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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

22
Out09

Que Saída?

JSC

Nos últimos tempos têm sido muitas as notícias sobre a pobreza. Já não são apenas os pobres, a que chamam pobreza tradicional. Todos os dias são apresentadas novas categorias de pobreza. Os que perderam o emprego e já não têm idade para encontrar novo emprego. As pessoas da classe média que se endividaram desmesuradamente e que os novos empregos (quando os arranjam) não dão para pagar os encargos assumidos, para estes novos pobres são encontradas soluções de apoio expeditas, que não revelem o apoio que recebem. Agora, começa-se a falar da categoria dos jovens, que terminam os seus cursos, não encontram emprego e os especialistas, sem mais, passam a integrá-los numa nova categoria de pobres. São os pobres recém licenciados.

 

Este fenómeno não deve ser exclusivamente nosso. Há dias um jornal noticiava que um qualquer governo regional em França tinha criado (ou ia criar, não me lembro bem) um “subsídio para combater o pânico de pobreza”. O jornal não dizia como se avalia tal pânico, mas só a ideia de constituir um subsídio desta natureza mostra o avanço que os franceses levam na prospecção e tratamento do fenómeno.

 

Ao lado do desenvolvimento do fenómeno pobreza ocorre um outro, que evolui no mesmo sentido. Todos os dias ouvimos alguém ou algum especialista a dar palpites sobre a pobreza e a expandir fórmulas para apoiar os pobres e os novos pobres. Por outro lado, multiplicam-se as iniciativas, almoços, jantares, recitais, vendas disto e daquilo, cujas receitas (depois de deduzidos os custos da iniciativa) se destinam a apoiar pobres.

 

O que a comunicação social nos informa é que a pobreza aumenta e alarga-se a sectores da sociedade onde não era crível que viesse a integrar o grupo dos necessitados, a ponto de dependerem da ajuda alheia.

 

No meio desta realidade, confesso que sempre tive alguma dificuldade em entender o porquê de haver oferta de emprego não satisfeita. São muitos os locais onde se vê o dístico: “Precisa-se de …”. A cada passo se ouve alguém, dos sectores mais diversos, lamentar a falta ou a dificuldade em recrutar pessoal para trabalhar. A notícia que o JN publica é por demais elucidativa.

 

Para muitos, não para todos, ser pobre transformou-se num meio de vida. Para outros, organizar e participar em acções a favor dos pobres tornou-se, também, um modo de vida ou um modo de auto-promoção e reconhecimento social. Chocante? Talvez.

 

21
Out09

O leitor (im)penitente 50

d'oliveira

Há Nobel e Nobel, basta escolher

 1 O Nobel da literatura em si pouco me diz. Quantos premiados não estão, desde há muito,  sepultados sob uma espessa capa de esquecimento e silêncio?

Claro que se pode sempre dizer que o esquecimento afecta também alguns dos grandes, Gide, por exemplo, de que em Portugal não deve haver actualmente uma única edição recente. Todavia, poder-se-ia retorquir que isso, esse ocasional desinteresse, tem mais a ver com a incultura de alguns, com a ganância dos editores que diariamente nos despejam toneladas de livros que só se vendem graças á publicidade, às capas berrantes, aos pagamentos (que os há) a livreiros para exibirem vantajosamente os seus subprodutos nas estantes mais à vista dos incautos.

Ora, há uns largos anos,  mais propriamente em Maio de 93, numa surtida à livraria, caiu-me o olho num livrinho fino, modesto, sem capa apelativa mas com um título definitivamente extravagante: “O homem é um grande faisão sobre a terra”. Eu não sabia que aquilo era um provérbio da minoria alemã da Roménia e que apenas significava que, neste mundo, o homem se move tão deselegantemente quanto o voo do faisão. Isso aprendi com o livrinho, em tardia leitura, que –como é hábito – fiz muito tempo depois. Os compradores compulsivos arrastam consigo um deficit de leitura tremendo em relação ás pilhas de livros que vão acumulando.  No caso em apreço foi um erro. Trata-se de um romance extremamente bem feito, melhor contado, em capítulos breves, densos, numa linguagem poética e, ao mesmo tempo, devastadoramente expressiva, quase coloquial.

