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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Set08

Estes dias que passam 125

d'oliveira

O Outono será quente...

Eu ia falar-vos de livros: as editoras apressam-se a apresentar as novidades, depois duma seca estival apenas pontuada pela habitual (e triunfante) literatura light. Ia recomendar-vos uma obra prima japonesa “O dito do Genji”, de Murasaki Shikibu (preferentemente Murasaki-shibiku) dois sólidos volumes publicados pela Relógio de Água.
A obra, também conhecida por “Genji Monogatari” vem do século XI japonês, dos tempos da corte de Heian e tem tido crescente êxito na Europa. Eu, leitor me confesso, apenas conhecia uma versão pequenina, dois ou três capítulos numa edição estudiosa francesa dos anos sessenta. Fiquei fascinado mas de facto só agora é que há, cá e noutros países, europeus versões integrais da obra.
Devo, até, acrescentar que há mesmo uma edição francesa, (Dianne de Selliers ed.) em três volumes ricamente ilustrados por mais de 500 reproduções de pinturas japonesas, com comentários e tradução de René Sieffert. Um prodígio! Depois de uma edição por 500 euros saiu agora, outra num formato um pouco mais pequeno (e mais legível) com as mesmas reproduções e o mesmo aparelho critico por 150 euros. Não resisti e ainda não parei de me babar ao ver, devagar, devagarinho, as ilustrações.
Mas eu não vim aqui para falar de livros. Ou melhor: vinha, mas a realidade é mais forte ou mais brutal que a ficção e eis-me aterrado com as notícias da Finlândia: então não é que um energúmeno entra num liceu técnico e pimba, tiro à vontade sobre uns pobres diabos que cometiam o feio pecado de estar por ali à mão. Claro que a coisa, incompreensível, se compreende melhor se soubermos que, na Finlândia, 55% dos habitantes possui uma arma. E que a idade legal mínima para ter armas é aos 15 anos!!! Mas os finlandeses são parvos ou fazem-se? E isto não é uma novidade. Já no ano passado um outro sacana tinha feito o mesmo. Será que não se podem acusar os governantes de cumplicidade ou, pelo menos, de negligência culposa?
Mudemos de latitude. O ainda presidente Bush foi à ONU pregar a sua (dele) boa palavra. O homem nem quando fala para a história aprende. O discurso foi patético: condenou o eixo do mal, que ele ajudou a fabricar e a crescer com a sua desastrada guerra iraquiana, cominou o público a seguir-lhe os passos na contenção da crise, como se também nós europeus tivéssemos permitido, ajudado, propagandeado aquela imensa falcatrua dessa banca de negócios, dessas hipotecas miseráveis, dessa depredação que os neo-cons sempre acharam a respiração natural do mercado. Quem é medíocre, será sempre medíocre! Bush sai de cena mas ficam (lá e cá) os babados reconvertidos à excelência do liberalismo a outrance. Vai uma aposta que daqui a umas semanas voltarão ao mesmo e ao discurso sobre as potencialidades regeneradoras do mercado?
Mais perto de nós, a ETA voltou a matar. Três atentados, três. Para dizer que está viva? Para salvar o País Basco? Porque não sabe fazer mais nada?
A razão é outra. A ETA deixou há muito de ser uma organização política no sentido em que é a política que comanda. A política na ETA está subordinada à acção seja ela qual for. Não há estratégia e a táctica é o que se vê. A miragem da independência do País Basco é cada vez mais mirífica e menos consensual no seio da sociedade basca. Aliás, é mesmo provável que afrouxar a pressão dramática que os gangs juvenis exercem sobre o seu “entorno” (e afrouxará à medida que os quadros são identificados, presos, forçados á clandestinidade, à fuga e ao exílio, cada vez mais problemático e difícil) poderá eventualmente modificar os resultados eleitorais, quer no sentido de haver mais votos expressos quer no de haver mais votos discordantes. É mesmo provável que muitos dos opositores da ETA, forçados a sair do País Basco, possam regressar às suas cidades e aldeias, desenvolver actividade política, criar alternativas ao independentismo a-histórico professado pelos seguidores de Sabino Arana.
A política é o que é. E é sobretudo o que dela fazem. Mas é preferível haver política a não haver senão isto: a violência.
Todavia quando a política recorre demasiadas vezes à violência, mesmo que controlada, corre-se também o risco de confundir uma com a outra. Ou de como os ideólogos de Bush se aproximam perigosamente de outros ideólogos que pretendem combater : acaba tudo por se resumir a uma banal matança numa sala de aula num liceu longínquo na Finlândia.

