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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

26
Abr06

Despedida

Sílvia
Despeço-me de ti, as pernas cruzadas sobre o braço do sofá da sala, a música ao fundo, florescida a orquídea, o cão a dormir sem solenidade. A fumaça do cigarro lenta no ar, e nas mãos uma taça de vinho tinto, dos que tu gostas e eu também gosto.

Despeço-me de ti em silêncio . Despeço-me de ti para não ter que me despedir de mim . Uma pessoa não pode viver na dor e na falta a esperar que o tempo volte.

Despeço-me de ti ao som da memória, da visão clara do teu corpo enrodilhado no meu, da visão clara do teu amor colado ao meu. Do teu pranto.
Tantos anos me custaram despedir-me de ti. Tantos anos a conversar contigo sozinha no quarto, a querer beijar-te, a quase ver os teus olhos desejosos a meterem-se nos meus. Memórias.

O amor não é memória. O amor dobra a esquina e temos nosso coração nas mãos. E queremos ofertá-lo a um estranho. Porque por ele o coração saltou-nos do peito. E seus olhos miúdos têm um brilho oculto pela tristeza . E seus gestos diferentes nos atraem, Seu corpo nos chama e o nosso quer atendê-lo. E uma beleza fulge naquele rosto. Nos nossos rostos. E um estranho é sempre um estranho, não és tu, nunca será. Mas a vida usa palavras fora do comum às vezes. E nós, todos nós, queremos amar.

Não é morte, o amor. Nem tempo, nem metafísica, nem psicologias. O amor tem vontade própria, não quer ser explicado. Não vive de reminiscências, elas são apenas a lembrança do que ele um dia foi.

Amor é presente, agora, já. Vida desfraldada , mergulhada no mar, a escalar as encostas das montanhas, a embrenhar-se na selva. O corpo e o que mais pode haver além dele, dedicados a isso. Tu sabes.

Despeço-me de ti ao som de um cello, de séculos atrás, que tu me deste.


Um beijo e adeus.


Silvia Chueire
26
Abr06

Dúvidas

Incursões
Porque deambulam os homens em vez de ficarem quietos? Ou por que deambulam os homens em vez de ficarem quietos? Qual a formulação correcta? A discussão iniciou-se, um pouco mais abaixo, em comentários a um postal de MCR. Todos os contributos são bem-vindos, porque eu gostava mesmo de esclarecer a dúvida. Obrigado.
25
Abr06

Confiança

simassantos

Nos velhos tempos, o juiz tomava assento sob um dossel de bandeiras de guerra - e a sua missão inspirava medo, ao contrário, o juiz deve sentar-se sob o dossel da paz e a sua maior missão consistirá em inspirar confiança.
Luis de Oliveira Guimarães (Séc. XX)
25
Abr06

Cartas a Ribeiro Sanches 1

d'oliveira
Apresentação seguida de No está el horno para bollos

...É da obrigação do juízo humano prever tudo e conhecer as causas das desordens presentes, para evitá-las ou suprimi-las pelo discurso do tempo.”

