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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Dez06

Au Bonheur des Dames 42

d'oliveira
Progressos demasiadamente lentos
Não sei porquê mas lembrei-me subitamente do título (algum livro, algum filme?) deste folhetim. Tenho quase a certeza que deveria ser algo de Jean Paulhan, coisa muito anos setenta, belos anos os do segundo quinquénio, não pelo 25 A, caro José, mas também por causa disso. De setenta e seis a oitenta, este seu amigo e devedor, comandava uma nau com quase setecentos tripulantes e trezentos ou quatrocentos mil utentes, entre beneficiários directos, familiares destes e patrões. Tratou-se de uma aventura exaltante, abençoada pelo facto de se tratar de um serviço essencial a uma grande camada de população não muito favorecida. Acho que dei o meu melhor e que consegui deixar para quem depois de mim veio, uma casa mais arrumada e mais fácil do que a que recebi. Ainda hoje vou encontrando gente que trabalhou comigo e, honro-me de o dizer, que terá gostado de trabalhar comigo. Cada um destes encontros é uma pequena festa de que saio contente e de lágrima no olho. Muitas lágrimas no dito cujo órgão da visão, que eu, com a idade, comovo-me facilmente. Aliás, pensando melhor, sempre fui de fácil comoção e fácil indignação. O que é bom porquanto significa que não sou de arcas encouradas nem de rancores escondidos. Digo o que penso sempre sem rede e a isso devo muitos amargos de boca. Mas, também por isso, tenho uma boa carteira de amigos. E os amigos, caro leitor, são o sal da terra. E entre eles estão, seguramente, muitos dos meus antigos subordinados desses anos setenta. Há mesmo um pequeno grupo, um “inner circle” que governa o meu dia de anos. Nesse dia, e isto desde há trinta anos, o meu programa está marcado por eles. Almoçamos juntos, claro, oferecem-me um queijo da Serra, sempre óptimo, recordam-me histórias e prometemos sempre voltar a encontrarmo-nos antes de um ano. E como sempre isso não acontece. Este ano o almoço foi adiado por motivo de força maior, uma das minhas antigas secretárias, a mais velha por sinal, vai ser operada e entendemos guardar o encontro para depois da operação. Para ela poder comer o que quiser, e tão gulosa que é, valha-lhe Deus, para poder beber um licor especial (à falta de uma zurrapa que ela adorava e que dava por “Magos” uma espécie de jeropiga falsificada e com muitas bolhinhas) e para poder bater-me carinhosamente na mão (ficamos sempre ao lado um do outro) dizendo-me que não tenho emenda. Antes que alguma leitora mais buliçosa pense mal, deverei dizer que a minha amiga Adelaide Arbiol me leva um largo par de anos de vantagem. Quantos não sei, a uma senhora não se pergunta a idade, mas ela terá conhecido a minha avó Dora Heinzelmann ou pelo menos terá ouvido contar várias histórias amáveis dessa (também) grande senhora.
Esta dona Adelaide Arbiol era a rainha das secretárias, um poço de informações, de bom senso e de ternura. E tirante o secretariado, que já lá vai, continua a ser um carácter!
Os leitores já me conhecem: eu navego nestas vagas prosas, um tanto ou quanto à bolina, pouca bússola, pouco leme, ao sabor de uma onda mansa ou de uma brisa mais carregada. Acreditam que eu ia, como o título poderia indicar, falar dos meus progressos na luta contra o peso? Pois era por aí que queria ir. Para contar que os primeiros dez quilos já foram dar uma volta ao bilhar grande, esperando que não voltem mesmo que me arreceie do Natal que por aí vem, do inverno que vai entrando com pezinhos de lã, de uma súbita e enternecida vontade de comer um verdadeiro cozido à portuguesa “mcr Art” como se diz nas germânias e não como um de “arrebimb’o malho” proposto no blog “gosto-comer” e da autoria indiscutível do João Vasconcelos Costa. Quem quiser ir por ele, vá que não perde tempo embora se arrisque a ganhar peso. E água na boca! Como é que um eminente cientista e professor universitário pode ser assim tão bom gastrónomo? Os cientistas deviam ter um apetite de passarinho, sempre enfronhados na sua difícil arte, comendo distraídos e a desoras uma sanduíche e o respectivo guardanapo de papel, bebendo-lhe força de cafés ou chá verdadeiro, que também é excitante. Parece que não: que há por aí uns cavalheiros que parafraseando o rifão espanhol (a dios orando y con el mazo dando) com uma mão manipulam a proveta e com a outra a colher de pau. E o João é um desses. Aliás suspeito que terá mais mãos, que o homem é um bom leitor, um excelente conversador, um comentarista de gabarito e mais um par de coisas que demonstram sem dificuldade que, mesmo nesta terra abandonada que Cristo nunca pisou, há gente de cultura e de ciência a que juntam bom gosto e humor.
