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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

22
Abr08

Mercado do Bolhão

mochoatento
No jantar do Rotary Club do Porto, falou sobre o "Mercado do Bolhão" o Dr. Lino Ferreira, Vereador do Urbanismo na Câmara Municipal do Porto.

Sem dúvida, trata-se de uma pessoa dedicada à causa pública, simpática, afável e de grande honestidade.

O actual edifício, que é classificado e corresponde a um marcos importantes da História da Arquitectura portuguesa, apresenta graves defeitos estruturais, dado que o betão em que foi construído não tinha a qualidade e fiabilidade que esse material actualmente possui. Parte do edifício apresenta risco de ruína e está escorado. Por sua vez, o comércio do interior não reúne os requisitos de higiene e segurança que hoje são indispensáveis numa sociedade moderna.

Parece que todos estão de acordo que isto tem de mudar.

O Arqº Massena há uns anos elaborou um projecto de recuperação do edificado, que lhe foi integralmente pago pela Câmara Municipal de então, mas que nunca foi executado (alegadamente por ser financeiramente inviável.

A actual Câmara Municipal (de que quem não sou apoiante) lançou um concurso internacional de ideias para a revitalização do edificado e da função comercial do Mercado. Apareceram dois candidatos, tendo um deles sido seleccionado. Prevê-se a construção de pisos no interior do Mercado, com novas áreas comerciais e de estacionamento, sendo o piso superior reservado para o comércio tradicional a céu aberto (embora com cobertura prevista para os dias de chuva). Durante a execução das obras, os actuais comerciantes exercerá o comércio em local provisório a construir no Campo 24 de Agosto, de modo a manter a actividade e preservar a clientela.

Parece que nada a opor ao projecto. E, no entanto, a Câmara não consegue passar a mensagem. è incrível que 50.000 pessoas do país e do estrangeiro tenham assinado petição contra a demolição do Bolhão (se bem que nunca tenha sido prevista a demolição do Bolhão!).
O Dr. Rui Rio tem o mau vicio de nada comunicar e de achar que não se deve dar ao trabalho de explicar à cidade o que anda a fazer (embora não tenho qualquer dúvida de que vai ser reeleito; o povo do Porto é mesmo assim: contestário, complicado, confuso, ...)

A única certeza que tenho é que o único líder que o Porto tem é Pinto da Costa. Deitou abaixo o estádio das Antas, construiu o Estádio do Dragão, que é uma obra-prima da cidade, e não houve contestação ( a não ser de Rui Rio! ... quem com ferros mata, com ferros morre!!!)
21
Abr08

O que ficou por dizer

José Carlos Pereira
A visita de Cavaco Silva à Madeira foi um permanente jogo de faz-de-conta. Sem coragem. Com submissão aos tiranetes locais. O programa terá sido antecipadamente delineado pelos gabinetes, mas era escusado tanto cuidado em fazer passar a ideia de que tudo corria na paz do Senhor, descontando uns raspanetes efectuados em segredo, que ninguém sabe se, de facto, existiram.

Os acentuados elogios de Cavaco à obra feita eram desnecessários. Ao fim de 30 anos, não era de esperar que houvesse (muita) obra feita? Claro que sim. Não vou lá há muitos anos, mas dizem-me que a ilha está irreconhecível face à realidade que conheci nos inícios de 90. E por cá, não assistimos também a enormes transformações em muitos municípios e cidades? E nos Açores? Haja dinheiro!

O Presidente da República não deveria ter transigido e exigia-se-lhe que afirmasse bem alto que, na Madeira, têm de vigorar os mesmos princípios e valores democráticos do resto do país. Sem concessões. Um Presidente não existe apenas para ser simpático e acenar às criancinhas. Pede-se-lhe que exerça a sua função em defesa das instituições democráticas e de uma cultura de convivência sã e leal entre todos os agentes políticos. Perdeu-se uma oportunidade excelente e, mais uma vez, Jardim ficou a rir-se no fim.
18
Abr08