Herta Müller, de que só li esta obra,  ganhou este ano, para geral surpresa o Nobel. Os “derrotados” (se de derrotados se pode falar) terão sido, entre outros, Roth, Llosa ou Amos Oz, autores consagradíssimos, com obra extensa e notável. Pessoalmente juntar-lhes-ia Cláudio Magris um dos mais brilhantes exemplos da misteriosa literatura triestina, cidade que muito me seduziu e que atraiu intelectuais como Joyce ou Svevo (dois não premiados...).

Vale a pena ler esta escassa centena de páginas que uma editora corajosa (cotovia) publicou em 93 (há dezasseis anos!) e que não terá despertado grandes entusiasmos por cá.  Não sei se ainda por aí circulam alguns exemplares para venda. E, no caso de circularem, se ainda custam oito euros (ou, como vejo no meu exemplar, 1680$00, que não era propriamente um preço de amigo para tão pouco livro.) mas, se permitem um conselho, vão por ele, é boa leitura, a letra é grande, a capa é de uma simplicidade desarmante e... (ao contrario de estrepitosas e recentes novidades) aquilo fala mesmo de nós, da nossa humana e mortal condição, e do que outros fazem de nós (ou tentam fazer, mas isso é outra história).

 2 O homem não percebe. Não tem culpa. Nasceu assim, criou-se assim, vai morrer assim. Não percebe sequer o “Génesis” e pelos vistos entre a piada fácil (“Deus criou o mundo em 6 dias e isso nota-se...”, pérola que atribui á mulher actual) e a repetição das tontices anteriores não consegue ultrapassar o seu (dele) pecado original: acreditou em ídolos durante demasiados anos, em ídolos dramaticamente próximos e bem piores do que as iras de uma divindade em que ele (como eu) não acredita. O problema é ter acreditado na que, durante setenta e tal anos e uma número incalculável de mortos, tornou grotescos os conceitos honrados de socialismo, de revolução, de liberdade, de igualdade e fraternidade.

O problema que se poria, se valesse a pena gastar cera com tão ruim defunto, é este: se tivéssemos tido a má sorte de cair no circuito sovieto-gulaguiano (que ele ardentemente desejou em 74-75) o que é que ele teria escrito e, pior, onde estariam (caso vivessem, obviamente), hoje, grande número dos seus leitores e admiradores?  

20
Out09

Estes dias que passam 185

d'oliveira

Bota AbaixoBota e já!


Sessenta milhardas foi quanto custou o estádio de Aveiro!

Agora de quinze em quinze dias aparecem por lá cerca de dois mil espectadores para ver a equipa da casa jogar contra um outro clube,

Há notícia que aquilo, mesmo sem abrir portas, custa um balúrdio por dia. Abrindo, paradoxalmente, ainda custa mais apesar dos dois mil quinzenais frequentadores.

Uma das ideias, peregrinas, claro, é investir mais uns largos milhões para, eventualmente, rentabilizar aquilo. Enfim, para tentar rentabilizar.

Conhecendo, como conheço estas agoirentas criaturas do salto mortal para a frente, prevejo, sem grande dor de cabeça, que alguém quer chuchar com o pagode, fazer a malta pagar ainda mais, para depois gastar ainda mais na manutenção daquela manada de elefantes brancos.

Um cidadão, louco mas atinado, propôs implodir aquela aberração. Gastar por gastar, ia tudo para o maneta e, dos terrenos livres, fazia-se coisa mais conforme à pequenez da terra e ao futebol que por lá se pratica. Acontece que a criatura, cuja sensatez parece evidente, é responsável de um partido politico, sinal de que ainda há esperanças para todos quantos teimam em viver em democracia partidária.

Claro que os do outro partido, ausente da condução dos negócios municipais, uivaram de indignação. Que não, que era um crime deitar abaixo os inúteis sessenta milhões lá gastos. Que com mais alguns milhões a coisa tinha futuro... E dava trabalho a alguns desempregados durante as obras. E algum a ganhar aos empresários locais. E mais não sei quê.

Eu, quando, há anos, assisti ao desparrame de despesas com os estádios dei gritos. De indignação, claro. E, aqui mesmo, fui dizendo que os tais campeonatos de futebol não trazem aos países periféricos como Portugal tanto dinheiro que dê para cobrir sequer uma parcela significativa dos gastos feitos naquelas mastabas de cimento.

