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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

26
Ago13

Diário político 188

mcr

 

 

 

Portugal no seu melhor 2

O desprezo (ou o ódio) pelos cidadãos


Uma criatura de nome Maria Amélia Santos, e que se intitula Directora de Segurança Social da Caixa Nacional de Pensões, subscreve um ofício tipo dirigido a uma das camadas mais débeis e desprotegidas da população.

Na prática pretende-se avisar os pensionistas mais idosos  que deverão fazer prova de vida para poderem continuar a receber as miseráveis pensões que lhes são atribuídas.

Vejamos, antes de mais considerandos, o teor da carta:

“informa-se Vª Exª que é intenção do Centro Nacional de Pensões proceder à suspensão do pagamento da sua pensão a partir de...., por existirem indícios de perda do direito à prestação que mensalmente lhe tem sido paga. A manutenção da sua pensão está dependente da apresentação a estes serviços da prova de vida...”

O que a tal CNP, através da tal Amelia, vem dizer é que o destinatário da carta anda a aldrabar os serviços, maxime, já passou desta para melhor. Mesmo morto, portanto, come com a acusação! Mas que raio de indícios serão esses? Eventualmente o CNP e a Amelia não encontram na rua, nos chás dançantes, nas manifestações, a anciã (como é o caso) de 91 radiosos anos a quem enviaram este papel ultrajante.

Suponhamos que, depois de uma carta destas, eu escrevo à D Amelia e a acuso, dada a redacção coxa e canalha, de haver eventuais indícios de ter obtido o lugar através de práticas ionconfesaveis, mormente amiguismo político para não entrar na ijnsinuação do costume malévola e pornográfica.

Não que tenha quaisquer provas disso, claro está. Mas também a dita D Amelia não tem o mínimo indicio da malandrice suposta da pessoa que recebeu a carta. Ou  então, com a prodigiosa inteligência que a carta revela, entenderá que 91 anos é um forte indício da vileza da pessoa em causa.

Também poderia afirmar que existem indícios da CNP ser um covil de imbecis encartados que põem na sua direcção uma tonta irresponsável que não percebe que lhe bastaria escrever, por exemplo:

“a lei portuguesa prevê, no caso de pensionistas acima de uma certa idade, a necessidade destes apresentarem uma prova de vida para continuarem a receber  a pensão a que têm direito. O prazo desta prova é de .... dias a contar da data da recepção deste aviso. Cumprimentos etc... “

Isto, que é apenas um aviso, não pode irritar nenhum destinatário. Apenas se indica a lei e o modo de a cumprir. E a sanção para o caso de incumprimento.

Todavia, isto, este normal bom senso, é demasiado complexo para a CNP e para a Directora de SS (que bem aplicada esta sigla) dela.  Não sei a que critérios obedeceu a nomeação da intimidante criatura mas nem a cortezia, nem a razão, tão pouco o direito e a decência devem ter sido ponderados.

O que é preciso é uma espécie de polícia malcriado e desconfiado, de arrocho na pata, para significar que há quem manda e que há muito mais gente que deve obedecer. A bem ou a mal mas sempre sob natural suspeita.

Ocorre ainda que a carta da CNP vem por correio normal podendo pois estraviar-se em qualquer parte do seu sinuoso percurso, incluindo-se nele a conhecida incúria dos próprios serviços do Estado de que há tristes mas fartos indícios. De resto, ainda há pouco, veio em todos os jornais uma história aberrante de um(a) alto responsável da Segurança Social que se abotoou com fartos dinheiros públicos, através de umas manobras finalmente – mas tardiamente postas a descoberto. (convém acrescentar que, a partir da notícia, caiu sobre o caso o mais espesso silêncio mesmo se o bom nome da SS exigia um claro e cabal exclarecimento).

Que raio de país é este onde se permite que as cnp e as arvoradas directoras SS  andem em matilha a assustar pobres velhos que, muitas vezes, não têm sequer quem lhes explique o que a péssima e grosseira redacção quer realmente dizer?

Que país é este em que ninguém protesta contra a injúria vertida neste ofício inquisitorial, tirado a milhares ou dezenas de milhares de exemplares, e arrojado à cara envergonhada de quem dispõe de uma magra pensão?

Responda quem souber.

 

d'Oliveira fecit, 26.08.13