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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

31
Jul07

missanga a pataco 23

d'oliveira


Michelangelo Antonioni*

Houve um tempo em que o cinema se fazia amorosamente, discutia conosco, implicava-nos e depois da sessão obrigava-nos a longas discussões que varavam la notte. Não vale a pena fazer la cronaca di un amore, nem lembrar l'avventura de um grupo de raparigas e rapazes que prisioneiros no seu país se evadiam graças ao cinema. Nesses dias a democracia continuava no seu longuíssimo eclipse mas lá de fora vinha-nos este cinema forte e ácido que nos temperava os humores e o desejo de um horizonte vermelho. ntonioni sem querer da-me com um filme de onde retirei a vinheta um mote para o meu passado futuro: o deserto (era) vermelho. Morreu hoje. Foi o João Tunes no seu atentíssimo blog Agualisa 6 que me deu a notícia que acabo agora de confirmar. Desculpe lá ó João mas eu primeiro nem acreditei. É muita morte para caber num só grito, esta que ora sobrevém. Antonioni estava mal, pessímo, até, já só comunicava pintando, coisas fortes, violentas que impressionavam mesmo só vistas num documentário televisivo. Já lá está em cima com Fellini, Welles, Ford ou Renoir, E com o Bergman que o antecedeu por um dia...

* jogo de palavras com filmes de Antonioni

as leitoras eos leitores desculparão a pressa destas linhas mas estou mesmo a partir. E triste apesar de começar as férias. Eu o MSP, o escultor marceneiro, estamos um pouco mais órfãos.

31
Jul07

Diário Político 61

d’Oliveira


A POLÍTICA EM FÉRIAS

A estação calmosa é descrita internacionalmente por silly season. Ou seja por estação pateta, tonta, ligeira. Todavia ainda que que o “torraozinho de açúcar” esteja muito europeu e moderno, a silly season nacional é sempre pródiga em patacoadas, patetices & similares. Ora vejamos:
O dr Mendes vai à Madeira e perante um Jardim triunfante, impante e arrogante, diz( o pequenino Mendes) referindo-se ao anfitrião: “o nosso grande líder”. Isto merecia um ponto de exclamação mas não o ponho. De Mendes espero pouco, quase nada, aliás. Mas esta do grande líder, referida a tonitruante figura madeirense, não lembra ao diabo. Se ao menos Mendes tivesse sido maoísta... Mas não, nem isso. E se tivesse sido, o Dr Espada já o teria ensinado a usar um novo dicionário político muito modernaço e liberal onde grandes líderes só nas empresas, privadas e já agora americanas ou inglesas. O dr Espada depois do banho lustral m-l avançou sobre a Anglo-Saxónia e teve aí a revelação: ia a passear no Hyde Park e apareceu-lhe no meio de um canteiro de daffodils (in ingliche plise!) a Srª Tatcher vestida com um manto azul cheio de estrelinhas douradas e disse-se: John, do’nt eat dthe daffodils and be a nice boy.
A partir desse momento, e desse caminho de Damasco, o dr. Espada jura pela virgem de Fátima inglesa aparecida à hora do chá e é o que se vê.
Deixemos todavia Mendes, Espada e o soba da Madeira e passemos ao Porto. O Porto está sempre a dar: agora foi um senhor chamado Renato Sampaio (que é qualquer coisa de muito importante na concelhia local do PS) que veio gravemente dizer umas coisas sobre a falecida RTP do Porto, que Sampaio exige que se ressuscite, e sobre a escandaleira tristonha da DREN. Sampaio acha que aquela senhora gorda e pouco favorecida pela beleza tem feito um óptimo lugar! Sampaio diz que ela fez tudo como devia e que a Ministra é que teve uma decisão política ao mandar arquivar o processo do senhor Charrua. Ou seja: Sampaio acha que a Ministra “traiu” a directora da DREN. E que o processo estava muito bem posto. E que o dito Charrua tinha sido insultuoso. Ou seja: Sampaio acha que as coisas foram graves mas que a política, a cabra da política, mais uma vez impediu a justiça. A criatura já deputou, ao que se diz, se bem que não lhe recorde nada do passado parlamentar. Entrou e saiu da Câmara sem dizer coisa que se visse, ou ouvisse. É este o retrato simétrico do caso acima relatado. Com Mendes e o soba já são três. Se lhes juntarmos o plumitivo Espada, temos quatro para uma sueca bem batida.
A boa notícia fica para o fim: os meliantes que a coberto de uma multidão uivante e cobarde, agrediram o deputado Francisco de Assis foram condenados. Pouco, mas foram. E a juíza chamou-lhes isso mesmo: cobardes. Como defendiam a senhora Felgueiras, ex-prófuga nos Brasis, ex-presidente da Câmara e ex-benfeitora do povo, influente criatura nos meios socialistas da terra, presumo que fossem da cor da senhora que defendiam. Esperemos que Sampaio, sempre defensor da justiça, proponha que eles sejam excluídos de quaisquer associações partidárias, mormente o PS local, de Felgueiras. É que desta vez, parece que não há nenhuma ministra para arquivar o processo.
O dr Pinheiro, militante importante do CDS foi constituído arguido no caso das árvores cortadas. O Partido chia que está a ser perseguido. Entretanto uma responsável do mesmo ajuntamento, mas desta vez de Coimbra foi condenada por se apropriar de uns dinheiros. Até a JC local clama que enquanto a senhora não for demitida, a jota não aparecerá. Às vezes aparece gente com certa dignidade. Apostamos que os jotinhas ainda se lixam?
Vou para férias: ver se apanho ar e me esqueço um pouco deste sufoco pantanoso onde medram criaturas deste género.