Diário Político 81

mcr

Defenestração em parte incerta ou
Uma derrota para Sócrates

Convenhamos: o dr. Meneses defenestrou-se. Atirou-se para o vazio como aqueles estimáveis bichinhos, os lemmings, se atiram pela beira do fiorde que os viu nascer, crescer e multiplicar-se. Parece que não há consenso entre os etólogos sobre as causas desse fenómeno.
Por cá também ninguém se entendia sobre as razões do aparente sucesso do dr. Meneses. O tal que era nortista, basista e repentista. Como é que um partido com trinta e tal anos de idade eleva esta criatura ao pódio pouco reluzente de líder em momentos de oposição, ninguém entende. Mesmo em tempo de vacas magras, em tempo de negrume e aflição, entregar ao dr. Meneses sequer uma concelhia já era demais. O dr. Meneses era uma ventarola de ideias e confusões cada qual mais estranha, surpreendente, abstrusa.
Já imaginaram, sequer num momento de delírio, este cavalheiro, porventura amável no civil, a governar esta desgraçada pátria? Aposto singelo contra dobrado que o país inteiro iria em procissão solene e penitente pedir ao dr. Santana Lopes para voltar. E só Deus sabe quanto o dr. Santana foi detestado, atacado (e com razão, há que dizê-lo) e alvo de risota.
Seis meses! Seis meses (ou seja cinco meses e meio a mais) bastaram para pôr o pais de sobreaviso. Até os jornalistas se mostravam cansados e sem entusiasmo. Meneses como filão era excessivo e contraproducente. Havia gente, dizia-se, que já não comprava o jornal sem ter a garantia que nem uma linha havia com declarações de Meneses. É obra.
Claro que o dr. Meneses não é o inteiro culpado da triste situação em que se vê. Houve uns cavalheiros, e não dos de menor importância dentro do PSD, que o terão apoiado e entusiasmado a cobiçar um posto político para o qual ele manifestamente não tinha estatura. O sr. engenheiro Ângelo Correia, que tão tarde saltou do barco em perdição, o dr. Mota Amaral também fez parte do inner circle de apoiantes respeitáveis. E mais houve, mesmo entre os que se remeteram a um prudente (demasiadamente prudente) silêncio desde os inícios da saga menesiana.
Temos depois, o concurso de um grupo de incendiários entre os quais esta derradeira fornada comandada pelo dr Gomes da Silva, que já se distinguira (enfim: se tornara notado) noutros tempos de igual desnorte. Esteve igual a si próprio o que não é pouco. Quando se pensa que se atingiu o fundo, aí aparece esta perturbante novidade: com políticos como gomes da silva é sempre possível ir mais longe.
O resto é história conhecida: na vertiginosa corrida para as profundezas abissais a que assistimos, só o PS parecia satisfeito: as travessuras de Meneses, o seu estonteante percurso em zig-zag confortavam o partido do governo. Fizesse o que fizesse, e só Deus sabe quanto fez e quanto desfez, o protesto público seria sempre inferior ao sucesso dos auto-golos de Meneses. O PS apenas precisava de ir seguindo a sua rota de um passo em frente, dois atrás, para garantir uma vitória nas próximas legislativas, desde que Meneses fosse debitando as estarrecedoras propostas que ouvimos.
Agora, suceda o que suceder (ou quase: sempre podem ir buscar um líder a Rilhafoles!...) o partido da oposição irá dar alguma luta. Ou mesmo que a não dê: baste que fale pouco e baixinho, deixando o PS e Sócrates o seu profeta continuarem o seu penoso caminho.
Persegue-me, porém, um pensamento maligno: será que Meneses teve ontem, em Sintra, um relance de lucidez e, ao demitir-se, resolveu tirar o tapete aos socialistas? É que se o PSD conseguir encontrar entre o escasso lote de pretendentes que seguramente vão começar a aparecer alguém de respeitável, com duas ou três ideias, capaz de provar ao país que pode fazer as coisas melhor e com menos custo que Sócrates (o que não parece ser de grande complexidade) corre-se o risco (se é que entre um PS agónico e conservador e um PSD renovado ainda há alguma diferença) se risco há de entregar a pátria farta deste espectáculo à direita.