Mas eu queria falar desta pequena aventura de perder peso que, surpreendentemente, está a custar muito menos do que eu temia. O meu objectivo já foi atingido em cerca de 65% mas não é tempo de grandes comemorações: os restantes 35 vão ser os mais difíceis. É que quando pensamos que a guerra está ganha, baixamos a guarda e zás! Damos com os burrinhos na água. O excesso de confiança, o conselho amigo e fatal: come mais um bocado que não é isso que te vai engordar! Ora é precisamente “isso”, essas duas colheradas pecadoras, que vai engordar ou deitar abaixo o esforço de um par de dias.
Por outras palavras: quem faz dieta sofre não só os efeitos da privação mas também a enganadora solicitude dos amigos e familiares.
Começo a perceber melhor, antes tarde do que nunca, aquelas histórias piedosas de anacoretas orando no deserto e sendo alvo de tentações temíveis desde a comida até às virgens que o Demo prazenteiramente lhes oferecia para acicatar as carnes martirizadas pelo simum e pelos frios da noite solitária. E se é verdade que a história só nos relata os casos de vitória da virtude, não consigo deixar de pensar que também terá havido umas pequenas quebras ao jejum dos sentidos do santos homens. Pelo menos, para mim que, com o avançar dos anos, me tornei mais tolerante, essa ocasional quebra dos rígidos princípios, torna-os mais humanos, mais próximos e, vejam bem, mais exemplares!
Todavia esta minha recorrente simpatia pelos pecados veniais não significa tréguas natalícias ao meu regime. É que o meu peso era de facto demasiado e começava a fazer-se sentir. E já que as coisas vão correndo sem especiais dramas ou dificuldades, o melhor é manter o esforço e as cautelas. E mesmo quando penso que este propósito é mais uma afloração do politicamente correcto, coisa que me desagrada mais do que seria natural, terei que o manter até expulsar os derradeiros 5 ou 6 quilos que ainda resistem.
Volta e meia, estou a escrever um texto, lembro-me de um poema, de um livro e, pimba!, largo texto, computador e aí vou eu. Comecei a falar de cozido e nem pensei. Levantei-me num salto, enverguei o primeiro sobretudo à mão e ala que se faz tarde. Fui pelos precisos do cozido com um desembaraço que seria comovente se não fosse um desafio ao demo. Faço o cozido e faço-lhe as devidas honras que um dia não são dias. E abre-se uma garrafa de uma reserva de Porca de Murça para ajudar à digestão. O cozido, leitoras desassossegadas, estava mais que bom, o vinho idem, aspas, aspas. E eu comi bem mas muito menos do que nos tempos em que pecava fartamente por mor de uma gula ancestral e moscovita. Desta vez se não fui temperante também não fui guloso. Dei ao dente mas consegui conter este mano a mano com o cozido dentro dos limites.
Agora que já acabei o meu desvio habitual ( a que um leitor amável chamou “estilo inimitável”) volto ao título da crónica: progressos em tudo demasiado lentos. Mas progressos. Desta feita é o computador ou melhor os endereços do meu mail. Descobri estupefacto que na minha lista constava gente que eu não conhecia, gente conhecida a que nunca escrevo e gente demasiado conhecida a que jamais escreveria. Surpreendido com esta invasão, perguntei aos meus botões se não poderia apagar as direcções espúrias. Os botões, sempre animosos, disseram-me que sim. E aí vai disto, tentei briosamente eliminar as direcções invasoras. Foi a meia hora de rodeo mais empolgante da minha vida. Fiz tudo e alguma coisa mais mas os parasitas tinham mais persistência do que a antigas ténias. Não saíam nem à viva força. Ao fim de meia hora de combate vão e inglório rendi-me à evidencia. Tinha de tentar abrir o sítio do mail para ver se algum conselho haveria para a tarefa purificadora. Havia claro e era mesmo fácil para o matumbo que estas vai dedilhando. Não tenho sequer a certeza de ter dado com o remédio mais fácil mas a verdade é que expulsei os invasores para os cornos da lua, senão mesmo para cu de Judas.
E com esta me vou. Contente com estes pequenos passos que aumentam o meu debilitado ego e a vaga auto-estima que me vai mantendo de pé. Lentamente. Mas em pé.