Vejam se não apanham um insolação. Nem uma barrigada de marisco. Nem um fogo de Verão.

30
Jul07

Não parece, mas ainda ando por aqui

J.M. Coutinho Ribeiro
Pois não é verdade, meu caro MCR, que tenha ido por aí, clandestino, à espera que ninguém me perturbe com a sua visita que, sendo de quem é, seria sempre bem-vinda, porque eu gosto de todos os que daqui poderiam visitar-me. Clandestino, sim, mas ainda pelo Porto, ou, melhor dizendo, entre o Porto e Gaia, ainda que nos últimos dias com umas incursões pelo Marco e por Viana, onde, Sábado passado, voltei a estar repimpado no já famoso sarau do pintor Pinto Meira. Eu recordo: precisamente no mesmo sítio onde, há dois anos, estive a debitar umas banalidades sobre arte, no que constituiu um dos dramas maiores da minha vida ignorante, mas do qual saí incólume, o que vale mais ou menos o mesmo que dizer que lá consegui safar a coisa. Pelo menos, ninguém se lembrará muito bem das asneiras, tanto que este ano ninguém me cobrou nada e foram todos muito simpáticos. Fiquei de voltar no próximo ano. Logo se vê.
Entretanto, por cá, a vida corre os seus termos. Não muito diferente de qualquer coisa que já não saibam. Preparo-me para seguir para Sul, já não talvez amanhã, como me tinha proposto, mas não passa de quarta-feira, que estou farto de andar por aqui e preciso de me afastar por uns dias, nem que seja para poder pensar melhor no que é preciso fazer por aqui, que é muito e tem pressa.
Volto lá para meio do mês. Não sei bem, ainda. Depois disso, andarei por onde andar. Por essa altura, presumo que mais andadeiro nestas coisas de ir escrevendo. Porque, veja bem, caríssimo MCR, tenho andado um verdadeiro pastelão. Não só aqui, como facilmente se verá numa breve espreitadela aos demais sítios por onde ando. A gente, às vezes, cansa-se, não é? Mas, depois, passa. Esperemos, pois, que passe. Enquanto isso, um abraço para todos.
30
Jul07

