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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

28
Jan08

Corrupção & Inquérito

JSC

É ler aqui, aqui e aqui mais umas tantas opiniões sobre o tema. Segundo a imprensa de hoje parece que a corrupção estará na ordem do dia na cerimónia de abertura do ano judicial. Como se pode concluir da leitura dos colunistas JN, grande é a confiança no sistema.
Numa outra linha, é interessante a notícia veiculada pela LUSA a anunciar que o "PSD requereu hoje a audição parlamentar do ministro das Finanças ou do novo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais". Ou seja, ainda não tomou posse e já está a ser chamado à pedra. Isto é um espectáculo!
27
Jan08

Corrupção, o que é?

JSC
Há temas que já nem vale a pena tratar. A corrupção é um deles. Sempre que alguém fala em corrupção logo se levanta um coro a pedir nomes. Depois, os nomes não aparecem ou se aparecem não há meio de provar. Fica-se pelos indícios ou nem isso.

A corrupção é como uma corrente marítima, sente-se, cheira-se, segue-se-lhe o rasto, mas não se agarra. Pior, se não temos cuidado, até nos pode fazer mal… ficarmos constipados ou apanhar uma pneumonia.

Por vezes, muitas vezes, a corrupção é uma arma usada pela oposição para atacar os que estão no poder. É quase como aquela coisa de vender os medicamentos a retalho. Quando se está no poder não se concorda. Quando se está na oposição exige-se que o governo aprove a medida. A corrupção é qualquer coisa parecida com isso.

Acontece que a corrupção teria que se traduzir num sistema hierarquizado. Na base teríamos os menos corruptos e no topo os mais corruptos. Ora como é que se poderia estruturar um sistema destes? Impossível. Deste modo, temos de concluir que a corrupção é um fenómeno incontornável, tal como as correntes de ar, que se pressente, mas que nunca está onde se crê que está.

Por isso, de tempos a tempos, alguém aparecerá a mostrar os indícios. Contudo, quem vê, não vê o que esse alguém vê. E tudo se dilui como se um mundo de sombras corresse por entre desfiladeiros reais, mas inacessíveis ao braço da justiça.
26
Jan08

"descubra as diferenças"

ex Kamikaze
O Carlos adiantou-se, na Grande Loja do Queijo Limiano, ao postal que eu ia escrever aqui. Na mouche, Carlos!

E o burro sou eu? Descubra as diferenças

Saldanha Saches
"Nas autarquias da província há casos frequentíssimos da captura do Ministério Público (MP) pela estrutura autárquica. Há ali uma relação de amizade e de cumplicidade, no aspecto bom e mau do termo, que põe em causa a independência do poder judicial".

DESPACHO
Exposição subscrita pelo Doutor em Direito, José Luís Saldanha Sanches*, na sequência da deliberação do CSMP em sessão de 6/6/2007. O Conselho deliberou dar por encerrado o caso uma vez que não foi especificado qualquer caso concreto que não tenha sido já averiguado e objecto de apreciação pelo Conselho e, por outro lado, as restantes considerações gerais constantes da exposição em causa constitui um exercício livre de crítica num regime democrático. Aqui.


António Marinho Pinto
"Existe em Portugal uma criminalidade muito importante, do mais nocivo para o Estado e para a sociedade, e que andam por aí impunemente alguns a exibir os benefícios e os lucros dessa criminalidade e não há mecanismos de lhes tocar. Alguns até ostensivamente ocupam cargos relevantes no Estado Português".

DESPACHO
Tendo em consideração as declarações do Senhor Bastonário da Ordem dos Advogados proferidas em entrevista dada a um órgão de comunicação social, a gravidade das afirmações feitas e a repercussão social das mesmas, determino:
Ao abrigo do disposto nos artigos 241º e 262º do Código de Processo Penal, a abertura de inquérito e, nos termos do artigo 68º do Estatuto do Ministério Público, designo, para dirigir a investigação de tais factos, a Senhora Procuradora-Geral Adjunta, Drª Maria Cândida Guimarães Pinto de Almeida, Directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, que será coadjuvada pela Senhora Procuradora-Adjunta, Drª Carla Margarida das Neves Dias, do mesmo departamento. Aqui.

25
Jan08

Diário Político 75

mcr

América, América...

