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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Mai10

Au bonheur des Dames 230

d'oliveira

Louvor e simplificação de José Quitério

 

Hoje, um dos suplementos de fim de semana dos jornais que leio traz uma desenvolvida reportagem sobre os críticos gastronómicos que povoam a nossa imprensa. Como só leio alguns jornais apenas poderei referir (além de um conhecimento pessoal de muitos, muitos anos) o David Lopes Ramos e o José Quitério. O primeiro foi meu contemporâneo já no fim da minha jornada coimbrã e o Zé foi colega, companheiro e amigo de anos de (parco) estudo, longuíssimas conversas nos cafés da Praça da República e até de umas divertidas férias no Algarve, ainda no tempo em que o Algarve era longe e pouco frequentado.

Depois dos anos coimbrãos, o Zé foi mobilizado e deu com os ossos em África, não recordo bem onde, e ainda nos escrevemos. Eu a contar-lhe o Maio francês e a crise de 69 em Coimbra e ele a dar-me conta das suas dúvidas, das angústias e do mal estar natural do guerreiro à força.

Quando regressou desses anos ominosos, o Zé já não estava para aturar lentes de Direito, a mediocridade provincial e provinciana, sequer provavelmente a vida de estudante. Andara pelos “Gerais”, enfastiado com as sebentas, com a estreiteza do Direito, lá fora fazendo as cadeiras com um mínimo de trabalho, tentando reduzir ao mínimo a maçadoria dos códigos, as definições, o ranço das teorias (que mesmo desactualizadas havia que conhecer!...) e a incerteza propositada dos exames. Estudámos juntos um par de cadeiras do 2º ou 3º ano, já não recordo, na sua velha república (a Baco?) onde felizmente éramos interrompidos bastas vezes pelo saudoso Zé Labaredas que igualmente farto nos vinha desafiar para uma partida de bilhar ou uma cervejola no Oásis, à Sé Velha.

O tempo que o Zé roubava ás enfadonhas sebentas, consumia-o a ler (e que magnifico leitor ele era – e é!  Devo-lhe muita descoberta, quiçá o Graciliano Ramos, não estou certo. O Zé lia com gulosa volúpia, tinha a mão certeira para os grandes, discutia com finura e ousadia os mais difíceis. Lembro-me da nossa comum descoberta dos surrealistas que davam azo a grandes e divertidas sessões no Mandarim, apostrofando os que chegavam, os amigos e os empregados, com tiradas de O’Neil ou Cesariny.

Não admira que ele agora escreva com uma natural elegância, com algumas pequeníssimas piscadelas de olho aos melhores autores, com uma segura mas oculta erudição. O Zé era já nesse tempo um tipo invulgar, obstinado, curioso e reflectido. E isto não tem nada que ver com o uso de algumas definições de carácter zoológico com ele marca um território continuamente invadido por imitadores (e não discípulos) por uma rapaziada que sabendo pouco, preparando-se mal pensa que escrever sobre cozinha é coisa fácil. Não é, não é.

Acompanhei-o duas vezes numa incursão a restaurantes. Não vou revelar como é que ele fixa a lista, os pratos pedidos, enfim a sua técnica de campo. Sei, isso sim, porque o ouvi com atenção e rendido, falar dos pratos que íamos saboreando, da sua história, das variantes, tudo recheado de anedotas e historietas ou referências a livros, peças de música, modos de estar no mundo. O Zé à mesa é um espectáculo. E, ao mesmo tempo, que prazer vê-lo interpelar os restantes “manducantes”, ouvi-los com uma súbita gravidade, com atenção, com ternura.

Espero ainda lê-lo por muitos e bons anos. Mas, se alguma vez decidir que é altura de parar, gostaria que ele o fizesse preparando um par de pequenos filmes em que apareça à mesa em plenas provas. Que bela lição de civilização e de cultura.

Zé, pá, deves isso aos teu leitores que te seguem e não te conhecem.

 

* a fotografia: café Oásis, Coimbra, anos 64 ou 65: Zé Labaredas, mcr, J.Quitério a carambolar e Zé Aires Rodrigues

 

22
Mai10

Submarinos

JSC

Gestor alemão que negociou contrapartidas dos submarinos foi preso por corrupção. A notícia diz ainda que em Portugal o mesmo personagem está a contas com um processo de burla qualificada e falsificação de documentos. Como nada mais se diz, pressupõe-se que o senhor Horst Weretecki terá conseguido algo de extraordinário: praticado um crime de auto-corrupção. É que, tal como a notícia indicia, parece ter agido sozinho…

 

É caso para dizer que o submarino alemão, Horst Weretecki, já está em maus lençóis e bem pode ir ao fundo. Por sua vez, o submarino português anda por aí, a navegar nas águas turvas, bem longe das malhas da justiça.

