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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

02
Nov07

estes dias que passam 83

d'oliveira

Há dias assim: perfeitos! Era bom, era...

Então leitorinhas gentis, que preguiçam ao sol outonal que não nos larga prenunciando, porventura, um Verão de S Martinho longo e quente a retirar ao vinho novo e às castanhas assadas o protagonismo aconchegante que elas deviam ter, querem vocês saber que descobri um primo? Um primo afastado é verdade mas primo, primíssimo e por dois lados. Á uma é quarto neto de meu trisavô Ernst Richard Heinzelmann, depois descende por outra linha de outros avoengos que se acolheram aos vastos campos do Rio Grande do Sul em tempos da invasão francesa. Aliás foi ele quem me descobriu, vá-se lá saber por que ínvios caminhos. Ou melhor, por um caminho escuso e literário. Em tempos cometi um livrinho que assinei (em homenagem a uma avó paterna e Heinzelmann e ao uma avô materno carinhoso chamado Manuel ) com o nome de Manuel Heinzelmann. Pois terá sido por aí que um brioso e simpático Luis Sérgio Heinzelmann engenheiro militar brasileiro, por ora destacado em Quito no Equador, veio à fala comigo. Milagres da internet e do blog, está bem de ver.
Mas para além deste encontro que ainda vai nos prolegómenos, hoje ocorreram coisas simples mas daquelas que nos fazem ganhar o dia. Uma, contarei noutro postal, foi uma conversa com um menino que me prometeu comer salada doravante. Outra foi o encontro sucessivo e agradável com duas raparigas bem bonitas e gentis e com três canhotos obviamente gentis como se sabe, os canhotos somos todos assim, não há volta a dar-lhe, às vezes até me custa suportar tanta perfeição, mas que querem, foi Deus ou os nossos pais, quem nos fez assim. De facto tive de ir ao Corte Inglês por via de uma massacrante impressora que se recusava a imprimir. O primeiro canhoto, um Pedro, dedicou-lhe dois inteiros dias, enfim, boa parte deles, e depois de várias derrotas humilhantes, desbaratou a miserável epson 6000 como o cornaca amansa um elefante teimoso. Como? Sendo mais teimoso do que ela. E com uns toques de mão esquerda, claro. Daí parti para a livraria do mesmo estabelecimento e confrontei-me com outra canhota, uma Nara, brasileira e bonita ainda por cima. Encomendei-lhe uns livros em espanhol e perguntei se também dava para encomendar o último e majestoso (e lindíssimo!) número da “Litoral” uma revista que é um espanto. Pois ela prontificou-se a visar-me se o “corte inglês” não pudesse servir-me, o que veio a acontecer. A rapariga estava desolada ao telefone, desculpava-se vinte vezes e solidarizava-se com o meu presumível desgosto! Daí parti para a fnac onde bebi um café servido por outra jovem irradiante de simpatia, elegante e bonita. E estava, como verifiquei, já no fim do turno, seguramente cansada. Daí parti para a secção de discos à procura dumas especialidades que não havia. A terceira canhota do dia, não desistia de procurar os discos com as escassas referências que, no momento, eu lhe fornecia. Quando fui pagar uns livros a que faço referência noutro local, apanhei com a rainha de beleza das caixas da fnac. Eu estou já velho ou, pelo menos, bastante usado mas ver não ofende e a rapariga era realmente bonita. E simpática! Convenhamos que foi uma bela tarde. É que as mais das vezes a gente apanha com umas pessoas fatigadas, tristonhas, pernósticas, que nos aceitam os maravedis por favor e nos olham com a mesma ternura com que fitam um carrasco sanguinário de arma apontada para elas. É deste Outono não há dúvida!
Logo pela manhã li que o PS tinha retirado a proposta tonta e demagógica das faltas das criancinhas escolarizadas. Ou seja, é preciso que as pessoas berrem que nem possessas para aquelas almas perceberem que andam a asneirar. Será que esta ministra entrou alguma vez numa sala de aulas? A senhora ainda não percebeu que se é verdade que o que importa é aprender e não estar autistamente especado numa sala, não menos verdade é, ou pode ser, que não pôr os pés na escola é uma quase garantia de que se não aprende nada?
