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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Out12

o leitor (im)penitente 72

d'oliveira

 

Morres-me assim, Manel?

 

...Agora estou voltado para cima,

Para onde cantas ainda há muito tempo.

Se calhar isto (alguma coisa) vai demorar mas já não me impaciento.

Voltamos, tu e eu, ao mesmo jardim desflorido

Onde eu morro sozinho

E conversamos comigo

Como com um desconhecido.

Que diremos agora um ao outro?

É tarde. Ainda há um momento

Me apetecia conversar, agora estou outra vez tão cansado!

Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,

Como se fosse pelo lado de dentro?

 

 

A morte de um amigo de há muitos muitíssimos anos (50?), sinto-a como se fosse quase minha. Não me assusta a morte, nada disso,  ela há-de chegar mansamente quando me cair a sorte. Assusta-me, isso sim, este ficar cada vez mais só, agora que tínhamos tempo para conversar, mesmo se cansados.

Manuel António Pina era (é) um dos grandes nomes poéticos do último quartel do século passado. Continuou nestes poucos auspiciosos anos de 2000 a escrever e a dizer, com uma voz justa e forte e indignada o qu pensava do mundo, dele, de nós, disto.

Augurava-lhe muitos poemas ainda, que foi essa a sua seara preferida. E, quando aqui ia escrevendo, pensava no que ele me diria, leitor amigo e certo e indulgente que era para comigo. E, de longe em longe, um recado, um mail um poema. E efusivos cumprimentos das gatas dele para as de cá de casa. E morre assim, de um mal canalha e absurdo que o vinha consumindo há meses. E que ele tantas vezes antecipava, que o Manel era a criatura mais hipocondríaca que alguma vez conheci.

 

 

* a epígrafe: parte final do poema 1 de "Farewell happy fields" um livrinho (para amigos) que ele me ofereceu no Natal de 1983