Há entre nós um respeitável cavalheiro idoso, a quem o pais deve bastante mas que perde a cabeça quando fala nos Estados Unidos. Em se tratando dos “américas”, o excelente senhor esquece rapidamente todos os apoios que recebeu nos anos difíceis de implantação da democracia e chega a jurar por Chavez ou Fidel. É obra!
Todavia não é disso que quero falar mas apenas do facto da nossa vida estar constantemente à mercê do que se passa entre os Grandes Lagos e o Rio Grande. Sirva de exemplo esta crise das bolsas, este persistente sentimento de retracção, este tem-te não caias dos mercados financeiros. E os dedos apontam todos, acusadores para Wall Street. Como se esta “wall” fosse o “paredón” onde se executam todos os inocentes especuladores europeus e asiáticos, virtuosos e cheios de “graça”.
Ora bem, as coisas não são assim tão simples nem tão fáceis. Que a América carregue um bom par de pecados, de acordo, mas não todos. Então e os tais fundos “soberanos”, essa dinheirama imensa que vem dos países “emergentes”, para não falar dos “petroleiros”, cujos biliões correm mundo à procura de ganhos rápidos. E os investimentos europeus que também não dizem que não a estas bruscas mudanças de destino consoante os ganhos valem ou não a pena?
O restrito clube dos donos do dinheiro não tem escrúpulos quando se trata do seu capital. Um pouco como os grandes accionistas de um conhecido banco português... cujo desamor pelos pequenos e pelos depositantes tem dado direito a grandes parangonas.
Claro que as famosas sub-primes também não estão inocentes longe disso mas a verdade é que no essencial tudo se reconduz ao desregramento liberal dos últimos anos, à facilidade com que certas pessoas mexem no dinheiro, no seu e, sobretudo no nosso.
E vem a talho de foice esta história mirabolante de um jovem brocker francês, empregado da “Societé Generale” que “evaporou” cinco biliões de euros, uma soma idêntica ao produto interno bruto da Nicarágua!!!
Para além de ser surpreendente o facto de um brocker, jovem (31 anos) poder mexer em tanto dinheiro, como é que se explica que o Banco, um banco poderoso, não ter intervindo a tempo? O jovem brocker está desaparecido mas promete não faltar quando a polícia o chamar. Esperemos que sim, que não falte. Que esteja vivo, enfim.
O que mais me perturba nesta história, que não me atrevo a qualificar de polícias e ladrões, é a “calma” do banco. Não foi nada, dizem os seus responsáveis, nós mesmo assim temos lucros! Dois biliões, parece.
Não acham extraordinária toda esta saga?

Regressemos aos Estados Unidos para comentar com alguma inveja e bastante admiração essa greve dos guionistas de Hollywood que dura há meses e que paulatinamente vai obtendo mais e mais apoios. E depois digam-me que os sindicatos estão em crise, como certas alminhas portuguesas se apressam a anunciar. Com crises destas podem os trabalhadores bem.
Uma palavra, a penúltima para referir a morte anunciada de Vassili Alexanian, preso preventivo há dois anos por pertencer ao grupo financeiro Yukos. O Supremo Tribunal da Rússia negou hoje a sua solicitação para ser transferido para um hospital civil. Alexanian está tuberculoso e sofre de SIDA. A partir de hoje só uma eventual amnistia por ocasião da próxima eleição presidencial em Março o poderá salvar. Todavia, é voz corrente que o preso não chega vivo a esses “idos de Março”. Como se vê na Rússia os financeiros tem outra sorte consoante são ou não amigos do poder.


Um abraço forte ao Dr. Lemos Costa. Vai vencer este mau passo. Tem de o vencer. Muss es sein soll es sein.


d’Oliveira


25
Jan08

Au Bonheur des Dames 108

d'oliveira


Um senhor?


Um Senhor!