* O Outono será quente, diziam, noutro tempo, noutro contexto, mas igualmente enganadas, outras pessoas. Foi-o. E seguiram-se anos de violência irracional, de desgosto, de chumbo e de sangue. Anda por aí um texto meu a falar disso mesmo.

**Ilustração da edição francesa do “Genji-monagatari”.

20
Set08

Au Bonheur des Dames 138

d'oliveira

De tudo, de nada, da vida e dos amigos

Este Outono está a dar cabo de mim. Demasiado doce, o dia de hoje então foi um espanto, demasiado carregado de comoções, como se não bastassem os figos maduros, as castanhas (que já se vendem por aí!...) o regresso de férias, o reavivar das rotinas interrompidas pelo verão.
Ora pratiquemos: então os mercados já se não corrigem a si próprios? Então a barracada das hipotecas dos subprimes que os pariu e mais uma série de truques especulativos iam dando com tudo isto em terra? Afinal o tal mercado que se auto-regula foi pelo cano? E a América (a verdadeira, a da Bayer, a dos grandes bancos, de Wall Street, do Bush...) põe-se de repente a adoptar medidas de um intervencionismo feroz, injecta biliões e biliões no mercado, ampara os bancos em risco, as seguradoras na falência como se isto fosse um paraíso socialista? Bush, ontem, parecia o Lenine a fazer a apologia da NEP, a famosa Nova Economia Política, que era a negação do bolchevismo puro e duro que ia mandando para o outro mundo algumas dezenas de milhões de pessoas que pura e simplesmente morriam de fome (para não falar dos outros milhões que morreram mesmo, convém dizê-lo, mesmo que isto soe a politicamente incorrecto.
O tovaritch Bush veio agora com falinhas mansas avisar que não podia deixar o mercado regular-se prometendo mesmo mais dinheiro se necessário fosse para parar a hemorragia e a queda da bolsa. Assim, sem mais nem menos. Só depois dele é que os ingleses de Brown, que é suposto ser socialista, se começaram a mexer.
Que diz disto o capitalismo indígena e os seus apóstolos (quase todos ex-esquerdistas radicais (que há muito viram não só a luz, na estrada de Damasco, mas também as prebendas que um oportuno volte-face lhes poderia proporcionar)?
Lembremos, com um piedoso sorriso que estes rapazolas eram mais papistas que o papa, mais liberais que o senhor Joe Berardo. E agora?
Recordemos também o senhor ministro da Economia que resolveu de repente ameaçar as petrolíferas. Irá nacionalizá-las? Irá impor preços máximos e mínimos?
E a Câmara Municipal do Porto que também ela de repente viu a luz (estou a repetir-me, já sei, mas a verdade é que me faltam palavras para definir a reviravolta no negocio do Mercado do Bolhão). Ainda há dias se ouvia dizer que os contestatários do projecto do Bolhão eram uns tontos (in)úteis e afinal agora já não são...
E o deputado senhor José Lello que também repentinamente descobriu que o ex-maoista Pedro Baptista é um esquerdista? Por onde andaria Sª Exª nestes últimos anos para só agora descobrir um perigoso radical na pele do cordeiro Baptista. Eu bem sei que o deputado José Lello é só isso, um deputado eterno que jamais terá frequentado qualquer esquerda (Deus o livre de tão feio pecado!) e que nunca terá tido a tentação de discorrer politicamente. A política é uma maçada e a ideologia pior ainda. Todavia, subitamente descobre o passado, morto e enterrado do ex-dirigente do Grito do Povo (enfim mais queixume do que grito que aquilo durou o que durou. Ou seja o tempo de um foguete de lágrimas, mas enfim há-de ter arrepiado as carnes tenras do deputado Lello que terá visto neste Pedro tão Baptista um similar do Pierrot le fou, o verdadeiro e não o de Godard, entenda-se, o mau, o que matava e não a personagem desempenhada por Jean Paul Belmondo).
A propósito (isto hoje vai ser assim, às voltas e reviravoltas, quem quiser seguir-me que ponha o cinto de segurança que nem eu mesmo sei o que vem a seguir) há por aí alguém que tendo visto o filme se lembre da maravilhosa Anna Karina, a actriz que chamava Pierrot ao “Ferdinand” e que tinha uma linha de anca, e outra da sorte (linhe d’anche ligne de chance como rezava a canção) ?
