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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

03
Jan08

Farmácia de Serviço 41

d'oliveira

Sobre a Pharmacia

Entra no seu terceiro ano esta série. Melhor dizendo está lá quase. Em boa verdade, acabo de me certificar, foi em Março de 2006 que começou a Farmácia de Serviço. Tratava-se de, num blog de acentuadas características jurídicas, introduzir pequenas chamadas de atenção para o ar do tempo noutras disciplinas menos graves mas igualmente vitais.
Com uma outra pequena característica: nunca se pensou numa agenda cultural, sequer em referir coisas particularmente importantes do ponto de vista cultural. Nada disso. Ou muito pouco disso. Essa forte responsabilidade ficou reservada para os cavalheiros e damas que tem escritório com tabuleta e porta aberta para a praça das Letras, Artes & Similares.
O cronista é apenas alguém que gosta de ler como gosta de sardinhas, de pintura como de passear pela praia e por aí fora. Para a cultura com C maiúsculo, très a la page, já dei e há muitos anos, tantos que nem me lembro. Fartei-me de ver, criaturas pomposas carregadas de conhecimentos profundos e respeitáveis, ao par das últimas escolas, dos últimos “chismorreos”, das modas evaporantes que duram menos do que as mariposas, discorrer gravemente sobre assuntos que espantavam o público e o faziam fugir a cem à hora. Ou então, igualmente penoso, vi, de nariz apertado pelos dedos que me restam, e são todos, felizmente, louvaminhar as piores inconsequências, as facilidades, o tradicional lusitano, a cultura dos retroseiros e daquele ministro pacóvio que veio ao porto dançar com as vendedoras do Bolhão perante o olhar entusiástico do senhor Dr. Rui Rio, outro que tal.
Ou seja: a Farmácia tem navegado entre escolhos e nem sempre se safou de algum encontrão, de alguma roçadela. Não foi a pique e essa não é a sua menor vitória.
A seu favor tem apenas esta coisa simples: nunca, ou rarissimamente, se recomendou poção que o boticário não tivesse provado. Livros, discos, exposições, concertos e tudo o resto passaram pela rasa do patrão da loja. Há melhor? Seguramente! Esqueceram-se acontecimentos, obras e situações importantes? Sem dúvida. Mas aqui escreve-se para gente normal com alguma inclinação pelas artes e letras. Sem excluir essa outra e importante: a cidadania. E seguindo a máxima de um senhor bispo de Viseu que recomendava aos seus fregueses tomar a religião como se toma o sal na comida. Nem muito nem pouco, apenas o necessário.
Dito isto passa-se ao balanço do ano que se finou. E pelos mortos começamos: morreram três pessoas que merecem uma palavra: A Fernanda Botelho, uma escritora que nunca se pavoneou mas que escrevia com o próprio sangue, ou algo semelhante. O Alberto Lacerda, outro que passou despercebido a tantos, a quase todos, mas que em matéria de poesia “tinha a noção da galinhola” se a citação me é permitida. E o Eduardo Prado Coelho, um amigo de trinta anos que li diariamente, que me irritou vezes sem conta, com quem discuti in mente tantas vezes, que me enfureceu duas ou três, que me comoveu mais do que eu quereria, que tinha espírito, humor, fragilidade, ingenuidade, inteligência, apetite, vontade de viver tudo em quantidades excessivas. Ainda há uns tempos esteve aqui em casa, contando-me peripécias da sua movimentada vida sentimental que me fizeram rir a bandeiras despregadas ao mesmo tempo que me maravilhava com a sua inocência e ingenuidade e com a sua bem humorada confissão. Faz falta o EPC, faz falta o gordinho, faz falta aquela sua perpétua inquirição, a paixão pelas ideias, aquelas negaças que ele fez à maligna, como se fora um toureiro (!!!) desajeitado mas valente. Irritei-me, já o disse, com a sua defesa desta pobre imitação de socialismo praticada por esta pobre imitação de governo, mesmo sabendo que, tête-a tête, o EPC lhes disse um par de verdades. Está morto e apodrece um dos espíritos singulares da segunda metade do nosso século XX. Não deixa herdeiros e esse será o pior dos seus veniais pecados.