O autor destas palavras teve por nome António Nunes Ribeiro Sanches, Penamacor 1699, Paris 1783) foi médico de fama internacional mormente na corte russa, enciclopedista de talento, e conselheiro longínquo do Marques de Pombal. Dever-se-á a ele a fundação do Colégio dos Nobres bem como a reforma dos estudos médicos em Portugal. Cristão novo e laico escreveu sobre diferentes temas e nomeadamente sobre economia, pedagogia e medicina. Trata-se de uma das mais lúcidas inteligências do seu tempo e por isso mesmo foi tido em alta estima pelo escol intelectual europeu desde a Rússia à Holanda, da Inglaterra à França. É dele a descrição de Portugal como um “reino cadaveroso sem emenda” e é entre nós (alguns, poucos, pouquíssimos) como autor das famosas “Cartas sobre a Educação da Mocidade” (procurem este título que foi da editorial Domingos Barreira, na internet ou nos alfarrabistas) escritas num português de excepção e contendo textos absolutamente actuais.
Como de vez em quando me apetece escrever textos longos em resposta a alguns textos aqui publicados, decidi iniciar mais esta série (isto começa a parecer um armazém de Secos & Molhados...!) porque me parece não convir a forma de comentário. Já há bastante tempo que esta ideia me roía mas o texto do meu caríssimo amigo Delfim Cabral Mendes acabou por me decidir. Aliás o primeiro título pensado foi “Ad usum Delphini” mas essa expressão denota hoje uma explicação truncada e eu não como dessa broa. Escrevo como penso, tento ser honrado e não sonego os aspectos mais discutíveis ou frágeis das minhas opiniões. Adorava fazer esta facécia ao Delfim que é um homem de bem, culto, admirável administrativista, combativo defensor do que melhor há na função pública, católico apostólico romano sem apelo nem agravo, monárquico e, em questões políticas, absolutamente conservador. Temperemos este acervo de qualidades ou defeitos com uma ideia muito minha: as convicções conservadoras nem sempre terão suficiente base científica. E parece-me que o texto “ao que isto chegou" padece de desinformação ou de falta de informação.
A minha caríssima amiga Kamikaze já lhe saltou ao caminho com muita subtileza ao propor a leitura de Notícias do antigamente onde consta um texto meu de que nem me lembrava: “Para onde íamos em Maio? Para Abril!” E ao lado, um outro “Provisórios e Definitivos” cuja leitura ouso recomendar ao Delfim que ainda não nos frequentava.
Dito isto e apresentada a razão de ser desta secção (mais uma, santo Deus!) vamos às nossas encomendas.