Não fui morto, há que reconhecê-lo. Chamaram-me alguns nomes, seguramente, mais uma vez o meu patriotismo foi posto em dúvida, mas ninguém me veio aquecer os lombos com uma dúzia de bengaladas. Como eu, eventualmente, mereceria por me opor ao progresso do betão e do país. Agora temos que Aveiro, Coimbra, Leiria e Faro têm umas enormidades que custaram o que se sabe, que custam o que ninguém sabe, que não servem sequer para o tal mundial de futebol com que nos querem crucificar num futuro próximo e por isso exigem mais obras (todos os estádios ou quase não estão dentro da bitola do tal mundial que é, parece, de oitenta mil espectadores) que por sua vez acarretarão mais despesa de manutenção no futuro e assim sucessivamente.

Eu duvido até que os estádios dos três grandes e o do semi-grande (Braga) não sejam deficitários. Mas suponhamos que não. Que aquilo dá para as despesas.

Por que raio hão-de ser os cidadãos a pagar o gozo de uma pequena parte dos adeptos do futebol, isto é dos que, além do emblema e do cachecol, se dão ao trabalho de irem ao estádio em vez de ficarem avacalhados no sofá diante da tv sport com meia dúzia de latas de cerveja e um quilo de pipocas?

Será que na Inglaterra, na Alemanha, na Espanha aqui tão perto, os estádios são pagos pelo Estado? Não me consta mas, já agora, se algum leitor tiver notícia diferente por favor escreva um comentário que aqui não se faz censura.

No mesmo dia em que alguém sensatamente propõe medidas radicais contra o esbanjamento, uma empresa pública ou quase, fecha cinco linhas de caminho de ferro enquanto durarem as obras de reparação da via. Durante mais de cem anos as obras sempre se fizeram mantendo o tráfego ininterrupto. Agora, na democracia, um punhado de luminárias entende que os usuários (mesmo se poucos) podem muito bem deslocar-se de táxi ou ao pé coxinho porque as obras (que ainda nem sequer terão começado) não permitem a passagem das composições. Essa mesma gentinha vai sonhando com altas velocidades, para aqui, para ali, para acolá e para o raio que a parta numa desbúrdia de milhares de milhões. Mas para os gastos da casa, coisa comezinha e insignificante, toma lá que já bebes. Isto se, de facto, há a vontade de refazer essas linhas ora fechadas, coisa que não teria nada de surpreendente conhecendo-se como se conhece o auto-estradismo dos que se repimpam à mesa farta do orçamento.

(é bom que se saiba que, até á data, a alta velocidade não passa de Madrid e ainda não se sabe bem se há ou não transporte de mercadorias associado. Sabe-se outrossim que o transporte previsto de passageiros mesmo no melhor cenário, no da Hollywood caseira, no que nunca sucede, não pagará o investimento, sequer a despesa corrente.)

*A horrenda gravura arrobiolacada representa o tal estádio. Se o bom gosto mandasse aquilo ia abaixo por ofensa ao mero senso estético. Quando lá passo  - e agora passo duas vezes por mês - pergunto-me se aquilo é o carnaval de Veneza ou o fantasma da ópera em Tecnicolor lusitano. Pode-se não gostar da simpática cidade de Aveiro mas quem fez aquilo queria-lhe mesmo mal. Muito!

 

20
Out09

Perfeito!

O meu olhar

Tenho andado numa roda-viva. Trabalho, trabalho e… mais trabalho. Por isso, estes dias de pausa foram ouro. Local escolhido: a Praia Azul, em Santa Cruz, Torres Vedras. Esta escolha foi mero acaso mas saiu-nos a sorte grande. Praia (s) lindíssima(s), areia macia e imensa, agua límpida e tépida. Tranquilidade e paisagens de encher os olhos e a alma.

Quanto à comida… um mimo. Aliás, vários mimos. Em especial a Sopa do Fundo do Mar. Uma sopa de peixe única. Uma delícia. Recomendo vivamente este restaurante que nos caiu no regaço por mera sorte: o Praia Azul. O único problema da ementa é a escolha, sobretudo nos peixes.
Como dizia há dias uma turista inglesa que desfrutava o sol de Outubro no Algarve: este sítio é perfeito. Nem mais: Perfeito!
Aqui ficam algumas fotos para verificarem que não estou a exagerar…
 

 

19
Out09

O leitor (im)penitente 49

d'oliveira

O senhor Saramago e a Bíblia

 

Eu sou ateu, ou algo semelhante a isso. Nada me liga à Bíblia ou ao Corão ou a qualquer outro livro sagrado. Refiro estes dois porquanto, para alem da eventual mensagem religiosa, são textos muito bem construídos, interessantes, poéticos. A Bíblia, sobretudo, é uma leitura de sempre,  um manancial de mitos, lendas, contos, de leitura, mais do que amena, estimulante.

