Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

17
Jul13

No labirinto alfarrabista 2

d'oliveira

Coincidências

 

(no labirinto alfarrabista 2)

 

 

 

Na sua edição de 16 de Julho, o  “Público” traz uma interessante notícia (uma inteira página!) sobre a realização de um documentário sobre a “viagem filosófica” do Doutor Júlio Henriques à Ilha de S. Tomé, entre 1873 e 1918.

 

Por viagem filosófica entendia-se, na época, um longo trabalho de exploração in situ tendo como alvo as espécies vegetais (mas não só) nativas do lugar, sua descrição e análise, estudo e conservação de exemplares para se aumentarem os herbários da instituição que financiava a viagem.

 

Ora, esta viagem repete no essencial, outras quatro que, um século antes, foram ordenadas por D Maria I e realizadas sob as instruções de um grande professor da Universidade de Coimbra, o Doutor Vandelli, cientista contratado na Itália e chegado à UC cujo plano de estudos fora grandemente modificado pela legislação pombalina. Relembremos que esta Reforma teve uma extraordinária importância e modificou exemplarmente o ensino ali ministrado. Novos cursos (entre eles a Filosofia Natural), novos equipamentos iguais aos melhores que havia na Europa, novos professores e, fundamentalmente, um novo espírito.

 

Abreviando: depois de uma intensa preparação, quatro licenciados pela Universidade, foram enviados para os quatro cantos do Império português: Alexandre Rodrigues Ferreira rumou ao Brasil, onde permaneceu dez anos extraordinários, recolhendo uma gigantesca soma de informações, sobre terras, gentes, fauna e flora que felizmente começam (lá fora!!!) a ser reunidos em livro.

 

João da Silva Feijó foi destacado para Cabo Verde (e mais tarde irá ainda ao Brasil) e deixou também extensa informação publicada em várias publicações especializadas da Academia das Ciências. Para Angola seguiu José Joaquim da Silva que fez o percurso Benguela Luanda  deixando também espólio notável. Finalmente para Moçambique seguiu Manuel Galvão da Silva, que já explorara parte dos territórios de Goa mas que morreu em plena expedição.

 

Destes notáveis cientistas e exploradores não há por aí notícia alguma. Nem uma rua a lembrar-lhes a alta qualidade dos seus serviços, o mérito das suas importantes descbertas, o zelo em reunir colecções de altíssima qualidade, os escritos e as tremendas dificuldades que passaram naqueles sertões bravios e ignotos. Nada! 

 

Todavia, perguntará algum leitor mais corajoso que até aqui chegou, porque razão estou para aqui a dar notícia de algo que o país e boa parte das suas elites esqueceram se é que alguma vez souberam.

 

Por um acaso, estava em Lisboa quando o excelente livreiro alfarrabista Bernardo Trindade entendeu fazer uma venda de livros sobre o Brasil. Claro que caí lá que nem um tiro e, subitamente, encontrei, entre outras coisas extraordinárias, uma obra em dois volumes, com o título de “Viagem filosófica”. Era uma edição absolutamente notável do Alexandre Rodrigues Ferreira que em dois pesadíssimos volumes, trazia plantas de terras, desenhos, gravuras de animais e plantas, alem de uma extensa série de retratos de gentes daquelas lonjuras. O preço era para a obra -e num critério internacional-  completamente ridículo (60€). Claro que o comprei. Porém, prosseguindo a exploração encontrei uma outra versão muito mais maneirinha  só com as gravuras e, por mera questão de peso, abandonei a primeira compra e juntei-lhe mais três livros. Quando regressei ao Porto, um só revirar de páginas da “Viagem ao Brasil” fez-me pensar que a obra abandonada deveria ser excepcional. Dado que comprara o livro num Sábado, regressara no domingo, tive a louca esperança de a poder ainda obter. Aquilo pesava um bom arrátel dos antigos coisa que deveria fazer desistir muitos amadores. Com uma sorte danada o Bernardo confirmou que ainda a tinha e daqui a dias irei buscá-la. Nem que tenha de levar um carrinho de mão!

 

Entretanto, já no Porto, passo por outro dos meus alfarrabistas conhecidos e dou de caras com umas publicações  que pareciam semelhantes às já citadas. Tratava-se de três grupos de livros, contidos em caixas de cartão de muito boa apresentação e naturalmente dedicadas ao Brasil. A editora era a mesma e os preços, uma vez sem exemplo, simpáticos. Adquiri, assim, o “Theatrum rerum naturalium Brasiliae”, quatrocentas páginas, em 2 volumes, das estampas organizadas em 1600 por Christian Mentzel  e oferecidas a uma alta personagem holandesa; três volumes de cartas sobre a ocupação holandesa ddo Brasil; outros tantos volumes contendo os desenhos de Frans Post guardados actualmente no British museum, a colecção Niedenthal (animais e insectos do Brasil) e o “diario de uma estada no Brasil" de Cuthbert Pussey . Ao todo, são três das sete colecções de documentos publicadas no Brasil entre 1998 e os dias de hoje, sob o título genérico de “O Brasil Holandês”.

 

São edições sumptuosas, bem apresentadas por tudo quanto há de melhor entre os estudiosos brasileiros e só porque alguém se quis desfazer em vida destes livros as consegui comprar. Ao todo nem cem euros me custaram.

 

Como nota curiosa um dos dois volumes de Alexandre Rodrigues Ferreira é uma espécie de catálogo completo dos tesouros que se guardam no Museu Bocage de Lisboa. Relembremos, de passagem, que essa óptima colecção é apenas uma pequena partte do que já lá houve, pois, durante as invasões francesas, foi levada uma grande parte da colecção (suponho que será a que está exposta em Paris sob o nome “Cabinet de Lisbonne”) e outra parte foi consumida pelas chamas durante o incêndio da Escola Politécnica/faculdade de Ciências.

 

Os leitores ávidos e empedernidos como eu sabem que no espaço de duas semanas conseguirem-se tantos livros, a preços de saldo, e aparecer uma notícia sobre uma outra viagem, são coincidências dignas de um verdadeiro milagre de Fátima, bem melhor dos que a esposa do Chefe de Estado vê por aí.

 

Ou seja, nós laicos, também somos criaturas amparadas pelos poderes do Altíssimo.

 

Para o caso de algum dos leitores se interessar por esta bela arte da história natural eis aqui os dados referentes a Ferreira: “Viagem ao Brasil”, Kapa editorial, 2 vols de 320 e 160 p., 2002, org: Cristina Ferrão e J P Monteiro Soares, contendo “Desenhos De Gentios, Animais Quadrúpedes, Aves, Amphibios, Peixes e Insectos Da Expedição Philosophica ao Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuyabá”.

 

(relembremos, por curiosidade, que, em Portugal se editou, cerca de 1880, uma História Natural em seis volumes (cerca de 3000 p. e quase duas centenas de gravuras tintadas a cores). Foi seu autor o doutor Júlio de Mattos (esse mesmo!) e a edição coube à Livraria Universal, do Largo dos Lóios, no Porto. Esta obra é muito estimada pelos coleccionadores e atinge preços elevados no mercado. Nunca menos de 500 €!  Lê-se com agrado mesmo se, como seria de esperar, reflicta apenas os conhecimentos da altura. De todo o modo é de saudar este intenso labor de divulgação que animou o doutor Júlio de Mattos que nem sequer era do ramo.)

 

 

*gravuras tiradas do "theatrum..."