Não vou falar do Ministério da Cultura. Hoje alguém contactava-me indignado com um abaixo assinado contra a Ministra. Propunha outro abaixo assinado a favor. Disse-lhe que não assinava o primeiro por o desconhecer e o segundo por conhecer a obra feita. Isabel Pires de Lima terá qualidades, será uma queiroziana de mérito mas não tem jeito para aquilo. A sua navegação de cabotagem pelas costas rochosas da cultura é feita de erros e de errâncias, fez o frete vezes demais, foi inconsistente nas batalhas em que se meteu (e perdeu...) chegou tarde e a más horas às conclusões acertadas (quando chegou) numa palavra foi ainda pior em termos de comunicação do que outro nortenho que também se estampou nas lides ministeriais: Fernando Gomes.
Não tenho o menor gosto em dizer isto porquanto tinha dela uma boa impressão e julgava a equipa da cultura adequada aos dias que se vão vivendo. Já não o julgo. Demorei demasiado tempo porque antepus sentimentos pessoais a uma “análise concreta da situação concreta”, como diria um dos maîtres a penser da equipa ministerial... que provavelmente já dele se esqueceu, mas isso é outro falar.
Também não me parece oportuno babar-me sobre esse cavalheiro, barão da finança, que dá por Berardo. Estou farto, fartíssimo, de lhe ouvir patacoadas, acho que de benemérito não tem sequer o ar, a colecção é pirosa, o uso e abuso de Belém só foi possível num país como este que, subitamente, descobre o cheiro do dinheiro e o venera destemperadamente. Tinha de ser um governo “socialista” (boa piada!...) a dar de mão beijada um espaço para aquilo. Que há lá coisas boas? Claro que há. Mas também há muita lantejoula e isso daqui a pouco tempo será evidente. Deixem-nos poisar...
Em contrapartida, celebremos como se deve (e não se celebrou) os gestos discretos que estão no nascimento de duas instituições culturais: O Museu de Arte contemporânea de Elvas onde estaciona a excelente “colecção Cachola” e a fundação António Prates, em Ponte de Sor. Ora aqui estão iniciativas cidadãs de alta qualidade, de desinteressado patriotismo (feia palavra!) e de claro sentido cultural.
Não vou referir a desinspirada observação de uma ministerial criatura que regougava dislates sobre o facto da colecção Berardo colocar Lisboa no coração dos percursos culturais peninsulares. A pobre mente não deve saber de Bilbao, de Valência, de Madrid, de Barcelona, de Mérida e de mais dez cidades onde a palavra cultura se pronuncia mais simplesmente, menos sonoramente e menos impudentemente.
A televisão surpreendeu tudo e todos com duas realizações: Joaquim Furtado e António Barreto mostraram que cá também se pode usar a televisão para coisas interessantes, como sejam meditar um pouco sobre nós próprios e a nossa circunstância.
Uma mulher desarmada tem mostrado que em matéria de ONG se podem fazer milagres: Isabel Jonet é o rosto da persistência e da organização. O Banco contra a Fome é eficaz, chega a tempo e e não faz dez por cento do espalhafato de outras organizações cujo nome se omite. De propósito.
Outra mulher mostrou como a força de vontade, à falta de meios mais substanciosos, pode servir de base a uma história de êxito: Irene Pimentel ganha o “Pessoa” e ganha o público. A sua “História da PIDE” merece ser lida. Pela seriedade, pela sobriedade, pela honradez.
Uma última palavra sobre esse espantoso negocio da compra de editoras. De repente os fiananceiros, ou financistas se quiserem, descobriram que as editoras podem ser um bom negócio. Editor falido (enfim com mais cem amigos...) da Centelha só tenho pena de não termos chegado vivos até hoje. Provavelmente teríamos dito não ao maná mas isso ter-me-ia enchido de gozo. Todavia, pergunto-me: as editoras dão mesmo dinheiro? Há assim tanto leitor por aí à solta a comprar livros à doida, como um certo mcr que eu conheço e que nem se atreve a dizer quantos livros comprou em 2007? É que ainda pode haver alguma lei contra os perdulários e aí ficaria como os fumadores: pendurado no pelourinho, réu reincidente. Livra!
E tenham bom ano (os que até aqui chegaram).