Parece que Saramago, que agora opina sobre tudo com o à vontade de quem se sente invulnerável, resolveu, depois de escrever um “evangelho” risível e medíocre, voltar à carga com uma obra que tem o sugestivo título de “Caim”.

O tal “manual de maus costumes” a que, segundo Saramago, a Bíblia se reduz, tem todavia importância suficiente (mesmo para ele!...) para lhe provocar duas erupções literárias. Convenhamos que para um livro “manipulador” é obra!

Eu sei que é voz comum e corrente que para vender um livro vale tudo. No caso em apreço, prestes a esgotar-se o filão de “escritor progressista” (piedosa e útil metáfora para escrevente do “Partido” com tudo o que isso implica incluindo as purgas levadas a cabo no DN nos saudosos tempos do PREC), convém agora entreter os leitores potenciais com este toque de atrevimento (?!) que ainda se atribui às tontices anti establishment. Saramago, irremediavelmente provinciano, tem de puxar o lustre a estas necedades para mostrar que ainda está em campo. A velhice é dramática na medida em que não previne as pessoas destes riscos, desta absurda deriva para o ridículo quando não para o grotesco.  Todavia, nada mais “estabelecido” do que Saramago, convertido com inegável mas injustificado prazer numa espécie de monumento ao conselheirismo acacial e escrevente.

Longo caminho para um estalinista... Nobelizado mas estalinista, o que acaba por ser uma outra das (muitas) ironias com o que o Nobel da literatura nos vai entretendo. Com uma que outra excepção eis um prémio que se destina a premiar os mais notáveis entre os escritores secundários, os do mainstream, os que não fazem ondas,ao contrário dos que deixam rasto chamem-se eles Musil, Joyce, Proust ou Borges. Claro que há excepções (Beckett, Paz, para só citar estes) mas genericamente (excepção feita aos poetas, a que de resto pouca gente liga, basta ver as escassas traduções em português) aí está um prémio atribuído por um grupo de criaturas que conhece poucas línguas estrangeiras e depende dos olheiros que pululam á sua volta e dos lobbies editoriais que se vão criando para ganhar a lotaria.

A azougada classificação da Bíblia prova eventualmente ou uma leitura enviesada ou nem sequer isso. Claro que a Bíblia abunda em relatos e histórias cruéis (como o Gilgamesh), em mitos, em hipérboles, em invenções (Jonas e a baleia) mas no meio dessa floresta de enredos (aliás sedutores) surgem amiúde diamantes, picos de excelência que fazem do “livro dos livros” uma das grandes leituras de todos os tempos. Mas continuemos no tema “manual de maus costumes”, repositórios de “crueldades” e por aí fora. Alguém daí, desse lado do ecrã, leu a “Ilíada”? Ou a “Divina Comédia”? Ou, e repetindo, “A epopeia de Gilgamesh”? Não andará por lá um mau costume, uma crueldadezinha, mesmo pequena? Francamente!...

Finalizemos: parece que uma santa aliança de cristãos (não falo de católicos porquanto são os que menos lêem a Bíblia) e de judeus se constituiu e está em pé de guerra. Duvido que os (agora) tolerantes Estados peninsulares lhes permitam lapidar, crucificar ou piedosamente queimar numa fogueirinha inquisitorial o sr. Saramago. Também não poderão, mesmo por mera ironia, mandá-lo para um gulag distante e frio, daqueles que nunca existiram na União Soviética o sol da terra de que o militante entusiasta e disciplinado decerto não se lembrará.

Convenhamos que a indignação virtuosa lhes fica bem mas parece postiça. As frases de Saramago têm de ser valorizadas pelo seu justo valor. São dislates de ancião desejoso de consideração social. E que vê o seu prazo de validade reduzir-se a cada passo. À falta de melhor disparou como Luckie Luke. Contra própria sombra. A idade e uma vista cansada traíram-no e acertou no pé. Nada que não se resolva com um penso e desinfectante. Era uma bala de borracha.....   

