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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

22
Dez07

missanga a pataco 39

d'oliveira
Uma de comentador do Público!!!


Um ilustre advogado entendeu, quinta-feira passada, escrever no “Público” sobre a nova polícia de costumes que, segundo ele, nos ameaça. Queixa-se que os fumadores estão prestes a ir para o ghetto, que os “jaquinzinhos” (na versão simples ou com arroz de tomate) estão quase proibidos, que os “peixinhos da horta” correm o risco de apanhar pela frente com um comissário da União
Europeia que leve muito a sério a sua missão de defensor das crianças, das viúvas e dos órfãos. E por aí fora até chegar ao “copo”, o copito tomado a desoras, já com o pé no estribo prestes a ir para o leitinho, xixi e cama.
Convenhamos que nem sempre a profissão ajuda! Percebe-se pouco e mal que fantasmas pretende combater o dr Nuno Galvão Teles. Sobretudo quando vê o sombra perigosa de Salazar a estender-se baçamente sobre o país traumatizado.
O dr Teles entende, e com alguma razão, que a campanha governamental anti-tabaco atinge foros de cruzada piedosa e impiedosa contra quem puxe de um paivante, o leve à boca mimosa e o acenda mediante isqueiro, amorfo, ou lumes de origem desconhecida. O Dr Campos e o Sr 1º Ministro parecem o dois cavaleiros medievais a bradar “Deus o quer, Deus o quer” enquanto fazem as malas para embarcar para a Terra Santa, com paragem e saque em Constantinopla a herética.
A gente desconfia de tanta boa vontade e solicitude dos governantes, sobretudo quando sabe que se continuam a permitir os cultivos bem pagos de tabaco nos nossos campos...
A gente acha destemperada a campanha da ASAE que, qual nova polícia política, diz com meia cara que não proíbe as bolas de Berlim e com o resto da feia careta edita um monte absurdo de regras que chegam a proibir o já proibido. A ASAE é como as moscas e os antigos inspectores dos isqueiros: desenfreou por esse pais fora e puxa do crachá com o mesmo à-vontade com puxaria do cassetete se a deixassem. E a procissão ainda vai no adro, podem crer. Daqui a pouco proíbem a alheira de Mirandela, a morcela da Beira, o paio não industrial, as sardinhas assadas e os pimentos que não sejam de conserva. Tudo pela nossa saúde, pela nossa rica saúde. É o chamado acosso saudável que vem já a seguir ao sexual e ao espiritual (não sei se repararam que agora nos batem à porta evangelistas de todas as religiões, oferecem Bíblias a baixo custo e mal impressas, orações ao Divino Coração de Cristo, anúncios de dilúvio universal, o que se queira). Parece que ateus, indiferentes e leigos são doentes perigosos a pedir tratamento urgente e/ou camisa de forças.
Todavia não foi exactamente isto que o Dr Teles veio lamentar. Atentemos nesta frase (que não está descontextualizada): “olho e pergunto se posso beber um copo? Não hoje é dia de polícia....” E depois fala de operações stop que, com infame democracia, mandam para “boguinhas” e Jaguars para os condutores soprarem no balão.
Alto e para o baile! Eu não tenho nada contra os advogados que gostam de entornar. Que sejam mesmo um pouco alcoólicos. Que bebam até cair. Que necessitem de ir ao hospital tomar uma coramina. Que morram de delirium tremens, a la riguer. É com eles. Claro que detesto aturar bêbados, violentos ou chorosos, pegajosos ou humildes.
O que me parece espantoso em quem se intitula no pé de página como advogado é esta explícita defesa do copo aliado à condução. Que um bêbado se rebente num talude, não me aquenta nem arrefenta. O que me chateia é que o bêbado ao volante de um instrumento de morte, mate, fira ou sequer assuste alguém. Isso, entrar num carro com um copo a mais é um crime. Contra nós todos que também circulamos mas apenas movidos a água. O Dr Teles pode, querendo, afogar-se numa barrica de vinho tinto ou noutra menos vulgar de “bourbon”. É com ele. Não pode, muito menos deve, vir fazer a apologia do copo a destempo. Do copo que regra geral mata mais inocentes que culpados. Eu desconheço a idade do advogado Teles. Temo que ele nem sequer tenha tido tempo de conhecer bem o Dr Salazar. E temo muito mais que pretenda vir defender à pala do jaquinzinho ou do cigarro a condução sob efeito do álcool para a qual, douto colega, não deveria haver qualquer espécie de tolerância. E chame-me fascista à vontade...
19
Dez07

geografia para todos!

d'oliveira

O reino dos Algarves ou a versão mapa de Portugal do Finantial Times.