A Ana Karina era apenas uma lindíssima actriz que nunca se terá metido em política ao contrario dessa nova Egéria americana, a senhora Palin que há dias dizia com uma candura brutal que a Geórgia deveria estar na NATO. E que se já estivesse, os Estados Unidos deveriam tê-la defendido de armas na mão, mesmo que isso significasse uma guerra nuclear. Aliás percebia-se que mesmo sem a Geórgia estar na aliança deveria ter havido uma reacção mais musculada... Ora aqui está uma mulher “de armas tomar”. Mc Cain que se cuide.
E um bom exemplo para o acima nomeado deputado Lello que julgo lembrar ter sido um grande defensor da NATO. Há socialistas assim: vermelhos por fora mas verdinhos por dentro. Enfim, passemos adiante, que a criatura já teve o seu minuto de glória literária.
E que dizer do arranque do ano lectivo? O governo em peso nas escolas a dar diplomas aos melhores, e um cheque aos melhores dos melhores? Por mim, não faço reparos de maior. Ainda bem que as criaturas se lembraram do mérito, mesmo que isso pareça incongruente, com o abaixamento dos critérios de selecção, com a queda do rigor mínimo nas provas de avaliação, com o facilitismo de que aqui já se falou. Claro que teria gostado de ouvir que essas aberrantes práticas de “passar” à força as criancinhas que não estudam para gáudio de pais irresponsáveis, de educadores do eduquês e da senhora ministra da educação (cujo curriculum acabo de conhecer e que nem me surpreendeu, já esperava algo parecido, parvos fomos nós que suámos as estopinhas para obter uma licenciatura, uma miserável licenciatura em mais tempo do que o doutoramento da excelente senhora...) irão ser abolidas e que a escola voltará a ser o que em teoria deveria ser: um sítio onde a par do ler escrever e contar se ensina a ser cidadão responsável e livre.
Mas o espectáculo da entrega de diplomas desagradou aos sindicatos não por ser espectáculo mas por ser a apologia dos tais diplomas. Mal vamos, senhores sindicalistas, mal vamos se se tira a seriedade ao trabalho e ao mérito. A escola deveria ser meritocrática em vez de ser uma rasoira onde a mediocridade corre sérios riscos de triunfar. Sócrates será ridículo a fazer a apologia do mérito escolar (logo ele com o seu inglês técnico e restantes trapalhadas...) mas o princípio é salutar. Juízo, dr. Nogueira, juízo e cabeça fria.
E as eleições angolanas? Houve por aí uns comentadores apressados, recém-democratas que se apressaram a saudar os oitenta e muitos por cento de votos no partido MPLA/PT. Ia dizer partido único mas a Unita arrecadou umas migalhas e os restantes dez, vinte ou trinta partidos ficaram a chuchar no dedo.
Oitenta e tal por cento cheira muito a “democracia popular”, convenhamos. Deve ter sido por isso que os “órfãos de Estaline” deliraram com o resultado e se apressaram a passar um atestado de democracia ao partido no poder. O cheiro do petróleo e avalanche de votos endoida quem quer ser tonto. Que lhes preste. Convém dizer que não tenho a menor simpatia pelo segundo partido mais votado, a Unita, nem agora, nem antes. Deixo esses amores pouco exaltantes para o dr João Soares que terá visto em Savimbi um Mandela mais gordo e a falar português. Todavia, não posso deixar de me comover com as centenas de milhares de mortos das guerras civis angolanas, das guerras incivis angolanas, dos massacres de Luanda e de tantas outra terras. E algum direito tenho, quanto mais não seja porque fui amigo de alguns dos mortos, de muitos dos presos, de tantos exilados de ontem e de hoje. E mais outro escasso direito terei, por, nas palavras sempre certeiras de um relatório da PIDE, ter em algum momento da minha longínqua e desvairada mocidade sido apoiante activo da ideia de liberdade para a África dita portuguesa. Isto num tempo em que não era certa nem segura a orientação do principal partido de oposição a Salazar no tocante a participar ou não na “guerra colonial”. Fiquemo-nos por aqui porque mais seria levar a sério quer os órfãos do Zé dos bigodes quer as viúvas de Savimbi.