A gravura: não tenho nenhum amor pela cocaína mas não resisto a pensar que neste momento os cocainómanos são mais bem tratados do que os fumadores. Injectam-se à vontade, vão buscar a sua dose tranquilamente, aos lugares do costume, conhecidos de toda a gente, até da polícia, pedem uma moedinha que poucos recusam com medo de represálias, tem salas de chuto e vão ter ainda mais, custam mais dinheiro do que os amadores do cigarro, volta e meia roubam e podem mostrar-se ás criancinhas das escolas sem receio de serem confrontados com a ASAE. Essa mesma cujo director rapa de cigarrilha num casino. Já agora: Os casinos são instituições de utilidade pública reconhecida? Além de sacarem o dinheiro aos parvos que os frequentam (muito dinheiro!) ainda têm direito a lei própria sobre o tabaco? gand'a país!!!

* Sou ex-fumador pesado (4 maços/dia) há mais de dez anos. Abandonei o tabaco sem razão alguma: sentia-me bem, não tinha catarro, tosse, falta de ar, nada. Decidi deixar de fumar e pronto.
** Não se referem outras figuras desaparecidas porque isso foi a seu tempo feito nesta ou noutras secções que também assino. De livros falar-se-á com vagar no "leitor (im)penitente"


01
Jan08

Pinto Monteiro e o MP

ex Kamikaze
O PGR tem beneficiado, desde o início do seu mandato, daquilo a que soe chamar-se “boa imprensa”. Depois de ter feito punching bag do seu antecessor, Souto de Moura, outra coisa não seria de esperar da nossa comunicação social a pouco mais do que uma voz.
Mas Pinto Monteiro chegou “em alta” ao final de pouco mais de um ano como PGR, tendo-o o Correio da Manhã apontado como “figura nacional de 2007”. Haverá nisto já algum mérito seu?

Do meu ponto de vista, a entrevista que deu à Revista deste diário (dia 30 de Dez.), quer pelo tom quer pelo conteúdo, não só não envergonha em nenhum ponto como é digna de aplauso na generalidade dos aspectos focados (esqueço o último destaque da entrevista, que estamos em época de indulgências).
Também me pareceram adequadas e pertinentes as palavras que dirigiu ao MP no jantar de inauguração da nova sede do SMMP, a 7 de Dez., que aplaudi com sinceridade e até algum entusiasmo. Mais, seguramente, do que os muitos que me estavam próximos (e, para que conste, não eram nada, mas mesmo nada, afectos à direcção do SMMP!).

Na verdade, ao contrário do que Pinto Monteiro refere naquela entrevista, a maioria do MP, desde os servos da gleba aos seus mais nobres elementos (que P. Monteiro e seus colaboradores próximos, quais avestruzes de cabeça enterrada na areia, teimam em confundir com o SMMP) está ainda longe de se sentir representada por este PGR, a que manifestamente ainda não aderiu pela razão e muito menos pela alma e coração.
E também creio estar errado P. Monteiro quando aponta como "prova" desse desamor a oposição do CSMP (que também teima em "colar" ao SMMP) à nomeação para Vice do magistrado por ele indicado. Alguma desconfiança que possa ter havido logo de início, se passou a desamor foi-o por via da forma como reagiu à dita oposição, tudo agravado com declarações posteriores, naquele estilo populista light que vinha, até agora, caracterizando as suas entrevistas e ditos em aparições públicas ou entrevistas "de rua".