Nota: “progrès en amour assez lents, 1966. Tchou ed., Paris 1968 ou Gallimard 1982 (com “le guerrier appliqué e Lalie) de Jean Paulhan, collection L’imaginaire.
19
Dez06

Alívio

Sílvia
Supremo derruba aumento de 91%

O Supremo Tribunal Federal acaba de conceder, por unanimidade, uma liminar (decisão provisória) para que as Mesas da Câmara e do Senado se abstenham de editar aumento de subsídios de congressistas com base no decreto 444.

Essa decisão do STF (aqui a notícia oficial do tribunal) derruba, na prática, o aumento de 91% que os congressistas se autoconcederam na semana passada. Agora, para que possam ter um aumento, os deputados e os senadores terão de editar um novo decreto legislativo a respeito do tema.

A decisão do STF foi dada em resposta ao um mandado de segurança 26.307 assinado pelos deputados Carlos Sampaio (PSDB-SP), Fernando Gabeira (PV-RJ) e Raul Jungamann (PPS-PE). Eles pediam especificamente que fosse revogado o aumento de 91%. Na parte da manhã, o Supremo já havia indicado o caminho ao considerar sem efeito o decreto legislativo 444, de 2002, e usado pela direção do Congresso para se autoconceder um aumento salarial.

Em condições normais de temperatura e pressão, um decreto desses pode ser votado e aprovado por acordo de líderes partidários. Dado o clima atual contrário ao aumento, é muito difícil que o Congresso resolva assumir tal risco.

No Congresso, os presidentes das duas Casas, Renan Calheiros (Senado) e Aldo Rebelo (Câmara), terão de decidir até amanhã o rumo a ser tomado. É que depois Brasília ficará vazia e não haverá quórum para decisão

Fernando Rodrigues in : http://uolpolitica.blog.uol.com.br/index.html


Nota minha: ao que parece desta vez uma voz maior se fez ouvir, a do povo ! É mais do que tempo de ser mesmo assim.