Não, não é um jornal espanhol, sequer um americano, que publica este mapa do torrãozinho de açúcar.

É um dos principais jornais da nossa mais velha aliada, essa mesma do Tratado de Metween, do duque de Wellington, perdão do Douro, do mapa cor de rosa e de outras igualmente gratas manifestações de fraterno amor.

Afinal não é só por cá que se começam a revelar as potencialidades do "eduquês" aplicado ao ensino da geografia política.

Começa a perceber-se porque é que Gordon Brownchegou atrasado às festividades do tratado. Pensava que era em Albufeira que se devia assinar esse monumento á nova e esplendorosa Europa.




ilustração gentilmente cedida por MSP
19
Dez07

missanga a pataco 38

d'oliveira



Duas rectificações


Nem sempre escrevemos o que pensamos ou o que queremos. Ou o que sabemos.

Num texto em que me congratulava com o prémio Pessoa atribuído a Irene Flunser Pimentel referia que a notável historiadora não fora empregada pela Universidade. Baseava-me em textos jornalísticos, infelizmente pouco fidedignos. Na contracapa do livro "A História da PIDE" vem bem explícito que a autora é investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciencias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Suponho que o dito instituto terá o excelente hábito de pagar aos seus investigadores pelo que deixa de ter fundamento a minha acusação à instituição universitária.

No mesmo texto, se não estou em erro, classifiquei de "burrice" a tese dos que defendem a sujeição do Tratado Europeu a referendo. Trata-se de uma desqualificação a pessoas que têm todo o direito de pensar que um documento dessa importância (ou que passa por ter essa importância) deveria ser alvo de um voto expressivamente popular. E que vai além do que penso.
Pessoalmente julgo que vivendo os europeus em regimes parlamentares é ao Parlamento que incumbiria essa tarefa. Para alguma coisa hão-de servir as "Señorias", os "Onorevoli" e as restantes Excelências que abancam nos hemiciclos. O referendo é uma instituição que me não convence justamente porque é dificilmente reductível a consultas simples de resposta clara e rotunda, sim ou não.
Todavia, e porque entre nós foi apregoado o recurso ao referendo por PS e PSD, entendo que tais partidos, se tivessem um mínimo de pudor ou de vergonha, deveriam cumprir as promessas e não refugiar-se em falácias, como aconteceu. Este Tratado não é assim tão diferente da finada "constituição" anterior para merecer tratamento diferente. Estamos perante um grosseiro expediente que, infelizmente, não nos afecta apenas a nós portugueses. Os restantes governos europeus (pelo menos os que anteriormente celebraram referendos...) estão no mesmo barco. Um feio e triste barco. Onde aliás podem embarcar os cavalheiros do Bloco e do PC que, só por oportunismo, cavalgaram a vaga referendária. Trata-se de organizações que graças ao famoso centralismo democrático, seu emblema e estigma de origem, sempre se estiveram nas tintas para o pópulo. A democracia de que se fazem eco passa-lhes logo que têm uma restea de poder.
19
Dez07

