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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

06
Nov09

Auditar os auditores?

JSC

O Ministro das Finanças anunciou que mandou fazer uma auditoria às empresas públicas da "Face Oculta". O Primeiro Ministro, por sua vez, disse que só se pronuncia sobre o assunto depois de conhecidos os resultados da auditoria pedida pelo Ministro.

Quem tem experiência da governança pública sabe que quando não se quer tomar posição ou se tem como objectivo empurrar o problema com a barriga, a melhor saída é pedir uma auditoria. Esta, uma vez concluída, ainda pode dar lugar a uma sindicância. Tudo instrumentos utilizados pela administração (política) para empurrar o problema para a frente, de modo a que quando tiver (se tiver) de tomar posição tudo esteja bem mais sereno, esquecido, para que nada ou pouco aconteça.

No caso da auditoria pedida à Inspecção Geral de Finanças, sobra-me uma dúvida: Sendo todas essas empresas, permanentemente, auditadas por entidades externas e sendo, ainda, as suas contabilidades e as prestações de contas sujeitas à intervenção de Revisores Oficiais de Contas, o que é que a IGF vai auditar? Vai auditar os “procedimentos” dessas empresas (para quê?) ou vai auditar os auditores externos, que, ano após ano, validam esses memos procedimentos e as respectivas contas?

Uma outra questão que o pedido de auditoria ministerial pode colocar é a da pouca confiança que lhe merecerão as diligências em curso, que as autoridades judiciais estão a desenvolver, daí  a auditoria para validar (ou não) as tropelias que vão saindo para a praça pública.

 

06
Nov09

Hable com Ella

Mocho Atento

"Um filme sobre a palavra que cura e a ternura no cuidar ...entre a ausência e o excesso" era o lema do convite para visionar o filme de Almodóvar na passada quarta-feira na Aula Magna da Faculdade de Medicina do Porto. Seguiu-se um debate moderado por Laurinda Alves, com a aprticipação do Dr- Toma Torres (psiquiatra e crítico de cinema), Prof. António Sarmento (médico) e Célia Queirós (enfermeira).

 

Assistiu-se a uma reflexão importante (e participada) sobretudo dirigida aos profissionais de saúde.

 

Ninguém se referiu ao facto de o protagonista Benigno ter-se suicidado na prisão ao saber que o filho que gerara com Alicia, doente em coma por quem se apaixonara, tinha morrido sem que tivesse conhecimento de que Alicia tinha acordado do coma e reiniciava a sua vida normal. Tal facto não lhe  foi revelado porque o advogado de Benigno entendeu que isso poderia prejudicar o desenlace do processo judicial em curso!!!

 

De facto, a relação advogado/cliente exige que haja verdade e confiança recíproca. E no filme o advogado age de acordo com o que considera melhor para o arguido, pensando que lhe pouparia anos de prisão em julgamento, mas acaba por o  levar à morte! Não medira bem as consequências das suas opções.

 

O filme é uma metáfora dos dilemas da nossa vida. Entre o sorriso e o silêncio...

 

 

 

05
Nov09

Diário Político 126

mcr

Eu não sei se o senhor Godinho actualmente detido, realmente subornou, comprou favores, ganhou concursos ilicitamente, pagou a gestores públicos enfim se “pintou a manta” como os jornais deixam entrever.

Também não sei se o sr. Vara montou um esquema para ajudar o sr. Godinho, se por isso recebeu, pelo menos uma vez, os tais dez mil euros em espécie, se é vice-presidente do BCP por lhe poderem ser creditados conhecimentos bancários e de gestor suficientes ou se  apenas o é porque  teve apoios políticos que, como infelizmente se sabe, valem mais do que um diploma de Harvard. Não sei sequer se a licenciatura com que ornamenta o seu curriculum vitae foi tirada seguindo os habituais protocolos (já de si largamente facilitados hoje em dia) ou se aquilo, o diploma, lhe caiu no regaço sem esforço nem contraprovas.

Apenas sei que o clima deletério em que se vive, se alimenta, cresce, fortalece-se, com esta contínua sucessão de casos em que os políticos se transformam em gestores (sem que para isso anteriormente se lhes fosse reconhecida especial competência) e os gestores se transformam em amigos do peito de industriais e comerciantes que, sem dúvida, graças ao suor do seu rosto, rapidamente prosperam e enriquecem.