21
Mai10

A amiga alemã

JSC

 

O parlamento alemão aprovou a constituição do fundo para a protecção do euro. Só o contributo alemão para o fundo pode ir até 148 mil milhões de euros, sendo que o mínimo é de 123 mil milhões.

 

 Esta notícia tem pelo menos dois aspectos que me chamam a atenção: O Primeiro, reporta-se aos neocomunistas alemães que consideram que estes fundos acabarão por financiar os bancos e os especuladores financeiros, por isso votaram contra. Nada sabendo acerca dos neocomunistas (?), acredito que a probabilidade de tal suceder é mesmo muito elevada. A constituição de um fundo desta natureza, sem a prévia regulação do mercado financeiro e abate dos mecanismos e instrumentos utilizados pela banca, na intermediação da função de especulativa sobre o euro, é o caminho certo para entregar aquela pipa de massa nas mãos dos especuladores, em manifesto prejuízo dos cidadãos.

 

O segundo aspecto digno de nota, é que o SPD absteve-se na votação, acusando a Chanceler de ter sido colocada pelos parceiros europeus perante factos consumados. Ou seja, para a oposição alemã a chanceler é um pau mandado dos outros executivos europeus, sem capacidade de decisão. Enfim, nesta matéria, lá como cá, não há grandes nuances no modo de fazer política.

21
Mai10

Diário Político 144

mcr

Sobre a mobilização para a guerra colonial e os modos de lutar contra ela

No blog sempre interessante de João Tunes (agualisa 6) corre uma pequena  discussão sobre a forma como os milicianos (oficiais, sargentos e soldados) encaravam a ida (ou não) para a guerra nas colónias onde havia luta armada.

Refiro o ponto da existência da luta armada apenas porque, tendo assistido vezes sem conta a essa discussão (eu, que fora às inspecções  em 1960, estava livre da tropa... e era usado como uma espécie de júri), verificava-se a exclusão de Timor, Cabo Verde Macau e S. Tomé, zonas onde não havia conflito militar. Convenhamos que, excepção feita a Macau, a questão não era assim tão líquida porquanto mesmo sem guerrilhas ou atentados, havia exíguos movimentos nacionalistas que estavam ligados à Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas, cujo primeiro secretario Geral foi (se não estou em erro) o são-tomense Tomás de Medeiros.

Todavia, existia esse tácito entendimento: colónia sem conflito é um destino apetecido e crível mesmo para os mais radicais. Ou seja, ignorava-se, ou fingia-se ignorar, uma questão básica: as guarnições militares metropolitanas dessas colónias existiam e estavam no terreno justamente para impedir a eclosão de manifestações nacionalistas e a sua sempre possível evolução para o conflito armado. Por outras palavras, nem mesmo a “análise concreta da situação concreta” (velho chavão leninista brandido a propósito e a despropósito de tudo e de nada) permitia ver que no caso em apreço não podia haver colónias de primeira (as pacíficas) e de segunda (Angola, Guiné e Moçambique).

A opção (aliás tardia porquanto nos primeiros anos ela não foi patente e muito menos teorizada) entre ir para as colónias enquadrado militarmente ou desertar teve durante muito tempo dois interlocutores na esquerda: por um lado os elementos afectos ao PC não condenando só propunham a deserção em casos extremos. Por outro, os militantes maoístas e das franjas radicais defendiam pelo menos teoricamente a ideia da deserção fosse qual fosse o estatuto combatente do jovem chamado às fileiras. Os mais ousados falavam mesmo em “desertar com armas”, coisa que em vários casos roçava o delírio porquanto já não bastava fugir do país, passar a fronteira “a salto”, mas ainda por cima carregar uma arma ou achar-lhe destino condigno cá dentro.

A segunda questão que nessa época se punha (e eu só passo falar com alguma relativa segurança dos intelectuais, dos eventuais oficiais e sargentos milicianos) era a que dizia respeito ao destino posterior do desertor.