expediente 6

d'oliveira

faire-part


Piraram-se todos e deixaram-me para aqui sozinho. Mas que é isto, a malta desanda toda para vacanças sabe-se lá onde, e partem sem deixar morada nem um recadinho? Aqui para mim, a razão de tanta clandestinidade é não quererem ser incomodados por alguma visita intempestiva, olá meu olhar sou um seu leitor fervoroso, olá Carteiro somos as primeiras vinte duma procissão que se pôs a caminho para o vir visitar e ver se lhe falta qualquer coisinha... e por aí fora.
O mcr aguenta a barca, terá pensado o JCP acendendo um dos seus enormes charutos cubanos, dos verdadeiros, dos que ainda são enrolados na coxa generosa e marxista-leninista de uma mulata tropical. Madame K, a prófuga Kamikaze, diz ámen e desanda para o Algarve natal (que falta de gosto, Kami, no Verão o Algarve está que não se aguenta!) e o resto dos remadores abunda na mesma opinião.
Pois desenganem-se ó amigos de Peniche: mcr está com o pé no estribo: 15 dias imperdíveis à beira-água em Areas, praiazinha simpática no meio da galegada. Em vendo alguém a comer mexilhão é ele. Se não for ele mas loira é a temível CG que também não deixa os créditos marisqueiros em mão alheia. Enchi um saco com livros, levo o resto duma tradução para acabar e adeus até ao meu regresso. Agora que os calores estivais começaram é mais que altura de me pôr ao fresco. Com sorte até encontro uns parceiros para o bridge. E se não encontrar, paciência: jogo no computador. Quem não tem cão caça com furão.
Férias pois. Para quem por aí fica, recomenda-se muito a leitura de um novo blog: a reciclagemdoser.blogspot.com. Ou de como uma conversa durante um ágape incursionista pôs o JAB a a fazer umas negaças à morte. De rir até morrer. Aproveitem que a silly season vai começar.

* na gravura: a praia onde mcr está todas as manhãs entre as 10 e as 13. Em soando a uma hora lusitana, mcr enrola o guarda-sol, pega na cadeira e no saco e ala que se faz tarde: esplanada de "A Postiña" a lavar a boca com uma caña. E depois almoça. Peixe marisco e saladas! A verdadeira dieta atlântica.

30
Jul07

missanga a pataco 22

d'oliveira


Um senhor chamado Ingmar Bergman


A primeira vez que fui ver um dos seus filmes (Morangos Silvestres, se não estou em erro) nos princípios de sessenta, houve “gritos e suspiros” na plateia. Senhoras desmaiavam. Cavalheiros empalideciam. O intervalo foi dramático. Que filme era aquele, que realizador se atrevia a ir tão longe e tão pungentemente?
A partir do primeiro filme, Bergman, ficou marcado para um certo público português: “Difícil”, “intelectual”, “metafísico” foram alguns dos mimos com que o apodaram. Convenhamos que o de intelectual era um tanto ou quanto estranho. Então um realizador de filmes não é, queira ou não, um intelectual? O mundo dos cinéfilos é bizarro!
De todo o modo, Bergman impôs-se. Pela qualidade evidente da sua escrita cinematográfica. Pelo cuidado que punha na direcção de actores que, entretanto, pareciam tão livres. Pela sua obsessiva pesquisa da natureza do homem, dos seus sonhos e pesadelos. Pela elegância, também. E finalmente pelas suas actrizes. Desde “Mónika e o desejo” é uma plêiade de grandes actrizes que chegam até nós graças a Bergman. E curiosamente também por aí chegava alguma modernidade. Mulheres livres num universo cinematográfico europeu que ainda usava um tipo feminino tradicional. Tentando não pescar nas turvas águas de uma certa critica cinematográfica que tem conseguido com um êxito invulgar afastar o público do cinema, gostaria de sublinhar que Bergman é o realizador do casal, mesmo se em quase todos os seus filmes este está em vias de dissolução. Poucos chegaram tão longe, e tão bem. Se isso parecer uma homenagem, pois que seja. A morte que agora o leva aos oitenta e nove anos tão vividos dá azo a que se fale do passamento do último grande mestre europeu. O que, apesar de Antonioni estar vivo mas perdido para o cinema, não deixa de ser verdade.

PS: Ontem domingo, morria também muito perto dos 89 anos, Michel Serrault, um enorme actor francês. Parece que tinha por lema: mais vale cinco minutos de génio num filme medíocre, que noventa normais num filme brilhante. Serrault teve centenas de minutos de gtrande brilho em filmes muito desiguais, para não falar no teatro que nunca abandonou. Parte, aureolado por vários “César” e, sobretudo, pelo reconhecimento e pelo amor do público. Poucos se podem gabar do mesmo. Chapeau!

* a gravura: cartaz de um dos seus mais admiráveis filmes.