Ou então esta senhora acha que a escola é uma inutilidade e que ir ou não ir às aulas é igual ao litro. Pode ser que tenha razão. Mas nesse caso, fecha as escolas, dispensa os professores e manda imprimir uns diplomas que se poderão levantar na loja do cidadão contra a entrega de uns escudos. Fica mais barato e o país progride e poupa dinheiro.
Também me diverti a ler o que se diz dos rankings escolares. Então é feio divulgar as escolas que têm sucesso? Ou é feio apenas o facto de serem privadas as que estão no topo da tabela? E, já agora, não acham que quanto ao português e à matemática se sabia, se ensinava e se aprendia mais há trinta ou quarenta anos? Não acham que a antiga quarta classe dava mais garantias que esta porrada caríssima de anos que o tal ensino básico leva?
Meus senhores comentadores: eu sou pelo ensino público. Pelo ensino, tout court. Ou seja pela possibilidade de ensinar sem se ser agredido, seja por pais ou por meninos mal educados. Pela possibilidade de dizer à criatura que não estuda que assim não vai lá. E que, assim, chumba. Chumbar quer dizer reprovar, não passar de ano com a deficiência às costas a agravar-se. Isto é difícil de entender, Exª Senhora Ministra? Vª Exª pensa que nos países ditos civilizados reina o despautério, o laxismo, a incompetência, o desgoverno, o gasto sem proveito que por cá é já endémico? Vª Exª dirá que herdou esta situação. É verdade. Herdou-a de socialistas e de sociais democratas. De uma chusma de ministros e secretários de estado que se isto fosse de factto uma empresa teriam sido despedidos ao segundo mês de exercício. E proibidos de falar de educação durante dez anos seguidos. Há demasiados anos que isto anda a naufragar. Mais precisamente desde que o Doutor Veiga Simão fez uma reformeca quando era ministro salazarista. O Doutor Veiga Simão será um cientista de mérito e um professor universitário distinto. Não duvido. Terá visto a luz depois de lealmente servir o Estado Novo. Não discuto. Mas fez aquela reforma e tudo começou aí. Claro que depois as coisas foram de mal a pior. Quem veio a seguir arreou com gana no ensino público português. Parece que pensavam que isso era democracia. Não era. Nem a democracia serve de panaceia ou muito menos de desculpa para tudo. A educação está a saque. Nenhum país rico aguenta uma situação como a que nos coube em sorte. E muito menos a despesa! A educação nacional é um Iraque do espírito, uma gonorreia imparável, uma vergonha pública. E há responsáveis.
Parem de reformar. Pensem antes de agir. Oiçam os professores! Leiam as redacções das criaturas que Vocês julgam tutelar e proteger. Vejam-lhes as contas. A tabuada, raios. Vai uma pessoa a uma loja por um jornal, um totoloto e um selo e a menina que nos atende rapa da máquina calculadora. Arre!
Lá se foi o meu dia para o raio que o partiu. E, com ele, duas, três, dez gerações de estudantes do tal básico, do tal secundário, do diabo que carregue esta gente que destroça o futuro e sai daqui incólume. Para outros lugares. Bem pagos. E com a consciência “tranquila”. Mas saberão eles o que quer dizer tranquilo? Consciência?
E não vale dizer que no ensino superior as universidades públicas são melhores que as privadas. Claro que são. Mas isso não é porque sejam especialmente boas, excepção feita a algumas excelentes escolas, mas apenas porque quase todas as privadas tem sido uma negociata, um latrocínio que só cá é que não dá cadeia, cadeia séria, cadeia sem a famosa vírgula de que já aqui se falou. E não me digam mais nada não vá eu ter de perguntar quem é que deu autorização para o funcionamento dessas “coisas” que pomposamente se auto-intitulam universidades. Não foi o ministério da Educação? O mesmo que gere as escolas “básicas” e “secundárias”? E não foram tantos e tantos professores das públicas que se lançaram que nem urubus sobre os inocentes alunos destas privadas, numa ânsia de encherem o bolso, desdobrando-se em cidades e vilas perdidas por esse país a pontos de serem conhecidos como “turbo-professores”? Será que esta gente pensa que não temos memória? Que somos ainda mais burros do que impávidos?
Ai este Outono... leitorinhas gentis. Tanto sol, tanto calor, tanto despudor...

