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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Nov09

Ambivalência Ambiental

JSC

Em entrevista à TSF, a Ministra do Ambiente declarou, claramente, que recusa a privatização das Águas de Portugal. Com esta declaração política a senhor Ministra tranquiliza todos aqueles que consideram que o abastecimento público de água é um bem essencial, primordial à vida, de cujo consumo ninguém poderá ser excluído, não passível de ser entregue à iniciativa privada, que actua, muito legitimamente, em função das regras do mercado.

 

Contudo, aquela declaração da ministra é seguida de uma outra, em que afirma que a exploração e a gestão das infra-estruturas possa vir a ser entregue a privados, que, explícita a ministra, assegurarão a correspondente prestação do serviço.

 

O que a ministra não disse, nem o jornalista lhe perguntou, é o que é que resta, para o sector público da água, depois do Estado entregar à iniciativa privada a exploração e gestão das infra-estruturas de captação, tratamento e distribuição de água, incluindo as redes saneamento e respectivas estações de tratamento? Sim, o que é que, neste domínio, sobrará para a esfera pública?

 

Ou a senhora Ministra está, ainda, politicamente, muito confusa ou tem um discurso político muito esquisito, próprio para papalvos. De facto, nestas primeiras declarações, numa matéria (gestão da água) tão sensível e importante, a Ministra diz que não vai fazer o que, no mesmo contexto, anuncia que fará. A ler aqui.

 

23
Nov09

A justiça que temos

José Carlos Pereira

O caso "Face Oculta" e as escutas ao primeiro-ministro nas conversas com Armando Vara motivaram um longo debate político-judiciário sobre as competências dos tribunais e dos seus agentes. Quanto ao assunto tabu - o que é que Sócrates e Vara conversaram que motivaria um alegado crime de atentado contra o Estado de Direito -  a montanha pariu um rato.

O debate em torno da actuação dos juízes e procuradores, incluindo o Supremo Tribunal de Justiça e a Procuradoria-Geral da República, permitiu ao cidadão comum ficar ainda mais intrigado e preocupado com a justiça que se pratica em Portugal e com a clareza das leis.

Henrique Monteiro, Ricardo Costa e Miguel Sousa Tavares interpretaram bem essas dúvidas dos portugueses na última edição do "Expresso". Dúvidas que nos interpelam e que nos fazem temer pelo dia em que formos nós a precisar da justiça.

22
Nov09

Gripe A

José Carlos Pereira

Ter alguém do nosso núcleo familiar com Gripe A permite-nos ver como o sistema está a responder. Ou não.

Perante o avolumar de casos de Gripe A, o Serviço Nacional de Saúde deixou de ter condições para fazer as triagens e os exames necessários para despistar a doença. No caso que acompanhei, o serviço Saúde 24 respondeu com eficácia e o centro de saúde da área de residência também. Contudo, não há meios suficientes para fazer os exames a todos os que apresentam sintomas consistentes da presença do vírus. Tudo é tratado como se fosse Gripe A.

Presumo que só as pessoas com perfil de risco, devido a outras doenças, têm os exames assegurados. Assim, o comum dos cidadãos, se quiser saber com certeza se padece ou não de Gripe A, tem de recorrer a laboratórios privados - que cobram preços que variam entre os 60 e os 150 euros!

 

 

A Gripe A confirmou-se cá por casa, mas estamos a envidar esforços para a abater...

20
Nov09

Um cão que seja dele, como ele

O meu olhar

 

Com a devida vénia copiamos para aqui o post do nosso caro vizinho Água Lisa, que fez uma excelente associação do texto do Ricardo Araújo Pereira com o quadro da Paula Rego.
                  
Escrito por Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:
 
Falta, evidentemente, o cão. Se Sócrates tem um cão, sugiro que o submeta a vigilância apertada. Parece óbvio que vai ser o bicho a protagonizar o próximo escândalo. Ninguém sabe se fez um desfalque nas latas de ração, se alçou a pata para uma árvore protegida, se foi visto a cheirar o rabo do Presidente. Mas alguma coisa terá feito. E a justiça há-de deixar no ar a ideia de que se trata de qualquer coisa grave, ideia à qual a comunicação social dará o eco devido. E, no final, o caso terá um desfecho terrivelmente inconclusivo.
 
20
Nov09

O homem mais sexy do planeta

O meu olhar

                                                      

Johnny Depp, a estrela da saga «Piratas das Caraíbas», foi escolhido, pela segunda vez, o homem mais sexy do planeta, informou a revista People esta semana.

Ora aqui está uma notícia verdadeiramente importante para nos aliviar da saga da crise, ou das crises. tanto mais que passei parte desta noite, durante um jantar deliciosos, a ouvir e a falar de corrupção, fraudes e outras coisas mais ou menos afins.

Estava eu a escolher uma foto de Depp para ilustrar a justiça desta eleição quando ouço uma voz atrás de mim a comentar: ele não gay? Deve ser a força do lobby.

A voz era masculina... evidentemente!

19
Nov09

missanga a pataco 77

d'oliveira

Querida televisão

Isto de dizer que a tv que nos caiu no regaço é de uma mediocridade a toda a prova é de uma banalidade confrangedora. Notem que nem sequer estou a falar das quatro anãzinhas principais que aquilo nem anãs são, são mostrengos, excrecências, coisas herdadas de tempos obscuros que estão aí vivas e eternas para nos castigarem de termos inventado a descoberta da Índia, com a ajuda “irrelevante” de um prático de navegação de Melinde.