Convenhamos que não era fácil arranjar ocupação e meios de subsistência lá fora. A maioria dos jovens intelectuais que se exilaram ou dependia das remessas familiares ou conseguia, tarde ou cedo pequenos empregos que lhes limitavam bastante as oportunidades. Alguns, mas uma minoria, conseguiu um estatuto de refugiado em países que, automática ou sem grande dificuldade, lhes facilitava o acesso a bolsas de estudo para concluir cursos, obter especializações ou simplesmente frequentar ab-initio uma universidade ou escola superior. Normalmente isso ocorria nos países escandinavos, Dinamarca incluída, mas tinha vários preços. Dificuldade de adaptação ao clima, dificuldades com a língua, isolamento e maior distância da família e dos amigos. Os destinos mais próximos. França e Bélgica – os mais populares até pelo factor língua e pela existência de fortes comunidades portuguesas emigradas – não tornavam fácil a integração no mercado oficial do emprego, vigiavam com eficácia os emigrados, sobretudo os que tinham alguma actividade associativa e/ou política, permitiam o livre trânsito da polícia portuguesa (quer da PIDE quer da Judiciária que conseguiu desmantelar estruturas da LUAR mesmo em território francês) e não eram meigos na hora de expulsar estrangeiros recalcitrantes. A Itália era um destino pouco pretendido e boa parte dos que para lá emigraram não encontraram condições de trabalho ou acolhimento satisfatórias. A Suíça, e sobretudo ou quase só os cantões franceses, também estava bastante atenta às movimentações politicas dos seus exilados e era um destino bastante mais caro do que a França.

Vê-se por esta pequena amostra que a vida que o exilado politico jovem e sem qualificações poderia esperar não era propriamente paradisíaca. E, quando falo de qualificações, refiro-me a qualificações técnicas. A esmagadora maioria dos meus amigos (todos universitários) emigrados podia dar-se por contente se encontrasse trabalho como porteiro da noite de um hotel mais ou menos manhoso, ou de mulher a dias, no caso das raparigas (que aliás eram absolutamente minoritárias na emigração política). Em raros e contados casos, ia-se para profissões duras, normalmente a construção civil ou uma que outra fábrica (aRenault, por exemplo) mas sempre com trabalhos bastante desqualificados e baixos salários.

Compreende-se, pois, que a deserção fosse vista como uma solução não direi desesperada mas profundamente desagradável, e mesmo de último recurso, por este grupo social proveniente das escolas médias e superiores. E foi por isso, ou melhor dizendo, também por isso que se tornou numa opção claramente minoritária.

Os partidários da ida para África avançavam com algumas hipóteses de trabalho prima facie generosas. À uma pretendiam fazer trabalho politico na campanha. No comando de pelotões, dizia-se, e devido ao isolamento, fácil seria “consciencializar” os recrutas. Asseverava-se igualmente que na camaradagem das messes era fácil discutir politicamente a guerra e a situação. Finalmente, havia a ideia, ligeiramente paternalista, que os jovens oficiais poderiam graças à sua preparação politica e militar evitar às tropas sob o seu comando quer o exercício de brutalidades contra o inimigo quer salvaguardar as próprias unidades de erros que levassem a baixas desnecessárias. Era obviamente uma visão senão idílica pelo menos optimista. Não deixa contudo de ser verdade que, em certos casos, obteve-se algum êxito. Tive um motorista que votava uma ilimitada admiração a um meu colega e amigo, Mário Brochado Coelho que fora o seu comandante de pelotão. O mesmo ouvi de soldados que serviram com António Lobo Antunes, mesmo se, e como era o caso, estivessem adstritos a um serviço que indo para o mato era não combatente. Contam-se dezenas de histórias de oficiais do quadro (e milicianos) que se politizaram nas messes desses cafundós africanos.

De tudo o que se vem dizendo o que decorre? Pois duas coisas bem simples: a discussão que sumariamente se descreveu circunscreveu-se a uma pequena fracção dos militares milicianos que foram mobilizados entre 62 e 74; ambas as opções eram honradamente defensáveis; há e houve seguramente uma dose de oportunismo na divisão entre destinos bons e destinos maus. Qualquer das alternativas implicava, e implicou, sacrifício, medo, desgosto, problemas morais e psíquicos muitas vezes insuportáveis.

Vir, agora, fazer o processo da aceitação total, parcial, sob condição, ou da recusa em embarcar para África é uma discussão votada ao fracasso a menos que, se entenda (e houve dois casos) que a verdadeira posição era recusar embarcar e simultaneamente recusar desertar. Santos e mártires pertencem a uma outra iconografia a uma outra Weltanschaung mais que exterior à esquerda. E, curiosamente, repetem com ligeiros cambiantes outras discussões semelhantes e anteriores (Argélia, Coreia ou Vietname) cujo saldo continua por apurar.