a gravura? Hiroxima, claro. morreu hoje o aviador que deitou a bomba. nunca se arrependeu. lá como cá!
02
Nov07

Cinema militante

José Carlos Pereira
Ela era uma rapariga simples que a vida levara para o mundo dos bares de alterne. Ele, presidente de um grande clube e frequentador dessa noite alternativa, conheceu-a numa “deslocação em serviço”. Apaixonaram-se e viveram juntos alguns anos, arrastando para as páginas das revistas cor-de-rosa as grandezas e misérias da sua relação. Ela viu-se, de um momento para o outro, guindada a “primeira-dama” do clube e a figura omnipresente em tudo o que estivesse relacionado com ele. Depois vieram a separação, os arrufos, as agressões, os insultos, os processos e todo um estendal de roupa suja. Ela escreveu (!) um livro e ele deixou que escrevessem um livro por ele.
Ele procurou refazer a vida sentimental e, depois de umas variantes mal sucedidas, acaba de recasar com a mãe da sua filha. Ela procura sobreviver e agarra-se aos últimos fogachos da fama com que sonhou. Nem que para isso tenha de se aliar com quem insultara amiúde.
Entretanto, o livro que (alguém por ela) escreveu deu azo a uma adaptação cinematográfica que pretendem apresentar como ficção. A verdade é que uma inenarrável dupla de alienados de um clube rival fez o guião e dirigiu um filme com o objectivo militante de expor as fraquezas dele e de amplificar as alegadas denúncias que ela faz no livro. Tudo muito à pressa, porque tinha mesmo de ser e, assim, pode ser que ainda se consiga sensibilizar alguns operadores judiciários para a rubra causa. O filme estreou ontem e há-de ser um sucesso de bilheteira, mesmo que produtor e realizador se tenham zangado pelo meio, com actores de um e outro lado da barricada. Os voyeurs não perderão a oportunidade. Mas, se houver escassez de bilhetes, podem sempre ceder o meu porque não alimentarei este projecto militante. Por mim, prefiro militar logo mais à noite nas bancadas do Dragão, a torcer pelo FCP contra o Belenenses. Aí é que vale a pena.
01
Nov07