Vosso,
d'Oliveira
17
Abr08

o leitor (im)penitente 36

d'oliveira
Amado pelos deuses escuros, pela voz do tambor, pelos animais que povoam uma floresta de sonhos, uma savana francesa e marítima, era o homem que representava a ligação possível da francofonia.
Aimé Césaire morre aos 94 anos depois de uma vida intensa de combates, de glória e de reconhecimento nacional e internacional.
Por cá, e como de costume, pouco, ou nada, há dele. Tenho aqui um exemplar do “Discurso sobre o Colonialismo” editado em 1971, por uns “Cadernos para o diálogo” (Porto), coisa que tresanda a clandestino, claro. Por essa altura, também a “D. Quixote” da Snu Abecassis (e do Nelson de Matos se bem recordo) tinha publicado uma “antologia poética”. Gente boa, gente culta, gente séria aquela gente quixotesca. Agora o que resta é uma coisa chamada “Leya” que, posso estar enganado –e se estiver aqui darei a mão à palmatória – não publicaria de certeza um poeta da negritude, subversivo e da Martinica. Feitios!...
Leitoras e leitores, gentis e amáveis, leiam-me o Césaire, por favor. Está todo (ou quase...) na Gallimard, na prestigiosa colecção “Poésie”. E digo quase todo porque, também á minha frente, está uma bela edição do “cahier d’un retour au pays natal” (bilingue, francês e inglês) com um prefácio sumamente elogioso de André Breton (e o “Velho” podia ter muitos defeitos mas sabia ler bem, muito bem, mesmo) que traz a chancela da “Présence Africaine”. Também é verdade que esta edição (edição definitiva!) é de 1971 (ai que velho que estou!...)
Deixo em baixo um pequeno excerto desse espantoso poema. Ainda pensei em traduzi-lo mas vocês sabem de certeza o francês suficiente para o ler. E as palavras que vos faltarem, tentem dizê-las alto que a sua própria, intrínseca, música vos mostrará o caminho. Boa leitura!

Hoje, 17 de Abril faz 39 anos que um escasso milhar de estudantes de Coimbra (depois haveriam de ser muitos, muitos mais), mostrou à cidade e ao país que é possível resistir ao autoritarismo e à violência institucional. A greve universitária de Coimbra de 1969 durou meses e, pela primeira vez ma história do movimento estudantil português, redundou numa vitória: ministro para a rua (um tal Saraiva que papagueia na televisão), Reitor para rua, épocas especiais de exames, regresso a Coimbra e à Universidade de todos os estudantes suspensos e chamados para a tropa, arquivamento dos processos levantados pela polícia. Para os meus camaradas desse tempo (alguns deles leitores sofridos destas crónicas) um abraço e a certeza de que o Aimé Césaire teria apreciado o nosso esforço. E isso, para mim, é suficiente.

17
Abr08

voz alheia 3

d'oliveira

fragmentos de poemas no dia da morte do seu autor






1 (..................)
« l'homme-famine, l'homme-insulte, l'homme-torture

on pouvait à n'importe quel moment le saisir le rouer

de coups, le tuer - parfaitement le tuer - sans avoir

de compte à rendre à personne sans avoir d'excuses à présenter à personne

un homme-juif

un homme-pogrom

un chiot

un mendigot »
(...................)

2. (...............)
"ò lumiére amicale
ò fraiche source de la lumiére
ceux que non inventé ni la poudre ni la bousolle
ceux qu inon jamais su dompter la vapeur ni l'electricité
ceux qui non exploré ni le mers ni le ciel
mais ceux sans qui la terre ne serait pas la terre"

Aimé Césaire

*este textos são excertos do longo poema "Cahier d'un retour au pays natal" (Présense Africaine, 1956) e são retirados da edição de 1971, considerada a edição definitiva do poema. Todavia, e em abono da verdade, optou-se por trazer o primeiro directamente da internet. Está, porém cotejado com a edição de 1971, acima referida e que me pertence desde essa longínqua data (Paris, Dezembro de 1971)
mcr

A gravura: fotografia dos participantes do 1º congresso dos artistas e escritores negros em 1956. Esta fotografia servirá de convite para as comemorações do cinquentenário desse congresso.
17
Abr08

A Arte da Economia

JSC
O Governo acaba de aprovar um novo prazo máximo para os créditos bonificados na compra de habitação, que passa a ser de 50 anos.

A comunicação social, em bloco e com o rigor que a caracteriza, desatou logo a anunciar a poupança que o novo regime vem trazer para os portugueses endividados com a habitação. O próprio Ministro das Finanças induziu essa leitura ao dar o exemplo de que quem paga 197 euros mensais vai passar a pagar 140 euros, o que determina uma poupança de 57 euros mensais, cito de cor.

