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Incursões

Instância de Retemperação.

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22
Ago13

diário político 187

mcr

Portugal no seu melhor (I)

 

Sempre que, no mavioso torrãozinho de açúcar à beira mar,plantado, se resolve comemorar uma efeméride patriótica, pode contar-se com a ocorrência de três situações, à vez ou sucessivamente:

 

A comissão destinada a dirigir os festejos é politicamente nomeada e, mesmo que tenha, na sua composição, gente interessante, é substituída a meio da sua tarefa, por outra com iguais méritos mas da cor poplítica do (novo) Governo que, entretanto, surdiu da vaga profunda do voto popular.

 

Essa(s) comissões, mesmo quando continuam parte (e só parte, claro) do programa das anteriores, introduzem nas festividades novos elementos que juntos ao que resistiram põem em causa a exemplaridade da comemoração e a sua lógica mais profunda.

 

O programa que, apesar de tudo, levam a cabo conta sempre comv lucros fantásticos  previstos a partir de contas alucinadas e da adesão de públicos multitudinários.

 

Em consequência destas condições normalmente ocorrem efeitos devastadores.

 

Os públicos falham e mesmo as criaturas mais predispostas nem sempre acorrem porquanto a informação é mal elaborada, confusa, os eventos são adiados, enfim um cacharolete de situações que qualquer leitor que tenha estado atento às “capitais culturais europeias” à Porto 2000, à exposição de Lisboa ou às comemorações dos descobrimentos portugueses.

 

Falemos destes, já agora. Das publicações, aliás interessantes que se fartaram de editar.

 

Regra geral, tais edições apareceram em Lisboa e, em contados casos, nalguma das livrarias da província. Excepção feita à revista Oceanos, o público interessado viu navios (nunca uma expressão foi tão apropriada à situação).

 

Como resultado dessa exígua distribuição, sabe-se agora, que houve gigantescas sobras de livros que os diligentes funcionários comemorativos foram armazenando por aí. Mais por ali que por aí, diga-se em boa verdade, atenta a actual situação do armazém onde ancoraram mais de cem títulos que subitamente descobri numa pesquisa complicada nos meandros da net.

 

De facto, fui vendo em alfarrabistas, uma que outra publicação que me interessava e que vinha quase sempre de bibliotecas particulares postas em venda.

 

Desconhecendo eu que ainda havia força de exemplares por vender paguei (p.e.) por uma magnifica obra sobre a fauna e a flora do Maranhão quase o dobro do que num posterior catálogo da DGLB se pedia!

 

Pela revista “Oceanos” (pelo menos pelos exemplares que sobraram) pede-se no mesmo catálogo cerca de 30% do que corre em certos livreiros.

 

E por aí fora.

 

Na altura em que descobri o catálogo editado pela DGLB, organismo dependente da SEC, imediatamente enviei um mail para a respectiva direcção pedindo várias informações (como ver os livros, meios de pagamento etc) que até hoje não mereceu resposta. Pelos vistos só há um funcionário para o efeito e o mail estará na caixa de correio dele enquanto estiver de férias.

 

Uma alma caridosa, no Jardim Tropical, (Instituto de Investigação Científica e Tropical) murmurou-me sigilosamente que a dita cuja DGLB estaria acoitada na Torre do Tombo, ali para a cidade Universitária.

 

Tirei-me dos meus cuidados e fui até lá. Na portaria, ao perguntar pela livraria, log0o me indicaram um espaço entre dois corredores onde, de facto, havia uma estante carregada de livros vindos de diferentes origens. E lá estavam duas ou três dúzias de exemplares para consulta dos livros “comemorativos”.

 

Apareceu também uma senhora, amável, que mer informou não ser a vendedora mas que poderia dar um jeito visto a livreira estar (adivinhem!) de férias. E lá fomos formando uma pilha de livros. Todavia, quando se começou a ver os preços, dei-me conta que nenhum deles correspondia aos da lista que, por cautela, e por saber como isto funciona, eu trazia impressa directamente do site da DGLB.