Os tribunais andam a dar cabo da vida aos juízes. Pedroso arrecada uma gorda maquia por quatro meses de prisão e opróbio. Ao ler a sentença fica-se com a sensação desagradável que anda por aí muito magistrado que deveria voltar aos bancos da faculdade, se é que a faculdade pode incutir prudência e bom senso (nem sempre incute, basta ler alguns dos seus mais excelsos produtos...)
Pinto da Costa ainda ganhou mais: por três horas de prisão absurda, leva 20.000 euros. O que dá cerca de 6.600 por hora. Ou seja, em boas contas de antigamente quase mil e quatrocentos contos de reis. Porra! Não há por aí um magistrado que me queira prender?
Mas Pinto da Costa não fica por aqui. Ganhou também, e definitivamente, no Tribunal Arbitral. E convenhamos que também aí o caso não parecia difícil. De que justiça desportiva poderemos falar depois destas sentenças arrasadoras?
Para cúmulo, ganhou o jogo de entrada na champions enquanto o resto dos clubes portugas (excepção feita ao Braga) fez a figura que se sabe.
Eu sou da Naval 1º de Maio e não tenho nenhuma simpatia pelos clubes do Norte (nem pelos do sul, diga-se) mas sou obrigado a rir-me do inútil gesticular dessa gentinha e a reconhecer que o FCP é o único com alguma credibilidade europeia. O resto é o que se vê. Ou que se vai ver daqui a pouco: fogo de palha verde.
Camaradas de blogue fizeram-me chegar reparos pela minha ausência na semana que finda. E inquietavam-se simpaticamente: o gajo estará doente? Nada disso, o gajo está são como um pêro mas andou por aí a fazer nem ele sabe bem o quê, preguiçou, espreguiçou-se, andou nos alfarrabistas a descobrir livros excelentes de que falará, foi a Lisboa assistir ao lançamento do álbum do filme “Le Passeur” em que, como saberão, contracena com outro incursionista, o Manel Simas (sem esquecer a Laurinda Alves e o Zé Teixeira Gomes), esteve com amigos, vai amanhã para uma reunião de curso em Coimbra, ver amigos e colegas tão velhos e jarretas como ele, beberá moderadamente, falará imoderadamente, comover-se-á, lembrará amigos que já não estão, o Zé Rita, o Aníbal Belo e tantos outros, puta de vida, estão a dizimar-nos e nós a assobiar para o lado, é pá estás na mesma, enfim quase, claro que não estamos, estamos mais velhos, mais gordos, mais sensíveis, menos indignados, com menos cabelo ou com o mesmo mas muito, muito branco, que se lixe, estamos vivos, estamos vivos, estamos vivos e por uns escassos momentos seremos os mesmos que há décadas descobríamos maravilhados e intimidados a liberdade, a universidade e a camaradagem que nos faz, apesar de tudo, voltar a estar juntos.
A CG não quer ir: para jarretas basto eu, e um bando de gajos como eu deve parecer-lhe uma viagem à pedra lascada. Tem razão. Mas eu vou. Com a idade que já tenho, o meu pai já não pode ir à reunião do seu curso. Morrera entretanto. Logo ele que era um coimbrinha radical. Também é por ele que vou. E pelos colegas dele: já só restam três ou quatro, todos com mais de noventa anos, é duvidoso que ainda reúnam. Lá irei ao Penedo ver se por lá está a placa da ultima reunião deles. Se fosse religioso iria à capela da universidade. Não o sendo, restam-me o Penedo e as ruas antigas de Coimbra e a recordação amável de alguns professores (Orlando de Carvalho, Ferrer Correia, Mota Pinto, Teixeira Ribeiro, todos de Direito e Paulo Quintela, Luís de Albuquerque, Joaquim Namorado, Fernandes Martins entre muitos que me aturaram as ousadias juvenis, me educaram, me ensinaram e são exemplos de cidadania e saber.)
No fundo, tive sorte, muita sorte. Mas também fiz por isso...