Sem por em causa a importância e oportunidade da medida, face à crise no mercado imobiliário (que não é referida), o que me surpreende é que se fale em poupança, quando o que se trata é de diferir o pagamento da dívida e, consequentemente, com mais encargos. Ou estou muito enganado ou não há qualquer poupança neste processo de chutar para a frente a amortização da dívida.

Contudo, não restam dúvidas que quem optar por alongar o prazo do empréstimo vai ver reduzida a sua prestação mensal e talvez pense que está a poupar o que não paga agora, mas vai pagar mais adiante. A verdade é que vai ficar com mais dinheiro disponível para afectar a outros gastos, por isso a provável ilusão de que está a poupar.

A economia tem destas coisas e até pode levar as pessoas a pensar que poupam o que verdadeiramente não poupam.
16
Abr08

Maio, maduro Maio 1

d'oliveira

En Mai fait ce qu’il te plait.


Eu não sei se era assim a frase, se sequer havia uma frase destas mas prometi ao meu antiquíssimo e pacientíssimo leitor José escrever sobre aquele Maio de há quarenta anos, aquele Maio pai de todos os Maios seguintes, ou de alguns apenas, se quisermos. Todavia, e em obediência aos preceitos desse Maio de 68, aos da minha preguiça e a esta maneira anárquica de sentir e viver o mundo em que vagueio, irei escrevendo o que me recordar.
E comecemos por algo que hoje em dia não dirá nada a ninguém com, digamos, menos de quarenta ou até cinquenta anos.
Maio de 68 é praticamente o ano do fim de uma das mais persistentes ilusões revolucionárias dessa década de ouro: refiro-me, claro está à teoria do foco guerrilheiro que de certo modo foi exaltada por um jovem universitário francês (sempre eles) ex-aluno da “École Normale Superieure” (sempre essa “grande escola”) viveiro de revolucionários desde sempre.
A obra de Regis Debray, pois é dele que falamos, causou uma impressão fortíssima entre a comunidade esquerdista e leitora (as coisas nem sempre vão juntas, aliás, raramente vão juntas). As teses de Debray, que esteve por várias vezes em Cuba e que posteriormente foi aprisionado na selva latino-americana e acusado de prática guerrilheira estão vertidas neste livro que é hoje uma antiguidade varrida pela história consistem num confuso somatório de conversas com um Fidel de Castro ainda pouco sintonizado com os partidos comunistas clássicos e empolgado pela sua própria história revolucionária. A rapaziada jovem viu nisto uma critica ao comunismo estático e conservador da União Soviética o que, somado ao romantismo ainda vivo da “revolución de los barbudos”, ao facto de no Vietnam se travar uma guerra de guerrilhas duplicada por outra mais convencional, deu a Debray uma exagerada e imerecida fama de teorizador revolucionário. Não o era, como Fidel também não. O facto de em Cuba a guerrilha ter vencido Baptista não torna o “foco guerrilheiro” mais credível do que outras tácticas revolucionárias. Aliás se alguma verdade se pode extrair das conversas Debray Castro é apenas esta: o êxito cubano pôs de sobreaviso as ditaduras latino americanas que fizeram o possível por frustrar qualquer futuro foco guerrilheiro nos respectivos países.
Ora, o mundo é pequeno, é aqui que entra em cena mais outro ícone revolucionário: Ernesto Guevara, o “Che”. O Che, morto num obscuro barranco boliviano, por um “soldadito” como se diz na canção, a 7 de Outubro de 1967. A morte do Che é também a morte dessa teoria sem substância nem base, mero repositório de experiências avulsas a que a loucura da sorte sorriu, uma vez sem exemplo. Não se põe aqui em causa a honradez pessoal, a coragem, o idealismo da personagem mas apenas a crença cega na teoria do foco, na ideologia de implantação “exemplar” da revolução num meio atrasado com o pretexto de que nesses países do terceiro mundo ou não há proletariado ou hsvendo-o este está feito com o conservadorismo e com a inoperância dos partidos comunistas clássicos.
O “Diário del Che en Bolívia” na hipótese de estar publicado sem cortes nem arranjos, é um documento terrível mais pelo que se adivinha do que pelo que diz.
Juntemos-lhe agora, do mesmo ano, 1968, um coisa patética, ingénua, chamada “Journal d’un Guerillero”: nele um suposto jovem comandante das FARC (Colômbia) conta as suas aventuras no então jovem mundo da guerrilha na selva colombiana. Na badana de apresentação (ah, ano prodigioso!!!) escreve-se que este texto é apenas o primeiro duma série resplendente e vitoriosa de crónicas de uma gueerilha que abrasará toda a América Latina. A futurologia é uma arte difícil e em 68, ano de todos os prodígios até a poderosa Seuil apostava na revolução.
Todavia, nem toda a gente de esquerda ia à missa de Castro e Debray. Na mesma altura (68) e em França, uma outra editora provavelmente com os mesmos intuitos revolucionários (Robert Laffont) editava um panfleto ácido de Antoine G. Petit com um título incandescente: “Castro, Debray contre le marxisme-leninisme”.
Com este panfleto acabava o que aliás só existira na cabecinha pensadora de uns europeus ricos e cansados: a aliança entre as teses maoístas e o castrismo. Não existira nunca qualquer convergência de posições excepto o facto de haver umas centenas de jovens que inconformados com o velho comunismo do papá, queriam mais acção, mais emoção, quiçá reviver os tempos heróicos da resistência francesa ou os ainda mais mitificados dias de Outubro de 17.
Dirão os leitores que penosamente aqui chegaram que isto é já conhecido (coisa de que duvido, desculpem lá), que é velho (que novidade!) e que é passado. Aqui enganam-se redondamente. Esta mitologia revolucionária, esta “revolucionarização da revolução”, este continuo anuncio de amanhãs que cantam, não está morto e muito menos enterrado. No México para não ir mais longe, em Chiapas, alguns embuçados ressuscitaram alguns dos mitos do foco, edição melhorada, que hoje mesmo no Público era esboçada por um cavalheiro adepto do Open Marxism e da sua versão zapatista.
Herança de 68? Nem por isso. Todavia, e porque 68 foi muito mais do que uma mera guerrilha ideológica entre grupos minoritários, estamos arriscados durante todo este ano comemorativo, a apanhar com vinho novo e aldrabado em odres antigos veneráveis.