 

Acorreu outra funcionária a quem referi o mail enviado. Ambas negaram vigorosamente tal mail e descobrimos que afinal eu estava a lidar com duas excelenes pessoas dos Arquivos Ncionais e não da DGLB que, ao que parece irá fundir-se com este instituyo. Desfeita a confusão mobilizou-se outra simpática senhora, da DGLB, desta feita, que se prontificou a ajudar-me a comprar a montanha de livros que eu queria. Aos preços que eu trazia.

 

Porém, e há sempre um porém, um mas, um contudo, nestas aventuras, os livros estavam em local longínquo, não havia ninguém para os ir buscar, ninguém que conhecesse minimamente o labnirinto do armazém onde  estiolam, desamparadas, edições luxuosas e semi-luxuosas, pelo que eu deveria mandar-lhe um mail com a lista dos meus interesses e, lá parainícios de Setembro, a caça ao tesouro começaria e em meados de Setembro poderei vir consultar as obras que eventualmente mais me interessarão. O que obviamente farei.

 

Entretanto, informaram-me que, na livraria da Biblioteca Nacional, havia edições da comissão dos descobrimentos. Havia de facto, mesmo se poucas. E com preços mais próximos da DGLB dos que da livraria da Torre do Tombo.

 

Concluindo: três (ou quatro se contarmos o IICP) organismos oficiais dependentes do mesmo ministério têm à venda livros editados com o dinheiro de nós todos mas a preços diferentes. Têm é um modo de dizer, pois que nenhum leitor cuidadoso compra livros sem os ver, e muito meno,s está disposto a esperar, como é o caso, mais um mês para os consultar. Acresce que vivo no Porto o mesmo é dizer que a toda esta trabalheira deverei acrescentar a viagem e os seus previsíveis custos. Em boa verdade, estou, todos os meses, alguns dias em Lisboa para ver a minha Mãe que, apesar dos seus provectos 91 anos, já se mostrou interessada em ver e ler alguma das minhas futuras compras.

 

Esta situação caricata, mas lesiva do interesse público, do particular e cara não é excepção no universo do antigo ministério da educação. Conheci, ainda no meu tempo, uma belíssima edição sobre Camilo que ou nunca foi oficialmente posta à venda, ou tendo-o sido, foi tarde e a más horas. Identicamente os sótãos do então Instituto Português do Livro regurgitavam de milhares de exemplares de edições apoiadas que , por razões inexplicáveis, ali naufragavam entre bolor, pó e eventuais mãos interessadas em adquirir livros sem os pagar.

 

Uma vez, enquanto responsável por um organisno da SEC, fiz parte de um grupo de instituições que editava um belíssimo álbum sobre um grande realizador português. Já a tarefa estava quase concluída quando perguntei (já que contribuía) a que preço venderíamos o livro. Silêncio geral e envergonhado: aquelas boas almas, boas e generosas acrescente-se, nunca tinham pensado em vender. Ou seja, depois de se gastar um balúrdio, o livro que no mercado normal custaria 60 ou 70 euros no mínimo iria ser oferecido sabe-se lá a quem. Foi a minha insistência que fez com que a coisa se passasse de outra maneira. Não iríamos ganhar dinheiro mas pelo menos perder-se-ia )invendáveis, deteriorados etc...) pouco.

 

E depois, ouve-se a berrata contra a troika...

 

(este é 1º de três textos sobre a tresloucada e ineficiente vida nacional. Descansem os leitores que, no próximo capítulo, falaremos dos privados que têm tão públicos vícios quanto o Estado)

 

* A eficiente funcionária da DGLB que me atendeu e me prometeu prontamente ajuda já me enviou um mail a perguntar pela minha lista. Como se vê não é pelos funcionários no terreno que as coisas não andam.  É pelo resto, pela merda da pública desorganização estatal que ninguém quer ver, e, quando vê, ainda propõe mais burocracia, mais Estado e mais tolice quando, de uma vez por todas, se deveria aplicar o consabido conceito: a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. O Estado não sabe estar no privado: não esteja! Poupa dinheiro e todos nós ganhamos.

 

** na gravura desenho retirado da Historia das Arvores e da Fauna do Maranhão, fr Cristóvão de Lisboa, sec XVII

 

 d'Oliveira fecit 22.08.13