Miguel de Sousa Tavares, de que não sou fã (literária, politica ou desportivamente) afirmou na televisão que hoje em dia desconfia de todas as fortunas rápidas. Também eu. Que desconfia, pareceu-me, dos émulos de Laffite, aquele jovem probo, pobre e humilde que se abaixou para apanhar um alfinete, facto esse que fez um gigante da banca descobrir em tão simples gesto uma insuspeita capacidade bancária, e que por isso descrê de milagres que transformem um ignoto cabo eleitoral transmontano em ministro, deputado, banqueiro. Também eu!

Aliás, os dois, num momento único, partilhamos, pelo menos é o que me parece, de uma singular descrença nos corredores do poder e das pessoas que nele sinuosamente se movem.

Daqui até condenar os ora arguidos vai um passo que não dou, que nunca dei. Recusei-me a condenar Pedroso, fiz o mesmo em relação a Sócrates (e só deus sabe quanto isso me custou, que a criatura é por demais detestável) e faço o mesmo em relação a estes da face oculta.

De todo  o modo, saúdo um gesto. Desconheço os motivos privados que levaram o sr. Vara a pedir a suspensão do mandato mas reconheço nessa atitude alguma nobreza. Não esperava tanto, devo dizer.

Também não espero mais. Quem deveria ter tomado idêntica atitude, esgotou o seu tempo. Agora, o sr. Penedos estará mais só e eventualmente mais exposto. É com ele. E com quem o deveria, poderia, ter aconselhado.

Uma última observação: o escândalo fez com que a discussão parlamentar passasse quase despercebida. Convenhamos que já é ter sorte.

d'Oliveira fecit 

04
Nov09

o leitor (im)penitente 51

d'oliveira

 Alguma emoção

 

aliás muita emoção: enganei-me no título. A morte de Claude Lévi-Strauss, mesmo se esperada (o homem tinha noventa e muitos anos!....) perturba-me. E entristece-me. Para além dos livros que devorei, mesmo que duvide fundadamente se os percebi bem, há toda uma época que sem ele se torna mais longínqua.

Não me refiro aos gloriosos anos em que CLS privava com Breton e os surrealistas no exílio nova-iorquino e que ppelas descrições que ele fez em várias entrevistas hão-de ter sido extraordinários.

Falo de um tempo mais meu e mais próximo, de uma época em que muitas certezas juvenis foram a pique. Certezas ideológicas, filosóficas, éticas e políticas. A voragem dos últimos anos da década de sessenta permitiu-me, graças a António da Cunha Pinto (ou Lionel Brim, autor magnífico de "Talvez Pinóquio" e de "Magistério e Desgosto" dois livros imperdíveis e... provavelmente esgotados), um estrangeirado letrado e inteligente, começar a ler as "Mithologiques". 

Mesmo, quarenta e tal anos depois, ainda recordo o deslumbramento intelectual, o desafio, a  surpresa que isso me causou. Curiosamente são dessa época também os meus primeiros contactos com o internacional situacionismo, com a "nova história" a descoberta de Proust e Musil bem como dos estrangeirados portugueses, nomeadamente o Cavaleiro de Oliveira. 

Costumo dizer que entre 66 e 69 mudei mais do que nos dez anos anteriores e muito mais do que nos vinte posteriores. 

Mais tarde, bastantes anos depois, tive oportunidade de ver diversas entrevistas televisivas de Levi-Strauss: sempre me surpreendeu a facilidade de expressão, o rigor dos conceitos e ao mesmo tempo o cuidado que ele punha em se tornar inteligível aos espectadores. 

Pena, grande pena, é que algumas das suas lições sobre o "mito" e sobre a abordagem a este não tenham sido ouvidas por alguns dos nossos intelectuais (verdadeiros ou presumidos). Teriam evitado dizer muita burrice.   

 

*na gravura escultura Hemba (Congo)

04
Nov09

Inquietação - Três Cantos

O meu olhar

 

                    

 

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

 

 

Esta foi uma das muitas emoções do espectáculo Três Cantos: ouvir ao vivo o José Mário Branco com a sua Inquietação.  Parabéns a quem teve a ideia de juntar no mesmo palco Fausto, José Mário Branco e Sérgio Godinho. Foi um espactáculo sublime!

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