27
Jul07

Estes dias que passam 72

d'oliveira


AVENTURAS DA DESRAZÃO

Confesso que me assaltou uma certa dúvida quando escrevi “desrazão”. Eu tinha a convicção que a palavra existia, que faria parte desse cada vez maior número de palavras que ninguém usa, tão habituados estamos a um português básico e pedinchão. Mas existe, valha-me São Houaiss patrono dos dicionaristas (ao lado do dr Johnson, claro. E do Viterbo. E do Moraes, idem. Portanto quem não souber o significado só tem ir pelos seus dedinhos: Houaiss!
Todavia o facto de uma palavra existir, pouco quer dizer, às vezes nada. Vejamos a palavra “vergonha”. Ter vergonha, por exemplo. Antigamente um homem de bem tinha vergonha na cara, não fazia certas coisas que a moral ou os costumes vigentes reprovavam. Até os políticos tinham vergonha, vejam lá.
E agora, como estamos? Pois, mal. Muito mal. Um desastre!
Vem tudo isto a propósito dum sinistro cavalheiro que dá por Muammar Kadafi e que governa a Líbia há uns larguíssimos anos.
Kadafi foi acusado vezes sem conta de autor moral de atentados, de pagador de terroristas, de ditador. Durante anos foi um pestífero, ninguém queria nada com ele, ou dele. A Líbia era um santuário para criminosos de todo o jaez, desde que políticos.
Nestes últimos anos, contudo, há subtis mudanças no personagem, que com a ajuda do petróleo líbio, tem pouco a pouco apagado o lado cavernícola da criatura.
Porém, apesar de já não ser o réprobo dos réprobos, Kadafi ainda não era frequentável. E não era pelas razões de todos conhecidas e mais uma. Numa encenação delirante, ubuesca, a “justiça” (entre aspas como terão reparado) líbia, entendeu acusar cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano de um crime monstruoso: teriam inoculado o vírus da SIDA a cerca de quatrocentas crianças que vegetavam doentes nos “hospitais” líbios (terão reparado que as aspas aí estão de novo). A acusação era de tal modo bizarra que ninguém acreditou, líbios incluídos, suponho. Todavia as enfermeiras e o médico foram rapidamente presos, interrogados com a proverbial clemência dos esbirros de Kadafi e graças a uns aparelhitos eléctricos aplicados nas zonas genitais dos criminosos confessaram, diz-se, tudo ou quase tudo. Isto começou há oito anos. Oito anos em que de interrogatório para tribunal e vice-versa, aquelas seis criaturas sofreram o que pouca gente sofre. Se os hospitais líbios são o que são, imaginem as cadeias.
O segundo acto desta tragicomédia foi totalmente preenchido com a sessão delirante do julgamento onde os desgraçados réus negaram tudo o que lhes fora extorquido pela polícia. A opinião pública europeia comoveu-se, surgiram protestos, os governos de alguns países deram a conhecer as suas criticas olimpicamente ignoradas pelos “juízes” líbios que mais não do que peças anonimas e pouco representativas do vago direito que aplicam com singular pertinácia. Como não podia deixar de ser, os réus foram condenados. À morte, como convém. Apelaram claro.
Mais prudentes, os governos entenderam contribuir para um faraónico fundo de ajuda às vítimas e aos familiares dos já falecidos. Em princípio sussurrava-se que com um milhão por cabeça, viva ou morta, talvez as coisas se compusessem. O dinheiro choveu e quem sabe diz que veio direitinho dos erários públicos de uma dúzia de países europeus condoídos com a sorte das enfermeiras e atentos ao petróleo que corre pela Líbia.
Quando a soma foi reunida pensava-se que as pobres mulheres seriam de algum modo libertadas ou pelo menos veriam comutada a sentença. Nada disso, entretanto, ocorreu: o Supremo Tribunal da Líbia (ou a ajuntamento de magarefes que frequenta esse local mal afamado) manteve as penas de morte. A Europa voltou a comover-se. E tanto se comoveu, tanto apelou, tanto pagou, que Kadafi transigiu em receber a senhora Sarkozy despachada pelo extremoso marido para obter a graça presidencial. Kadafi já com o dinheiro empochado, fez o gesto que se esperava: se o ocidente retirasse o seu bloqueio à personagem, ele comutaria a pena de morte. A senhora Sarkozy ter-lhe-á dito que isso era o menos, o que lá vai, lá vai.
E, terceiro acto, Kadafi comuta as penas e entrega o bando de criminosos à Bulgária com a condição dos réus aí cumprirem a pena. Claro que mal os desgraçados pisaram o solo de Sofia, logo o presidente búlgara a uncia que os graciou e que estão livres. .A Líbia protesta molemente e para a galeria. O mundo ocidental esquece todos os agravos contra o coronel Kadafi e elogiam-lhe a clemência, a bondade, o respeito pelas liberdades e pelos direitos humanos. Sarkozy precipita-se para Tripoli. Os empreendedores seguem-lhe na peugada e os jornais de hoje já falam neste novo faroeste (por acaso a sul). E no petróleo, claro. Caíram os embargos, calaram-se as criticas e o cheiro a petróleo espalha-se como uma nódoa de azeite pelas nossas praias.
Os dirigentes políticos, Sarkozy à frente, mostraram claramente que vergonha neles desaparece ainda mais facilmente do que manteiga em focinho de cão.
Não me admiraria se, um destes dias de gloriosa presidência europeia, aí desembarcasse o senhor Kadafi para se mostrar ao gentio português. Não que tenhamos importância mas apenas para rapidamente se mostrar à Europa por interposta presidência portuguesa. A menos que nem isso valhamos e Kadafi nos substitua pelos verdadeiros senhores da Europa.
Ao pensar nisto, lembrei-me de Fidel Castro. Não que simpatize com a personagem. Já foi tempo. Há muito, muito tempo. Só que aposto dobrado contra singelo, que se Cuba tivesse petróleo em vez de açúcar, calavam-se depressa todas as criticas e cessariam também os embargos. Azar dele, ter açúcar. Não é com isto que ele adoçará as bocas dos senhores do mundo. Preferem o petróleo sobretudo porque aquilo no médio oriente está um tanto ou quanto agitado. Ao passo que na Líbia reina a calma. A calma dos grandes cemitérios sob a lua, para citar Bernanos que, apesar de católico, não se quis calar quanto ao que se passava na Espanha.
Ele tinha vergonha. O que só o honra. O problema é que agora, a falta de vergonha tem o antipático nome de realpolitik.

