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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Dez13

au bonheur des Dames 346

d'oliveira

 

 

 

 

Abafa-te, abifa-te e avinha-te

 

Ai, leitoras amigas e distantes, que semana esta, Deus meu! Desde domingo que um resfriado pertinaz e malsão me perturba os dias e as noites mesmo se estas, dada a provecta idade de quem escreve, sejam tão inocentes quanto as de um bebé chorão.

Tudo começou, como de costume, por uma teimosia da CG. A malvada criatura entende arejar a casa mais do que a razão e a invernia consentem. Eu, que nestas coisas também sou pela livre circulação do ar, estabeleço algumas regras simples mas saudáveis: correntes de ar com uma pessoa pelo meio não!

De modo que, em pleno tempo siberiano, eis que a casa começa a arejar às oito, nove horas e continua até que alguém depois de três espirros e várias horas de ventilação decide fechar um par de janelas. Um par digo, não todas que isso neste casarão é obra para durar.

Uma das janelas que por alguma misteriosa razão não se fecha senão em última instância é a do escritório nº1 (há dois escritórios: o primeiro é o de sempre onde se empilham os livros de História, os dicionários, a livralhada sobre Paris e Berlim e as revistas que não se deitam fora. Era o meu local mas a CG com a astúcia, a pertinácia e a teimosia das mulheres foi ocupando primeiro um maple, depois dois, mais tarde uma estante e já ousa impor condições quanto à televisão. Note-se que ela também tinha, e tem, o seu canto exclusivo, mas isso não a impediu de mansamente vir ocupar outro. O segundo escritório resulta da reconversão do quarto principal que, por ser o mais a norte, era frio e desagradável. Forrado a estantes (expansão portuguesa, surrealismo, África, textos inclassificáveis et alia) ficou mais quente e com um sofá e uma televisão mesmo em frente fornece-me um refúgio que volta e meia é invadido pela gata Kiki de Montparnasse que insiste em dormir em cima do meu pobre cadáver enquanto tento ler). Ninguém consegue entender a razão desta janela estar aberta desde as nove da manhã até sabe-se lá que horas.

Foi pois aí que uma corrente de ar maliciosa me apanhou desprevenido. O resultado está à vista (e ao ouvido): espirros medonhos que assustam os passantes, espantam os cães e fazem as gatas correr a sete pés para local mais seguro. Tosse contínua a ponto de todo o corpo me doer, fotofobia q.b., má disposição e nariz tapado.

Não é uma gripe, valha-me ao menos isso, mas é uma constipação “carabinée” que me impediu de partir hoje mesmo para Lisboa a fim de ver a família, visitar amigos e percorrer alfarrabistas. Ainda por cima, nesta época, a feira dos sábados na rª Anchieta torna-se diária o que além de ser um prazer, é uma ocasião única de comprar algumas espécies menos frequentes, uma festa, digamos.

Todavia, mesmo se começo a melhorar à força de medicamentos vários, de roupa a dobrar, de dois bules de chá de roibos, de lhe dar na pingoleta e de enfardar por dois, entendi que era mais prudente adiar por um dia a viagem. Amanhã  também é dia e, com sorte, almoçarei com dois velhos velhíssimos amigos, a saber o Francisco Belard e o Zé Quitério, provedor dos corpos mastigantes deste país. Antes isso que das almas que tão castigadas andam pelas tolices governamentais e pela mixordeirice esquerdista que agora descobriu outra verdadeira refundação. Desde há mais de um ano  que andamos a assistir a reuniões, congressos, seminários, assembleias onde criaturas exaltadas votam a morte do Governo, do regime, o regresso de Abril, a ressurreição de Grândola vila morena, a expulsão da troika, amaldiçoam a Frau Merkel (que deve andar preocupadíssima...), os bancos, a Europa egoísta, e sei lá o que mais.

Nos intervalos, as ululantes criaturas procuram a mítica unidade perdida e jamais reencontrada, o milagre das rosas, D Sebastião sem nevoeiro e uma extraordinária mas refalsíssima história pátria que elas inventaram para uso próprio. Neste mês e ainda estamos a mais de uma semana do fim, já apareceram dois ajuntamentos de salvadores da pátria, da esquerda e dos trabalhadores (e do povo, claro, que isto sem povo não tem graça, mesmo se o povo, esse ingrato, pecar por falta de comparência). Refiro-me a uma coisa chamada LIVRE fomentada por um cavalheiro deputado que depois de ser proposto pelo BE para o Parlamento europeu, entrou em divergência e, em vez de entregar o lugar a que só acedeu por estar nessa lista partidária, entendeu continuar a servir a pátria, os trabalhadores o povo e não sei que mais, como independente. Que crédito merecerá a criatura é coisa que me pouco me preocupa. Confesso que fui eleitor dele mas que nunca mais me apanha o voto que tão estupidamente malgastei.

Outra coisa é uma plataforma de umas dezenas de criaturas que já andaram por todo o lado, que já peroraram por quanta assembleia lhes deu guarida, que já disseram isto, aquilo e aqueloutro, que já negaram aqueloutro, aquilo e isto, mas que persistentemente se tentam manter na crista da onda. Antes fossem para a praia do Meco à meia noite para ver a onda malvada!...

Mas antes já houvera o dr Soares & amigos,  os compagnons de route do BE,  a reunião dos saudosos do PCP e dos amigos da URSS para não falar de mais meia dúzia de habilidades do mesmo género e substância onde sempre a mesma buliçosa multidão acorre, vota, proclama, avisa, protesta, discute, vocifera e condena e sai de consciência tranquila.  

Não é difícil, pois, verificar que, enquanto esta malta se diverte, o governo vá avançando sem demasiadas preocupações, tropeçando de asneira em asneira mas sem que ninguém lhe acerte as merecidas ripeiradas que Passos & companhia necessitam com urgência.

Mas há o senhor Seguro, retorquir-me-á alguém. Haver há mas não se dá por isso. O senhor Seguro passou do silêncio uivante sob o reinado de Sócrates ao alarido inconsequente dos últimos tempos. Com uma receita: tudo está mal , péssimo, horrível e indescritível. Tudo será maravilhoso, transcendente, milagreiro daqui a uns meses se...

Se ganhar as eleições, se conseguir formar governo, se convencer (tarefa ciclópica) os “camaradas alemães do SPD” que, a avaliar pelo que mesmo hoje se está a verificar, deixam que Merkel continue o seu tranquilo caminho europeu, atropelando as esperanças (infundadas) dos que já antes esperavam do ami Hollande e dos camaradas do PSF um conforto e um apoio que nunca vieram, bem pelo contrário.

Convenhamos que com amigos destes, Seguro não precisa de inimigos.

Por outras palavras e repegando na minha achacada saúde: enquanto as minhas maleitas se vão diluindo graças aos medicamentos e ao chá de roibos, a confusão politiqueira cresce e floresce sem limites e sem fim à vista.

E querem vocês que faça um voto de Natal, politicamente correcto e “trémulo de bondade e aletria” (O’Neil dixit) quando a minha vontade era pôr toda esta gente oposicionistas e situacionistas numa das Ilhas Desertas  sem comida nem bebida  nem barco nem remos à mercê da sede e dos elementos?

Isso sim seria um Natal felicíssimo. Infelizmente, no dia 26, estas mesmas caras, estes mesmos indivíduos estarão por aí a arrazoar mais outra qualquer mítica solução para este pobre país que merecia melhor. E mais.