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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

24
Mar11

Au Bonheur des Dames 275

d'oliveira

 

Suddendly last tuesday...

 

Não foi subitamente mesmo que eu queira aproveitar o título de um dos mais impressionantes filmes de Liz Taylor, essa mulher magnética, essa presença insinuante e obsessiva que me acompanha desde os primeiros anos cinéfilos.

A Taylor era um mito. Maior, aliás, do que o seu próprio mito. Os azares da história quase que fizeram que ela ficasse mais conhecida pelos escândalos (enfim o que convenções perversamente puritanas entendiam como escândalo) do que pelas magníficas interpretações numa boa dúzia de filmes que passam directos para a história do cinema.

Ainda por cima era uma mulher lindíssima. E isso é imperdoável. Pelo menos numa mulher e actriz. Liz Taylor era excessivamente bela, elegante e tinha um dos mais famosos pares de olhos do cinema. Assim sendo, não podia ser uma grande actriz.

A inveja é, como se sabe, uma das características mais bem distribuídas entre os humanos. Até eu tive inveja. Do Richard Burton, entenda-se, esse enorme actor que terei visto pela primeira vez num filme chamado Look back in anger ( Tony Richardson, 1959) tirado da peça homónima de John Osborne.

Todavia, da Taylor, recordo sobretudo o excelente “subitamente no Verão passado” de Mankiewicz com Montgomery Clift e Katherine Hepburn. É minha convicção que este é o seu melhor filme e um dos melhores da temível Hepburn, outra fabulosa actriz. Clift era igualmente um extraordinário actor e o velho Joseph Mankiewicz era, há que dizê-lo, um realizador que a sabia toda.

Dir-se-á que com um script fabuloso tudo seria fácil. Bem pelo contrário. Um guião como o deste filme pedia mão muito firme do realizador (e ele teve-a) tanto mais que lidava com três actores excepcionais. Por outro lado, estes, vedetas com créditos firmados, poderiam tentar roubar espaço uns aos outros o que, na minha já fragmentada memória, não ocorreu. E a Taylor atingiu o sublime. Ou então sou eu que ainda a vejo com os olhos dos meus dezoito anos...

Morreu anteontem. Dizem os jornais que era o último grande ícone. Não sei: de repente, sob o peso deste luto, não estou a lembrar-me dos que ainda sobrevivem. Morreu, igualmente, uma mulher de causas, de belas causas, determinada e generosa, fiel aos seus amigos e ao seu mundo. 

Como me dizia o João Vasconcelos Costa, outro da minha geração e irmão nas devoções liztaylorianas, há mais vida nesta morta do que no país inteiro que se consome, nos consome e há-de comer os nossos ossos. Que seja tarde, acrescento, e que quando a Parca nos quiser abraçar que o faça num repelão. Ou quase: que nos permita rever, num segundo, a Taylor e, com ela, todas as outras estrelas que nos iluminaram a vida em tempos de escuridão. 

 

* fotograma de Suddendly last summer

 

 

 

 

 

 

23
Mar11

Au Bonheur des Dames 274

d'oliveira

Merdre!

(Alfred Jarry: Ubu roi)


A mediocridade morreu, viva a mediocridade! O senhor Sócrates com a má criação que lhe é consubstancial, saiu do hemiciclo. Para ele aquilo é um circo, o que sendo verdade dada a falta de qualidade de grande parte do ajuntamento parlamentar, não deixa de ser significativo.

As oposições fizeram o (pouco) que se esperava delas: incapazes de sequer se reverem num texto comum, votaram-se respectivamente no não e dividiram-se nos fundamentos.

Não deixa de ser curioso verificar que foi a drª Ferreira Leite quem fez o discurso mais articulado. Ao serviço da criatura que conspirou contra ela, a derrotou e, provavelmente, lhe tirou o tapete quando ela tinha eventualmente possibilidades de ganhar as eleições.

Ouvir um pobre diabo, como o senhor Bernardino Soares, presumível delfim de Jerónimo, o bailarino, a parlapatar sobre as extraordinárias propostas do PC é regressar não ao século vinte mas mesmo ao dezanove. No seu melhor parece bacoco. No pior, nem vale a pena.

O senhor Pureza permite pensar que é dele o reino dos céus. Não se entende mas o problema deve ser dele. Ao falar do adiamento do futuro plano europeu de salvamento financeiro teme-se seriamente que ele ainda não tenha percebido que é deputado.

Do PS nem vale a pena falar: coligação negativa, gritam. Claro que depois do que andaram a tramar não deveriam esperar por outra coisa. A extraordinária vinda de Bruxelas com o PEC 4 no bolso, sem dar cavaco a ninguém parece sobretudo um truque barato. Não foge como Barroso, e menos como Guterres. Finge que está de peito feito mas, de facto, atirou a casca de banana aos outros e estes com a pressa insofrida pelo parco poder que restará depois dos próximos pecs, caíram que nem parrecos.

O PSD, que não tem projecto político e muito menos económico, corre o risco de ter de se acolher neste domínio aos cavaquistas (Ferreira Leite e Catroga?) por menoridade mental do seu líder.

