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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

30
Jul13

o leitor (im)penitente 75

d'oliveira

O calor nem sempre faz bem

 

Há uma interessante revista francesa que compro práticamente desde o seu primeiro número: Le Magazine Littéraire”. E compro-a não só pelo seu amplo carácter informativo mas também porque tem o bom hábito de reservar uma boa parte do conteúdo a uma monografia (autores, escolas, cidades, hábitos ou efemérides). Para não ir mais longe os números dedicados a Camus, Borges ou Vian (entre centenas de outros) são referências tanto mais que de tempos em tempos a revista volta aos autores com mais informação.

 

Este mês, antes das férias, o Magazine entendeu (como também a Lire, o seu rival mais próximo) fazer o seu número de Verão e de leituras aconselhadas para a praia.

 

Vai daí intitulou a mais recente edição “10 grandes vozes da literatura estrangeira”. Repare-se que não falou das dez grandes vozes mas apenas de dez grandes vozes. Por cá esta dicil separação do “de” do “da” tem parentes políticos autárquicos como se sabe.

 

Portanto quando o “Mag. Litt.” Refere dez grandes vozes não está a dizer que as dez grandes vozes (no sentido das dez mais, coisa aliás estúpida quando se trata de escritores.

 

Entre estas dez vozes para que chama a atenção, está Lídia Jorge que há tempos viu mais uma obrasua traduzida para o francês. E estão outros nove escritores vindos de diferentes horizontes (Pamuk, Zadie Smith ou John Irving, por exemplo) que a gente da revista acha serem boa leitura de praia. Ler em férias arrasta sempre consigo este duvidoso odor de leitura boa mas digerível, compatível com o ir molhar os pés ou contemplar algum biquíni mais ousado que passe pela nossa frente. Dá para interromper com uma sesta e fica bem com uma cervejola bem fria e um prato de camarão da costa.

 

A habitual e sôfrega alarvidade nacional não perdoa estas chamadas de atenção e os redatores do Público idem. Ei-los empolgados com a promoção estival de Lídia Jorge nas franças e araganças. É o fim da crise à vista, a glória da pátria a ser reconhecida, o panteão da imortalidade para as letras lusitanas.

 

Imagino a excelente senhora a receber telefonemas, sms, mails eufóricos durante todo o dia de hoje: Lídia és a maior!

 

Parece que o francês é já uma terceira ou quarta língua para os portugueses que estudam ou estudaram outro idioma. São cada vez menos os que se importam com o francês e menos ainda os que de algum modo o compreendem razoavelmente.

 

Deve ser por isso  que os do Público tão mal traduzem um título francês. Mesmo de Le Magazine Littéraire!