Au Bonheur des Dames 96

d'oliveira

A aventura do referendo naufragado

Às vezes uma pessoa põe-se a pensar. Mau sinal. Pior se é sobre política. A política dizia-se num outro tempo não dá de comer a ninguém. Agora é o que se vê. Pessoalmente acho bem que os políticos sejam retribuídos. Bem retribuídos. Assim escusam de arredondar os seus fins de mês com outros recursos.
Em Portugal é o que se sabe. Uma miséria. Assim não se recrutam os melhores. E quando por vezes fazem uma perninha na política é por pouco tempo. Só para se divertirem e acessoriamente criarem nome e despertarem a gula das multinacionais que os hão-de convidar. Não é preciso citar nomes.
Depois há os outros. Os do lote. Nem muito bons nem muito maus. A política é um meio de saírem da mediocridade onde quase de certeza ficariam, dos empregos escassamente pagos, da vida cinzenta.
Uma motivação assim é quanto basta para se perceber que esta gente estará na política sem convicção, sem convicções. E isso, essa falta de chama e de entrega, traz consigo outro problema. A politica passa a ser tão só um meio de sair do anonimato, um relâmpago de lantejoulas que embriaga e que se torna num vício. E que, como qualquer vício que se preze, faz tábua rasa das normais convenções que nos enformam a vida e as relações com os outros. O que hoje é verdade é amanhã mentira, depende tão só do nosso interesse, a la rigueur do interesse do grupo, maxime do partido.
O discurso político passa a ter um único fundamento: a obtenção do poder, o exercício do poder. Do poder pelo poder. Só assim se justifica o facto de com toda a naturalidade se fazerem as mais graves promessas, de se formularem os mais categóricos votos, que na semana, mês ou ano seguintes, são desprezados. O povo que nem sempre se engana, diz que os políticos prometem tudo para não cumprirem nada. Ou pouco. Muito pouco.
Vem tudo isto agora para comentar uma solene promessa feita pelos dois partidos de governo, os nossos pouco interessantes Dupont e Dupond. Ambos num frenesi que ninguém lhes pedia juraram que a questão de um tratado europeu passaria por um referendo. Isto que já era uma burrice grotesca foi gritado aos quatro ventos enquanto não assentou o pó eleitoral. Logo que se viu no poleiro, o PS deitou contas à vida e percebeu a evidencia da sua diarreia verbal. Mesmo que fosse praticamente certo uma vitória do sim à Europa, o PS entendeu que pôr a populaça a referendar era perigoso. Porque poderia desmobilizar todos ou alguns dos que pensavam sensatamente que se há um parlamento é para isso que serve, para aprovar tratados mesmo este ou o anterior (e ambos têm a mesma matriz, nem vale a pena gastar cera com tão ruim defunto, digo-o sem zanga porque eu sou, era e, provavelmente, serei sempre a favor de um tratado que una a Europa mesmo este ou o anterior. Relativista e céptico penso que um tratado merdoso é melhor que nenhum tratado.) Ou porque, no fundo, bem lá no fundo, os aterrasse a hipótese de uma derrota, de uma reviravolta, como na França, ou ainda porque não queriam discutir na praça pública as debilidades de um tratado que francamente sempre poderia ter sido mais bem parido. Enfim, o PS entendeu dar um golpe de rins, mandar às malvas as promessas e fingir que a situação era outra. Já o falecido camarada Ulianov, Lenin, no século falava da exigência contínua de uma “análise concreta da situação concreta”. Mesmo sendo politicamente analfabeto, ou quase, o PS caseiro, aprendeu esta, se bem que seja duvidoso que aprendesse todas as suas implicações. O resto da esquerda, ou o que por aí corre como esquerda, era, claro, anti-Europa. Não me perguntem porquê porque por mais que uma pessoa queira ele há mistérios insondáveis. Que esta Europa é capitalista!, dizem uns. E que queriam que ela fosse? Sobretudo agora que o grande irmão oriental se estampou de ventas no chão com o mesmo estrondo do muro de Berlim. E com a mesma ânsia pelas delicias da Cápua capitalista. Só a nossa rapaziada é que acha que o cinzentismo soviético era mais agradável do que o centro comercial da Sonae aqui tão perto. Quando oiço o dr Louça lembro-me sempre de um filme piroso e pateta sobre o “konsomol” russo. Quanto aos camaradas do senhor Jerónimo de Sousa, a coisa tem outra raiz: Ainda ninguém lhes disse que a URSS desapareceu.
E o segundo partido, o dupond do dupont socialista? Pois também ele estava nessa onda. Um referendozinho é coisa que lhes afaga o ego populista e Deus sabe quanto populismo lhes corre nas veias. Esses, mesmo depois das eleições, mantiveram a ideia do referendo, uma promessa é para cumprir, tanto mais que isso os distinguia do irmão gémeo que governava. Ai eles estão com medo do povo? Nós não, terá pensado o transitório dr Marques Mendes.
Todavia Mendes já é só uma vaga lembrança perdida nos esconsos de um passado recente. Agora o dr Meneses, esquecido da posição do seu partido, veio dizer, sem se rir - forte prodígio! – que a situação actual não era a situação de há dois anos – fortíssima afirmação! – e que o tratado não era o tratado de há dois anos. Com estas duas descobertas faraónicas (copiadas do argumentário tristonho dos socialistas), Sª Exª entendeu que a ideia do referendo estava caduca e boa para deitar fora. O povo soberano, de que o dr Meneses julga ser um ícone ou uma metáfora vaporosa, já não era para aqui chamado. O súbito amor pelas virtudes parlamentares seria tocante se não viesse de quem vem, mas que querem? Durante os tempos mais próximos, um ou dois anos consoante os resultados eleitorais, Meneses será o rosto e a voz do PSD. Em boa verdade parece mais uma miragem, um fogo fátuo mas isso que até lhe dá uma certa graça pesada, tem um prazo porque, mesmo neste campeonato distrital da política, ninguém gosta de perder, sobretudo porque isto não é exactamente a feijões.
Portanto também o PSD evacuou sem sobressalto a tola teoria do referendo.
Para o quadro ficar completo, mesmo se mais feio, falta referir o CDS ou a coisa que passa por ser esse partido deliquescente que se vai evaporando a cada consulta eleitoral. A bem dizer, o CDS devia honradamente ser contra a Europa. Um partido de direita que se preze não quer nada com essa gente, com esse cosmopolitismo de pedreiros livres que só pensam em roubar a nossa alma imortal e a nossa glória passada. Alguém os ouviu? Disseram alguma coisa audível? Não? Então passem-lhes a certidão de óbito e não se fala mais disso. Amen.

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