Estava apenas a referir-me a um desses  canais em que nos debitam uma versão aligeirada (oh quão aligeirada!...) de cultura e que, entre duas leviandades e três erros de tradução, nos servem uma poçãozinha de cantáridas de sapiência com que mais tarde possamos brilhar num salão politico-cultural cheio de génios formados por essas novas e brilhantes universidades privadas.

Tomemos o exemplo de hoje com o canal “História”. Anunciava-se um longo documentário sobre Bismarck o chanceler que transformou a Prússia no motor do Reich alemão em versão Hohenzollern.

Com a evangélica paciência que costumo adoptar quando tenho algo entre mãos e preciso de som de fundo, resolvi aproveitar a boleia já que, ao fim e ao cabo, pouco sabia da biografia do velho Otto.

O documentário era, aliás, alemão, o que dava alguma garantia. Do que ouvi nada tenho a dizer de especial excepto que o tradutor para português tinha um conhecimento parco, modesto, modestíssimo, do alemão e mais ainda do português. Por exemplo, desconhecia que Graf quer dizer conde e não é nome próprio de quem quer que seja; que Freiherr não é homem livre mas, isso sim, um nome próprio. E que a guerra entre a Prússia e a Áustria foi fraticida e não fraternal. Convenhamos que com 45000 mortos a fraternidade estava um pouco de monco caído.

Poderia multiplicar os exemplos mas não vale a pena: no reino dos canais temáticos instalou-se uma mafia tradutora que consegue o impossível: tornar mais confusos e mais pobres os temas tratados. Nisso batem-se bem com os quatro grandes (!?#) canais generalistas nacionais.   

19
Nov09

Diário Político 129

mcr

Enterrar os mortos

Sou pouco dado a cerimónias fúnebres. Tenho pouco (nenhum) interesse no destino da minha carcaça quando chegar a minha hora (la mala hora). Recordo, das brumas da memória um texto da “Selecta Latina” sobre Diógenes (ou Sócrates, já não me lembro). Interrogado o filosofo sobre o seu futuro enterramento ele terá indicado que lhe bastava que atirassem o cadáver para um sítio despovoado. “E os lobos?”, perguntou-lhe um dos seus seguidores. “Não vês que te poderão comer?”. O filósofo fez de conta que levava a pergunta a sério e recomendou que lhe pusessem um cajado na mão. “Mas morto, como é que te poderás defender?”, rebateu o mesmo atrevido, metendo-se a si mesmo no ponto de mira do mestre. “Ora aí está.”, respondeu este. “Estando morto, tanto me faz o que acontecer com um corpo que já não me diz nada”.

Vem tudo isto a propósito de um facto que se vai noticiando mansamente, às escondidas, nas páginas interiores de um que outro jornal menos desatento: há uns milhares de mortos das guerras coloniais, enterrados em mais de duas centenas de sítios, as mais das vezes mal ou parcamente identificados.

Os familiares, mas não só, querem dar sepultura digna aos seus. As autoridades, ao que se sabe, dispõem-se a dar notícia dos cemitérios mas é tudo. Se alguém quiser enterrar na dignidade os seus mortos que pague a transferência dos restos mortais.

Alem da minha pouca reverência pela morte e pelo destino do que de mim restará, tenho a acrescentar que desde o primeiro dia (aliás desde antes mesmo) das guerras coloniais fui contra. Fui contra o colonialismo (português ou estrangeiro), tomei desde muito cedo clara posição, sendo até, já nos anos setenta, vagamente indiciado pela policia política como apoiante activo da guerrilha (o que era, de resto, falso pelo menos no que diz respeito ao apoio activo. Eu limitava-me, e não tenho nenhum remorso, a ser totalmente contrário à posição portuguesa e a defender conversações imediatas com as populações e partidos africanos).

Estou, pois, à vontade para criticar as autoridades portuguesas, actuais e pretéritas, pelo seu abandono desses cadáveres em terras africanas.

Esses homens deram a vida por Portugal. Foram para uma guerra que eventualmente não era a deles (mas que fosse!...). Morreram, em combate, por doença ou por desastre, enquadrados no Exército Português. O mínimo que se exigiria é que o Estado repatriasse os restos mortais de quem se batia em seu nome. Não há qualquer desculpa para o não fazer e, muito menos, para atirar para cima das famílias, uma despesa e uma responsabilidade que deve ser imputada  à “Nação”.

Num país que gasta mundos e fundos com a salvação de um banco boçal para não falar das derrapagens repetidas em todas as grandes obras públicas, é imoral, infame e repelente esta sovinice estatal.

Um país, um governo e um povo que não respeitam os seus mortos em combate, são entidades que não merecem qualquer apoio, muito menos qualquer sacrifício, que se mostram mortos e que parecem querer avisar os cidadãos de que os esforços que lhes pedem, ou pedirão, terão como resposta o silêncio, o  esquecimento e o desprezo.

Se é assim (e espero que algum sobressalto de honradez os sacuda) tenho por mim que este não é um país para gente de bem.  

 

d'Oliveira fecit