*Na foto Anna Karina
19
Set08

Lisboa à Noite

JSC
Segundo o Público, o Governo e a Câmara de Lisboa vão dar transporte de borla ao pessoal da noite lisboeta. Tudo se passa aos fins de semana, entre as 22 horas e as 5 da manhã.

O pessoal da noite passa a usufruir de autocarros gratuitos, de 20 em 20 minutos. Para que a mobilidade seja maior, o metro e a CP vão alterar os horários matinais, tornando-os mais madrugadores, a fim do pessoal da noite poder ir dormir mais cedo. É ler emhttp://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1343287

O programa que o governo e a edilidade lisboeta acordaram também envolve a PSP, que será reforçada nas noites dos fins de semana para maior tranquilidade dos noctívagos.

O que a notícia não revela é quanto custa este programa de fomento das noitadas.

Também não revela se se trata de um programa exclusivo da capital ou se estamos perante uma experiência piloto, a ser aplicada em outras cidades do país, a começar pelo Porto, Coimbra, Braga e nos Allgarves.

Confesso que me pareceria mais racional se o Governo facultasse transportes grátis para quem se levanta de manhã e vai trabalhar.

De qualquer modo, é este o objectivo do post, não posso deixar de exprimir o meu desconforto e inquietação em saber que os impostos são aplicados desta forma.
19
Set08

A crise que veio para durar

José Carlos Pereira
Falências e nacionalizações à grande e à americana. Injecções de capitais pelos bancos centrais para segurar empresas e mercados. Queda abrupta das principais bolsas mundiais. Subida incessante das taxas de juro. Bolha imobiliária de consequências imprevisíveis. Exportações a diminuírem. Importações em quebra nos principais mercados. Empresas a fechar. Desemprego a aumentar. Preço do petróleo e cotação do euro a cair. Preço dos combustíveis a ir caindo. Dinheiro a faltar nos bolsos das pessoas. Crédito malparado a subir. Bancos a dificultarem (agora) o crédito a empresas e particulares. Quebra do poder de compra. Comércio e indústria com diminuição das vendas. A globalização no seu pior. Onde vamos parar?