missanga a pataco 37

d'oliveira

Variações sobre a língua que se escreve

De quem é a língua portuguesa? Pois de todos os que a falam, sem distinções. Ou, por outras palavras, de portugueses, de brasileiros de africanos de um punhado de malaios que teimosamente se apegam a um português perdido que, para eles, os distingue.
Dizer que há proprietários maiores e menores da língua releva de uma pobreza intelectual confrangedora. A língua felizmente não tem dono pese embora o facto de num dos lados do Atlântico habitarem cento e muitos milhões de brasileiros. Eles falam uma língua. Não a possuem. Só uma estridente falta de cultura permite avançar neste campo com a lei dos números.
Falam uma língua, usam uma ortografia que razões de vária ordem foram diferenciando daquela que neste canto se usa. Nunca, que se saiba, isso impediu que uns e outros se entendessem, que portugueses se estabelecessem no Brasil e aí fizessem vida como ocorreu até há umas dezenas de anos ou que brasileiros começassem a demandar Portugal como emigrantes, dando uma nova vida e uma nova alegria a estas baças paisagens.
Todavia desde há dez, quinze anos o pais agita-se com uma discussão que não sendo original não tem desde que começou (e começou há cerca de um século) interessado senão uma elite. O povo chão não liga e nunca se preocupou com as pequenas diferenças ortográficas dos dois países. Verdade se diga que não foi isso que impediu as elites de se lerem reciprocamente. E não será a unificação ortográfica que vai pôr o Zé Povinho a ler Graciliano Ramos. Ou Raduan Nassar. Que também não é lido pela minoria ilustrada portuguesa, mas isso é outro falar. Esta é a primeira desonestidade intelectual brandida pelos unificadores: que uma ortografia única faria entrar no Brasil uma falange de pequenos e médios escritores portugueses. Não entraram e não entrarão mesmo que eventualmente ofereçam os seus livros em saldo. E Graciliano ou Drummond serão sempre autores minoritários no país que esgota sucessivas edições de “Equador”.
A segunda falácia é a de que em Portugal se usa uma ortografia difícil. É provável. Também ingleses e franceses têm ortografias estranhas para um não falante (e para muitos falantes indígenas) e isso nunca impediu de se entenderem com os restantes falantes das suas línguas. No caso inglês dá-se até a curiosidade de haver inúmeras palavras que se grafam diferentemente na América, theatre por exemplo. O que não impediu alguns americanos de lerem Defoe e de um punhado de ingleses apreciar Hemingway.
Dizer que a ortografia deve seguir a língua falada releva do mesmo voluntarismo: primeiro porque nesse caso a simples deriva dos sotaques poderia levar a variações bem maiores. Segundo porque a levar o princípio á letra até se poderia ir eliminando algumas letras desnecessárias. Não estou certo se foi Wells quem propôs a eliminação de uma série de letras por inúteis. E de facto se pensarmos bem para que precisamos do ç se já temos o s? E se o s valer sempre S para quê os dois ss? E para que queremos o q quando há o c (em espanhol escreve-se cuando e ninguém que eu saiba se preocupa com o facto de em francês ser quand ou em português quando. Identicamente o x substitui com vantagem o ch, coisa complicada, duas letras para quê se uma basta? Mas há mais: o h, fora o uso que o verbo haver lhe dá (há para não se confundir com à) e a junção ao l para produzir o som lh (que em Espanha se obtém dobrando o l (ll, muito mais lógico aliás) é de uma inutilidade temível. Só chateia e faz as pessoas enganarem-se quando escrevem ipótese sem h que só lá vem no princípio por isso mesmo, para chatear.
A menos que a ortografia seja algo muito diferente, quase imaterial e tenha a ver com o modo de ser de uma determinada comunidade, com os seus mitos, a sua maneira de encarar o mundo, a própria língua.
Ainda há pouco, em França, a supressão do y em meia dúzia de palavras provocou um terramoto e centenas de artigos. Que inclusivamente vinham também das antigas colónias. Mas isso é noutro mundo, como habitualmente.
Finalmente leio com espanto, pouco diga-se, que os novos países de língua oficial portuguesa pedem em alta grita passagem para o W, o Y e o K que entendem fundamental para o seu modo de falar “português”. Dir-se-ia que “kwanza” é mais explícito que cuanza. Ou pelo menos terá um maior valor monetário em relação ao euro, o que me parece duvidoso, dada a pouca sensibilidade das autoridades monetárias internacionais nestas questões terminológicas ou apenas meramente ortográficas.
Pessoalmente trocaria o acordo ortográfico por essa coisa bem mais interessante que seria receber os emigrantes africanos e brasileiros como se da família fossem. E não com os acentos racistas e brejeiros com que se encara um cidadão negro uma mulher brasileira. Mas isso é muita areia para a camioneta das criaturas acordantes.

a gravura: Raduan Nassar um escritor sublime.
17
Dez07

Diário Político 69

mcr

Francamente, não queria falar disto...