Assim mesmo, com letra grande. Refiro-me, claro, ao fundador (e amigo leal e sempre presente) deste blog: Lemos Costa ou, como, na sua proverbial discrição assinava, L.C.
Tive oportunidade de contactar com ele um par de vezes, a última por acaso, durante a visita, o raid, que a Sílvia, a nossa loira e bonita agente no Rio de Janeiro, fez ao torrãozinho de açúcar. O L.C. compareceu no festivo ágape portuense que reuniu a flor dos colaboradores nortenhos em volta da Sílvia. Trazia com ele, para oferecer à homenageada, um livro do Michel Onfray.
A propósito do livro, e enquanto esperávamos pelos restantes companheiros de galera, conversámos um belo pedaço (que esta malta no que diz respeito a horários é assim a modos que avessa, se é que me entendem). O diabo do homem é um poço de conhecimentos, de humor finíssimo e de curiosidade. Como profissional fez uma carreira notável mesmo se a discrição fosse o seu leme. Não foi mais longe porque, logo que se apanhou a jeito, se despediu. Mas estava na calha, olá se estava. E, sobretudo, era respeitado no “milieu”. Falo de fora, evidentemente, que eu arreneguei do Direito há muitos e bons anos. Mas o punhado de amigos que ainda por lá andam foi-me informando sempre do cursus honorum deles e dos restantes e o LC aparecia em todas as listas.
Deu-lhe agora uma camueca chata e que exige cuidados sérios e alguma sorte para ser levada de vencida. Um ateu não pode rezar e, de resto, parece-me que, nestas coisas, é a ciência médica e não o milagre quem diz a última palavra. Todavia, se os votos de um bom par de cidadãos puderem ajudar, aqui vão os meus, os do escultor Sousa Pereira, os do António Carlos Sobral e mais uns quantos que, ao lerem isto, de certeza se associarão.
Salut i força nel canut, LC.
E um abraço

24
Jan08

Ao fundador-mor do Incursões toda a força que possa haver na amizade

ex Kamikaze
Nos idos de 2004 (tanto tempo já!) L.C., um magistrado do M.P. a trabalhar no Tribunal da Relação do Porto, congregou um pequeno núcleo de gente de dentro e de fora dos tribunais num projecto a que chamaram Cordoeiros. Era um projecto ambicioso: tratava-se de criar, na blogoesfera, um espaço informativo e de de intervenção cívica, à volta de temas relativos ao direito e ao judiciário, à sociedade e à cultura. O projecto era pioneiro e durante muito tempo os Cordoeiros foi o único blog com estas características em Portugal, tendo sido palco de interessantísimos debates que captaram a atenção e o interesse das magistraturas e não só. A os Cordoeiros seguiu-se este nosso Incursões e, mais tarde, o Cum Grano Salis.
Em todos eles L.C. com o seu saber jurídico, a sua profunda sensibilidade cívica e cultural, o seu refinado gosto estético e a qualidade da sua escrita, pontuada de certeira ironia, marcou de forma indelével.
Embora já colaborasse nos Cordoeiros, foi através do Incursões que fui conhecendo melhor o L.C. e momentos houve em que a empatia gerada neste espaço virtual foi enorme. Viria a conhecê-lo pessoalmente só algum tempo depois, e se alguma coisa me surpreendeu naquele que já tanto considerava, foi a sua enorme discrição pessoal (compreendi então porque razão um magistrado de tal qualidade profissional e humana nunca estivera em lugares de especial relevo).
L.C., recentemente a gozar as delícias que o tempo livre conquistado com a reforma proporciona às pessoas que, inteligentes e cultas, sempre tiveram mais interesses que os estritamente ligados ao exercício da profissão, foi esta semana atraiçoado por uma "avaria" orgânica. Se bem que o seu estado de saúde seja delicado, acredito que a sua força interior o virá a devolver, com o mesmo ânimo, ao convívio dos amigos e familiares. Desejo profundamente que a esperança e solidariedade de quem o estima possa ajudar no encontar dessa força, pois são seguramente muitos a "torcer" por si, L.C.!