Silvia Chueire


18
Dez06

Au Bonheur des Dames 41

d'oliveira
De perdizes e de outras aves de truz

A perdiz come-se de mão no nariz, reza um rifão venatório, em uso em todos os lugares onde este amável passaroco é alvo da fúria gulosa dos homens. E come-se assim, porque desde há muito se estabeleceu entre caçadores e outros clientes da boa mesa que o animal há-de estar um tanto ou quanto passado, cheiroso, demasiadamente cheiroso para ser consumido. Suponho que era Ramalho quem falava da “aromática” perdiz, opinião abalizada, de caçador e gourmet. Portanto, e para abreviar, a perdiz há-de estar com um certo relento para saber bem.
Mas a que vem aqui a ave, agora criada em viveiros para, em chegando a época da caça, a soltarem nas reservas venatórias para satisfazer a incontinência fusiladora dos milhentos caçadores com que o país conta? Pois vem um pouco como imagem do estado interessante a que chegou o nosso futebol grávido de escandaleiras de todo o género.
Falar de futebol nos tempos que correm só com a mão no nariz. E mesmo assim... Há, é certo, temas porventura mais graves mas convém aproveitar a “gentil maré” que nos é servida de graça por todos os jornais que dão acolhimento em nome da liberdade de informar a todo o lixo bolsado sobre o público em nome do direito à informação.
Aqui chegado, convém assinalar, que o escriba não tem nada a ver com os principais clubes portugueses de que não é adepto, simpatizante ou sequer interessado nas suas proezas. O escriba não acha graça ao futebol e acho patético o espectáculo de multidões ululantes no estádio ou mais prosaicamente no sofá em frente da televisão a ver a partida no quentinho da sua casa, agarrado a um cachecol e a um prato de batatas fritas. Portanto nada o move, demove ou comove no que diz respeito ao drama que se vive com as declarações literárias de uma senhora que, de animadora de cabaret rasca passou a first lady de um clube poderoso. O comentador não tem opinião sobre a veracidade ou falsidade das informações veiculadas nesse livro, sobre as motivações de quem é a putativa autora ou sobre as malfeitorias aí atribuídas a um senhor presidente de clube.
O escriba não frequenta o meio onde estas histórias pouco edificantes se desenrolam e confessa, talvez por demasiada idade, demasiada vida, que do relatado apenas conhece o que no jornal “Público” se relata. E mesmo isso terá sido lido obliquamente, porventura por desinteresse mais do que por qualquer escrúpulo moral.
É uma fraqueza, já o sei, mas nunca fui capaz de sequer folhear, seja no dentista ou no barbeiro, essas revistas de escândalos, que relatam as vidas, as pobres vidas, dessa vaga jet set que desvela aos quatro ventos, as intimidades, os orgasmos, o gosto dúbio, a frase pirosa a inanidade que sustenta aquelas tristes criaturas “glamourosas” segundo elas próprias, ridículas segundo a verdadeira alta sociedade que foge dos jornais com mais rapidez que o diabo da cruz. Todavia esta minha posição, posição de ET, como alguns amigos a definem, é minoritária, tragicamente minoritária.
Não nos espantemos pois que a história de ciúme e calúnia (se de calúnia se trata...) encha os jornais, esgote o livro (que pelo que pude saber é de um atroz ridículo literário) e suscite mesmo algum afã entre as autoridades judiciais e policiais. Pelo que sei ainda não percebi como é que alguém se acusa publicamente de ter contratado dois bandidecos para sovar um edil camarário e disso não haja até ao momento sequelas que se vejam. Não será possível mandar um cabo de esquadra à casa da criatura para a trazer sob boa guarda a um juiz que resolva o que fazer. Eu já não sei nada de direito mas aproveito o facto de estar a escrever esta desenfastiada crónica num blog carregado de juristas no activo para pedir que me esclareçam. A mim e aos eventuais leitores.
E nisto não vai qualquer intuito de defesa do outro inquietante personagem que é aliás o vilão do referido livro. Ainda que duvide que o venham incomodar. A ele e a todos os que com cargos idênticos aparecem semanalmente, para não dizer diariamente, nos telejornais, nos artigos das últimas páginas (e estas são quase metade do periódico), blasonando glórias fictícias, ameaçando árbitros e adversários, torneando (toureando) perguntas incómodas e mostrando sobretudo um impudor e uma impudência notáveis. Estes cavalheiros e os seus aliados (entre os quais muito edil camarário que achou interessante eleger-se à conta do futebol e daí passar para campo mais lucrativo, se é que me entendem) conseguem o impossível: fazer com que clubes falidos gastem somas astronómicas nas compras de jogadores. Conviria já agora saber que ligações existem (se existem, claro...) entre os dirigentes dos clubes e os agentes dos jogadores não vá dar-se o caso do, por exemplo, o dirigente máximo do “Canelão Sport Club de Alguidares do Meio” ser sócio do representante do jogador que acaba de comprar por uns milhões. Ou receber uma percentagem consoante a soma a que, com a sua assinatura, obriga a agremiação.
Vasco Pulido Valente, num texto brilhante, veio afirmar que neste meio só grassa a pequena corrupção, a pouco importante e que isso serve para esconder a outra, a verdadeira, a que dá realmente lucro. Será... mas os processos de que se ouve falar são tão extraordinários, recorrem a tanto gansgster ou assimilado que começo a temer que este pequeno polvo seja já bem maior do que o que se julga. E como até à data as consequências são as que se conhecem, permito-me pensar, sou mesmo um ET!, que o campo estará mais minado do que se julga, a ousadia será maior do que a que se apregoa, e as importâncias em jogo sejam igualmente muito mais expressivas. E ninguém me garante que já não haja laços, lacinhos e laçarotes entre esta corrupçãozeca de estádio de futebol e a outra, a tal, a verdadeira.
Se for como penso, acho bem que se abra excepcionalmente a estação de caça: à perdiz, ao perdigoto e aos passarões que que andam por aí de papo cheio. Zagalote neles!
17
Dez06

