nações, como o era nos séculos passados, mas entre nações e empresas, entre nações e fundos de investimento, entre nações e especuladores financeiros, entre nações e máfias infiltradas no tecido empresarial e nos mercados financeiros. E para todos eles, honestos ou desonestos, a designação de “mercado” é mais bonita.

Viva a criatividade dos economistas e políticos!

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