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Incursões

Instância de Retemperação.

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21
Nov14

Au bonheur des dames 401

d'oliveira

 

 

 

 

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Dor de corno

A senhora Trierweiler, (Trierweiler é o nome do primeiro marido de quem se divorciou. De todo o modo Valerie terá entendido que este é mais interessante que Massoneau, nome da sua família) teve o seu pequeno momento de glória, quando sucedendo a Ségolene Royal, entrou no Eliseu pela mão de François Hollande, recém eleito Presidente da República francesa.

Durou pouco o estatuto de “primeira dama”. Cedendo a uma velhíssima tradição política gaulesa, Hollande arranjou rapidamente uma nova “namorada” chamada qualquer coisa Gayet (cfr foto). Nova até em idade, com o atrativo suplementar de ser vagamente actriz, coisa que em França vale mais do que ser uma irrelevante jornalista do Paris Match.

O mundo inteiro divertiu-se com a história de Hollande sair do palácio numa motoreta e disfarçado com o “capacete integral”, seguido (e precedido?) por uma carrinha da “secreta”.

Como se sabe, e a senhora Trierweiler -nascida Monsonneau- deveria também saber, há na constituição não escrita da França uma regra elementar e definitiva: os políticos têm obrigação de ter amantes e tal dever é tão mais obrigatório quanto mais sobem no cursus honorum da república. E poderão, mesmo, morrer nos braços desta como já ocorreu com Félix Faure. Valha a verdade que FF não morreu propriamente nos braços da senhora mas antes na boca dela. O escândalo foi grande, a pobre mulher passou a ser conhecida como “la pompe fúnebre”, trocadilho delicioso que a imortalizou tanto quanto o pobre presidente, herói caído no campo da honra e do amor.

Todavia, a senhora Trierweiler não se conformou. Ficou aborrecida, mortificada, zangada, irada, fula. Vai daí escreveu um livro. Em França, outra mania, quand rien ne va plus, escreve-se um livro, un brulot, un torchon, o que se queira.

Trierweiler, avant Massonneau, já tinha mostrado que não era para brincadeiras. Com uma pérfida mensagem, conseguira eliminar uma candidatura a deputada de Ségolene Royal, sua antecessora, criando, de passagem, um valente embaraço a Hollande e ao PS.

Depois, foi o que se viu (e o que se foi sabendo..., que era bem mais desagradável). A senhora “primeira namorada” (no dizer feliz dos jornais americanos) nunca se coibiu de, directa ou indirectamente, interferir no dia a dia político da França.

Claro que nada disto explica ou sanciona as infidelidades de Hollande que mais não são do que uma corrida atrás de uma juventude definitivamente perdida se é que alguma vez a criatura foi jovem.

Nada disto tem também a ver com o facto de Hollande, coagido pelas circunstâncias e pela economia, ter sido obrigado a abandonar todas as bazófias eleitorais de que se fizera campeão. A França está mergulhada numa cruel estagnação e o que se vai passando na Europa não ajuda nada.

Todavia, o livrinho da senhora Trierweiler, “Merci pour ce moment”, também não ajuda. Do que tenho lido (felizmente a imprensa francesa não se mostra avara) verifico que só por uma grande dose de bondade e indulgência é que a autora sequer dormiu cinco minutos com Hollande. O pobre homem sai do livro mais maltratado do que um judeu de Auschwitz! É um crápula, um imbecil, um rancoroso, um mentiroso et j’en passe...

Como é que “aquilo”, o inimigo dos “desdentados” conseguiu os favores de Valerie, é que me intriga.

Convenhamos que não deve ser fácil ser "la première cocue de France”, que “dizer bem é supérfluo”, que é agradável escrever um despautério que vai render muito, muito dinheiro, que ver um ex-amante na mó de baixo deve ser divertido,etc...

Porém, há ainda, entre algumas pessoas, um par de coisas chamadas pudor, recato, vida privada, interesse público, vergonha (mesmo) que tornam melancolicamente obsceno o acto de trazer para a rua a vida íntima seja de quem for, sobretudo a nossa. Que Hollande é eventualmente um pobre diabo de braguilha aberta, pouco interessa: ao fim de três meses a coisa devia ser evidente para Trierweiler. Todavia o poder, a ansia de o exercer, o fascínio pelas luzes da ribalta, a possibilidade de ter uma corte, o ver-se nas revistas cor de rosa e em “Le Monde” ao mesmo tempo, durante muito tempo, tudo isso foi claro e só sucumbiu ao repto de uma (outra) desconhecida, mais nova, provavelmente tão ansiosa e tão pronta a meter-se nas chinelas (e na cama) de Mr le Président quanto a antecessora.

A vida, esta vida vidinha, é mesmo assim, cá ou nas Franças e Araganças, a política acaba por ser uma arte menor ou apenas uma maneira de chegar à mesa do Orçamento.

E com estas páginas chocarreiras de leitura penosa que a actual França se educa e discute. E isto é tão verdadeiro que até um cadáver político, crivado de processos, reaparece na ribalta política. Refiro-me obviamente ao senhor Sarkozy que, também, na eterna dança das saias, substituiu a “legítima” por uma cantora de segunda, dotada, verdade se diga, de um corpinho definitivamente interessante e que passara nu ou quase pelas fotos de um par de artistas. Com uma diferença de peso numa França ainda bastamente conservadora: Sarkozy cumpriu o percurso casamento, divórcio e casamento enquanto Hollande agnóstico e laico se considera livre desses espectáculos.

Com outra diferença, ainda: as duas últimas companheiras de Hollande não lhe trazem nada enquanto a actual senhora Sarkozy dá-lhe u toque intelectual, e un plus de alta sociedade e bom gosto italiano.

Hollande, convém dize-lo, não é uma águia e, retrospectivamente, pergunta-se como é que chegou onde chegou. Ou melhor, percebe-se como, no labirinto ideológico do socialismo francês (se ainda cabe falar de socialismo), a fraca mediania se foi impondo. De resto, é provável que o caso francês apenas espelhe a crise da esquerda europeia, tão visível entre nós.

O actual fogo de artifício pré-eleitoral, a esmagadora vitória de Costa, o caos instalado no BE, a impotência do PC (e a notável deriva ideológica para o bunker da negação da queda do muro, ora explicada como uma conspiração capitalista contra o sublime Estado policial que em seu tempo se chamou RDA) exigiriam eventualmente um texto menos ligeiro mas, na verdade, o caso Trierweiler é mais revelador do que as patéticas declarações de boa parte do pessoal político nacional que pretende esconder na gritaria a sua medíocre capacidade para arranjar argumentos contra a crise que nos vai implacavelmente consumindo.