Diário Político 35

Incursões
Vamos talar a árvore de Natal?
Parece que uma escola de Saragoça entendeu dever não permitir que se faça uma árvore de
Natal no pátio para não ofender os “não católicos”. Empresas inglesas desistiram de festas natalícias em nome do multicultarismo ou de outra imbecilidade conexa. Em suma, uma inocente tradição corre o risco de ser proscrita para não ofender o vizinho do lado. No caso o vizinho judeu, muçulmano, sikh, hindu ou budista. Arre que esta gente descobriu a pólvora. A arvorinha (de que nem gosto, diga-se de passagem) ofende o imigrado de outra confissão (ou ofende-me a mim que não sou religioso…) porque lhe recorda um odioso passado colonizador, as cruzadas, a guerra do ópio ou algum pogrom do passado.
Convenhamos que estamos a começar a navegar no mais absoluto delírio e que se não cortamos depressa o passo a esta nova auto-censura acabaremos todos com saudades do “admirável mundo novo” do falecido Aldous Huxley.
Esta história não mereceria comentário não fosse terem ocorrido mais algums factos que lhe começam a dar uma dimensão sinistra.
Primeiro foram as caricaturas do profeta que (tardiamente) desencadearam um par de tumultos a milhares de quilómetros de distancia. O Ocidente, ou parte dele, com um que outro lusitano incluído, em vez de defender o direito à liberdade de expressão, conquista relativamente recente e ao preço de tantas vítimas, resolveu com uma suspeita equidade distribuir as culpas pelos dois lados. O jornal dinamarquês ofendia princípios altíssimos o que de certo modo justificava as “fatwas” e demais “ukases” de um par de muçulmanos medievais.
Depois um grande teatro de ópera suspendia as representações de “Idomeneo” (ópera de Mozart, para quem não saiba) porque a um dado momento no palco compareciam as cabecinhas degoladas de Cristo, Buda Maomé e Poséidon se bem recordo. O problema para a reaccionaríssima e politiquissimamente corretissima directora era a cabeça de Mafoma. Cristo e Buda eram irrelevantes e Poséidon apenas um ídolo. Grego, por acaso, e proveniente dessa época de filósofos e artistas que nos conformaram a civilização.
Sempre em Espanha, que ainda chora duzentos mortos do atentado de Atocha, várias povoações suspenderam as festas locais ou pelo menos os autos em que se narravam as lutas entre mouros e cristãos. Por rnquanto, claro. Porque se não nos acautelamos teremos em breve uma história em que a “Reconquista” será descrita como um crime hediondo.
Temos que agora, é a árvore de Natal, símbolo um tanto ou quanto pagão, convém dizê-lo da Natividade e do solstício de Inverno. Ou as festas de Natal.
Dir-me-ão que isto são excepções e por isso mesmo aparecem nas páginas de faits divers dos jornais. Pode ser. Mas o que me espanta é que nas notícias não apareça em grandes letras o dístico: burrice supina, cretinismo agudo ou qualquer coisa do género. Porque é disso que se trata: de burrice sobre-humana. De vesguice profunda. De atentado à inteligência. De cobardia moral. De negação do imenso sacrifício de gerações e gerações que combatendo o analfabetismo e o primado absoluto da religião se podem agora ver relegadas ao triste papel de laicismo à força. De violência gratuita contra algo que, é um descrente que estas escreve, conformou a nossa cultura e o nosso modo de viver. Ao pé disto dá vontade de discutir futebol, este futebol, nacional, nosso, de árbitros e putas, de compras e putas, de favores e puta que os pariu.
16
Dez06

expediente 2

d'oliveira
Não fora um texto de Nuno Crato na “revista” do Expresso nunca teria sabido da morte de Alfredo Pereira Gomes, um nome que aprendi a respeitar em casa de Alcinda e Jorge Delgado. E mesmo que o professor doutor Crato lhe tenha prestado uma expressiva homenagem não posso também eu de aqui nesta pequeno canto vir juntar a minha voz. Não tenho qualquer espécie de competência para falar das eminentes qualidades de professor e de investigador de APG. O que sei dele a esse respeito foi-me transmitido por Jorge Delgado que foi seu amigo e colega nesse espectacular núcleo de cientistas criado no Porto à sombra de Ruy Luis Gomes.
Conhecio-o mais tarde e conservo dele a imagem de um homem sensível e discreto, bom conversador e, curiosamente, sem acrimónia pelo que tinha passado. Quando às vezes se discute (cada vez menos!) Portugal e o seu lugar no concerto das nações civilizadas, lembro-me desse esbanjamento de talentos de que o regime de Salazar foi responsável. Como é que se faz tábua rasa de um núcleo tão extraordinário de professores que foram (como também no caso da vizinha Espanha aconteceu...) enriquecer outros países mais hospitaleiros? O Professor Pereira Gomes foi criar escola no Brasil e mais tarde engrossar as fileiras da universidade francesa. Foram décadas de ensino perdido para Portugal, foram gerações de alunos que não tiveram um professor que os estimulasse que lhes servisse de exemplo ou de guia.