Obras citadas “Révolution dans la révolution?R. Debray, Maspero, 1967; "Castro Debray contre Le marxisme-leninismeAntoine G. Petit, Laffont, 1968; “Journal d’un Guerillero”, Seuil, 1968; “El diário de Che en Bolívia", Instituto del Libro, La Habana, 1967, ainda devem andar por aí. Poderão todavia ser substituídos com vantagem pelo texto desigual, combativo e generoso de René Dumont: “Cuba est-il socialiste?", col Points, Seuil, 1970

* o "incursões" está prestes a entrar no seu 4º ano de estratosfera, três dos quais com a minha imprestável colaboração. Esta é a minha série comemorativa do aniversário.
14
Abr08

Insanidade?

José Carlos Pereira
O Presidente da República iniciou hoje uma visita oficial à Madeira e já começou com os elogios à autonomia logo à sua chegada. Depois das leviandades de Jaime Gama, que claramente “se passou” nos elogios a Alberto João Jardim, chega agora a vez de Cavaco Silva ir visitar o arquipélago e passar por cima (tudo o indica…) das afrontas que Jardim fez aos deputados regionais e à instituição parlamentar regional no seu todo.
Recorde-se que Jardim se referiu aos deputados da oposição como um “bando de loucos”, particularizando nas suas críticas "o fascista do PND”, “o padre Edgar" e “aqueles tipos do PS", eleitos pelos madeirenses e, naturalmente, detentores da mesma legitimidade democrática que reivindicam Jardim e os seus correligionários. O notável presidente do parlamento regional, Miguel Mendonça, considera por seu turno que Alberto João Jardim não quis atingir a "honorabilidade e respeito" do parlamento regional.
De insulto em insulto, de condescendência em condescendência, de desagravo em desagravo, Jardim vai dizendo o que quer e lhe apetece e os (mais altos) poderes vão-se encolhendo, envergonhados. Estaremos no limiar da inimputabilidade individual ou perto da insanidade geral?
11
Abr08