Parece que o Banco de Portugal, versão outra senhora, em 74 e antes do 25 A publicou um relatório de onde CM respiga números lisonjeiros que contradiriam o estado agónico do pais. Do pais que nem uma sobrancelha ergueu para o defender.
Portanto: em 25 de Abril ninguém mas ninguém se deu sequer ao trabalho de defender um regime e um governo “cadaverosos”.
O BP diz que havia 500.000 accionistas na bolsa. Deixa porém no tinteiro a real situação dos mesmos. Ou melhor, esquece-se o queriducho BP que o papel comprado por esses 500.000 não valia sequer a tinta em que estava impresso. De facto, a especulação bolsista de anos anteriores tivera dois resultados, ambos funestos. Não só esbarrondara as pequenas poupanças que compraram por 10 o que valia 2 ou 3 mas também depois caiu a pique com grave prejuízo dos pequenos investidores.
A multidão de que o banquinho do Portugal dos pequeninos fala tinha papel mas estava a ver navios... essa multidão por outro lado era fictícia. De facto toda a gente dava o nome (até eu que tive cuidado de nunca meter nessa bolsa crápula e escandalosamente sobrestimada, dei o nome para outros poderem candidatar-se à compra de mais acções que eram rateadas entre uma população de ignorantes que nem sequer aprendizes de feiticeiro eram).
Os 500.000 deveriam efectivamente ser dez vezes menos ou nem isso. Aliás julgo lembrar-me de algo publicado sobre isso.
O poder de compra era de facto superior ao de 1960 mas o banco, não diz porquê. Esquece que as transferências dos militares (mais de 100.000) nas três frentes de guerra eram grandes e vinham acrescentar-se aos salários das mulheres entretanto entradas em massa no mercado de trabalho justamente para substituir esses homens mais o milhão de emigrantes saídos de Portugal nesses 14 ou 15 anos.
É bom que nos lembremos que saíram de Portugal, geralmente homens entre os 18 e os 40 anos que uma vez nas franças e araganças enviavam fortes somas à família. Ou seja tratava-se de riqueza produzida fora e investida cá dentro.
Há depois os réditos do turismo de massas que explodiu a partir dos primeiros anos da década de 60. Foi um maná!!!
O forte investimento estrangeiro de que o BP fala poderá referir parte do que acima se disse e também a tentativa de investidores turísticos e outros começarem a controlar algumas parcelas da economia nacional. Cuidado porém! Quem investe também desinveste como aliás depois se viu....
Em Novembro de 75 diz delfim que a sociedade estava cansada. Pois estava. Além do mais a população de Portugal aumentara em cerca de um milhão de refugiados vindos das colónias, sem eira nem beira nem ramo de figueira. Um milhão Delfim! Exactamente tantos quantos tinham saído durante década e meia.
Essa entrada de cerca de 20% do total da população residente foi um temível desafio à economia nacional depauperada pela fuga de capitais e pelo recuo sensível das transferências dos emigrantes.
Devo dizer que o que me espanta não é tanto o relativo pequeno empobrecimento dos portugueses (e nisso os retornados deram a volta a este pais) mas o ele ter sido tão ligeiro. O nosso caro Delfim parece esquecer ou desconhecer que a grande crise do petróleo foi exactamente coincidente com o fim do Estado Novo e com os inícios do regime seguinte.
Ó Delfim, então V não vê que se o investimento estrangeiro directo cai, se há fuga de capitais, se a população aumenta extraordinariamente, se os militares das colónias deixam de enviar dinheiro, se as transferências dos emigrantes baixam se o petróleo aumenta, que tem por força de diminuir o PIB, o rendimento nacional e tudo o resto? Ai essa economia política....