Está na berra a independência do Kossovo. A julgar pelos jornais trata-se do problema nº 1 da Europa. Convenhamos que problema é, mas nº1? Convenhamos igualmente que o problema foi provocado também pela Europa. Não que a Sérvia, a Albânia e as populações albanesa e sérvia kossovares não tenham dado uma enorme ajuda, que deram, claro. Todavia, indo um pouco mais ao fundo da questão kossovar não seria mau saber, de uma vez por todas, que aquela terra não era só a dos maus sérvios e a das vítimas albanesas. Há vinte e tal anos que a imprensa internacional noticiava, a par de exacções do regime de Belgrado, outras menos visíveis mas igualmente brutais da autoria dos albaneses. Antes mesmo da queda da Jugoslávia. Não foram assim tão poucos os sérvios assassinados, expulsos ou empurrados para fora do Kossovo. Mas dessas miúdas violências falava-se pouco porque as vítimas não eram as politicamente correctas.
Depois, já mais para o nosso tempo, criou-se a segunda grande ilusão: os kossovares estavam a ser massacrados impiedosamente pelos malvados sérvios. A opinião pública europeia que assistira impotente a Srebenica exigiu em alta grita acção e mão dura. E foi o que se viu. Para libertar o Kossovo do exercito de ocupação bombardearam-se as fronteiras da Sérvia com a Hungria. Devia ser por estarem perto... E o Kossovo foi libertado dos soldados de Milosevich. E ocupado pelos gangs que se conhecem. E pelas escassas forças mandadas pela Europa que assistem impotentes ao desastre irremediável dum pequeno território devastado por ódios étnicos, religiosos, pela brutalidade das quadrilhas do tráfico de mulheres e de droga e por uma incomensurável ignorância dos bons samaritanos.
O problema todavia não fica por aqui.
É que a independência do Kossovo pode a breve trecho questionar a situação de outras regiões dentro da antiga Jugoslávia. As minorias albanesas e kossovares na Sérvia propriamente dita, e as que estacionam na Macedónia, por exemplo. Que é que lhes vai suceder? Vão pedir mais autonomia ou vão ser empurradas para o Kossovo independente, sua “pátria natural”? E os sérvios kossovares, 30 ou 40 mil criaturas que ainda restam, menos de cinco por cento dos que até há 15, 10 anos habitavam a região, ficarão lá ou serão deslocados para a Sérvia?
E o que vai suceder a esse molho de bróculos que se chama Bósnia Herzegovina onde mais de metade da população é sérvia ou croata? As regiões onde estes são e sempre foram maioritários (e agora exclusivos habitantes) deixar-se-ão ficar nessa inexistência política ou tenderão a juntar-se (até porque as fronteiras não existem) às duas entidades “cristãs”?
Mas vejamos um pouco mais longe. A Córsega que há anos (desde sempre, quase) se reivindica não francesa não poderá, face a este novo direito internacional, pedir a independência? E o Alto-Adige italiano de costumes e raízes germânicas porque não poderá juntar-se à Áustria? E o “Pais Basco”, com ou sem Navarra? E a Catalunha? E as regiões anexadas pela Roménia? E as que se auto-proclamaram independentes? E as minorias húngaras, não terão direito a constituírem-se como entidades autónomas dentro da Eslováquia, por exemplo e para não ir mais longe? E os Sudetas? Poderão regressar os milhões expulsos pela pulcra Checoslováquia em 45? A Prússia Oriental reverá os seus antiquíssimos habitantes? E a Pomerânia tirada à Alemanha pela nova Polónia que por sua vez perdeu territórios a leste? Acaso os independentistas bretões que Paris sempre tratou como terroristas não terão aqui a sua pequena oportunidade? A Dalmácia que Tito esbulhou e ofereceu à Croácia não terá direito a constituir-se como entidade autónoma?
Dir-se-á que aqui se misturam questões diferentes. É, e não é verdade. A Europa, sobretudo a central, é uma mistura inextricável de populações que, vítimas ou cúmplices dos antigos impérios centrais, se foram lentamente cantonizando (palavra desagradável inventada por uns patuscos que brincaram à geografia política nos últimos vinte anos do século passado), misturando, perseguindo, combatendo, tudo à vez, e de que subsistem línguas vivas e faladas, ódios velhos, irredentismos novos, nacionalismos e fascismos para todos os gostos.
A Europa, tão ciosa –em palavras – da sua diferença face aos Estados Unidos revela-se no Kossovo (que de resto só foi “libertado” graças ao poder aéreo americano) tão indigente de ideias e de princípios quanto os americanos no Iraque. Não sabe o que deve fazer, teme todos os cenários, está provavelmente arrependida do mau passo dado, assiste impotente às palhaçadas de uma série de líderes políticos sérvios e kossovares e vê, ao longe, mas com uma terrível certeza novas longas filas de desgraçados empurrados dos seus lares em direcção a a uma terra estranha. Do Kossovo para a Sérvia, da Sérvia para o Kossovo , da Macedónia para o mesmo destino. Tudo isto ao som do clamor dos irredentes sérvios e croatas nessa mascarada política ingovernável e inexistente de per si que se chama Bósnia Herzegovina.
Não hão-de faltar os que dirão que é dos Balcãs que nos vem as desgraças. Falso: somos nós quem leva a desgraça aos Balcãs.