Au Bonheur des Dames 120

d'oliveira

Meu caro Zé Miguel

Resolveste hoje tomar a defesa de Jorge Coelho, putativo futuro administrador da Mota-Engil. E logo no “Público”, jornal de referência, como agora se diz.
Só te fica bem esse sentimento de Galahad em defesa da honra e bom nome de Coelho, que, segundo as tuas palavras anda pelas ruas da amargura.
Conviria porém ler com mais vagar o que escreves porquanto, vê lá ao que se chegou, o leitor comum perde-se nos meandros subtis do teu discurso. De facto, é preciso estar atento não vá a gente perder-se entre a defesa de Coelho, o alvo duma desenfreada caça de jornais, blogues e não sei que mais, e a defesa da tua própria pessoa que, pelos vistos também está com a cabeça a prémio.
Eu, no teu caso, Zé Miguel, não me poria em paralelo com Coelho. À uma. tu tens desde sempre uma vida de paisano, interessado na política, claro, mas digamos, de fora dos aparelhos. É verdade que durante algum tempo alimentaste uma tendência no PSD mas disso já ninguém se lembra, ou lembram-se com algum espanto, os que na altura te leram e agora o continuam a fazer. Grande viagem, Zé Miguel, grande viagem desde, hás-de convir, uma direita inteligente até a esta espécie de compagnon de route do PS. Nota que não te critico. Gosto de te ver aí e gostaria mesmo de ver o PS a fazer-se ao caminho sob a bandeira de Antero e do socialismo democrático. Não é assim que as coisas se passam, agora distingue-se mal, se é que se distingue, o PS do PSD (mesmo com Menezes!!!) e até isso torna mais natural a tua convergência com o partido do governo.
Todavia, tendo por certo que não é isso que te faz vir à estacada, mas tão só a reflexão sobre o direito de qualquer cidadão a levar a vida que muito bem quer, conviria, talvez, retirar-te do retrato e falar apenas de Coelho. Fizeram-te umas traquinices? Tu sabes defender-te bem. Deixa essa guerra e não metas nas tamanquinhas de Coelho. Porque o caso é diferente, Zé, substancialmente diferente.
Enquanto tu fizeste a tua inteira vida na advocacia, cá fora, ele Coelho, é de há vinte e tal anos (trinta, talvez?...) a esta parte um político a tempo inteiro. Ou seja que, devendo ele ter à volta de cinquenta e poucos anos, a sua vida adulta foi consumida sempre ou quase, nos corredores do poder e do aparelho partidário. Isto não tem nada de mal e, no caso em apreço, até podemos dizer que seria bom que houvesse mais um par de políticos assim, laboriosos, diligentes, interessados e “bombeiros para todo o serviço”. Como Jorge Coelho. Suponho que é titular de um curso de gestão de empresas e que terá, quando jovem trabalhado na Carris. Todavia, e insisto, a sua vida de adulto, passou-a não nos meandros da empresa mas nos da política, coisa apeasr de tudo bem diferente.
Está cansado? Farto do aparelho do PS? Terá sido (não me parece) corrido pelo engenheiro Sócrates? Quer reformar-se mas não se vê como pescador à linha, ou jogador de sueca ali para os lados do Príncipe Real, juntamente com outros reformados? Perfeito! Eu mesmo não pesco senão no prato, não jogo a sueca (e infelizmente tenho dificuldade em juntar mais três parceiros para o bridge, ainda agora me morreu mais um...) e também vou fazendo pela vida. Leio, traduzo, vou às compras que a minha mulher ainda trabalha, tomo conta das gatas, escrevinho neste blog, enfim vou sobrevivendo sem sobressalto e, imagina, sem tempo!
Não me apetece gerir a Mota Engil, eles também não parecem convencidos dos meus muitos méritos, sequer uma pequena empresa dessas que constroem casas segundo traço e cálculo do já citado engenheiro Sócrates. Por junto, em matéria de construção civil, prego algum quadro na parede ou invento mais uma maneira de subir uma estante dois centímetros para lá caber um livro maior. Se estiveres interessado, passa cá por casa que te ensino isso num instante.
Mas regressemos a Coelho. A Coelho que, sem especiais referencias profissionais (experiência anteriores bons resultados em empresas do ramo, ou em empresas tout court ) que se conheçam, vai assumir pesadas responsabilidades (e logo nesta altura pré-recessiva!!! Que coragem!) num dos gigantes da construção em Portugal. Claro que tem a seu favor o conhecer esse mundo opaco e pesado. Foi Ministro das Obras Públicas e isso, só isso, permitiu-lhe perceber como é que esta gente se move e trabalha. Estou certo que não foi a pensar numa futura relação de trabalho que Coelho ministro contratou com Mota empresa. Nem ele é omnisciente a esse ponto nem consta que seja um malfeitor, um aproveitador, um carreirista. Porem....