Vamos passar agora a esse “grande político” que V pensa ter sido o Dr. Caetano, Marcelo para meu desgosto. Delfim: Caetano era tudo menos um grande político. Não era sequer um médio político. Foi indeciso, deixou-se cavalgar pelo almirante Américo Tomás, nunca se impôs ao círculo dos ultras e foi continuamente desprezado por Salazar enquanto este foi vivo. Salazar sabia da poda, Caetano de Direito Administrativo. E basta. Dirá V que Caetano tinha uma cruz familiar de peso insuportável. É verdade. Que tentava fazer o melhor que sabia. Não duvido. Mas sabia pouco e conseguia menos. Porque estava tudo armadilhado à sua volta. Porque pensava que a brigada do reumático era o exército. Porque não foi nunca, ele um professor tão interessante, capaz de explicar nas tristonhas “conversas em família” aos portugueses, nada de coisa nenhuma. Aquilo era um purgatório, meu Deus! O homem tinha menos carisma que um urso amestrado de circo de estrada. Um urso? Uma cabra de saltimbanco! O Dr. Franco Nogueira ao lado dele era um mestre em comunicação.
Caetano em termos políticos era a ilustração viva do célebre panfleto de Lenin: um passo em frente, dois atrás! Morno, mortiço, sem garra nem chispa, sem autoridade nem apoios, manobrista (a célebre abertura aos deputados do grupo Sá Carneiro e o modo como os deixou cair tão depressa) e inepto.
Um político que se preze não se deixa emigrar à força para o Brasil, resiste, vai à luta exige um julgamento político e público. Caetano no Brasil escreve cartas lancinantes mas não se mexe, não conspira, não faz mais do defender-se molemente em cartas particulares que seriam muito interessantes se não fossem politicamente tão insinceras! Que diabo, o homem parece não ter compreendido o cataclismo que lhe caiu em cima. Para quem nos anos da mocidade era tão anti moderno, anti liberal anti inteligentsia anti não sei quantas coisas mais (e nisso já ia não uma verdadeira irracionalidade filosófica mas apenas uma atitude de poseur de costas quentes) foi triste vê-lo afogar-se numa poça de água pouca e pouco clara.
Mesmo o grito sobre as hienas capitalistas se dele é, é inconvincente. Como é inconvincente a condenação tout court do capital especulativo, se a houve. Então as manobras palermoides dos bolsistas de trazer por casa o que eram? E quando foram? Quando um capitalista vê uma hipótese de ganho aproveita. Se o especulativo dá mais que o produtivo pensa V que ele prefere a segunda hipótese? Por favor: tanta inocência não.
A terceira parte do seu texto, caro DLM não tem nada a ver com as anteriores. Também eu sou contra o desmantelamento do aparelho de Estado ainda que, como já aqui terei dito, ou alguém por mim, que há tarefas de que o Estado há muito não se deveria ocupar. E nem é preciso colocar os funcionários públicos no quadro de excedentes. Desde 97 que não há admissões, são já dezenas de milhares os CIT (contratos individuais de trabalho) e anunciam-se novas revoadas do mesmo. Conheço unidades (antigos “serviços”) onde quase quarenta por cento dos efectivos são POCs ou estagiários, ou seja no último caso, gente que vem por nove meses fazer uma perninha de serviço público. Quando já percebem qualquer coisinha, ala que se faz tarde: rua! Ora qui está uma maneira inteligente de perder gente experiente que custou uma fortuna a formar, de desmotivar ainda mais os jovens técnicos superiores, e de fingir que os serviços funcionam normalmente. Num pais sério isto seria um crime. Cá deve ser um virtuoso exercício de contenção de despesas. O dinheiro que sai em borbotões do bolso esquerdo entra às pinguinhas pelo direito. Esta foi a política do PSD/PPD e esta é a do actual PS versão engenheiro José Sócrates. O outro do mesmo nome preferiu tomar cicuta. Este limita-se a beber água. O outro passou à história. Este arrisca-se a ser atropelado por ela. E porventura a dar origem a uma notícia de 8ª página do género: peão ainda não identificado atropelado por uma carrinha de caixa aberta por circular fora da passadeira.
Assim vai o mundo.
A gente vê-se por aí...
Um abraço
25
Abr06