17
Dez07

BRINCAR COM O REVÓLVER DE CAMILO

JSC
O Jornal das Artes e das Letras publicou uma interessante nota biográfica, da autoria de F. Ribeiro da Silva, sobre “Camilo Castelo Branco e a Irmandade da Lapa”. O artigo está repleto de factos e de nomes. Também se refere ao legado efectuado à Irmandade de alguns bens pessoais de Camilo, que identifica: “um tinteiro de bronze para duas tintas; um pesa papel de bronze; uma lâmpada de bronze, para escrevaninha; uma tezoura de bronze, um cabo de madrepérola e ouro, para pennas”. Este legado é acompanhado do pedido destes utensílios serem usados pela Meza Administrativa da Irmandade na sala das suas sessões. Àqueles bens juntaram-se outros, “entre os quais o revólver de Camilo, em cujo carregador falta uma bala”. Diz-se que terá sido a bala com que se suicidou.

Contado isto, confesso que na arrecadação, tipo arquivo onde aqueles bens estavam pseudo arrumados, nunca vi uma “lâmpada de bronze” nem o “cabo de madrepérola e ouro”, mas eu, com catorze, quinze anos, que nunca pertenci à Meza Administrativa da Irmandade; que estava na base da pirâmide dos seus trabalhadores; usei o tinteiro de bronze e a penna, brinquei (e muito) com o revólver de Camilo (que não tinha balas), com o qual me devo ter imaginado artista em filme de cowboys. É que eu adorava filmes de cowboys!

Agora que li o artigo do Jornal das Artes, Letras e Ideias fiquei satisfeito por relembrar o meu lugar de refúgio na adolescência e por saber que a Irmandade encontrou um lugar melhor e mais digno para guardar aqueles objectos, carregados de memórias.
15
Dez07

MICRO-SOCIEDADES

JSC

Segundo os jornais de hoje o Ministro Rui Pereira afirmou que despachou favoravelmente um pedido da Inspecção-Geral da Administração Interna para ampliar a investigação sobre o eventual envolvimento de polícias em esquemas ilegais de segurança nocturna. O Público titula que o “Ministro da Administração Interna admite que haja polícias a fazer segurança ilegal”.

Fernando Madureira, líder da claque dos Super Dragões disse ao Público que a sua claque é "a maior claque da cidade do Porto e por isso o óbvio é associar a vaga de crimes à claque”. Disse ainda, cito agora o Público de 13/12, que «a "claque é grande" e que engloba diversos "grupos e classes sociais". "Há polícias, há ladrões... não somos mais do que uma micro-sociedade"».