O segundo morto a que me queria referia chama-se Joseph Ki Zerbo. A história de África seria diferente sem ele que foi quase um pioneiro nesses estudos. Fez parte dessa constelação de intelectuais negros de cultura francesa e terá sido um dos primeiros africanos a entrar na Sorbonne como professor. Deixa uma obra notabilíssima e um exemplo de luta pela democracia e pela liberdade que prolongou até quase os seus últimos dias.
Corre por aí ( Europa América) uma “História de África” da sua autoria. Está obviamente datada como não podia deixar de ser. Mas continua a ser uma referencia absoluta. Eu deixaria aqui ficar mais dois ou três títulos mas tenho a firme convicção que, depois deste livro lido, o leitor partirá à descoberta de outros e não quero (oh espírito natalício!...) privá-lo dessa aventura. De resto foi assim (ou melhor: foi de um modo semelhante) que comecei a esgaravatar a história e as culturas do continente negro. O meu guia foi outro, bem diferente, “Afrique ambigue” (de George Balandier) e confesso, tantos anos passados, que ainda hoje me comovo à lembrança de tantos e tão excelentes autores que fui encontrando ao sabor de uma errância de leitor curioso e desenfastiado. A verdade é que só assim concebo estas “lectures savantes” que não desdenham alguns excelentes portugueses. De bom grado aconselharia alguma literatura histórica q. b., hagiográfica sem sombra de dúvidas mas com o perfume da sinceridade. E meto nesse grupo Ayres de Ornellas ou António Enes arautos do “império” bem como alguns relatos de campanhas (“Os Dembos” de Henrique Galvão, ou o conjunto de “cadernos coloniais” editados pela “Cosmos” nos idos de quarenta) que deitam por terra, sem o querer, a teses dos quinhentos anos de presença activa, forte e constante que agora por aí se vende. O império até finais de oitocentos, princípios de novecentos, quase não passava de um arranhar da costa de África, aqui e ali sarapintado por viagens de pombeiros, de comerciantes afoitos mas já cafrealizados, de um que outro explorador, tudo feito sem regra, sem plano sem uma política clara da metrópole. Para não ir mais longe: leia-se com olhos de ler “O fim do império vátua e Mousinho de Albuquerque” de Julião Quintinha e A Toscano.
Mas tudo isto vinha, vem, à boleia da morte de Ki-Zerbo. Esperemos que lá no seu longínquo e quase desconhecido país (Burkina Faso) lhe honrem a memória e, doravante, lhe consultem o espírito que se foi juntar aos dos antepassados. E que derramem junto da sepultura o vinho de palma necessário para que a viagem no país dos mortos seja fácil.
Et le troisiéme larron de cette histoire est... um turco. Um turco amador de jazz e de rhythm ‘n’ blues? Um turco a quem os Rolling Stones devem muito? Um turco, sim senhor. Um turco como há milhares seguramente, culto, entusiasta de alguma da melhor música popular do século XX: Ahmet Ertegun, o mítico dono e fundador da Atlantic Records. Andam por algumas estantes daqui de casa belos discos com esse fabuloso selo. Coltrane, Ornette Coleman, Mingus algum MJQ, se não estou em erro, pelo jazz, Crosby, Stills Nash and Young ou Led Zeppelin pelo rock para não falar de tantíssimos heróis do rhythm and blues.
Corre por aí com demasiada insistência a tese tonta que basta saber tocar, ter uma boa canção ou um especial sentido do ritmo. Nada mais falso. É preciso sempre um editor, um cavalheiro que arrisque, que empurre, que dê ideias. E nisso Ertegun era pródigo. Gostava de música, gostava da música negra americana, tocava bastante bem, era autor de canções (algumas deles convertidas em hits) sob o nome de Nugetre, e divertia-se como um cabinda com a música dos seus autores. Morreu, como diz um jornal “com as botas calçadas”: de facto deu uma queda no concerto dos seus amigos Rolling Stones em finais de Outubro. Sobreveio-lhe uma lesão cerebral e morreu ontem. Aos 83 anos ainda dirigia a Atlantic mesmo que esta companhia pertença agora ao universo Warner Brs. Bem avisados, os compradores mantiveram-no à frente da empresa. E ganharam bom dinheiro com essa decisão, claro. Ertegun um grande senhor da música popular. Suponho que o meu amigo e leitor José partilha comigo este momento de luto. E de alegria pela excelente música que nos legou.
15
Dez06

Hoje não há poema

Sílvia
Hoje não escreverei um poema. Hoje estou furiosa e indignada! Depois de toda a corrupção que vem se tornando mais e mais óbvia e pública no meu país, os senadores e deputados federais por ato conjunto decidiram reajustar seu próprios salários de R$ 12.750,00 para R$ 24.500,00. Noventa e um por cento de aumento!
É possível acreditar numa coisa destas?

Num período em que a inflação desde 2003 ( quando deputados e senadores se concederam o último aumento de fôlego) medida pelo índice do INPC ( Índice Nacional de Preços ao Consumidor) foi algo pouco acima dos 29% e o salário dos parlamentares iria para R$ 16.500,00 ( que já é muito se olharmos para o salario mínimo). Isto se não considerarmos todas as vantagens adicionais que têm, como casas (decoradas , mobiliadas e reformadas) pelas quais não pagam aluguel, verbas de milhares de reais para correio, passagens aéras pagas por nós para irem todas as semanas com acompanhante a seus domicílios eleitorais, etc, etc . Pasmem, senhores!

Seguiram o Supremo Tribunal Federal, dizem. Como se um erro justificasse outro ad infinitum. Como se fossem todos crianças a justificar ter quebrado uma coisa qualquer durante uma brincadeira. " Foi o fulano que me começou..." . E tudo independe do partido ao qual pertencem. Mesmo que haja algum (raro) que proteste agora, veremos qual dos senhores deputados federais e senadores (e deputados estaduais e vereadores nos municípios que seguirão o reajuste federal) devolverá o aumento recebido.