  • ilustração: soldados aliados encontram o cadáver de um desertor alemão (Schweinfurst, 1945)
  • d’Oliveira fecit

 

21
Mai10

o leitor (im)penitente 58

d'oliveira

Três livros sobre política

 

Por razões meramente conjunturais (as datas aproximadas de saída) li estes três livros nos últimos dias. Todos eles me interessavam pelo que, de certa maneira, me ligavam á minha biografia. Pessoal e politica.

Vivi em Moçambique. Tomei parte (menor, menoríssima) numa luta em que se pretendia tirar essa terra da obscuridade colonizada e continuo a seguir com bastante atenção o que se passa lá e em África. Pelo menos na “África negra”.

Por um curto período de tempo, bastante curto, diga-se, mas relevante para o que considero a minha educação politica, achei possível a via “m-l” para o socialismo. Nunca sacrifiquei à versão albanesa e li com a maior suspeita, melhor dizendo incredulidade, uma série de autores que tinham regressado da China iluminados pelo “livrinho vermelho” que, honra me seja feita, me pareceu de um primarismo gritante. Ainda anda cá por casa mas como mero objecto escapado da erosão do tempo.

Não o conservo por ternura, antes como revulsivo, como prevenção e para me lembrar que somos todos mortais e capazes de erro.

Ternura, alguma ternura, liga-me ao terceiro livro que vem “historiar” uma “improvável aventura” que se chamou MES. Durei, como militante, nessa organização cerca de um ano. Saí de lá sozinho, descoroçoado e com a sensação de ter vivido e contribuído para um enorme desperdício de inteligência, de entusiasmo, de tentativa de mudar a vida.

Comecemos então por este livro: “Movimento de Esquerda Socialista, uma improvável aventura” (Paulo Bárcia e António Silva, Afrontamento, 2010).

Muitas das minhas prevenções deixariam de o ser se se considerar o livro não como um “ensaio histórico” mas apenas como um depoimento a quatro mãos com as virtudes e as limitações que isso obviamente pospõe. Se for isto, e só isto, estamos perante uma obra que se lê sem bocejos muito embora se possa sempre criticar certas partes em que se dá uma tentativa de explicação histórica (os flash-backs) que tenta criar o cenário ao progresso do percurso das personagens que se foram paulatinamente agrupando num hipotético “proto-MES” que só não é ainda mais discutível porquanto houve a ideia (feliz) de o qualificar como “proto”. Assim sendo, tudo é possível e pode sempre falar-se em algo que nebulosamente se iria consolidar no MES. E nem sequer é preciso que todas as personagens citadas acabem na organização política que se veio a constituir nos fins de Abril de 1974.

Uma segunda questão que também só se levantaria se estivéssemos perante o citado ensaio histórico é a completa lisboetização dos acontecimentos narrados. Como se o MES só lá tivesse existido sendo a província uma mera paisagem. Até na dedicatória final (aos militantes entretanto mortos, isso é evidente. Só do Porto faltam pelo menos cinco nomes de alguma relevância (Jorge Delgado, ex-quadro importante do PCP, ex-preso político; José Tavares Pinto, advogado sindical e candidato a deputado pelo MES em 1975; José Gomes Bandeira, jornalista, cineclubista, ensaísta, vindo do grupo de Coimbra 69 e candidato a deputado em 75; Luís Teixeira Neves, jornalista, escritor, longo percurso na esquerda activista, candidato a deputado em 75; Maria Manuel Antunes, activista sindical, membro da comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, candidata a deputada em 75). O mesmo se poderá dizer de Coimbra (João Seiça Neves, candidato a deputado em 76) e seguramente de outras terras....E isto que não sendo grave também não deixa de ser importante: é que Coimbra e Porto foram dois dos quatro distritos onde o MES suplantou todos os restantes concorrentes da esquerda revolucionária. Ou seja, algum trabalho, algum empenho, alguma acção hão-de ter sido necessários para se obter esta pequena adesão popular.