Claro que o único elo entre estas declarações é a violência na noite portuense. Mesmo assim não deixam de ter leituras cruzadas.
15
Dez07

Estes dias que passam 87

d'oliveira

De prémios, de amigos, da vida


E comecemos pelo prémio. Irene Flunser Pimentel ganha o “Pessoa” no meio de aplausos mais ou menos gerais. Vou a um terço do livro e, até ao momento, com grande gozo. Escrita simples, documentação abundante, um regalo. O livro chegou-me tarde porque achei que seria mais simples pedi-lo via “círculo de leitores”. Não foi mas até amanhã ou depois estará lido que é o que interessa. O prémio dá-me gozo também por uma razão muito cá de casa: a Irene Pimentel foi colaboradora da “Centelha”, editora inconveniente e perseguidíssima que um grupo de compinchas da crise de 69 em Coimbra resolveu fundar para continuar no seu pequeno mas honrado trilho de resistência. Saber que esta senhora também alinhou com a malta é, creiam-me, mais outro motivo de alegria. De alegria disse, não de orgulho, porque a obra é toda dela e nós, para aquilo, se alguma coisa demos foi só personagens secundárias às voltas com a Gestapo portuguesa (para citar um dos seus retratados).
Uma mulher sozinha a dar cartas nesse difícil capítulo da história contemporânea. E nem sequer está ligada à Universidade!!! Dizem-me que é por não ter idade para entrar na funçanata pública. Ora porra! A universidade fica sem uma colaboração que poderia ser valiosa, os estudantes sem uma professora que seguramente lhes agradaria e a Pimentel que se desenrasque à sua custa. Ao mesmo tempo, tenho a certeza absoluta, andam pelos institutos universitários ligados à investigação, muitos gambuzinos a fingir que fazem mas não fazem. Porra, outra vez!
Eu até mandaria daqui um convite ao doutor Gago ou à outra senhora da Inducação mas nem isso. Não vale a pena. Mesmo que eles, agora, num repente arrependido, contratem a premiada. Tarde, chegam tarde. Os anos que já se perderam. É que a Doutora (por extenso) Irene Pimentel já tem obra feita e publicada. E boa! Veremos se o milagre do “Pessoa” transforma em rosas os espinhos que, decerto, ela terá encontrado no seu caminho.

Amigos vários têm aparecido ou dado notícias. Malta que está na brecha, activa e a carburar. Desde o Francisco Bélard que muita falta faz no jornal onde escrevia e que apanhei na inauguração da Leitura “books and living” sempre a fariscar uma novidade (e se ele faz bom uso delas!) e que me pôs a par das últimas lisboetas, até ao João Melchior Gomes colega episódico (fugaz, diz ele) em Coimbra e que descubro meu leitor. E finalmente o perigoso leitor (sempre vi aquele tipo a ler, seja dito de verdade) Horta Pinto, um advogado que trabalha sob a dupla égide de Kafka e do Quixote. Por aqui se vê quanto ele acredita nas histórias de fadas da justiça que temos e que ajudamos a fazer. Curiosamente, ou não, estes três companheiros de longos anos distinguem-se pelo humor com que vão contemplando o mundanal espectáculo lusitano. Um tipo que aqui vai remando gosta de vez em quando de saber que amigos o lêem e lhe perdoam os desvarios que vai pondo no éter. Ao mandar-lhes um abraço, estou a mandar um abraço a todo(a)s que me aturam desejando-lhes que escapem incólumes deste natal e que entrem de cabeça fresca no ano bissexto que se aproxima.

