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Incursões

Instância de Retemperação.

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17
Jun12

estes dias que passam 279

d'oliveira

Futebol e democracia

 

 

 

Não leitoras e leitores, não vou fazer teoria sobre a democracia à pala do futebol. Quero tão só comentar a mania das televisões (a mania e a insistência) em fingir que ligam muito à opinião das claques.

 

Que a equipa portuguesa ganhou limpamente o jogo com a Holanda não há dúvidas. Que se esforçou, que deu tudo por tudo, que não desanimou com o primeiro golo dos adversários, enfim que, por uma vez, mostrou aquelas qualidades que universalmente se nos reconhecem e por conta das quais um bispo intrometido, que não me lembro de ver nos tempos duros, veio criticar uma toliçada do 1º Ministro.

 

Mas não estou aqui para falar da Igreja, mesmo se, por vezes, me surpreenda como é que a última instituição de monarquia absoluta  vem pregar qualquer valor democrático. Acaso os bispos são eleitos? Acaso os fieis têm algo a dizer sobre o governo da Cúria? Acaso os grandes eleitores do Papa prestam contas aos seus rebanhos?

 

Deixemos porém este pequeno problema teológico (eles, os fieis que se amanhem...) e voltemos à desbragada indigência televisiva nacional.

 

A propósito da vitória suada, digna, exaltante, da selecção, eis que, esgotado o recurso aos comentadores (Jesus! Maria! José! Que gentinha!) do costume que serviram o mesmíssimo serviço requentado no português balbuciante do costume, eis que os microfones se põem à caça do povo. Do bom povo.

 

 Do povo que aparece mascarado a rigor em verde e vermelhão, gritando slogans, trauteando pobres cantares à glória da equipa. Desta feita vi na TVI. As senhoras repórteres alucinadas para arranjar uma frase, uma ideia, algo a acrescentar à imensa verborreia entretanto dispensada aos tele-espectadores.

 

O povo, claro, respondeu como sabe. Gritando slogans, agitando bandeiras, aos pinotes. E a jornalista feliz. Será que elas (e eles) ganham por cada burrice que é atirada para a efémera posteridade de um momento de noticiário?

 

E os anúncios? Os apoios à selecção? Vejamos por exemplo os da GALP, empresa lusitana, patriótica e amiga dos que esmifram forte e feio pela gazolina. Para alem de uma rapariga que se declara actriz (ao menos que lhe paguem, coitada, para esquecer a vergonha pelas baboseiras que a fazem soltar) há uma de um rapazola que quase ameaça a selecção. Parece que o júnior quer ser investigador e trabalhar imenso por Portugal e acaba por dizer á selecção que o futuro dele depende das vitórias nacionais.

 

Isto é uma burrice supina, tem um péssimo efeito, e passa a má mensagem. Nós, enquanto país, dependemos de coisas bem mais sérias, mais graves e mais importantes do que um jogo de futebol. É de política que deveríamos falar sem esquecer que o futebol também nos pode alegrar. Mas não é desses noventa minutos esforçados, jogados por profissionais  de alto gabarito que não representam de nenhuma maneira o povo português, os profissionais portugueses, os trabalhadores, os investigadores, os patrões portugueses, que a salvação vem.

 

Ganhar um jogo ajuda. Mas distrai. Alegra mas, a seguir, a realidade, a dura realidade bate á porta.

 

Mas isso deve ser muita areia para as televisões, para as direcções de informação e para  uma comandita que ganha por cada minuto de presença no ecrã o que centenas de milhares de compatriotas nem sequer sonham alguma vez ganhar.

 

Ganhámos, estou contente.

 

A vida continua, continuo preocupado. Angustiado. Mas com uma esperança burra, com a cabeça fria e o coração em alvoroço.