O livro fala dos percursos dos autores, dos seus mais chegados amigos, de muitas das figuras importantes do MES. Nada a opor desde que se tivesse usado de critério idêntico para as correntes e os grupos que fora de Lisboa vieram engrossar o MES e torná-lo mais do que “a little cercle of friends” E estou convicto que, por exemplo os militantes saídos sa crise de 69 ( a verdadeira, a de Coimbra) e agrupados na editora Centelha, e no “conj” eram em maior número do que os provenientes da facção “TPC” (Todo o Poder aos Cursos) de Económicas em Lisboa. É verdade que se citam três membros da Direcção da AAC em 69, mas eram muitos mais e também militaram no MES (Pio Abreu, Décio de Sousa José Gil, por exemplo) E, já agora, mesmo que por imodéstia quer Isabel Pinto e eu mesmo fomos eleitos para a DG da AAC no ano seguinte, E militámos no MES. E fomos candidatos a deputados... E tínhamos um longo percurso politico atrás, onde nem sequer faltaram as prisões (no meu caso três e uma detenção), alem de outras e variadas aventuras que de improvável tiveram apenas a virtude de não terem sido do conhecimento policial.

Um último reparo: o MES diz-se (e é verdade) nunca teve secretario geral, presidente, porta-voz. Também não teve uma “jota” ou, muito comum na época um sector da mulher. Convém porem lembrar que o MES durou escassos anos, seis no máximo, quatro dos quais em estado já débil pelo menos como força politica e intelectual interveniente e relevante. Todavia, se porventura tivesse continuado (suicidariamente como tantos outros cadáveres ainda com tabuleta à porta) lá chegaria...

Que fói uma aventura, é verdade. Que foi uma esperança e um ponto de apoio para muitos intelectuais que não se sentiam bem no quadro politico da época, sem dúvida. Que ainda hoje, o recordamos como um espaço de discussão, também. Mas que sofreu de todas as “doenças infantis” da esquerda “revolucionária”, que não percebeu a realidade mas tão só algum “ar do tempo” parece que não restam dúvidas. Que teve a coragem e a dignidade de se dissolver formalmente e de o fazer num tom de festa (que contrastou fortemente com alguns momentos insuportáveis de tensão interna) ninguém discute. Que depois de morto e enterrado, aparecem todos os dias “novos” militantes e simpatizantes que nunca por lá vimos, eis uma evidência e uma ironia que não vem em nenhum livro de teoria politica. Que deu ao país uma forte quantidade de ministros, deputados, responsáveis económicos, administrativos, judiciais, dirigentes de organismos culturais, reitores de universidade, lideres de opinião e activistas de toda a espécie que ultrapassa em muito o exíguo espaço e o reduzido número de militantes é algo que só não espanta quem por lá andou, discutiu, conviveu e se bateu por ideias e por novas práticas de vida.

E isso também perpassa neste texto doce e amargo que o “Didas” e António Silva escreveram. Esperemos que para segunda edição se tomem especiais cuidados e se aumente o número de páginas de modo a todos quantos se aventuraram nesses anos especialíssimos e ruidosos se reencontrem. Mais velhos, mais gordos, mais sós mas sempre vivos.

 

Miguel Cardina, autor de “A tradição da Contestação: Resistência Estudantil em Coimbra no Marcelismo”, publicou recentemente “O essencial sobre a Esquerda Radical” (Angelus Novus, 2010). Tratar em pouco mais de cem páginas de uma história tão multifacetada e de um labirinto de siglas, organizações, grupos, revistas e manifestos, é quase milagroso. Cardina, investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, sabe do que fala, fez o trabalho de casa, mesmo se  - como é o caso – este texto sai de uma tese universitária que ainda está a ser por ele elaborada sobre temas afins.

Quem passou por esta geração e de algum modo foi mais do que testemunha de alguma da história e da vida de um par de organizações mais ou menos radicais, reconhece sem dificuldade o savoir faire e a preparação teórica do autor. E começa a esperar alvoroçadamente mais trabalhos do mesmo autor.

Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus têm uma sólida reputação entre os estudiosos do fenómeno africano colonial e post-colonial. Livros como Purga em Angola, A Pide-DGS na guerra colonial, A luta pela independência ou Memórias do colonialismo, são de leitura obrigatória para quem quiser perceber alguns dos mecanismos e muitas das situações vividas nos anos 60-70 na  África portuguesa. Sai agora um livrinho dos mesmos autores “Nacionalistas de Moçambique” (Texto, 2010) que não desmerece os anteriores. Confesso que ainda o estou a ler mas do lido já formei opinião suficiente para o recomendar. Imprescindível. Por todas as razões mas sobretudo por esta: dá a conhecer um certo número de “desconhecidos” do comum dos mortais e mesmo , de certo modo, dos interessados nestas questões. São curtas mas esclarecedoras biografias políticas de dez homens e uma mulher. Do lote conheci, e honro-me da sua amizade quatro (Noémia de Sousa, Malangatana, Rui Nogar e Ricardo Rangel) e é com alguma (muita) emoção que os revejo neste abençoado livrinho. E até já tenho uma pequena adenda a propor aos autores: A Noémia não publicou em vida nenhum livro mas em 2001, a Associação dos Escritores Moçambicanos com o formidável, generoso e culto, apoio dos “Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique, E.P.” editou “Sangue Negro” que reúne senão a totalidade pelo menos grande parte dos poemas da Noémia.