No mesmo país em que o salário mínimo é de atuais r$ 345,oo , deputados, senadores e ministros do Supremo ganham r$ 24.500,00!

Isto logo depois de estarem encaminhadas para coisa alguma as CPI que visavam investigar os nomes denunciados. Acordos políticos afinal, por aqui existem para isso.
É difícil crer que estes homens não se envergonhem. É difícil viver com a sensação de se estar numa terra de personalidades psicopáticas , aquelas que vivem como se a lei não existisse para elas. Numa terra de uso e abuso do próximo. De descaramento.
É revoltante.

Hoje não há poema.

Silvia Chueire
12
Dez06

Estes dias que passam (nº especial)

d'oliveira
E quando chegará a vez de Portugal?

Ora vamos lá a ver se escrevemos isto depressa e bem, sem deixar rabos de palha nem expor o pobre canastro à vingança de poderosos. E começo com esta prevenção porque o caso não é para menos. Também por cá já se manda espancar vereadores, abater magistrados, arrear umas xulipas a tempo aos prevaricadores pelo que todas as cautelas são poucas. Cautelas e caldos de galinha dizia uma velha empregada lá de casa, agora diz-se empregada em vez de criada, deve ser por via dos bons costumes e do politicamente correcto, raios parta esta mania que faz das velhas criadas que nos criaram, nos ralharam, nos deram uns tabefes, nos beijaram quando doentes, nos amaram, e que morreram em nossas casas como veros membros da família que eram... Bom, lá estou eu a falar de criadas quando queria falar de carteis. Feia palavra esta, cartel, autentica palabrota, como dizem os aqui do lado para quem um “joder!” é só uma exclamação de pasmo. E cartel é de facto um palavrão, uma coisa abominável que evoca imediatamente uma sanguessuga gigantesca com mais braços que um polvo, de dentuça afiada no pescoço dos cidadãos, de muitos cidadãos indefesos.
E já agora de que cartel malandreco estou eu para aqui a falar? Pois dum que bem poderia ser nativo, patrício nosso, da nossa criação, mas que para já, é francês. A notícia caiu-me da TV5 há doze minutos, exactamente. A justiça francesa acaba de meter uma lança em África, ou melhor, acaba de meter uma farpa no lombo de gorda besta. A saber: os três grandes operadores de telefone móvel gauleses acabam de apanhar com uma multa de 534 milhões de euros. Isto traduzido em miúdos dá cem milhões de contos bem redondos mais uns trocos. E a guerra ainda agora começa. Que isto, os cento e pico milhões de contos, é a multa. Multa porque os três grupos se entenderam quanto a preços, divisão do mercado e mais um par de judiarias, próprias desta gente. Próprias de um cartel, justamente.
Agora vai seguir-se a parte da malta. À cautela entraram em tribunal uns milhares de reclamações de utentes enganados. Parece que a papelada, só a papelada, pesa meia tolenada, ou seja, para os mais novos, educados pelo eduquês e pelos ameaços de TLEBS e por mais um par de barbaridades actuais, quinhentos quilos. É obra! Quinhentos quilos para eventualmente se poder vir a obter um bilião de euros que é em quanto para já se estima o assalto aos bolsos dos particulares. Parece que a coisa está bem encaminhada. A ver vamos.
E, voltando ao princípio desta croniqueta, e nós por cá? Tudo bem? Os nossos virtuosos operadores telefónicos ignorarão estes truques? Os preços serão diferentes? O mercado não foi dividido? Não houve acordos entre as empresas? Viveremos nós, numa bolha de virtude que ignora as basses oeuvres do capitalismo internacional?
Eu, que segundo o caro e fraterno Manuelzinho, sou de uma ingenuidade criminosa e inconsciente, quero bem acreditar que neste jardim à beira mar plantado, nunca houve cartelização de qualquer espécie. Como também nunca houve corrupção desportiva, nem autárquica... Vivemos, como dizia, o doutor Pangloss no melhor dos mundos possíveis. Dizer o contrário seria fazer o jogo da reacção e dos inimigos da pátria. E a época não é a melhor para tal. Digamos, como os manos do lado, no está el horno para bollos...
Ou como diria o meu velho e desaparecido amigo José Luís Nunes: mesmo que isso aconteça em Portugal nunca haverá reacção dos poderes públicos. Nunca? Ora vamos lá a ver se desmentimos desta vez o Zé Luís...
E no mesmo passo, desmintamos, também, essas velhas, amorosas, queridas criadas que nos aconselhavam na já longínqua juventude a estar quietos, calados, e surdos porque os pobres nunca tinham razão. “Isto”, menino, é como os rios, corre sempre para o mar. Nem sempre Maria, nem sempre, repontávamos, nem sempre. E desta vez?
11
Dez06