* gravura: um cartaz do "Maio de 68"
27
Jul07

Estes dias que passam 71

d'oliveira


NEM A MIM!*

Eu ia falar do texto do Manuel Alegre mas o meu camarada de redacção, JSC, já o referiu pelo que opto pela preguiça e digo “ámen”. Todavia, JSC não teve de certeza tempo para fazer uma recensão das criticas ao texto que só hoje começaram a revelar-se.
Não vou referir as exteriores ao PS porque, dizendo bem ou dizendo mal, podem ter meros fins políticos e politiqueiros para a propósito disto acertar o passo ao governo.
Falemos pois e apenas de duas intervenções: o Sr Primeiro Ministro e o Sr autarca João Soares.
Com a audácia que se tem quando se fala sozinho para um microfone sem ter quem lhe responda no momento, o Sr PM diz que o texto é apenas mais do mesmo, que Alegre periodicamente diz aquilo, que se trata de um discurso gasto, enfim, reduz Alegre à condição dum pobre triste que só diz mal. Convenhamos que esta é, para já, uma maneira serôdia de abandalhar um texto que, sobre ser bem escrito (coisa que entra pelos olhos de qualquer criatura que tenha passado na disciplina de “português técnico”), contém uma excelente reflexão sobre a deriva do discurso sobre as liberdades praticado pelo governo. As leitoras lembrar-se-ão que Alegre chega a dizer que não considera as liberdades em perigo mas que, est modus in rebus para o que toca ao discurso que se faz sobre a acção do governo,. Trocando por miúdos, Alegre dá voz a quem não percebe as medidas abruptas que muito economicistamente (aguentem lá este palavrão) se tomaram. Alegre julga, como qualquer pessoa que por aí ande, que pode desertificar-se ainda mais o interior quando se fecham serviços que as mais das vezes eram eles mesmos uma garantia para quem queria ir para o “mato”, ou para o “deserto” onde vive o meu amigo João Tunes (leiam o blog Agualisa 6 que aquilo é sadiamente polémico, fortemente critico e corajosamente assumido). Eu não viveria numa terra, Vieira do Minho por exemplo, onde o SAP fechará boa parte do dia ou melhor da noite. É que se me desse uma maleita, não haveria hipótese de, lá e depressa, me verem o futuro cadáver e de elegerem os meios mais adequados para me ajudar. Nesse futuro “sertão” é-se levado em padiola para uma cidade a trinta quilómetros que, à noite e naquela estrada, podem significar o dobro. O Sr PM, que é de uma terra do interior, deveria começar por aplicar na sua terra, hoje gloriosa graças a ele, o que quer aplicar nas outras em igualdade de circunstâncias. Só para ver o que os conterrâneos lhe diriam da mãe e das antepassadas todas até à décima geração.
A segunda questão é que o sr PM ao qualificar despectivamente de “clássico” e de fantasia o discurso de Alegre comete dois erros. Falar de liberdade nunca é um clássico a menos que seja para a amordaçar. Falar de fantasia, releva daquela habitual e grosseira posição de quem considera os poetas um ornamento floral barato à falta de uma pin up despida no átrio do Parlamento. O Sr PM ao desqualificar sumariamente a posição de Alegre vem dizer apenas que tem um cretino como vice-presidente da Assembleia da Republica. Ou, se não for cretino, um totó, ou um xico-esperto, enfim um pássaro bisnau que só sabe bicar a impoluta virtude do actual e meritório governo.
A história que nunca perdoa, porventura nunca referirá daqui a uma dúzia de anos este primeiro ministro. Quanto a Alegre, esteja o sr PM descansado que dele haverá rasto como poeta, quanto mais não seja. Hoje toda a gente sabe quem foi Mayakovsky mas provavelmente ignorarão o primeiro ministro da altura, o presidente da republica e eventualmente o secretario geral do PCUS. Esteja o Sr José Sócrates descansado que sobre ele e a sua memória não se esforçarão os focos da fama.