Claro que o livro está esgotadíssimo mas esperemos que alguém de bem e culto resolva algum dia reeditar esta mulher extraordinária que viveu no exílio português boa parte da sua vida. Foi cá que a conheci, no Técnico se não estou em erro, durante uma das “agitações estudantis” a que ela dava o que podia, um verso e a sua discreta mas corajosa presença. Foi talvez por isso, por contar isso, que uma prima minha, cooperante em Moçambique, conseguiu que uma proprietária do livrinho se desfizesse dele e o enviasse para este imprestável mas grato cronista.

 

* O Didas, o António Silva e Miguel Cardina não levam a mal que a gravura do texto seja uma fotografia da Noémia de Sousa já velhinha. A Dalila e o Álvaro ainda menos. É que a Noémia é mesmo um exemplo de tudo aquilo por que nós todos lutámos. Um belo e bom exemplo.

20
Mai10

As fatias do "monstro"

José Carlos Pereira

As medidas de combate ao défice chegaram em força e não vão poupar ninguém. Acontece que os sucessivos governos foram deixando crescer o “monstro” da despesa pública desde os anos noventa, cedendo a todas as reivindicações corporativas, e agora chegamos a um beco sem saída. Ou melhor, todos teremos de nos sacrificar para encontrar uma saída do beco.

Convém, no entanto, olhar para a estrutura da despesa pública em Portugal para se perceber quais são as principais raízes do problema. A última edição do “Expresso” ajuda-nos a recuperar a memória.

O orçamento do Estado para 2010 previa uma despesa pública total de 81.215 milhões de euros. A fatia maior corresponde a salários dos funcionários públicos (18.290 milhões – 22,5% do total da despesa), seguindo-se as pensões do sector privado (13.992 milhões – 17,2%), o Serviço Nacional de Saúde (8.699 milhões – 10,7%), o ensino básico e secundário (5.896 milhões – 7,3%) e os juros da dívida (5.815 milhões – 7,2%). Adicionando o custo com as pensões e reformas dos funcionários públicos (4.013 milhões – 4,9%) chega-se a um subtotal de quase 70% da despesa pública!

O investimento público, para muitos a maior fonte do mal, leva 4.482 milhões de euros (5,5%). A despesa com as autarquias representa 2.485 milhões (3,06%) e com as regiões autónomas 563 milhões (0,7%). Já as universidades consomem 1.347 milhões (1,65%). O conjunto dá 10,9%.

A nível social, o subsídio de desemprego e as medidas de lay-off e de apoio ao emprego representam 2.209 milhões (2,7%), a acção social soma 1.748 milhões (2,15%), o IEFP gasta 1.120 milhões (1,4%), o abono de família leva 1.076 milhões (1,3%), o rendimento social de inserção e o complemento solidário para idosos somam 736 milhões (0,9%), o subsídio de doença fica com 441 milhões (0,5%), a ADSE com 213 milhões (0,3%) e um conjunto de outros apoios sociais totalizam 3.608 milhões (4,4%). Nestas rubricas reúne-se 13,7% da despesa.

Por esta amostra vemos com facilidade onde mais cresceu o “monstro”e onde temos de fazer um maior apelo à contenção e ao rigor na despesa. As medidas de combate à crise fizeram crescer os custos na área social e persistem os abusos em diversos subsídios. É verdade, mas não é aí que se faz a diferença. É na máquina administrativa do Estado e nos seus diversos ramos que devem incidir os maiores esforços de redução da despesa pública.

 

É claro que quando vejo nos jornais de hoje o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses anunciar que vai mover uma acção judicial contra os centros hospitalares que não deixaram os senhores enfermeiros gozar a tolerância de ponto de 13 de Maio, reclamando o pagamento desse dia a título de horas extarordinárias, já não sei se hei-de rir ou...chorar.