23
Jan08

Estes dias que passam 91

d'oliveira

Carta a o meu olhar”,
excelente camarada de viagem


Li com toda a atenção que os seus textos comprovadamente merecem o post sobre a ASAE. E fiquei um pouco atrapalhado. De facto, se o país for assim tal e qual o retrata, no que diz respeito a restaurantes e similares, a ASAE até carece de força: se por todo o lado imperar a falta de higiene e de condições, como V. afirma, então forneça-se à ASAE ainda mais poder e mais meios. Todavia, para surpresa minha, dos autos levantados e conclusos, extrai-se uma fotografia menos grave, muito menos grave. Um restaurante fechado durante uns largos meses acabou por pagar uma coima ridícula, coisa para vinte e tal euros. Outro, que começara por ser apontado à execração pública, viu-se livre de qualquer pagamento o que o não impediu de perder uma boa maquia pelo tempo de fecho, pela desconfiança de eventuais fregueses. E por aí fora...
Não tenho dúvidas que aqui e ali, há restaurantes a laborarem em condições deficientes. Penso, contudo que não só isso não é a regra mas que, cada vez mais, é a excepção.
Há para avaliação um largo par de milhares de autos. Bom trabalho, dir-me-á. Bom, só se se verificar o bem fundado do levantamento dos autos. Mau, se isso significar prepotência, erro de julgamento, falta de bom senso.
A ASAE é uma polícia. Antes fosse um serviço menos policial e mais adequado. Todavia é o que temos e o melhor é mexer-lhe apenas o necessário. E esse necessário passa pela formação dos agentes e dos dirigentes e não por uma preparação militar como se aquela boa gente fosse combater as guerrilhas das Filipinas, ou as FARC da Colômbia.
Ora, do lido e do respigado, parece poder concluir-se que “por vezes” a mão sai demasiado pesada, como referiu perifrasticamente o seu director. Outras vezes, o excesso de cautelas faz com que os agentes saiam para missões surpresa sem saberem bem como lidar com os alvos da investigação, sem conhecer exactamente, ou sem conhecer de todo, as especificidades do meio que vão investigar.
Mas passemos agora a um segundo ponto: o da contrafação. É verdade, mais uma vez, que um cristão passa por uma dessas feiras cheias de gente a mercar e vê contrafações. Aliás distinguem-se bem pelo ar ordinário e de contrafacão, para já não falar dos preços inacreditáveis de baratos. Parece que mesmo assim o povo, e o não povo, compra.
A ASAE entra por ali, olha à volta e, onde descortina um cigano, pimba! Umas vezes acerta, outras não. Nem todos os ciganos são vendedores de contrafação. Mas são sempre os primeiros a ser inspeccionados. É bem feito! A ciganagem que volte para onde veio que de leitura da buena dicha estamos fartos. Porém, ocorre-me uma pergunta: de onde vêm as “lacostes” falsas, as sapatilhas “nike” falsas eos jeans levi’s falsos? Não foram certamente os feirantes quem os fabricou. Ponhamos que alguma(s) fábrica(s). Ora bem: nós vemos, ouvimos e lemos que na feira de Carcavelos, na feira da Golegã, na feira de Espinho, enfim nas feiras todas do torrãozinho de açúcar se confiscaram peças de roupas, discos compactos, jogos de computador, vídeos, enfim tudo, à ganância. Por falsos, refalsissimamente falsos. Força, direi eu (coisa que por acaso não digo, porque não caio na esparrela dessas ucharias a rastos de barato. Milagres, minha excelente amiga, já houve o das rosas mas isso foi chão que deu uvas. Nestes tempos de falta de fé, de incredulidade maldosa e redobrada o único milagre é o de haver casinos onde se pode fumar...
Íamos, penso, nas contrafações vendidas por aí (e não só em feiras...) por ciganos ( e não só, bem antes pelo contrário). Não acha curioso que nunca se oiça falar dos fabricantes das mesmas que, pelo menos, no caso dos têxteis e calçado, são (eu apostava dez contra um...) nacionais?
É que se apanhassem o fabricante, fechava-se em parte a torneira. Um fabricante dá trabalho a cem, duzentos feirantes. Um fabricante não produz dez, cem, mil unidades mas uns larguíssimos milhares. Cesteiro que faz um cesto...
Porventura estarei enganado mas parece-me que a ASAE teria menos trabalho e mais proveito em se dedicar à caça grossa em vez de andar por aí a dar tiros a tordos. Claro que a caça grossa é outro mundo. Ele há influências, dinheiro (como nos casinos...), empregos, poder (incluindo o político) e isso poderá eventualmente arrefecer o entusiasmo do caçador.
Não seria a primeira vez...
A terceira parte desta maçadoria é o estilo. O estilo far-west da ASAE. O aparato. O pôr-se a jeito para a fotografia. O alvoroço. A desmesura. E tudo o que isso implica em arrogância, em abuso, em incontinência verbal (aquela declaração do senhor Nunes, “alto funcionário da administração central” (será isso ou é apenas um cavalheiro nomeado por comissão de serviço, recrutado por aí fora, na privada, por exemplo?) que, no seu alto critério, fechava metade dos restaurantes da pátria doente e corrupta. Num país menos civilizado do que o amorável Portugal, Nunes estaria já de partida para outro destino. Por cá, está, estará e pronto. Porque o seu estilo se coaduna com o estilo dos seus mandantes: primeiro arreia-se e depois logo se vê.
Nunes, na comissão parlamentar, defendeu a actuação dos seus (cow-)boys com o respeito pelas leis e regulamentos. Nunes e os seus cumprem ordens. Claro que cumprem. A PIDE idem, aspas, aspas, como se pode ler no belo livro de Irene Pimentel. Mais: raras vezes se excedia. E quando isso ocorria, os agentes eram punidos. Por excesso. O problema é que no cumprir as tais ordens e regulamentos já havia violência que chegava e sobrava.
As “ordens” que se cumprem, o “dever” que é cumprido tem saias compridas para debaixo das quais tudo se varre. E varre-se muito, demasiadamente.
E é isso que alguns portugueses, uma clara minoria, uma menosprezável minoria, acham. E que seria possível ter uma ASAE eficiente mas discreta. Capaz mas sensata. Determinada mas prudente.
Um país que viveu quase todo o século XX entre autoritarismos vários desde João Franco a Afonso Costa, desde Pimenta de Castro a Sidónio, até cair definitivamente debaixo da mão pesada do dr Salazar, pode estar habituado a viver sempre ao som do chicote. Pode até aceitar isso. Todavia a democracia é também, exactamente, a recusa disso, do chicote e do estado de espírito que ele inspira. Ou seja é preciso, uma vez por todas, alguma sensatez, alguma polidez, algum sentido critico quanto ao dever. Ou como os romanos, ou alguém por eles, diriam: est modus in rebus.

