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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

05
Dez13

au bonheur des Dames 346

d'oliveira

 

 

Chora terra bem amada!

O título deste breve folhetim é pilhado a Allan Patton, autor de “Cry beloved country”, enorme e sensível romance de finais dos anos 40 que, há muitos, muitos, anos foi traduzido em português e lido por um rapazola, que tivera a possibilidade de viver durante três anos em Moçambique onde assistira ao racismo banal que vigorava na colónia.

Data desse tempo o meu compromisso com uma causa e um povo que anos depois veria a sua luta coroada com o prémio Nobel da paz.

De facto, em 60 ou 61, o chefe Albert Luthuli, negro sul africano recebeu o galardão como reconhecimento à sua luta de toda uma vida contra o apartheid e pela dignificação do povo negro da África do Sul.

E se falo de Luthuli, hoje e aqui, no dia da morte de Nelson Mandela, outro chefe e outro Nobel, é justamente para relembrar que essa luta centenária não começou com o morto de hoje e que, atrevo-me a pensar, não acaba com a sua anunciada, e desde há muito previsível, morte.

Luthuli foi um convicto pacifista mas após demorada reflexão permitiu que o jovem Mandela sistematizasse e desenvolvesse o braço armado do Partido. Mandela que, de certo modo, teve esse início belicoso (ainda que justificado) soube honrar a herança quando ao fim de inumeráveis anos, duríssimos dias de prisão, entendeu tudo fazer para reconciliar os povos da Africa do Sul.

Junto estes dois nomes, dado o primeiro estar injusta e inexplicavelmente esquecido, ao mesmo tempo que relembro um grande escritor e um grande livro sobre a mesma nação e o mesmo terrível e doloroso destino.

A maior homenagem que se pode prestar a Mandela é justamente relembrar que ele foi a imagem visível de uma multidão de variadas, todas as cores que lutou para dar uma nova vida e uma nova esperança aquele grande território. E esperar que a longa dinastia de homens e mulheres da África do Sul que conseguiu tornar o pais habitável continue a honrar o espírito e a vontade de mortos tão nossos e tão imortais como Mandela e Luthuli. E Patton. Para que o pais que chorou durante tantos anos possa finalmente começar a sorrir. 

 

Nota fundamental: a falar verdade, o Nobel de Mandela foi dividido com De Klerk, o político branco de origem boer que teve a coragem (e não foi pouca, longe disso...) de estender a mão ainda demasiado forte e perigosamente (atomicamente) armada. antes, mas depois de Luthuli, Desmond Tutu primaz da Igreja anglicana no Sul de África também o recebera, igualmente da Paz.  acrescentem-se dois escritores igualmente devotados à causa: Nadine Gordimer em 1991 e J M Coetze já neste século. Belo palmarés para a nação arco íris! 

 

na estampa: o Chefe Albert Luthuli