18
Mai10

O leitor (im)penitente 57

d'oliveira

Boas Novas

O “Novo Cancioneiro” dirá ainda alguma coisa a alguém? Melhor, dirá alguma coisa a quem tenha menos de cinquenta anos? É que, com boa vontade, poderá ocorrer que quem começou a ler no fim dos anos 60 ou pouco depois ainda tenha tido ecos dessa aventura literária ocorrida nos inícios de 40, no áspero tempo da guerra, quando a esperança era um fio trémulo de luz no fundo do túnel.

No mundo travava-se uma “dubious battle” (para citar Steinbeck, autor muito do agrado dos jovens poetas neo-realistas) e por cá os tempos eram também difíceis, muito difíceis. Não admira, pois, que uma das respostas possíveis, e quiçá a mais generosa, tenha sido exactamente esta: a publicação de dez livros de poemas que, contra a corrente, cantavam um “mundo novo” e outro que não se pretendia “admirável” mas apenas empolgante.

Os poetas que se congregaram na colecção não liam todos pela mesma cartilha, sequer podem, sem mais, ser reconduzidos a uma “escola” e muito menos a um grupo coeso. De facto, dois deles, Álvaro Feijó e Políbio Gomes dos Santos, aparecem em edições póstumas enquanto os restantes terão carreiras literárias diferentes, longas nalguns casos (Fernando Namora, Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira) ou ficarão conhecidos pelo seu activismo (Mário Dionísio, um dos pensadores mais interessantes, e mais críticos, desta geração; Joaquim Namorado o verdadeiro “patrão” da Vértice até a 25 de Abril, João José Cochofel, alma, com Lopes Graça, da Gazeta Musical e de Todas as Artes e director de um notável ”grande dicionário da literatura portuguesa”) ou por terem introduzido na cultura portuguesa temas africanos (é o caso de Francisco José Tenreiro que eventualmente será a primeira voz a trazer um  tom de pré negritude à poesia portuguesa, que ele ampliará quando, com Mário de Andrade, publica (1953) a famosa e seminal antologia “Poesia Negra de Expressão Portuguesa”  e, de certo modo, Sidónio Muralha que, emigrado no Congo belga, daí denunciará não só o regime português mas também aquele com que diariamente se confrontava).

Percursos diferentes, como se vê, dominados sempre pelo culto da liberdade, pela recusa de compromisso. Serão posteriormente testemunhas de uma época e actores importantes da grande maioria das polémicas intelectuais e politicas que marcaram a história das esquerdas portuguesa e mundial até aos anos setenta. Valeria a pena estudar as opiniões desencontradas deste grupo quanto ao marxismo, ao comunismo, à ideia de revolução em Portugal sem descurar as questões eminentemente estéticas que foram preocupação maior de Cochofel ou Dionísio. Bem vistas as coisas, os oito (mais dois) retratos destes homens poderiam dar uma ideia bastante interessante dos anos quarenta-noventa do século passado. E não seria essa a menor das boas surpresas que a publicação hoje de um caixote com os dez títulos, nos traz. Acresce que na mesma embalagem vem um décimo primeiro volume onde, à voz de Maria Barroso e à música de Luísa amaro, se juntam textos de Eduardo Lourenço, Urbano Tavares Rodrigues, Fernando JB Martinho, José Jorge Letria, Tomás de Oliveira Marques e o último sobrevivente da geração Arquimedes da Silva Santos, um dos pioneiros da pedopsiquiatria em Portugal e que por mero esquecimento não foi citado acima.

Dez livros, dez. E mais um! E um cd! Em edição facsimilada, rigorosa e profundamente entusiasmante. Não percam a oportunidade que, ou muito me engano, é obra para se esgotar rapidamente.

Edição de Althum.com em parceria com o Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira), 100€

*este texto (apressado) teria um só grande destinatário: Rui Feijó, homem da mesma geração, crítico, activista, membro da primeira geração da “vértice”, intelectual e resistente. Um exemplo de honradez e cultura. O livro saiu no aniversário da sua morte. Cá por mim, o Rui está contente.

 

 

18
Mai10

A lei da felicidade

JSC

Larcão, o exagerado, chamou-lhe “um avanço civilizacional”.

Outros, mais à esquerda, puseram Portugal na vanguarda: “foi o direito à felicidade de todos que venceu”.

Salvaguardando os excessos de linguagem dos ditos, todos aceitam que Cavaco, sem alternativa, esteve bem. Acertou na malha e no tempo.

Lésbicas, homossexuais viram as portas do paraíso abrirem-se

A sua causa venceu

E mesmo que muitos pensem que isso nem seja bom nem seja mau

É menos uma causa!