O sr autarca de Sintra, João Soares, tem o curioso hábito de se vestir de virgem arrependida quando alguém fala em liberdade. Ele “seria a primeira pessoa a protestar se houvesse alguma coisa no país que pusesse em causa a liberdade de expressão” (sic). Alegre que se cuide e lhe peça primeiro autorização para falar deste espinhoso tema. Eu não tenho o filho desse grande político que foi Mário Soares, em grande conta: nunca lhe ouvi senão vulgaridades e isto desde o patético tempo em que ele criou uma coisinha chamada GAPS (grupo autónomo do partido socialista) e que fanfarronava de esquerda independente dentro do ps, onde o pai, suava as estopinhas para organizar o partido cá dentro. A rapaziada do GAPS dava-se ares de esquerdista mas dentro do PS, como se deve, inodoro, incolor e insípido, como obviamente tinha de ser. Deve ser desse tempo que lhe ficou esta ideia de se identificar com o semáforo da liberdade. E sobre o discurso de Alegre, estamos conversados. Outros bonzos socialistas acorreram à chamada para, sem responder, virem graves e circunspectos dizer que tudo vai bem e fresquinho no reino da Dinamarca. O poder tem consequências terríveis para quem o detém: uma é tornar autistas os seus usuários. A “introdução ... na vida política português de um conjunto de critérios de rigor, exigência e reforço democrático” como diz o sr Ministro do Trabalho é um chavão e sobretudo volta a responder ao lado no que toca às questões que Alegre levanta no seu artigo. Um outro deputado, desta vez a propósito do arquivamento do processo contra o sr. Charrua, veio ufano dizer que aquilo provava a liberalidade do governo que actuara quando tivera que actuar. Não é assim sr deputado: o governo actuou tarde e provavelmente mal. Tarde porque, logo no dia seguinte ao acto da azougada directora da DREN, um telefonemazinho poria a senhora no seu lugar e dispensaria esta trapalhada. Por outro, o sr. Charrua (que não conheço nem me apetece conhecer) sofreu pelo menos um castigo: foi durante dias suspenso. Pior: foi-lhe dada por finda a requisição para a DREN, o que neste caso, é sem margem para dúvidas, como agora se prova, uma punição. Ainda por cima, ao que me dizem, ele estava prestes a terminar o período da requisição, pelo que bastaria esperar e não o requisitar de novo. Assim, toda a gente, e eu mesmo, ficará convencida que ele foi alvo de uma punição que nenhum arquivamento levantará. Além do que se fica sem perceber porque é que ele Charrua esteve ali durante vinte anos sempre com altíssima classificação de serviço e agora é dispensado. Arranjaram melhor? Ora mostrem lá! E como uma tolice nunca vem só, parece que o cavalheiro que delatou, foi promovido a assessor pessoal da senhora directora da DREN (que só hoje conheci por a ver na televisão, se é que era ela a senhora gorda e com um rosto inexpressivo que se sentou ao lado da srª Ministra da Educação) o que sendo feito no período em que foi feito, diz muito do modo de governo em uso na DREN. Ou seja, além de se cometer uma imprudência, cometeu-se uma impudência. Espero que alguém explique isto à tal senhora. Que há um tempo para castigar e outro para promover, se me é permitida esta alteração da palavra evangélica.
E com tão santas palavras despeço-me que a noite é menina e eu preciso de dormir.

