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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

25
Dez11

Au Bonheur des Dames 304

d'oliveira

 

 

As botas, o mar, o sol

 

São onze da manhã, está um sol radioso, há uma ligeira brisa e, nesta esplanada do restaurante da Torre, aqui, em Oeiras, sou só eu e uma vizinha desconhecida. Tomamos a primeira bica da manhã e, mesmo sem nos conhecermos, sequer falarmos, celebramos à nossa maneira tranquila esta pequena mas segura felicidade de sermos portugueses. No meio de tanto desengano, adivinhando tantos desconfortos, sempre nos sobra o mar: “teremos sempre o mar”, permito-me pensar evocando “Casablanca”, filme mítico, demasiado valorizado mas de todo o modo digno de figurar em toda a filmoteca honrada.

 

Para mim, pobre homem de Buarcos, da praia, da nortada que ameniza as quenturas do Verão, esta esplanada com serviço de café no dia de Natal é uma prenda absoluta. Isso e o sol, o sal, este sul, e o “expresso” guardado propositadamente para hoje, juntamente com o suplemento literário do “monde”, para remediar a falta de jornais sem os quais nenhuma manhã é uma verdadeira manhã.

 

A Mãe e a CG ficaram em casa, uma porque quer ouvir a missa na televisão (e que oiça muitas, muitíssimas, nos muitos natais futuros) e outra porque reivindica o feriado como um dia em que terá todos os vagares para o banho, vários cigarros a entremear, telefonemas para a filha, enfim, tem direito a tudo isso e a muito mais só por me aturar.

 

O meu irmão e a malta de casa dele só deverão ir tomar café daqui a uma boa hora se não for ainda mais tarde. Eu é que sou madrugador, mesmo se hoje saí mais tarde.

 

O empregado traz-me o segundo café, em “chávena fria se faz favor!”, mais o adoçante, o copo de água, pago-lhe, volta a desejar-me bom natal. “Para si também e que o novo ano seja melhor” desejo ao amável brasileiro que demandou estas terras em busca de melhor sorte.

 

E o mesmo desejo a tantos outros emigrantes nossos ou do Bangladesh, que eu sei bem, ou pelo menos sei, o que é emigrar. Há cerca de cinquenta e tal anos, celebrava-mos um natal também diferente em Moçambique, onde tínhamos acabado de chegar. O meu pai, tinha chegado à conclusão que Buarcos não conseguia sustentar um médico com filhos em vésperas de ter de ir para fora pois o liceu da Figueira tinha só o primeiro ciclo. Foram poucos masfelizes os meus anos africanos e vem daí esta paixão antiga por tudo o que cheire a África. À África negra, às culturas autóctones, à arte negra, à literatura de lá, às línguas e costumes, à história do cruzamento e dos conflitos e, porque não?, das infinitas possibilidades de nos enriquecermos mutuamente, negros e brancos, emigrantes todos numa terra de onde teremos vindo e para a qual eventualmente poderemos regressar melhores e mais abertos à vida.

 

Dou-me agora conta que as minhas botas (umas botas confortáveis, com anos de trabalho) voltaram a abrir junto da sola. Por cima parecem novas mas a sola, a malvada sola de borracha que dois sapateiros sucessivamente me juraram ficar bem, reabriu as hostilidades.

 

Regresso pois a casa da Mãe, descoroçoado mas satisfeito por pouco a pouco ter enchido um armário com roupa, sapatos, livros, enfim tudo o que um cavalheiro necessita quando vai para fora.

 

A minha mãe e a CG condoem-se com o mais que previvel passamento do calçado. E sussurram-me que talvez outro sapateiro...

 

Eu já me contentarei em arranjar outras exactamente iguais. Seja a que preço for. Não há nada que substitua umas botas de camurça, confortáveis.

 

Também nada substitui o mar, este mar antigo e duro, este mar que é um cão, que dá sustento e rouba vidas, este mar que quase abandonámos,embriagados por  uma  Europa por vezes de ouropel que extasiava os nossos políticos medíocres e os fazia embriagarem-se com promessas impossíveis e irrealizáveis, numa lufa lufa de novo riquismo ridículo.

 

E o sol, claro. Este sol que vendemos a preço vil, numa gesticulação de lacaios perante turistas de pé descalço, arrogantes, que aproveitam o facto de toparem com uns indígenas obsequiosos para dar largas à seu incomparável grosseria que só é igualada por essa descoberta imbecil do allllllgarve tão alarve e tão saloio. O sol merecia melhor, nós merecíamos melhor, Portugal merecia melhor, apesar de tudo. Mesmo as farroncas dos heróis do mar, dos ínclitos avós da marcha contra os canhões, tudo isso se perdoa ou se esquece ao lembrarmos algumas virtudes simples não inteiramente perdidas, algum bom gosto que resiste, alguma ilimitada paciência que nos define. 

 

“Bom natal” despede-se o empregado. “Bom natal” ecoa a desconhecida” seguida por outro de um casal que chega e por um, meu, que me vou. Bom natal para vocês, leitoras e leitores, cuidado com as comezainas, mesmo se, para alguns,  o almoço não for mais do que essa portuguesíssima “roupa velha” saudosa que havemos de comer  nem que eu tenha de inventar um bacalhau cozido para ser deixado para o dia seguinte. 

 

E paz entre as pessoas de boa vontade.