Mas parece então, retomando o fio à meada, que Pinto Monteiro fez progressos, o que permite um fio de esperança para as bandas do MP/sistema de justiça em 2008. Sei que, ao escrever isto, muitos do MP pensarão que estou a ser ingénua, outros tantos que sou tola. Talvez, mas não se iludam, ao ver a árvore não esqueço a floresta:
o episódio da nomeação do Vice gerou “traumas” sérios, expressos só de forma aparente como boutade, a dos condes, duques e marquesas… e por muito que P. Monteiro faça por ter a imagem de paladino da defesa da autonomia do MP perante o poder político, convém não esquecer que essa autonomia passa muito pela composição do CSMP, matéria à qual, uma vez que está na calha a revisão do estatuto do MP, o PGR tem vindo a dar especial atenção, sabendo-se que a actual composição e, maxime, forma de nomeação de alguns dos seus membros, não são do seu "agrado", nem, presumivelmente, do Governo.

Em 2008 não faltarão a Pinto Monteiro ocasiões para demonstrar que sabe e quer tomar medidas para melhorar o funcionamento da estrutura e performance do MP (para além das pontuais de forte impacto mediático mas pouca ou nenhuma ressonância interna geral).

Fico, desde já, na expectativa de conhecer as medidas (tão necessárias e algumas tão óbvias e simples!) que vai tomar para cumprir o dito ao CM: "Vou oficializar em 2008 o seguinte: no Ministério Público quem investiga tem de acompanhar o julgamento."
E, claro, também fico na expectativa das revelações sobre "tanta mentira e meias verdades" que diz ter lido e ouvido sobre "a chamada violência na noite do Porto".
E fico, sobretudo, na expectativa de saber até que ponto está Pinto Monteiro disposto a pugnar para que o Governo, em cuja boa vontade tanto diz confiar, atenda os seus, aliás, bem moderados pedidos, desde a alteração de certas normas do CPP, mormente no que respeita aos prazos para investigação dos crimes mais complexos e "de colarinho branco", à atribuição de poderes ao MP para fiscalizar processualmente as polícias, passando pela promessa de criação de um sistema de base de dados que, ao que sei, está longe de vir a ser concretizada em moldes minimamente aceitáveis.

Se, como diz na entrevista, «o que dá prestígio ao Ministério Público é a opinião do pedreiro, do médico, do taxista», o que dará prestigio duradouro a Pinto Monteiro não são as amáveis crónicas jornalísticas mas o reconhecimento, por parte da generalidade dos magistrados do MP, de que ele é, por via dos actos praticados e das atitudes tomadas, não só um dos seus mas o melhor dos seus.

Assim seja, a bem dos cidadãos deste país.

01
Jan08

Entradas a pé coxinho

ex Kamikaze


Amigo d'Oliveira, demais amigos incursionistas, estimados leitores

À ex-capitoa desta barca, que há muito navega intrépida sem necessidade de timoneiro - ou não fosse a tripulação da estirpe dos que tomam nas mãos as rédeas (ou, melhor dito, os cabos) do seu próprio destino - soube bem ler
este post, um escrito cheio de graça e estilo e, sobretudo, um MIMO que cai sempre bem, oh se cai, ademais nas circunstâncias de confinamento a que está adstrita a ex-capitoa, tornozelo esquerdo apenas luxado, tornozelo direito deslocado e correspondente perna partida, que isto de esquerdas e direitas em mim não quebra nem torce por uma simples, ainda que infausta, desatenção ao campo minado em que se tornou a zona defronte de minha casa, em obras de recalcetamento.