Farmácia de serviço nº 27

d'oliveira
Pannonica

Isto deveria chamar-se “a última aristocrata” ou “a última grande senhora” para, de facto, render um mínimo de justiça a uma grande mulher cuja vida se confunde com o jazz e com a resistência.
Falo-vos de Pannonica de Koenigswarter, filha de um Rotschild, cientista e boémio. O Koenigswarter vem-lhe do marido, Jules. Ambos fizeram parte desse pequeno mas admirável grupo de resistentes da primeira hora, juntando-se a De Gaulle. A lenda (e quiçá a verdade) conta que Jules aviador de bombardeiro levava como passageira e co-piloto Pannonica. De todo o modo é verdade que ela serviu nas Forças Francesas Livres.
Depois da guerra enquanto Jules Koenigswarter ocupava o seu lugar de embaixador, Pannonica instala-se em Nova Iorque e frequenta os meios do jazz. Trava amizade com um grande número de músicos, alberga-os em sua casa, onde aliás dois deles (e dos maiores!) morrerão: Charlie Parker e Thelonius Monk.
Entretanto Pannonica fotografava esses seus amigos com uma polaróide e guardava a fotografia num caderninho juntamente com as respostas que eles lhe davam a um pequeno questionário, sempre o mesmo: três votos para o futuro.
Suponho que o seu nome “Pannonica” ou alguns diminuitivos (“Nica” por exemplo) é o mais citado de todos os nomes verdadeiros na história do jazz. Conhecem-se vinte e dois temas com este título. Era a homenagem possível dos músicos à grande Senhora que os protegia, estimava, admirava e entendia.
Agora, acaba de sair em França um edição destas fotografias e pequenas entrevistas graças ao cuidado de uma neta de Pannonica.
Os amantes do jazz particularmente e os da cultura, em geral, bem farão em não perder esta edição única.
Panonnica de Koenigswarter.Les musiciens de jazz et leurs trois voeux., prefácio de Nadine de Koenigswarter, edição Buchet-Chastel, 314 pp., € 35.

O texto acima deve muito (mas não tudo, quand-même!) ao artigo saído no “Le Monde” em 11.12.2006 e da autoria de Francis Marmande (ed de 12.12.06)
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Dez06

Diário Político 34

Incursões
Morte de um canalha

Um militar chileno chamado Augusto Pinochet morreu hoje. Morreu de surpresa como de surpresa começou a ser sinistramente conhecido. Este homem – se isto era um homem (pelo menos na acepção de Primo Levi – começou por trair quem nele confiou. De facto o presidente legal do Chile nomeou este militar para o comando supremo das forças armadas.
A paga foi uma intentona infame e sangrenta. O homem dos óculos escuros estreou-se na sua novel carreira de traidor matando e fazendo desaparecer milhares de pessoas. O homem dos óculos escuros ao mesmo tempo que perdia a honra, perdia a vergonha. De facto sabe-se actualmente que mantinha contas escondidas pelo menos num banco norte-americano, o Banco Briggs. Dez milhões de dólares para ser mais preciso. Provavelmente descobrir-se-ão outras em seu nome, no da mulher e dos filhos. O tempo o dirá.
O homem dos óculos escuros morre na cama, na cama que negou a Allende e a milhares de concidadãos seus. Morre aos 91 anos, meio destruído psiquicamente, depois de ter perdido o respeito de milhares de antigos adeptos. Morre de surpresa. Não era a primeira vez que se enganava: quando foi obrigado a montar uma mascarada eleitoral para continuar no poder, um referendo, perdeu-o sem perceber que quando o povo é obrigado a escolher não escolhe carrascos. Tentou desesperadamente manter-se à tona, no comando do Exército primeiro, como senador vitalício depois. Isso não o impediu de ser perseguido internacionalmente e de ter estado preso em Inglaterra, de onde só conseguiu sair fingindo-se doente. Nem isso o poupou à seguinte inculpação no seu próprio país. A morte veio hoje, impedir que a prisão domiciliária se transformasse em prisão pura e simples.
A justiça chegou tarde mas estava a caminho. Antecipou-se-lhe a morte. Mas o que já não foi conseguido por Pinochet foi o galopante avanço da verdade. Sobre ele. Sobre os seus familiares. Sobre os seus sequazes. Sobre os seus roubos. Que este seja o seu epitáfio: traiu tudo e não ganhou nada. Morte, onde está a tua vitória?