*
o título é obviamente uma brincadeira com o texto de baixo

gravura: Liberté de Fernand Léger

26
Jul07

A MIM NINGUÉM ME CALA

JSC
Manuel Alegre quis marcar a agenda política para as férias e soltou a um novo grito, bem ao jeito de “A MIM NINGUÉM ME CALA”.

No essencial estou de acordo com tudo quanto Manuel Alegre escreveu no seu manifesto “Contra o medo, Liberdade”, publicado no Público, ainda que me pareça um pouco excessivo o tom na parte que se refere ao “medo de falar” e ao “medo de pensar”. Muito sinceramente penso não ser este o principal problema, nem chega a ser problema, do nosso sistema político.

Mas Manuel Alegre também aborda aquele que é, de facto, um grande problema e que se centra no domínio das opções políticas do governo: “ a progressiva destruição do sistema nacional de saúde”, a progressiva redução das funções sociais do Estado e as “tendências privatizadoras” de “sectores estratégicos” nomeadamente o abastecimento público de água.

Ainda bem que Manuel Alegre despertou, agora, para esta realidade de minimização do papel do Estado nas chamadas funções sociais. Pena é que a sua argúcia e capacidade de mobilização não se tenha feito ouvir bem lá atrás, a tempo de impedir ou pelo menos minimizar o grave erro que é o processo em curso de liquidação do serviço nacional de saúde e, já agora, a privatização da água e mesmo do ensino superior.

Apesar dos tempos actuais não serem propícios a grandes mobilizações, aguardemos as próximas intervenções de Manuel Alegre e de todos quantos se identificam com as suas posições em defesa das bandeiras da Liberdade, da credibilidade política e da Justiça Social. Pode ser que se façam ouvir e que mobilizem vontades capazes de inflectir o sentido da orientação política em curso nestes domínios.
24
Jul07

