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Incursões

Instância de Retemperação.

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20
Set12

Diário Político 181

mcr

A catástrofe iminente e os meios  de a conjurar

 

 

 

O título obviamente pertence ao senhor Vladimir Ilicht Ulianov que nov século usou Leninv (o homem do Lena, local onde esteve convenientemente deportado pelas autoridades tzaristas ).

 

E lembrei-me destye título, por in illo tempore, ter feito forte gasto da literatura deste autor, por ter consumido uns fartos 80%  dos três grossos tomos das “obras escolhidas” (na versão francesa, editions du progrés,  Moscovo). Em meu abono apenas refiro que os livros me foram oferecidos por um sogro generoso e sabedor que mos trouxe directos da “librairie du globe” ali da rue de Buci se não erro.

 

Em 1965 li aquilo de rajada, saltando apenas uns relatórios e umas arengas que considerei desnecessárias para a minha formação “leninista” Tinha vinte e poucos anos, eram os anos sessenta e entre o círculo de amigos e companheiros que frequentava ler Lenin era “fundamental”. E Marx, Lukacs, Konstantinov e mais um par de cavalheiros entre os quais Plekanov, Preobajensky e Bukarine, já agora. Naquele tempo (primeira metade dos sessenta) os “clássicos” eram considerados como o sine qua non de uma carreira de esquerdista.

 

Confesso, também em meu abono que fiquei a metade do “Materialismo e empirocriticismo”, uma absoluta estopada filosofante do mesmo Lenin que deveria querer mostrar que era igual a Marx. Não era e a dolorosa história da URSS bem o exemplifica.

 

Todavia, voltemos à “Catástrofe iminente...”. O texto começa com uma dramática descrição da situação do país mergulado em greves, falta de géneros essenciais, manifestações e tumultos e ineficácia governamental. E é a partir daí que Lenin, fino político, propõe uma série de medidas de salvação.  Vale a pena, mesmo hoje, passar uma vista de olhos por este texto (julgo que anda pelos alfarrabistas uma tradução editada pela saudosa “Centelha” a preço mais ou menos vil. Para quem atura a rapaziada do Bloco ou o estertor do PC esta literatura até pode ser saudável...

 

E porque é que falo em “catástrofe iminente...” Pela pequena e forte razão de que, por cá, anda tudo em polvorosa. Em breves palavras: desde o mergulho mortal de costas de Coelho para a piscina quase vazia, vai por aí uma vozearia desconforme.

 

Poder-se-ia pensar que nas combalidas hostes da esquerda, revigoradas pela tonta entrevista de Coelho, reinaria não só uma animaçãqo mas, mais do que isso, um princípio de consenso quanto à política a defender e às medidas a tomar. Medidas claras, simples, enérgicas que nos tirassem deste atoleiro wm que a pátria se debate.

 

Lamento dizer que se oiço gritos e condenações em quantidade nem um sussurro me chega de soluções.

 

Melhor, aliás pior: começa a ouvir-se com crescente intensidade que este Governo não presta mas que deve ser ele ou outro da mesma cor e som a enfrentar os tormentosos tempos que se avizinham. Da parte do P.S., a coisa chega a roçar a mais descarada obscenidade: O P.S. parece ter adquirido uma brande virgindade política (nada disto é com eles, a troika também não, os acordos que a trouxeram a estas ridentes paragens ainda menos e a desastrada governação de anos não tem nada a ver com isto que ora se vive). Há semanas Seguro jurava, de voz embargada, que estava pronto para governar. Passou-lhe depressa a vontade, como declarações recentes fartamente sugerem. Socialistas (ou gente que se assume como tal) começam a apelar ao Presidente da República para que este, numa espécie de golpe de Estado institucional, demita o Governo e nomeie outro vinda da mesma banda ou constituído por independentes e técnicos. Não foi outra a sugestão do dr. Mário Soares que, repentinamente começou a renegar de tudo o que no passado recente o tornava uma referência.

 

Claro que me dirão que o PC e o Bloco não dizem a mesma coisa (mesmo se altos quadros sindicais, por exemplo, façam também eles o discurso da intervenção presidencial). Dizer, não dizem. Mas também não dizem o contrário. Se nos lembrarmos que só com muito boa vontade estes dois partidos (e os Verdes, claro, os Verdes, como é que eu me esquecia dessa sucursal do partidão? Então poder-se-á lá passar sem o arrebatamento pasionário da dr.ª Heloísa Apolónia que curiosamente sempre me pareceu mais vermelha do que os seus colegas de coligação que desde sempre dão boleia a esta infíma fração dos ecologistas portugueses?) reúnem 20% dos votos expressos nas eleições o que os torna dispensáveis para qualquer cálculo político e governamental.  Aliás, nem sequer se entendem entre eles, como ainda há bem pouco se verificou quando, perante uma imprensa arrebatada e entusiasta tiveram de adiar para as calendas gregas um encontro a sério.

 

Depois, o P.S. foge desta gente como o diabo da cruz. E eles, pese embora uma mimosa entrevista duma gentil senhorinha do BE , fogem do P.S. com igual velocidade mas mais repugnância.

 

Ninguém quer pegar na batata quente. Ninguém. Aventam-se as mais loucas hipóteses de sair desta engreguilho medonho, reconduzindo-se todas a uma intervenção de Cavaco ou a um governo de tecnocratas.

 

A cereja no bolo disto tudo, a triste cereja, é a extraordinária afirmação do “herói de Abril”, do “cérebro da revolução” do ex-Castro português, o senhor coronel Otelo Saraiva de Carvalho.

 

Diz esta luminária militar que o “que precisamos é de um homem honesto como o dr. Salazar”, de um homem que salvou o pais da bancarrota, que criou emprego e deixou o Banco de Portugal abarrotado de oiro que deu muito geito no período a seguir ao 25 de Abril!” (a citação é bastante livre mas podem estar certos que é isto mesmo que a criatura assevera).

 

Se o dr. Soares parodia, sem o perceber, o senhor Cunha Leal nos prolegómenos do 28 de Maio de 26, Otelo parece inspirar-se em Filomeno da Câmara um dos heróis da revolução dos “fifis”, que aliás não teve sucesso.

 

(e ainda anda por aí um grupo de historiadores a criticar Rui Ramos por este, alegadamente e aos seus inquisitoriais olhos, “desculpabilizar” Salazar? Já agora, e marginalmente, um vago doutor por extenso de Coimbra e historiador parcamente lido entende que um estilo limpo e uma escrita agradável são pecados capitais num historiador! Quousque tamdem abutere... etc,etc.?)

 

Estamos, caros leitores, a caminho de reencontrar todos os velhos demónios da nossa saga sebastianista e milenária. As vozes que clamam por um salvador, por um técnico, independente dos partidos (como se não fossem estes, mesmo maus ou até péssimos como é o triste caso actual, um elemento central e definitvo da Democracia), justificam o elogio de Salazar feito por OSC (ou Óscar?)e podem prenunciar um triunfal regresso de um Estado já não Novo mas semi-velho que,. com um par de safanões a tempo, resolva o problema de algumas criaturas incómodas.

 

As multidões na rua reclamando-se de apartidarismo podem facilmente ser engodadas por uma promessa de resolução radical dos actuais problemas em troca dessa coisa de somenos que é a liberdade (a liberdade que seguramente não está a passar por aqui...).

 

d’Oliveira fecit -20.09.12

 

(a pedido de mcr vai esta para dois antigos subversivos coimbrãos chamados António Noronha e Carlos Granés. Parece que fazem o favor de me ler, coisa que cada vez mais é de agradecer)