16
Out09

Au Bonheur des Dames 205

d'oliveira

Uma causa nacional transcendental e piramidal

Acabo de receber um mail enviado por um velho amigo, pessoa normalmente capaz de discernir, propondo-me a assinatura de uma petição nacional que “declare Maité Proença persona non grata em Portugal”.

 Comecemos então: eu raras vezes vi na televisão a dita cuja Maité; quando a vi não me excitei demasiadamente nem sequer a apreciei por como actriz; em Abril de 90, mostraram-ma em Nova York, mais precisamente na Lexington Avenue. Os meus companheiros de viagem estavam deslumbrados por verem ao perto uma estrela não de Hollywood (oh quem dera!) mas da TV Globo. Era baixota e relativamente vulgar. Mantive a anterior opinião e nunca mais soube da criatura.

Agora, dezanove anos depois, ei-la que regressa como autora de umas piadas sobre o torrãozinho de açúcar. Do pouco que sei, as piadas são as que habitualmente circulam sobre os portugueses no Brasil. Por cá temos idênticas sobre angolanos, moçambicanos ou, em tom menor, sobre alentejanos. O vulgar, mascavado de incultura e um toque de ordinarice. 

Que isto se transforme numa questão do género “barca Charles et George” ou “mapa cor de rosa” diz muito e muito pouco abonatório do país que somos e do povo em que nos estamos a transformar.

Há um par de anos a honra nacional adejava numas bandeirinhas nacionais penduradas nas janelas portuguesas para, segundo um outro brasileiro, desta feita futebolista, animar a selecção nacional. Animou, mas não o suficiente como se sabe, e tudo acabou em tristes farrapos verde-rubros esmaecidos pelo sol e pelas chuvas e esquecidos de quem em hora mais esperançosa os desfraldara. Quem não punha a bandeirinha era anti-patriota senão traidor. Até os monárquicos, agora tão buliçosos, se verde-avermelharam. O diabo foi que os gregos (azuis e brancos, ainda por cima) nos desfeitearam. Cá! Dupla humilhação: perder e em casa!

Agora, ainda não chegámos às bandeiras (nem aos crepes de luto de que a propaganda republicana se lembrou, por alturas do mapa cor de rosa, para vestir a estátua de Camões... e que sobreviveu ao ridículo há que dizê-lo.) mas já vamos nas petições.

Agora, que temos um parlamento pronto a estrear, eis que os cidadãos sedentos de justiça se lançam nessa patriótica cruzada. A ver vamos se a novel Assembleia debate o assunto enquanto medita na formação do Ministério, no testamento vital, no casamento dos homossexuais e nessas outras balivérnias de somenos e que são o orçamento e o plano de acção do Governo. 

Eu, que sou, como se sabe, um degenerado, um estrangeirado e um reaccionário, ainda pensei que o abaixo assinado viria pedir o fim imediato da emissão de séries brasileiras, da TV Record nas emissões por cabo (e que bem que faziam que aquilo é pior do mau) ou, até, o cancelamento do acordo ortográfico luso brasileiro. Mas, como de costume, a brandura tradicional dos costumes indígenas fica pela moção contra a Maité. O que se compreenderia se, como calculo, a pobre mostrar já os sinais da idade, que ela deve ter um bom par de anos. Ainda não será uma antiguidade egípcia mas de certeza que já não há Clínica dermo-estética que a recauchute com aproveitamento total e idêntico aprazimento. Os anos não perdoam e muito menos os que se passam sob os projectores nos plateaux televisivos.

Alguém, na esplanada, tão descaradamente anti-nacional quanto eu, ainda me falou no cancelamento de férias no Brasil para onde marcham cohortes nacionais todos os anos. Para já não falar nos milhares de “machos lusitanos” que abordam as terras de Santa Cruz já de genitalia em sinal de guerra.

Também, felizmente, ainda não surdiram por aí as campanhas habituais contra os emigrantes brasileiros. As mães de Bragança (e de outras terras menos conspícuas) também estão ainda em hibernação. Todavia, se não se põe travão a esta brotoeja de irritação patriótica lá chegaremos.