Creio que estamos a viver novos tempos, para os quais ainda se não conhece nem a receita nem os remédios adequados. Tempos que afectarão sobremaneira países como Portugal, que vive uma situação fragilizada por estar demasiado exposto às contingências que afectam os nossos grandes mercados de exportação.
18
Set08

A Sopa dos Pobres

JSC
Hoje, pelas 20,30 horas, a sopa dos pobres serve-se no Pátio das Nações. Ontem, como se sabe, foi servida no salão real do Palácio de Queluz. Para amanhã, caso não chova, os convivas serão servidos na Estufa Fria e, caso chova, no Salão Árabe. Para hoje prevê-se que irão ser servidos Peixes Fumados com Salada Verde, Creme Santo Humberto, Folhado de Pargo com Molho de Açafrão, Lombo de Vaca com Molho de Trufas, Toucinho do Céu com Pêras em Vinho Tinto, Café e Trufas. Também se sentará à mesa o verde branco Loureiro, o maduro Planalto, o maduro tinto Sogrape Garrafeira e o Porto Burmester Tordiz de 40 anos.
18
Set08

Expropriador de Bancos

JSC
El Solitário, em pleno tribunal, declarou-se como “expropriador de bancos”.

Face ao histórico recente é de crer que quando o Classificador das Actividades Económicas for actualizado passe a contemplar esta nova profissão: “Expropriador de bancos”? Entretanto, é natural que esta actividade vá fazendo o seu caminho. Com outros métodos, outros proveitos e sem o incómodo de alguém responder perante a justiça, mas sempre “com muita honra”, tal como diz sentir El Solitário.
17
Set08

É a Vida…

JSC
A Reengenharia, no domínio das organizações, nasceu com o propósito reorganizar, reformular, redimensionar, racionalizar e reorientar as empresas para o mercado, tornando-as mais competitivas e lucrativas pela optimização da relação proveitos-custos.

Durante anos e anos os gurus da reengenharia venderam a receita e impuseram as suas regras. No essencial, a técnica consistia em reduzir os custos, metaforicamente equiparados a “gorduras”. Para tanto, eliminavam-se departamentos, fundiam-se empresas ou vendiam-se segmentos de mercado, culminando sempre com um significativo número de despedimentos, proporcional ao objectivo definido para a redução de custos.

Ainda hoje temos por cá alguns gestores seguidores desta metodologia. A receita dá sempre resultado porque é mais que certo que toda e qualquer organização aguenta dois três anos em turbulência interna, tempo suficiente para os accionistas verem que as medidas deram resultado, uma vez que tudo passa a ser medido em função da redução de custos. Três, quatro anos é o tempo que esses gestores passam à frente de uma empresa. Depois saltam para outra e outra.

A vida das empresas tornava-se cada vez mais complexa, o equilíbrio financeiro também. Começaram a aparecer “gurus” a darem receitas miraculosas. Sempre pagos a peso d’oiro. A bolsa tornou-se como que a medida de uma economia virtual, onde as sociedades de risco, fundos disto e daquilo funcionavam livres e desregulamentados, em nome do mercado e da economia global.

Os Estados, por sua vez, influenciados por gurus internos e externos e cada vez mais dominados pelos grandes grupos económicos, pouco intervinham no funcionamento da economia ou descuravam mesmo a desregulamentação, quando não eram agentes activos na constituição de grupos dominantes, através do mecanismo das privatizações e das parcerias público-privadas, medidas alicerçadas no princípio ideológico do “Estado mínimo”.

O problema, o grande problema, que nenhum homem da reengenharia ou guru anteviu, é que o caminho estava armadilhado e com tantas facilidades concedidas a um mercado sempre guloso, este acabou por cair numa crise tremenda, que só não é maior (ainda) porque os governos (BCE incluído) estão a usar o dinheiro dos contribuintes para salvar algumas das empresas, sem que entenda, muito bem, porquê umas e não outras.

Neste processo, a que o director do Público ousa qualificar de “reestruturação do sector financeiro”, (se tudo se passasse nos países do eixo do mal seria “fracasso do sistema” ou qualquer coisa bem pior) ficaram de fora os arautos da reengenharia e os gurus, também nada se diz quanto às responsabilidades dos decisores políticos e dos executivos das empresas falidas. Quanto a estes, o Público de hoje apresenta os “bónus”, em montante de muitos milhões de euros, que alguns gestores receberam, referentes ao ano de 2007, apesar da ameaça de falências das respectivas empresas.