O país despede-se da presidência da União ao som das fanfarras que celebram o alto feito do governo em ter levado ao fim a tarefa. Convenhamos que anda por aqui algum exagero. Fizemos (Eles fizeram) o trabalho de casa, a coisa saiu compostinha, não se armou nenhuma barraca das gordas mas é isso mesmo que se espera das presidências da União. Ou não? Agora, gargarejar com a cimeira dos africanos (e nisto misturo gente sã, com um punhado de sobas do piorio, como o acampado de Oeiras e seus vizinhos magrebinos, gente que nunca deve ter ouvido falar em democracia, direitos humanos, povo e outras ninharias (e nisto meto os Mubarack, os Ben Ali, o sultãozinho, o cavalheiro de Argel, todos sem excepção). No que diz respeito à África “negra” também nem tudo são flores que se cheirem. Desde o eterno presidente angolano (a propósito saiu um livro sobre a mortandade de há 30 anos em Luanda: Purga em Angola, de Dalila e Álvaro Mateus, Asa. Leiam-no primeiro e depois digam-me o que se deve pensar da actual clique governamental angolana) a um largo grupo de criminosos, tudo cá esteve a falar em nome das desgraçadas populações suas vassalas e suas, sobretudo, vítimas. Esta cimeira, desculpem lá, não adianta nem atrasa como em breve se verificará. A terceira corre o risco de se realizar na terra do guia iluminado da Líbia, um cavalheiro que ainda não respondeu por uns aviões explodidos em pleno ar. Nem responderá porque o cheiro intenso dos milhões do petróleo apaga ou sobrepõe-se ao cheiro agoniante do sangue. Andou por aí com a sua tenda circense, as suas guarda-costas e uma universidade portuguesa a ouvi-lo babada dizer dislates. Conviria lembrar à dita universidade que não é Columbia quem quer mas só quem pode. E que entre o totó do Irão e este terrorista não arrependido ainda vai alguma distância.

O tratado ontem assinado é isso mesmo. Ou nem sequer. Não adianta muito mas sempre disfarça a cegada de não haver nada há já uns tempos. Não é Roma nem Maastricht por muito que isso custe ao orgulho nacional. Vai ser pudorosamente ratificado pelos parlamentos porque a populaça, de vez em quando, perde a cabeça. Sempre achei que assim deveria ser feito. Sempre achei que a ideia de um referendo era burra e parola. Mas a verdade é que houve mesmo uns patetas que defendiam o referendo. E, assim sendo, deve manter-se a palavra dada. Agora tergiversar, assobiar para o lado ou vir invocar diferenças abissais entre a triste Constituição falida e "isto", é gozar com o pagode. Chamar-nos parvos a todos. Como de costume.
Todavia lá se assinou o tratado mesmo com Brown atrasado. Aqui para nós: os "bifes", nisto de Europa, atrasam-se e atrasar-se-ão sempre. Está-lhes na massa do sangue. O que eles gostavam era de ser mais uma estrelinha na bandeira dos americanos. E se lá pusessem a rainha que delírio! Ou mesmo a princesa Diana, a do povo... que Blair inventou para gáudio das leitoras da imprensa cor de rosa. Pena estar morta...

O senhor Procurador Geral da República acaba de chamar ao senhor Director Nacional da PJ incompetente. Pelo menos! Já não falo das criaturas do DIAP do Porto porque estas, ao fim e ao cabo, são dependentes do PGR. Os jornais contam com abundância de pormenores os problemas da investigação sobre o OK Corral tripeiro. Afirma-se, e não me repugna acreditar, que a polícia sabe quem deu ao dedo e mandou ad patres um par de cavalheiros que não me merecem sequer uma lágrima. Sabe mas não tem provas. Ou não tem provas suficientemente sólidas para não serem rebentadas por um desses advogados espertalhões, que os há e muitos. A ver vamos se uma senhora procuradora, lá ao longe, consegue fazer o milagre de converter o mutismo siciliano que ora impera no Porto e arrabaldes, em confissões. Por mim, não aposto um tostão dos antigos nesta operação.