Depois do choque inicial - surpresa, dor e muito medo que, sejam indulgentes, eu tinha de recorrer ao mal afamado Hospital de FARO -, já ultrapassada essa longa noite na Urgência em que a Lei de Murphy se concretizou, caprichadamente, minuto a minuto, hora após hora, como se em vendetta por, pese embora o meu habitual optimismo, as suas regras me terem assombrado o espírito logo desde o infausto tropeço e, finalmente, superada a fase de adaptação às novas condições físicas e parafernália da logística correlativa, eis-me mais arribada de ânimo. Ainda assim, o post-MIMO do d'Oliveira foi o pretexto sine qua non no alcançar de forças para quebrar o enguiço que me vem afastando do convívio escrito (que não de leitura) com os meus companheiros de blogoesfera.
(livrem-se de vir para aqui dizer, amáveis, que, sendo assim, a desatenção ao estado da calçada até foi uma coisa boa! Citando d'Oliveira: "Nenhum mal vem por bem, digam os rifoneiros o que quiserem.")


E não querendo começar o ano Novo com palavras de mau-agoiro nem sequer deprimentes, não resisto, contudo a, aqui e agora, preveni-los do seguinte:

- se tiverem o azar de uma descalçadela e desconfiarem que partiram algum membro locomotor, ainda que tenham quem vos leve de carro à Urgência do Hospital, chamem a ambulância! É só para não ficarem na contingência de haver por ali, ou não, algum cidadão solidário que ajude a ajudarem-vos a vencer a distância entre o estacionamento e a sala de espera e (bem mais tarde, claro), entre esta e a sala de triagem, por não haver cadeiras de rodas nem funcionários ou paramédicos que não se estejam nas tintas para o vosso estado lastimoso;

- se o médico vos mandar para casa depois de, a sangue-frio, vos endireitar a ossatura e pôr o gesso, não vão na cantiga, lá porque de momento as dores acalmaram! É que se a manobra não tiver sido bem feita, as dores vão reaparecer em breve e a triplicar, e vai ser preciso recomeçar do zero, além de que convém ficar algum tempo em observação, pois pode haver complicações circulatórias...

- se o médico (avisando logo que só trabalha no Hospital, não vá haver mal-entendidos), vos aconselhar a ir para uma clínica privada para fazer a inevitável cirurgia, alegando que ali não se sabe quando haverá vaga para o efeito, mas seguramente nunca antes de 3 semanas (em Faro, disse-me o médico, só há bloco para ortopedia às 3ªas e, se calham num feriado, como aconteceu nos dias 25 Dez. e 1 Jan., menos operam ainda - o bloco está fechado, disse-me, mas recuso-me a acreditar! - e há que tratar 1º dos casos que estão em lista de espera -
sigam o conselho do médico e ponham-se ao fresco!

- se ficarem internados para observação, por 24 a 48 horas, como eu fiquei, pensem que o mais provável é ninguém saber que é para isso que estão ali naquela cama de enfermaria, porque ninguém passa informações dadas oralmente e ninguém lê a nossa ficha clínica, se é que nela fica escrito alguma coisa a esse respeito! Alerta pois, senão podem acabar por não sair a caminho da tal clínica privada (haja seguros!) e antes ficar a contribuir para o aumento das estatísticas das cirurgias em lista de espera e para o acréscimo das despesas hospitalares... quem de nós, cidadáos respeitávies e cumpridores, deseja tal opróbio?


Mas chega deste tema, que os postais hoje, atenta a data, deviam ser prazenteiros.
Saltitarei pois, mais logo, ainda deselegantemente, pois que a pé coxinho e para mais luxado, para outro tema.
Dizia-me ontem outra incursionista que sentia falta, no Incursões, de mais temas relacionados com a Justiça. Aproveito a embalagem e irei deixar, noutro post, no estilo shallow que é meu timbre(*), algumas considerações sobre o Procurador Geral da República, Pinto Monteiro. E mais do que isto não prometo por agora, pois amanhã começa o 2º capítulo desta medíocre novela e vou ficar sem poder blogar por uns dias.