Este blog, de que só represento um décimo, ainda não alinhou no desvario geral. É verdade que perdemos a possibilidade de virmos a ser citados mais uma vez no “Público” mas, paciência!, outra vez será!

Até lá, leitorinhas gentis e leitores amigos, tenham um bom fim de semana.

* A gravura representa uma senhora que em vez de dizer mal da pátria nossa e amada, prefere defender focas.

 

 

16
Out09

Saques

JSC

 

Há dois ou três dias a comunicação social anunciava que 16 pessoas foram constituídas arguidas por fraude fiscal e branqueamento de capitais, que terão lesado o Estado em mais de 2 milhões de euros. Tudo terá ocorrido entre 1997 e 2006, envolvendo empresas da construção civil da zona de Braga.

 

 O DN de hoje revela que um grupo empresarial da área da higiene e limpeza de edifícios, terá burlado a Segurança Social em cerca de 35 milhões de euros, segundo fonte do Ministério das Finanças.

 

No mesmo DN lê-se que o Banco de Portugal instaurou processo contra 22 personalidades do BPN, sendo que o próprio BPN já instaurou uma acção civil contra ex-administradores, que terão defraudado o Banco em 600 milhões de euros, segundo titulo o Diario Económico  

 

A conclusão que se tira é que no domínio da burla não há crise. É tudo em grande e em abundância. A não ser que alguém se lembre de concluir que a crise resulta, em boa medida, disso mesmo.

 

14
Out09

“Mais do mesmo”

JSC

Vasco Graça Moura insiste em insultar os eleitores porque estes não votaram como ele queria que votassem. Àqueles ou aquelas que ousaram discordar da sua opinião qualifica-as de “gajinhas analfabetas e espevitadas”.

 

Quanto à opção dos eleitores, VGM qualifica-a de “profunda estupidez”. Admito que nem todos os eleitores foram estúpidos, apenas aqueles que não apuseram a cruzinha no mesmo quadriculo em que o grande intelectual e sábio VGM pôs.

 

Quanto ao futuro, VGM nada augura de bom. Desde logo porque “o Presidente da República não tem, , a mínima confiança na personalidade que vai ser forçado a indigitar  para primeiro-ministro”.

 

Quê sugere VGM em matéria de governação? Primeiro, que Sócrates mantenha “a inqualificável porcaria de governo a que presidiu durante quatro anos”, porque lhe dá a garantia de ganhar eleições.

 

Sentença final, “com esta ou outra qualquer tropa fandanga, Portugal está condenado … à ruína, …, à descaracterização total da sua identidade e até ao risco da sua independência”.

Como é que se impede o naufrágio de Portugal? Segundo VGM, assegurando que MFL vai cumprir o seu mandato e liderar a oposição no Parlamento, porque “é preciso acabar depressa com o próximo Governo”.

 

Que VGM não aprecie o Governo (este e o que virá a seguir), que seja dos que pensam que Portugal vai perder a independência (talvez passe a colónia britânica, por força da mais antiga aliança) ainda se entende, agora que ande a bater nos eleitores, porque estes não o seguiram no voto, só se pode admitir por profunda asfixia democrática ou outra.

 

13
Out09

Mais queixas de escutas (e não só)

JSC

A questão das escutas colocou na ordem do dia a insegurança dos sistemas informáticos. Digamos que, também nesta perspectiva, não foi lá muito positiva a denúncia que veio dos que andavam tão preocupados com a asfixia e as potenciais escutas. Desde então tem sido um corridinho a ver quem penetra primeiro nos computadores institucionais.

 

Depois dos Magistrados do Ministério Público é agora a vez do Sindicato pedir a suspensão dos sistemas informáticos, não só da área da Justiça, mas de todo o Estado, porque, afirmam, a rede informática do Estado é comprovadamente insegura.

 

Seria o bom e o bonito se alguém agora se lembrasse de seguir o que estes senhores pedem. Será que o sindicado do pessoal da NATO também exigiu a suspensão dos sistemas informáticos respectivos quando um internauta os foi visitar e colocou na net informação codificada?  

 
De qualquer modo, no estado em que estão as coisas, até pode acontecer que uma das primeiras medidas que o próximo Ministro da Justiça tome seja a de promover “a imediata suspensão de todos os programas informáticos em utilização”, mostrando desse modo grande abertura para o diálogo. A medida até pode ser positiva, se introduzir maior celeridade no sistema…