Um abraço
mcr
22
Jan08

A ASAE

O meu olhar

Como é sabido, porque amplamente divulgado, o inspector-geral da ASAE vai ser ouvido hoje na comissão parlamentar de Assuntos Económicos, a pedido do CDS- PP. Aliás, para compor o ramalhete, este mesmo partido criou um endereço electrónico para receber as queixas dos portugueses relativamente à ASAE. Acho notável este tipo de preocupação. Num país onde a contrafacção impera, onde a falta de higiene e de condições é regra nos nossos restaurantes e pastelarias, onde as leis não são para serem cumpridas mas sim contornadas, ataca-se a ASAE. Parece-me bem. Estavam a dar muito nas vistas, trabalhavam excessivamente. Parece até que os quatro mil processos-crime relativos a material falsificado que instauraram nenhum deles foi ainda julgado. Não pode ser. Além de trabalharem dão que fazer aos outros. Assim sendo, vamos lá a ver por onde podemos pegar com esta malta da ASAE. Usam meios aparatosos, não pode ser. Inviabilizam a Bola de Berlim nas praias, ora nem pensar! Fecham restaurantes por questões de higiene, lamentável porque todos gostamos de comer um bife bem passado… no tempo.

Dificilmente se ouve ou se lê uma palavra que seja de apoio ao trabalho que a ASAE desenvolve. Porque será? Que se refiram os excessos e se questione alguma ausência de bom senso é uma coisa, agora que se denigra por inteiro uma entidade que funciona neste país é algo que tenho dificuldade em encaixar. Quem sabe minimamente o que se passa nas cozinhas dos restaurantes e pastelarias deste país só tem que agradecer a actuação da ASAE. Que sejam aparatosos, que sejam amplamente noticiados, que sejam controversos, que actuem. É o que se pede.
22
Jan08