estes dias que passam 22

d'oliveira
Esta já está. Para o ano há mais.

Dizia-vos eu, queridas paroquianas, que nos encontros Literatura em Viagem, iria ter uma tripulação de luxo na sexta (e última) mesa redonda (por sinal imponente e rectangular...) que seria por mim moderada?
Pequei por defeito, fregueses meus... Por defeito gordo e deleitoso. Então não é que, perante uma espantosa afluência, se teve de abrir um outro auditório onde um nutrido grupo de pessoas seguiu as intervenções em ecrã gigante?
E mais: querem saber que dois "camaradas"(e nas terras pescadoras e salgadas como Matosinhos ou a Figueira da Foz "camarada" quer dizer membro da"companha" ou, traduzido em moderno e redutor, pescador) da barca incursões, estavam presentes? E que os apresentei um ao outro? Anto meets José, o temível leitor, e vice versa?
E ainda mais (Jesus isto vai num crescendo...) que me apareceu uma bonita leitora nossa, daqui, deste navio espacial que cruza o éter ignoto, e que me disse amabilidades maravilhosas que me fizeram corar de ternura e reconhecimento? E que manda beijos ao Carteiro, sempre esse homem fatal.
Uma leitora, ó amigos meus, uma leitora que algum dia lançou ao ecrã a sua rede curiosa e gentil e apanhou esta troca de mensagens da alegria e da convivência civil, da discussão e do desacordo tolerante e que nos vem lendo até hoje com a cúmplice paciência dos leitores que tomam passagem nesta barca em os colaboradores e comentadores remam não como galeotes mas tão só por sentirem prazer na companhia uns dos outros.
Leitora aparecida e desaparecida entre as ondas da multidão que se acotovelava para pedir um autógrafo ao Mia ou ao Ondjaki, por favor, mande o seu comentário de quando em quando para nos sentirmos mais quentinhos por saber da sua presença.
É que, sabe?, ele há dias de nevoeiro denso nesta navegação à bolina, junto da costa rochosa, e cai-nos bem ouvir a ronca, ou ver a baça manhã nevoenta abrir-se de repente por um foguete de lágimas, um bola de fogo que rebenta lá em cima e desce, lenta, magestosa e protectora, para o mar.
É um outro sol, mais pequeno e próximo mas não deixa de nos aquecer a alma e de nos acompanhar um momento, esse momento indeciso em que as mãos enregeladas já seguram mal o remo, o leme, as redes pesadas.
Mas eu dizia que as coisas correram bem, como se me estivesse a atribuir neste diário de bordo uma importância que não tenho e de que não quero, nem posso, arrogar-me. antes pudesse.
Explicando: ao abrir a sessão, e ao ver aquele auditório repleto, as pessoas de pé ao fundo e ao lado, lembrei-me desta imagem maritima da barca.
À barca, à barca que temos gentil maré, como dizia Mestre Gil no início do Auto da Barca do Inferno, se a memória me não atraiçoa. Foi algo que me ocorreu depois de ter estado com dois outros amigos do meu tempo de Coimbra, a Fernanda e o Amaro, gente do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, TEUC, que nos vieram cumprimentar ( o outro dos saudados é o Fernando António Almeida, autor de roteiros por esse desconhecido país que se chama Portugal. Procurem-lhe os guias pela D. Quixote, umas Vidas Maravilhosas de Santos delirante ou Contos pequeníssimos na Teorema. Verão que a pescaria é boa, abundante e de muito proveito). Em homenagem cifrada a estes três (e ao Anto que comigo foi do CITAC, outro grupo teatral do mesmo tempo) comparei a mesa a uma barca onde, das duas. uma:
ou aquilo era um desses "meios de transporte marítimo" todo cheio de nove horas, de continências e rodriguinhos em que o comandante mcr teria um imediato, o sapientíssimo Alexandre Quintanilha, físico teórico de fama pluricontinental, um engenheiro de máquinas, o Mia Couto e um .... grumete (dada a idade) o notável e talentoso escritor angolano Ondjaki (que com o seu bom amor e a sua perigosa juventude, pediu para passar de grumete a maresia como se isso fosse possível, ai que menino mais endiabrado você tem mamana? Menino assim a fazer gazeta à escola todos os dias, quem já viu?)
ou uma barca dessas que vão sempre junto á margem e transportam passageiros de circunstância, em que mcr era o remador e os três preopinantes já citados seriam passageiros pagantes da travessia.
Optei por esta segunda hipótese mais consentêa com a realidade das coisas.
Barca pouco remada, lenta, sem rumo fixo, ao tom e ao som das intervenções dos passageiros e dos gritos de terra (do auditório). Intervenções que deveriam levar dez minutos estenderam-se espraiaram-se por outros tantos ou mais. Até o Alexandre Quintanilha que, minutos antes, me jurara ser pessoa rigorosíssima e pontual mandou o relógio às malvas ( ou melhor ignorou-o ostensivamente apesar de o ter posto ao lado das folhas de apontamentos) e aí vai disto.
O Mia que no dia anterior me confidenciara que só poderia falar cinco minutos acabou por quadruplicar ou quintuplicar esse seu tempo. Ou então é o tempo tropical que é mais caprichoso que este nosso, de cá. Devem ser efeitos do cacimbo...
A falar verdade só eu e o Ondjaki andámos mais ou menos dentro dos limites horários impostos. E mesmo assim... É que ao ser convidado pelo Francisco Guedes para moderar uma mesa eu bem o avisei: Chiquinho, mano, eu sou, nisto de literaturas e similares, mais pró anarca. É um risco enorme pôr-me a polícia sinaleiro de escritores e outra gente de maus costumes.
Mas o Chico não tem emenda. Insistiu. Eu, que gosto mais disto do que de marisco, aceitei, claro, contente que nem um cuco. E pronto, naufragámos não pela carga de pimenta ou especiarias mas porque a coisa corria bem disposta perante um público muito interventivo de onde saiu de tudo. Bom, assim assim, discurso nacionalista, um toque subtil de feminismo, outro tanto de poesia e bom humor. E eu na maior. Qual hora nem meia hora, venham daí mais cinco como diria o querido Zeca Afonso. Ultrapassámos todos os limites e mais seria não fora saber que o restaurante não podia esperar mais por nós. Eu deveria ter contado a parte substancial, referido mais as intervenções mas que querem, acordei à uma hora e pouco com o calor, sentei-me aqui e...saltam mais duas de escrita anárquica, para a mesa do canto. O Anto e o José que me corrijam a rota, o diário de bordo e proponham ao armador um correctivo adequado para tão mau mas grato marinheiro de água salobra.
E à leitora anónima e bonita que me cumprimentou, com permissão da minha mulher (que, uma vez sem exemplo, saiu do serviço só meia hora depois do seu fecho oficial, par me acompanhar!!!...) um beijão enorme e agradecido deste sempre seu
mcr
É 25 A: aproveitem o feriado, passeiem, apanhem sol, comam-lhe bem e... leiam um livro. É uma viagem barata e digestiva. Passem bem.