18
Mai10

Au Bonheur des Dames 229

d'oliveira

A nu!

 

Gostava de ser um velho sátiro. Um sátiro sábio e tolerante, que os há, ou deve haver. Mas o texto de hoje não tem nada de sátiro, sequer de satírico.

Eu bem tentei assobiar para o lado e fingir que a história da jovem professora de Torre D Chama que posou nua para o Playboy não passava de um fait-divers.

Mas a realidade dos factos não permite que se passe ao lado, sequer que a recubramos com um manto diáfano de fantasia.

A história é simples: uma jovem e bonita mulher professora de educação musical nas actividades extra curriculares (signifique isto o que significar) apareceu nua na revista. Parece que alguns pais e alguns professores das criancinhas a cargo da professora se “sentiram desconfortáveis”.

Não sei este pais e aquele professores significam macharia ou se referem ambos os géneros. Apostaria mais em mães e professoras, provavelmente menos agraciadas em dotes físicos do que a jovem Bruna Real mas também não ponho as mãos (nem qualquer outra parte do cadáver) no fogo pela hipótese contrária.

A virtude mais uma vez ultrapassou os limites extensos que lhe atribuem e terá influenciado o senhor presidente da edilidade local que, para suster a imoralidade, transferiu a jovem para o Arquivo. Até Junho ou Julho, data em que expira o seu contrato. Um contrato a recibos verdes!

Vai uma apostinha que a senhora está aqui está na rua?

Vejamos, mais em pormenor, não a nudez inocente da atrevida mas a outra menos límpida da repressão. E juntemos-lhe estoutra, mais repelente: o recibinho verde, ou seja a ignomínia de um organismo público imitar o patronato privado mais crápula e finório.

Em Portugal, país que, a partir de hoje, admite o casamento entre pessoas do mesmo sexo e (no dizer sempre parolo do dr. Lacão) mais uma vez se põe na "vanguarda do progresso", há funcionários públicos a recibo verde, há intromissão na vida privada de uma cidadã, há um claro e injustificado castigo ainda mais desrazoável por não ter sido sequer precedido de processo (de inquérito e muito menos disciplinar). Uma transferência de local de trabalho indicia sempre um expediente disciplinar à vista. Alguém não cumpriu um dever funcional e, à cautela, muda-se de local de trabalho e abre-se o expediente disciplinar (ou de inquérito) apropriado. A medida tem alguma razão de ser que aqui não é discernível.

Andam por aí muitos cidadãos a queixar-se de discriminações várias. Ainda ontem os jornais noticiavam com algum pormenor as que recaem sobre os homossexuais. Houve mesmo depoimentos em que alguns deles se diziam vítimas  não de maus tratos ou insultos mas de “olhares de desprezo”, de incompreensão etc... E isso enchia de indignação virtuosa uma que outra comentadora do “Público”. Esperei ver alguma sóbria defesa da jovem Bruna. Nada! Não sou um cavaleiro andante, estou numa idade provecta, canónica (mesmo se o olho, e não só, ainda se alumia com o corpinho feminino, mormente este que me serve de mote) e não pretendo nada, rigorosamente nada da professorinha de Torre D Chama.

Todavia, e já que de chamas se fala, horroriza-me a inquisição de baixa intensidade que neste momento sopra no nordeste português. E, desculpem-me, parece-me mais importante este pequeno facto do que a a promulgação da lei já citada que, a meu modesto ver, não muda substancialmente nada. Num país onde já nascem mais crianças fruto de união livre que de casamento onde, parece, já mais uniões que casamentos, não é uma lei, por muita fractura que apregoe, que mudará o panorama mental lusitano. Nós vivemos sempre na estúpida (e perigosa) ilusão de que são as leis e não o sentir profundo das pessoas que mudam as coisas. Vivemos sob uma diarreia legislativa e legiferante que cai sobre a realidade não como o tal manto diáfano mas como um bolor espesso e mortífero. E que é adubado pela estupidez dos que mandam e dos que os aplaudem, no caso, umas quaisquer criaturas que não respeitam a nobre tarefa arquivística nem mais terrenal arte de se despir.

E vivemos, conformados, deformados e formatados entre a boçalidade e a intolerância. Arre!

* a gravura: propositadamente não se usou nenhuma fotografia da professora. Não que se respeite os direitos da Playboy mas apenas porque para o peditório do "espreita" nunca dei nem darei.