Au Bonheur des Dames 107

d'oliveira

Uma moedinha para o desempregado

O “Monde” (Le Monde se faz favor) traz hoje um artigo onde se referem os “escandalosos” ordenados, prémios, comissões, subsídios e pensões de reforma dos grandes gestores das grandes empresas. Ou seja, não é um jornal nosso, pejado “ de invejosos”, de gajos que não sabem nada de economia, de gestão de empresas, enfim de esquerdistas (irra, credo!, abrenúncio!) que se atira à dinheirama ganha por uns cavalheiros que, aliás, nem sempre levam a barca a bom porto. Do que li verifica-se que a revolta (generalizada, ou em vias disso) começou há já algum tempo no país campeão da iniciativa privada: os Estados Unidos. E a razão é fácil de descortinar. Na sequência de uma série de escândalos gigantescos que envolveram empresas igualmente gigantescas e que arruinaram multidões (gigantescas, obviamente) de pequenos accionistas que, ao contrário dos gestores das falidas empresas, se viram sem cheta de um momento para o outro. Porque é preciso dizer que a estes gestores das américas miraculosas pouco se lhes dá ganhar ou perder. Porque eles ganham sempre. Já se não fala do ordenado que obviamente é alto. Tão pouco dos prémios que, enfim, sempre se poderiam vagamente justificar pelo acumular de lucros inesperados, muito embora isso, os lucros, devessem ser o resultado natural da acção do gestor. Todavia, o que excita as multidões lesadas e o público em geral é o facto de, na hora da saída por bons ou, sobretudo, maus resultados, o gestor sai com o bolso recheado, muito bem recheado mesmo.
E isso, esse prémio à incompetência, à falcatrua, esse pecado tão comum em países protestantes onde o perder dinheiro num negócio, mais do que um azar, é quase um pecado, ou é mesmo mais do que um pecado, põe as multidões anglo-saxónicas num estado de fúria incontida.
Não admira que, neste jardim da Celeste à beira mar plantado, nesta nóvel e surpreendida “west coast” duma Europa que, paradoxalmente, não nos inveja, também se elevem uns murmúrios indignados quando se sabe da reforma de um desses prodígios do capitalismo que por cá vicejam. Imaginem um pequeno accionista desse banco a quem o dr Vara vai agora oferecer o seu talento prodigioso, que viu a sua carteira encolher como “peau de chagrin” graças à chicana guerrilheira de meia dúzia de barões da finança, saber que os ex-dirigentes expulsos manu militari da direcção da instituição levam para casa um mais que confortável pé de meia, aliás dois pés, vários pés enfim uma centopeia inteira de meias grandes e cheias de cacauzinho...
Felizmente o país é de brandos costumes, as zangas acabam as mais das vezes num “é só fumaça” como dizia um imortal primeiro ministro do século passado. Alguma ardilosa leitora dirá que de todo o modo o escândalo é gordo. Poderá ser, poderá ser mas mesmo isso passa mais depressa que brotoejas da primavera.
E depois... mesmo quando se sabe de fonte certa que a pensãozinha substanciosa existe, há sempre um desmentido. E o desmentido do desmentido. Em que ficamos? Recebeu o ex-boss dos bosses aquele dinheiro que a ávida comunicação social parangonou ou não? E se não, quanto recebeu? Menos cem euros? Menos mil, dez mil, cem mil?
A questão seria ociosa se o visado viesse ao jornal e dissesse: saí do banco X, não recebi nada, um ceitil que fosse a titulo de compensações, indemnizações ou pensão de reforma. Mas os desmentidos nunca são assim. Normalmente desmente-se não o essencial mas o acidental, ou menos ainda. F. vem declarar que não recebe trinta e cinco mil euros de reforma. E trinta mil? Ou trinta e dois mil e quinhentos?
Eu estaria pronto a perceber que um grande patrão de uma grande empresa saia com um boa batelada e o compromisso de não ir trabalhar para a concorrência. Parece-me porém que uma pensão vitalícia de sete mil e quinhentos contos dos antigos, por mês, pode fazer pensar qualquer incauto que não estamos em Portugal mas no Brunei, nos emiratos ou em qualquer outro sítio onde à falta de pardaus corra petróleo em jorros pelas terras de Basto. Pelas minhas contas, mesmo sabendo que o gestor em causa se reformou por doença (e aproveito para lhe estimar as melhoras se é que melhoras pode ter) o banco poderá ter que desembolsar durante umas dezenas de anos uns largos milhões de euros, mesmo que o pensionista não tenha direito a 13º mês e subsídio de Natal. O que, diga-se de passagem, seria uma grande sacanice que lhe fariam.

mcr, enviado especial ao Porto, diante duma televisão que felizmente lhe está a proporcionar uma genial interpretação do “Barbeiro de Sevilha” (canal ARTE) o que o salva do deprimente espectáculo do 1º canal onde um Director Geral de Saúde gagueja e brande partículas de ar permitidas para o futuro contra cinquenta mil estabelecimentos construídos num venerável passado. Não seria melhor demoli-los todos e criar cantinas radiosas de saúde de higiene com ar quimicamente puro, água destilada e comida liofilizada, vitaminada, bebível por palhinha esterilizada, num mundo sans peur ni reproche mas com muitos e bons banqueiros para emprestar os capitais necessários aos produtores de tabaco da zona da Beira Interior, para investir na Tabaqueira, em mais um par de Casinos sem os quais a civilização é uma palavra vã e as leis uma pálida cópia do código de Hamurabi?