nota: no próximo "Au Bonheur des Dames" atrever-me-ei a publicar a minha intervenção na mesa redonda "Porque deambulam os homens em vez de ficarem quietos?"

24
Abr06

O estado a que isto chegou!

Incursões


Em Abril de 1974, o País estaria farto de um regime forte e autoritário.

Contudo, a sociedade portuguesa estava mais rica e pediria talvez menos Estado e, consequentemente, mais liberdade.

Não obstante, olhando para as estatísticas desse tempo, quem nos dera que o Banco de Portugal agora lavrasse um relatório deste teor:

10% de crescimento económico ao ano;
500.000 accionistas na bolsa;
poder de compra 100% superior ao ano de 1960 quando, infelizmente, começou a guerra que tantos recursos consumiu: humanos e materiais.
Forte investimento estrangeiro;
60% do poder de compra existente na Europa além-pirinéus.

Em Novembro de 75, a sociedade cansou-se de tanta desorganização. Estava mais pobre: 20% de desemprego, com a queda da produção industrial, ruína das empresas, inflação, fuga dos capitais internacionais e êxodo de muita gente empreendedora, que a não há hoje…hoje o que predomina é o capital especulativo, que não o produtivo...Ah! E não esqueçamos a vinda de meio milhão de refugiados da nossa África…

Valeu a pena o golpe?

Também eu me entusiasmei, perante a perspectiva de “grandes liberdades”: Mas, de que serve poder gritar bem alto a nossa discordância, nos dias de hoje, se o Poder faz aquilo que muito bem entende? Faz aquilo que Marcello Caetano nunca faria: o desmantelamento do Estado para entregar os restos às hienas sequiosas do capital mercenário (esta tirada, meus amigos, é digna de um “guerrilheiro” marxista, não concordam?...).


Lembro aqui Salgueiro Maia, do qual aliás tenho uma bela serigrafia. Independentemente da opinião pessoal que se tenha das suas convicções e crenças, foi um puro, e creio que se ele ainda hoje fosse vivo voltaria, uma vez mais, a pegar em armas, atendendo ao "estado a que isto chegou"!

Em tempo: ainda há pouco, ao jantar, visualisei uma entrevista com António Vitorino, feita pela inefável Judite de Sousa, onde aquele afirmou, sem sombra de pudor, que o Estado deveria "externalizar" diversas funções e colocar os funcionários públicos em bolsas de excedentes. Mais razão me assiste...
24
Abr06

Inexplicável, eu sei.

Incursões
Diziam-me há dias, por estas bandas: homem, você é um desafio! Talvez seja. Ou, mais do que isso, talvez seja um deficiente emocional. Um tipo de todas as paixões que, pelas circunstâncias, se tornou pouco menos que inexpugnável e que, porque amou tanto e se desiludiu de amor, se tornou um céptico, nunca um cínico, que isso não faz parte do código genético do miúdo que se apaixona, quase pueril. E tenho uma tragédia colada a mim: sou um desbocado. Tenho um imenso sentido estratégico e táctico, sou capaz dos melhores conselhos, sou um combatente (talvez um guerrilheiro), um senhor da guerra, um cavaleiro andante. Mas quando se trata de coisas minhas, sou o desajeitado, o provocador, o inadaptado, o auto-excluído, um tipo de rins pouco flexíveis e de coluna vertebral absolutamente inquebrável, mesmo quando fico inseguro das coisas de que já fui seguro e hei-de voltar a ser.

Sobrevivo assim. Gosto de mim assim, ainda que, assim, coleccione inimigos e perplexidades. Mas gosto de mim assim. Mesmo quando sei que, sendo assim, me prejudico.