Entretanto, as dezenas ou centenas de milhares de trabalhadores, que perderam ou vão perder o emprego, têm sempre como alternativa “encontramo-nos na sopa dos pobres”, a exemplo da mensagem que um trabalhador da Lehman Brothers deixou registada na fotografia do CEO da empresa.

Como diria o outro, É a vida!
15
Set08

Para que conste

JSC
O Tribunal da Relação do Porto condenou o Estado a pagar uma indemnização de 20 mil euros a Pinto da Costa, por detenção ilegal.

A defesa de Pinto da Costa apresentou um recurso por prisão ilegal em Dezembro de 2004, uma vez que foi detido no interior do tribunal, depois de se ter apresentado de forma voluntária para prestar declarações. O pedido de indemnização tinha sido recusado na primeira instância de Gondomar. Pinto da Costa recorreu e o Tribunal da Relação acabou por dar razão, condenando o Estado a pagar 20 mil euros de indemnização. Melhor explicado em http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=109296 notícia e comentários.
15
Set08

LEHMAN BROTHERS

JSC
A profundidade e permanência da crise no mercado imobiliário provocaram mais uma vítima. O quarto maior banco dos EUA declarou falência. A consequência imediata foi a queda generalizada nas principais bolsas.

Durante dias procuram uma solução para o Lehman Brothers. Todas as negociações tiveram como resultado o insucesso. Desta vez o governo americano mostrou-se indisponível para salvar o banco. Mesmo para o país mais rico do globo começa a ser esforço financeiro a mais.

O sítio do Diário Económico de hoje vai dando registo da evolução do drama:

18:31• Quatro companhias do grupo na Europa tentam reorganizar-se para escapar à falência
18:10 • Lehman discute venda da sua unidade de investimento
16:05 • FMI espera mais perdas resultantes da crise do crédito
13:35 • Fed pode cortar juros com falência do Lehman já amanhã
13:03 • Falência do Lehman e a maior de sempre nos Estados Unidos
07:40 • Fed anuncia medidas para ajudar sistema financeiro
00:05 • Lehman sem soluções

De tudo quanto fui lendo sobre esta matéria, todos se centram nos factos e no futuro. Mesmo o nosso Ministro da Finanças mostra-se surpreendido com a permanência da crise financeira, que parece ter caído do céu.

Como se chegou até aqui? Mais uma vez se deveria dar a palavra aos defensores do liberalismo económico, para nos explicarem onde é que os mecanismos de regulação e supervisão falharam.

O Prémio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, no Diário Económico, de 15 de Abril, registava que "Os EUA tiveram, pela primeira vez desde a Guerra da Independência, há cerca de 200 anos, de pedir apoio financeiro ao estrangeiro porque os níveis de poupança das famílias norte-americanas são próximos de zero. A dívida pública aumentou 50% em oito anos, sendo que 1 bilião se deve ao esforço de guerra – valor que deverá mais do que duplicar na próxima década".

No mesmo artigo Stiglitz concluía "Ninguém acreditaria que uma administração pudesse causar tantos danos em tão pouco tempo. Os EUA e o mundo vão ter de pagar a factura durante muitos e longos anos."

No último dia 12, ainda, Stiglitz escrevia “Mesmo o maior e mais rico país do mundo tem recursos limitados. A guerra do Iraque tem sido financiada inteiramente com recurso a créditos. Aliás, em parte por causa disso, a dívida nacional dos EUA aumentou dois terços em apenas oito anos. Mas não é tudo: o défice relativo a 2009 está calculado em mais de meio bilião de dólares, excluindo os custos do socorro financeiro a instituições e o segundo pacote de estímulo económico que quase todos os economistas agora dizem ser urgente.”

Cá estaremos todos para pagar os desvarios de uma administração e de alguns líderes europeus (a famosa cimeira) que lhe deram cobertura política.