Porém, nesta Europa Ocidental, são raros estes casos de transumância entre a política os negócios. Os políticos, sobretudo os políticos tipo Coelho, gente de aparelho e de altas responsabilidades costumam estar fora do território de caça dos angariadores de trabalhadores de alto coturno. Se saem do Governo, do Parlamento e da direcção do Partido, poderão aterrar na direcção de uma empresa pública (o que, enfim, também não é exactamente saudável mas que se explica pelo interesse que há no controle estrito dessas empresas), de um banco participado, numa embaixada política ou numa agência estatal.
A transferência pura e dura para o Privado, puro e duro, costuma ser rara e, convenhamos, não é bem vista. Há mesmo países que prevêem certas proibições (algumas vezes temporárias) de modo a que não caia sobre a classe política mais lodo do que já vai sendo hábito.
Coelho, dizes, é o alvo de uma caça feroz. É verdade. Também é verdade que Coelho nunca foi meigo com os seus adversários e que ficaram famosas algumas das suas frases. Buldozzer, premonitória palavra, chamavam-lhe. Convenhamos que foi incendiário, que semeou ventos suficientes que agora eventualmente o chamuscam.
Por outras palavras: quem não quer ser coelho não lhe veste a pele.
Ninguém, caro Zé Miguel, toma Coelho, ou a maioria dos ministros de hoje e de ontem, por uns cretinos catatónicos bons só para a chicana no Parlamento. Isso são leituras apressadas de Eça, o magnífico, ou dos anti-democratas, anti-parlamentaristas, anti-modernos que, à imagem de Caetano, eram contra a democracia representativa. Em Coimbra, nos nossos anos juvenis, bem os vimos em acção, lembras-te? A rapaziada do Jovem Portugal, os leitores do “Agora”, os meninos da “Acção Académica” e de outras envelhecidas fascistices de moda entre uma certa oisive jeunesse. Mas isso passou, está nas catacumbas da história.
Voltemos a Coelho. Se me espanta moderadamente esta apetência pelo mundo empresarial, não deixa também de me surpreender a apetência da Mota-Engil por este singular e futuro ex-político. Que diabo, o homem já tem cinquenta e vários! A idade em que mandam para a reforma administradores com muito mais louros e nome! Não que eu pense que a empresa queira influenciar o Estado, mesmo este, de hoje, apesar de tudo transitório, pese embora o esforço de Meneses para o tornar definitivo. Nada disso. Outras serão as intenções do empregador, porventura inocentes, estou quase certo. Seguro mas intrigado.
Voltemos ao teu caso. Parece que pões em paralelo uma participação gratuita tua na resolução de um problema de Lisboa, onde vives, com o contrato remunerado de Coelho. Francamente! Que diabo de mosca te mordeu? Tu, um advogado de sucesso, ex-bastonário, sem grandes problemas de dinheiro, cidadão que já mostrou compromissos cidadãos (a tua acção como benfeitor da Biblioteca Nacional) vais dar algum do teu tempo à cidade. De borla! A que vem a história do teu filho (és tu que a citas) que parece um miúdo esperto e desembaraçado? Então tu pensas que alguém acredita que em troca dos teus leais serviços se vá fazer um favor ao rapaz? Que diabo! Que visão tão arrevesada das coisas!
Terminemos com o teu artigo. Tu não fazes prisioneiros, Zé Miguel! Então achas que é mesmo toda a gente que se une a conspirar contra Coelho e contra ti? Não te parece delirante uma tese tão peregrina? E todos, todos, quantos acham que seria mais curial Coelho não se meter com o patronato de choque, estão assim tão de má fé?
Coelho, uma vez, do alto de uma tribuna partidária, lançou um célebre slogan ameaçando quem se metesse com o PS. De um certo modo, Coelho, voltava à carga assumindo o partido a conhecida posição de fortaleza cercada. Não era o caso. Agora ainda não é o caso, em relação a Coelho. Mas com defesas como a tua, pode ser que de tanto chamar pelo lobo...
Vale*
mcr

*como em tempos se dizia lá por Coimbra.