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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

29
Jul11

Au Bonheur des Dames 291

d'oliveira

 

 

Memória de Verão

Hoje estreei as ameixas. E foi preciso a CG dizer-me com ar guloso que as ameixas eram de estalo. Convém esclarecer que ainda por cima fui eu quem as comprou. Cá em casa, a guerra dos sexos é assim: o moço de recados sou eu, mesmo se de moço já nada me reste.

 

Compras de alimentos, produtos de limpeza, areia para as gatas & similares foram declarados meu pelouro. De certo modo, até nem me importo. Sempre que a CG me convoca para ir com ela auma grande superfície, é um desastre.

 

À uma ela demora-se diante da cada artigo, vá ou não no rol das compras. Depois, quando a tento apressar, rosna que nunca sai e que não está para pressas.

 

O rol que diligentemente escreveu deixa de ter qualquer importância e é rapidamente ultrapassado. Se lhe aponto esse desvio ao seu método científico (a CG leva estas coisas muito a sério e um rol de compras mais parece a formula do ADN do que um lembrete) ela afirma grave e ameaçadoramente que não é obrigada a lembrar-se de tudo, que eu sou um zangão irresponsável e que qualquer outra mulher com dois dedos de testa já me tinha trocado sabe-se lá por quê.

 

Tudo isto, mesmo se é certo que noventa e nove por cento das compras são por mim feitas!

 

As ameixas fazem parte desta história. Eu, logo pela manhã, bem cedo, verifico algumas falhas (leite, laranjas, pão, cervejinhas –mirem-me este diminutivo carinhoso)! – e zás!, avanço para o primeiro café da manhã com leitura dos jornais.

 

Ao mesmo tempo, verifico as falhas de outros géneros diligentemente apontadas pela empregada num português imaginativo e pela CG.

 

E regresso horas depois, carregado de livros, das compras com a consciência do dever cumprido. É nessa altura que ouço o primeiro remoque: estamos sem fruta nenhuma!

 

Poderia, obviamente, retorquir que raramente como fruta, a bem dizer, quase nunca, que existe um caderninho onde se apontam as falhas, enfim as trivialidades que a lógica e o bom senso consideram. Nada, porém, tem efeito. Falta fruta.

 

Qual?, arrisco a pergunta. A resposta varia entre o silêncio desdenhoso, um apelo à minha baça imaginação e uma longa elegia sobre as virtudes da fruta antiga que sabia a fruta e era barata.

 

De modos que, no dia seguinte, lá vou pela fruta. Se trago maçãs vermelhas, apontam-me que as verdes é que são boas, que as bananas v~em demasiado maduras, que uvas em Maio são importadas, que cerejas da mesma altura ainda não estão no ponto, ou estão mas são caras, enfim, reclamações que algum treino e um admirável sangue frio fazem com entrem a cem e saiam, acto contínuo, a duzentos.

 

Porém, hoje, eis que a CG não só me previne que as ameixas são boas (pelo menos as amarelas, avisa) e pergunta se eu quero que ela diligentemente me lave uma e ma traga aqui enquanto jogo bridge contra o computador.

 

Até a gata Ingrid Bergmann que trotava ao lado da mais que tudo parecia admirada. Terá também comido alguma ameixa?

 

Estupefacto mas querendo acabar o jogo, lá respondi que mais tarde iria pelas ameixas. Aliás, não gosto de as lavar. Mesmo sabendo que estas pobres frutas, já não são colhidas sem mais da árvore, prefiro os eventuais venenos de que as carregam do que lavá-las.

 

E lá fui, minutos depois, provar a fruta. Estavam boas, diabos me levem. As amarelas e as vermelhas! Sabiam quase ás ameixas que, em pequenos, pela calada, como índios sioux (ou seria comanches?) nós íamos roubar aos jardins de vizinhos distantes. E que bem sabiam, mesmo quando estavam verdes! Sabiam a fruta, a liberdade, a aventura, a Verão que começava, a férias, a praia, a um mundo novo e inocente como nós, meninos de Buarcos, irmanados ainda na escola do senhor professor Cachulo, nos longuíssimos e disputadíssimos jogos de futebol na praia, a preparar outros de grande responsabilidade contra a malta que viria de Coimbra e, mais responsabilidade ainda, contra os espanhóis cuja colónia se apresentava em peso logo nos primeiros dias de Julho, famílias inteiras, criadas fardadas, um tagarelar impossível de seguir todo em gritaria mira la mar! (como se o mar fosse feminino, via-se logo que eram espanhóis e que tinham apanhado nas trombas em Aljubarrota!)  Hola, que tal? E outras balivérnias de que vos dispenso, pois o sério, o verdadeiramente sério era a longa sucessão de jogos internacionais, Portugal Espanha, ali na praia a que os señoritos não estavam habituados: aquilo era uma razia!

 

 Pelo menos até ao fim da primeira semana de Agosto, quando os visitantes já estavam suficientemente calejados e habituados à areia e aos imprevisíveis humores de uma bola em tal terreno. Vingávamos, assim, as derrotas injustas, infames e dolorosas que no futebol mais sénior e com regras nos era infligido pelos “nuestros hermanos”. 

 

A pátria nunca nos reconheceu o patriotismo deste desforço   heróico digno da Padeira e da nossa briosa selecção de hóquei em patins (Emídio, Raio, Edgar, Jesus Correia e Correia dos Santos, tomem lá que para saberem!) que essa sim era a melhor do mundo ou quase.

 

E foi tudo isto que duas inocentes ameixas comidas na cozinha, sob o olhar amável da Kiki de Montparnasse, a outra gata que, indignada me via comer a fruta que ela adora guardar, sempre na mira de um bicharoco alado que venha ao cheiro do maduro. A Kiki é uma expert em caçar moscas em pleno voo e a zona da fruteira é o seu território de caça favorito. Se calhar acha que as moscas são espanholas.   

 

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