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Incursões

Instância de Retemperação.

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30
Mar11

Au Bonheur des Dames 277

d'oliveira

Um ângelo passa....

 

Morreu um intransigente. Vencido pelo cancro mas não pela mediocridade reinante. Cinquenta anos de pintura, cinquenta anos de insatisfação, outros tantos de critica ao politicamente correcto. O Ângelo de Sousa era assim. Mordaz e veemente dentro de portas. Um humor ferino e raro. Escassez de palavras e de paleta. Se se pode dizer (pintar) com pouco, para quê o excesso? Conheci-o em meados de sessenta, na Árvore na exposição de “Os Quatro Vintes”. Ou melhor: tê-lo-ei entrevisto (antes?) numa parede da “Divulgação”, depois Livraria Leitura, quando esta tinha um espaço expositivo. E terei, oh quão ignorante e jovem e presunçoso!!!, passado como quem passa por vinha vindimada. Não era fácil gostar do Ângelo, nunca foi fácil. Quando pensávamos já conhecer as chaves da sua obra, eis que o mafarrico mudava tudo. De todo o modo, um momento essencial (para mim, claro...) foi quando vi uma pintura dele pendurada na “Casa de chá da Boa Nova”, essa criação única do Álvaro Sisa. Namorei-a durante anos. Em sonhos mais audazes e exaltados via-me a comprá-la, a roubá-la a tê-la cá em casa. De repente, durante os anos confusos, a peça desapareceu. Bem que gostaria de a pôr aqui mas nicles. Nem na internet encontro rasto dela. Por isto se percebe que o meu “Ângelo” é o desses anos rumorosos, mais do que o último, o dos anos 80, 90 e depois. O meu “Ângelo” pintor, evidentemente, que o amigo, esse, sempre me surpreendeu e enterneceu. Gostava do seu sarcasmo, da sua recusa do comercial (“Olha pá já tenho frigorífico e máquina de lavar... não preciso dessa merda...”),do frenesi da moda, da mundanidade. Não creio que fosse bem visto e bem querido por todos os colegas. Muito menos por essa multidão de filisteus, madamas da cultura pret-a-porter, cavalheiros ligados ao ubre generoso da crítica por encomenda. E, todavia, suscitava entusiasmos e fanáticos. Não sei se acreditava em tudo o que eles diziam sobre si e sobre a obra. É que, além do ar travesso e jovem que sempre teve, havia nele, um forte sentido auto-crítico que, julgo, o poupou a qualquer espécie de condescendência consigo mesmo. Também não sei se deixa alguma marca porque, hoje e aqui, as marcas sucedem-se em catadupa graças à critica acrítica e à ignorância generalizada. De uma coisa, porém, estou certo. Durante uns tempos, as obras dele hão-de disputar-se a preço forte. Morreu, já não produz mais, eis um bom momento para “investir”. Já hoje, ouvi alguém a referir-se ao Ângelo e por quatro vezes seguidas. Tudo no espaço de uma escassa hora. Falou mais dele hoje que durante os últimos dez anos... E chamou-o “modernista"!!... Ora toma!

Há pouco, junto ao seu caixão, um grupo pequeno de amigos, despedia-se. Lentamente, porque o enterro só se realiza depois de amanhã. Há bicha para a cremação e apenas um crematório. E falávamos desses anos de desafio, de irrupção do moderno, dos novos tempos, dos intelectuais que se batiam (e o Ângelo sempre presente!) de um mercado que começava a abrir-se. E dos pequenos compradores de pintura como nós, que amealhávamos tostão sobre tostão para ter em casa obras que agora começam a ter preços vertiginosos (enfim, vertiginosos, cá dentro). E da cooperativa Árvore em que todos estivemos, do Teatro Experimental do Porto, idem, e das batalhas cineclubísticas, aspas, aspas. E de tempos duros mas carregados de promessas. E de políticos que sabiam quem eram estes rapazes atrevidos cujas exposições escandalizavam. Que diferença para estes dias penosos, para este quotidiano insulto, para esta conspiração contra todos nós. E, por um breve momento, entretivemo-nos a pôr na boca do Ângelo todas as picardias que nos vinham à cabeça. que ele, para isso, não pedia meças a ninguém.

E fiquei com a impressão (nesta idade a gente começa a alucinar) que o sacana de dentro do féretro se ria baixinho.

Até um dia destes, Ângelo, a gente, mais tarde ou mais cedo, vê-se por aí.

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