(depois de uma interrupção duradoura, continuo o post, que já não será o mesmo)

Por força disso, e por causa de todos aqueles que veneravam a minha inquietude supostamente inteligente e cresceram na minha sombra, porque isso lhes dava jeito e subiram na vida e que depois, quando fui torcionado, me esqueceram, tornei-me um tipo demasidado cauteloso. Não apenas tímido, que isso sempre fui, mesmo quando as pessoas se riam quando eu dizia que era tímido (coisa que até parecia petulância), porque achavam que eu tinha um lata enorme e dizia as coisas a brincar.

Esta noite jantei sozinho. Na minha circunferência. Tinha um simpático e motivante convite para jantar em grupo. Recusado em nome de um compromisso que não havia e que inventei. Não ousei. Fui injusto com quem me convidou. Mas não tive coragem. Fui onde fui para conhecer uma pessoa que queria conhecer. Não quis que parecesse mais do que isso, ainda que eu saiba que o convite foi amigo. Fui eu quem perdeu. Todas as coisas. A sabedoria dos outros e a tese explicada do pássaro ferido na asa.
24
Abr06

De Matosinhos com alegria

d'oliveira
Dr Ribeiro, I presume?

Não foi exactamente assim, tão á Stanley & Livingstone, que as coisa se passaram mas quase. Eu resolvera levantar o dito cujo da cadeira para ir esticar as pernas no corredor quando fui intimado com gentileza e elegância por uma pessoa que julguei ser o Alexandre Quintanilha cuja chegada se previa a todo o momento.
Disparei em resposta: dr Quintanilha?
Que não, que não era o Alexandre (entretanto já chegou e jános encontrámos, conversámos e preparámos sumariamente as coisas para amanhã, aliás hoje), mas tão só o Carteiro, aliás Coutinho Ribeiro.
O título disto poderia ser então Ribeiro meets Ribeiro para nos mantermos no ingliche do costume. E de facto foi. Eu estava há horas calado coisa que me altera os humores bilioso e fleugmático nesta exacta ordem pelo que como ele, magnânimo diz, a conversa por minha parte foi de bica aberta. Também não é em vão que me chamo Ribeiro (caudal razoavel e continuo de água corrente, diz o dicionário). Poderão sempre retorquir que ele também, o que é verdade mas de facto em questão de dar á língua ganhei-lhe por três comprimentos, ai lá isso ganhei. Deixe lá Carteiro, que V. ganha noutros campeonatos, como todas as leitoras daqui sabem...
até a prima Maria Manuel se enternece ao lê-lo e diz que lhe parece "pássaro ferido na asa"!... A minha própria prima!!! Já não há respeito!
As gentis leitoras já leram o que Ribeiro diz de Ribeiro, aí em baixo da fotografia (ainda por cima o marau tira fotografias e sabe pô-las na internet....) pelo que não me alongo.
A história conta que um antigo Presidente da 2ª República, o Almirante Américo Tomás, terá dito em certa ocasião sobre uma coisa que lhe agradou: Só tenho um adjectivo: gostei!
Não querendo competir com a gramática imponente do ilustre marinheiro atrevo-me a dizer deste encontro com o Carteiro: Só tenho um adjectivo: porreiro!

nota: o encontro Literatura em viagem vai de vento em popa. Hoje o público sobrelotou a sala e ninguém queria arrancar. Foi preciso explicar que já se tinham excedido todos os limites horários.
Amanhã (hoje) pelas 18 horas locais avança a sexta e última mesa redonda. A tripulação é composta de dois moçambicanos autênticos, Quintanilha e Mia Couto, um angolano puto reguila e excelente ficcionista, Ondjaki, e um moçambicano falso, mcr ele mesmo. A ordem do dia será "Porque deambulam os homens em vez de estarem quietos?" e as respostas pela parte que me toca, serão simples, bem humoradas e ditas em português corrente sem rodriguinhos nem erudições tolas. A literatura em particular e a cultura em geral não têm de ser chatas e muito menos um luto. Era o que faltava!