E já que estou com a mão na massa, lá vai. Há um novo bastonário na Ordem dos Advogados. Eu não votei, até porque não posso. Se votasse provavelmente não votaria nele. É, para meu gosto, muito tonitruante. E imprudente. Não sei se ele pensa a sério que a profissão vai continuar a ser uma profissão de profissionais isolados ou se, lá no fundo, já se conformou com a ideia de que as sociedades de advogados são o futuro. O que me parece é que não se pode chamar aos profissionais isolados os “proletários” da advocacia. Proletários seriam (seriam...) os advogados empregados das grandes organizações profissionais. E mesmo assim... Em segundo lugar parece-me ridículo e perigoso afirmar que os advogados, por o serem, devem estar proibidos de pertencer ao parlamento. Isso, essa capitis deminutio (se é que o Dr Marinho conhece o termo), é de bradar aos céus. E os médicos? E os enfermeiros? E os engenheiros civis ou os arquitectos? Então o parlamento não legisla sobre saúde, medicamentos, construção civil e sei lá quantas coisas mais? Em França ou em Espanha (ou em qualquer outro país onde exista parlamento, também se proíbe os juristas de dizer de sua justiça enquanto eleitos? Achará o Dr Marinho que leis feitas por não juristas são mais perfeitas do que aquelas em que colaboram profissionais do foro?
O dr Marinho poderia, em vez disso, questionar a carreira judicial ou do ministério público. Poderia, por exemplo, propor que se estudasse o acesso à judicatura ou à magistratura a partir de um determinado número de anos de advocacia. Se calhar ganhávamos todos: juristas e público pagante. Eu mesmo já tive a surpresa de encontrar magistrados judiciais e do ministério público a quem não faria nenhum mal uns anos de pedal na advocacia. Para aprenderem Direito e direitos. E respeito pelos que recorrem à justiça. E pelos que, na barra, os representam com dignidade. E aprenderem que a vida, a vidinha de todos os dias, não se ensina no CEJ.
Entretanto o dr Júdice meteu-se em mais uma guerra. Está zangado com a classe. Porque, queira ele ou não, foi a classe que elegeu Marinho como antes elegera o actual bastonário. A democracia, caro Zé Miguel, é uma chatice. As alternativas são ainda mais chatas.
Parece que Júdice corre o risco de apanhar um processo interno movido nem sei bem por quem. A que título? E interno porquê? Ó senhores da Ordem, aproveitem: processem-no cá fora, às escâncaras, vão a um tribunal comum, que diabo! Ganharíamos todos.

A gravura de hoje reproduz a capa de mais um livro (um grande livro!) ilustrado por Pedro Sousa Pereira (um grande ilustrador).

14
Dez07

Feliz anho novo

J.M. Coutinho Ribeiro
Já aqui escrevi uma vez que a nossa vocação incursionista tem muito a ver com umas boas jantaradas, distribuição de postais ao vivo, boa-disposição, conversas cruzadas, conciliação de diferenças, recuperação de memórias, coias mais sérias e outras mais ou menos tontas (esta parte é para mim), charutos e cigarros para quem fuma, vinhos criteriosamente escolhidos. E afectos. Porque é assim, conversei há dias com o JCP sobre a eventualidade de organizarmos um jantar no Marco de Canaveses, terra de onde viemos, com os incursionistas que queiram, para nos debatermos com a candente questão de arrumarmos um anho assado com arroz do forno, coisa em que o JCP é mais especialista do que eu, pois faz parte da confraria do dito, com direito a farda, chapéu e tudo, circunstância que me levou a fugir a sete-pés quando quiseram entronizar-me na coisa. Mas eu gosto do prato. E não tenho sido muito assíduo por uma questão de fusos. Trata-se de uma iguaria que na região se come ao almoço que é coisa que, como se vai sabendo, não frequento, razão pela qual quando como já é vagamente requentada. Mas há formas de dar a volta à questão, com algum engenho e boa-vontade: do JCP, que é confrade, e da minha que tenho ligações familiares à restauração local. Sendo assim, creio ser absolutamente possível organizar uma incursão ao Marco para tratar do assunto, ao jantar, encomendando antecipadamente um anho a preceito. Não se preocupem. Os do Marco pagam, que não fazem mais do que a sua obrigação. Claro que não estou a pensar que trataremos disto nos próximos dias, de tão ocupados que andarão com os jantares de Natal. Mas talvez logo no princípio do ano novo, digestão feita das festas. Que dizem?
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