(*) quem quiser reflexões aprofundadas pode sempre (e deve) ler o José, na Grande Loja do Queijo Limiano, entre outros (usem a lista de blawgs e blogs na side bar, que é para ser usada que a pus lá, ora!).

01
Jan08

Diário Político 72

mcr

Carta de um modesto grumete à grã capitoa desta barca, Madame Kamikaze


Permita-me Senhora que a este modesto membro da tripulação desta galera que Vossa Senhoria dirige com mão de ferro em luva de veludo, seja concedida a honra de em nome da restante equipagem Vos exprimir os tradicionais desejos de Bom Ano de 2008.
Não tenho para esta missão outro título que não seja a minha absoluta devoção às Vossas instruções que, valha a verdade, são mais raras que as boas notícias vindas do governo da Nação. É que, Senhora minha e nossa, tem sido notória e notável a Vossa falta junto não só da marinhagem que tão dedicada Vos é mas também junto do público em geral.
Pelo imediato da barca, camarada (é assim que a marinhagem se trata entre si, os camaradas) Carteiro tive a infausta notícia de um acidente em que Vossa Grandeza foi involuntária protagonista. Em curtas palavras soube, com o desgosto que certamente adivinhais, que havíeis partido um pé, melhor dizendo um tornozelo.
Não me tendo sido especificado se o direito se o esquerdo e não querendo agora explorar esse tema sempre melindroso e politicamente conotado que neste caso poderia facilmente passar por provocação, sempre direi que não fica bem a uma Senhora de vossa posição meter o pé na argola a pontos de num forcejar descuidado mas perigoso o partir. Não fica bem, Excelente Comandante, andar por aí ao pé coxinho.
À uma é difícil. Depois, tereis de convir, é falho de elegância. E pode dar azo a ditos e dichotes que nisso os nossos compatriotas são mestres. Há-de haver por entre a populaça ruim e infrene quem diga que Vossa Honra meteu a pata na poça, embora se possa dizer que não há coisa mais natural no mundo do que um palmípede a flutuar numa meia rasa de água da chuva. Ora aí está algo que os franceses nunca poderão fazer: a expressão que usam é “mettre les pieds dans le plat, vê-se que se trata de um país de gourmets que usam sem rebuço o vocabulário das arts de la table para caracterizar um mundo que para eles nunca está longe dos fogões. E ninguém quereria ver, sequer imaginar, a Augusta Timoneira desta galera vagamunda (exactamente: vagamunda) servida num prato fosse ele o mítico das lentilhas ou essoutro bem mais actual do bacalhau com todos, tão desta época.
E tudo isso, o pé desmanchado, como o da Luisinha Carneiro, se recordo bem o meu Eça, passou discretamente, no silêncio dos estóicos, das estóicas diria eu, sem que ninguém durante largo tempo soubesse desse acidente. Não é por acaso que o Vosso nome de navegante no éter é Kamikaze, há que dizê-lo.
Nenhum mal vem por bem, digam os rifoneiros o que quiserem. O máximo que se poderia dizer de um mal sobrevindo é que poderia ter sido ainda pior. Fraca consolação!
Outra fraca consolação é dizer que o pior já passou. Também não faltava mais nada. O que é demais é moléstia.
Ponhamos, Excelsa Almirante, que esse pé em estado deplorável nos pode servir para despedir 2007 sem excessivas tristezas e, ao mesmo tempo, augurar para 2008 um ano melhor. Para Vós, para os tripulantes desta nau, para os passageiros que em nós confiam e até para o resto das muitas e desvairadas gentes que perpassam neste espaço virtual e democrático pese embora a pesada critica do Dr Pacheco Pereira. O homem está zangado com o mundo ou pelo menos com as suas entranhas. Esperemos que também isso lhe passe. A vida é curta.
A Vossos pés, humildemente
D’Oliveira, embarcadiço na barca “incursões”

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