Diário Político 60

d’Oliveira

A Mão à palmatória

A escrita sem risco não vale a pena. Mesmo num simples blog, a comentar o desfile das horas e a futurar o dia seguinte. Ou os dias seguintes. Ontem* falei das eleições no PPD (isto é uma mania minha: nunca vislumbrei suficientes toques social-democratas naquele curioso partido, nascido mais da vontade de Sá Carneiro do que algum eventual e profundo desenho colectivo). O PPD foi desde sempre um partido órfão – já o era em vida de Sá Carneiro – quando os seus adversários o tentaram defenestrar – e as mortes trágicas do fundador e pouco depois de Mota Pinto, fornecem suficientes argumentos para sustentar esta tese. Mesmo Cavaco, que continua vivo, é já uma espécie de finado para a militância. Não creio que alguém sonhe com um seu regresso, provavelmente nem o quereriam. A partir da saída de Cavaco (e já lá vão mais de dez anos...) o partido foi sendo governado por uns cavalheiros sem empatia com os militantes ou com o eleitorado. Dir-me-ão que ainda ganhou umas eleições, o que, sendo verdade, é só meia: o PS (e alguma vez também iremos ver o que significa aquele S que trazem à cintura, como os antigos lusitos da MP, e não estou a fantasiar, mas tão só a relembrar o peso “excessivo” que o S hoje deve ter para os militantes. A menos que seja também ele uma letra para todo o serviço, ora aí está, para “serviço”, “socialismo”, “Sócrates”, “sapador” ou outra coisa qualquer) perdeu-as mais por falta de alma e indisciplina interna do que eles as ganharam. De resto, parra muito militante não convinha que Ferro as ganhasse. Mas deixemos isso para outra ocasião...
É que as eleições também se perdem por cansaço dos eleitores que não descortinam porque é que um partido é melhor do que outro, em que se diferencia de outro, que valores ainda propõe. Isto mesmo foi, aliás dito, e bem por JSC por aí mas pelos vistos o Verão e o cheiro das férias não suscitaram grande vontade de comentar.
Portanto o PPD. Em véspera de eleições internas. Até ontem, aquilo parecia a espada do D. Afonso Henriques: coisa comprida e chata, sem emoção. Marques Mendes, sozinho no meio da praça, diante de um público gelado, nem força parecia ter para citar o touro, quanto mais para obter uns “olés”. Tanto fez e disse que Menezes lá se comoveu. Vai à luta. Não se percebe bem porque é que desistiu das suas reivindicações de mais democracia interna. Até ao momento, tudo continua na mesma. A menos que... Menezes vá só tentear. Se perder, a culpa está já publicitada. Se ganhar, ganha por absoluto mérito próprio, como um renovado Quixote da nova social-democracia. Pode mesmo desistir à boca das urnas... mais uma vez pelos mesmos estafados argumentos que ontem o impediam de concorrer. O Verão vai ser quente.
De todo o modo, dou a mão à palmatória: Meneses afinal diz que vai. Enganei-me, portanto. “Shame on me!” Ouvi-lhe com um olho aberto e outro fechado, no quentinho da cama, às sete da matina, as razões de candidatura. Acho que falou em povo, desempregados, bases, eleitos locais e mais um par de narizes de cera do mesmo género. Acreditará mesmo no que disse ou é só para entreter o pagode?

Leio no conspícuo “Público” que as criancinhas presentes na sessão pública de apresentação do “Plano Tecnológicotinham sido recrutadas por uma agência de casting e eram pagas a €30 por caveira. Pasmei! Enfim, fiquei um tanto ou quanto espantado. Então já não se arranjam uns miúdos de borla? Tem de ser pagos? Pagos por quem? Pelo orçamento de Estado, está bem de ver. Por nós todos, ao fim e ao cabo. Isto não vos parece, além de ridículo, um abuso? Então uma ministerial criatura vem anunciar mais um bodo aos pobres e precisa de uma plateia afinadinha? Não basta mandar um recado aos jornais? Como é que esta gente acredita no que faz quando encena o inencenável? Ou seja, o respeitável público! Espero, já agora, que o Plano seja igualmente um verbo de encher, mais um. Assim pelo menos lograr-se-ia alguma coerência.

Continuando com as criancinhas: um neurologista, Alexandre Castro Caldas, vem em artigo de opinião, dizer esta coisa pasmosamente simples: a ideia peregrina de fornecer à infância escolar umas maquinetas de calcular para não terem de se maçar a fazer contas é uma aberração. Que faz bem à miudagem usar um pouco o cálculo mental, a memória etc... Isto claro no mesmo país onde alguém, dos esconsos do ministério da Educação, veio a terreiro defender as maquinetas. A Sociedade dos Professores de Matemática também já terá vindo dizer o mesmo. Desconhecem-se as reacções do “bunker” da Educação. Provavelmente, assobiarão para o lado e encomendam à mesma as máquinas. Fora os fabricantes das mesmas, todos perderemos, crianças, público, país, futuro. Aqui para nós, que ninguém nos ouve: a senhora Ministra alguma vez deu aulas? De quê?

Deus guarde o Governo e ilumine os simples mortais blasfemos que não percebem o alcance destas medidas.

* O cheiro a férias entontece-me. Estava convencido que tinha posto ontem o DP anterior a este. Não o fiz. Foi há minutos e só para não perder actualidade. Os leitores, coitados, apanham assim com dose dupla. Felizmente vêm aí as férias.

** na ilustração de hoje: uma velha calculadora. Tenho a vaga ideia que se chamaria pascalina.

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