Há muitos anos, tantos que nem me lembro, ocorreu em Coimbra a última “latada”. As latadas eram cortejos de novos grelados (quartanistas) que vinham, no início do ano escolar mostrar a pequena fita. E anunciar que estavam quase no fim do curso. Para o efeito mobilizavam os caloiros, mascaravam-nos e obrigavam-nos a trazer cartazes de critica mais ou menos bem humorada à vida académica.

Nessa latada, a de Letras, que foi a última nesses moldes, o título genérico da marcha era “Os velhos não devem governar” (trocadilho com o título de Alfonso Castelao “os vellos non debem namorarse”) e ao longo da latada eram mais, muito mais, os ataques a Salazar e á “situação”. E um dos cartazes, porventura o final, rezava “Este regime não cairá pela força mas sim pelo ridículo”. Os estudantes responsáveis (entre eles António Luís Landeira) foram presos pela pide. Como se a verdade medrasse entre grades.

De facto, o regime durou mais treze dolorosos e mortíferos anos mas caiu quase pelo ridículo. Bastaram dois tiros para o portão de um quartel quase desguarnecido.

O regime que estamos a viver, esta mascarada de democracia, em que se elegem deputados aos molhos, em que nenhum deles é responsável perante os seus eleitores, em que a corrupção campeia, o amiguismo escolhe os gestores políticos e culturais e um grupo de políticos de centro direita fabrica um banco onde desapareceram quatro mil milhões, que nós temos de pagar, esta coisa informe de que a rua se ri quando não amaldiçoa vai continuar até ao momento em que um par de exaltados tente um golpe, seja ele qual for, em nome de um salvador da pátria, abnegado e modesto. Veremos se, nessa altura, algum destes pais e mães e filhos da pátria, sai à rua para defender a liberdade e a democracia. Vai uma aposta?

Agora, até Julho vai ser uma corrida de lemmings para o precipício, depois haverá eleições já em período de praia. As férias seguem-se. Não haverá orçamento antes de Outubro ou Novembro. Vocês que me lêem, preparem-se. Vem aí maus tempos. Péssimos. Boa sorte. 

 

23
Mar11

Estes dias que passam 232

d'oliveira

Observações...

Só um pateta irresponsável é que pode dizer que uma crise politica nesta altura não traz nada de mal. Que as eleições até clarificam! Foi o dr Marques Mendes o autor desta tirada inteligente!!! Percebe-se por que é que o mandaram dar um passeio.

Só um pateta irresponsável é que, conhecendo o país, vai a Bruxelas com uma proposta sigilosa e vem de lá sem dizer nada a ninguém. E depois deita as culpas aos outros que, como até um palerma perceberia, não gostam de ver as coisas nos jornais antes de as saberem de modo mais institucional.

Só um comentador envelhecido, mesmo se com alguma agilidade intelectual, é que pode vir pedir agora uma intervenção do Presidente da República.

Só um Presidente incapaz de lidar com as suas responsabilidades é que pode vir dizer que o jogo que ele arbitra não pode ser interrompido.

Só uma esquerda tola e manifestamente autista é que pode vir apresentar um programa de investimento ferroviário de 11.000 milhões de euros!!! Onze mil milhões! E de propor que, contra regras claras e gerais, os médicos reformados regressem ao serviço a receber por inteiro um vencimento que se acrescentaria à sua reforma!!!

Só outra esquerda tola e autista e irresponsável é que pode vir dizer que uma coisa é a crise e outra a queda do Governo. Ou será que para estes órfãos do sol na terra quanto pior melhor?

Só um partido esvaziado de tudo, sobretudo de ideologia, é que pode continuar a manter um Primeiro Ministro que é incapaz de ver para além do seu fraco nariz. E sobretudo, de vir acusar os outros de faltar ao jogo quando, de antemão, o falsificou chegando ao ponto de publicar antecipadamente o resultado.

Só um bando de parolos é que é capaz de pensar que estes pobres jogos malabares não abrem a porta a um cada vez maior descrédito da instituição parlamentar. E que isso, essa natural e justificada desconfiança dos cidadãos indefesos, conduz, com uma implacável lógica, ao clamor por um salvador da pátria, acima das querelas partidárias e dos obscuros interesses da multidão subserviente que se acumula nos corredores de S Bento.

O dr Mário Soares, agora tão preocupado (e bem...) com as desgraças que inexoravelmente se vão abater sobre este desgraçado país, poderia e deveria ter falado há mais tempo. Há muito mais tempo. Durante o tempo em, que por exemplo, exaltava a baça figura do engenheiro Sócrates e o punha nos píncaros da lua. Agora é tarde, Inês é morta.

O sr Jerónimo de Sousa conhecido especialista em danças de salão e ocasional secretário geral de uma organização decadente e em perda de velocidade e de influência na nossa sociedade, miseravelmente vendida às delicias de Cápua (alguém lhe traduzirá isto), acha que apresentar uma moção contra o Governo não ajuda os inimigos do mesmo Governo. Nos “bons velhos tempos” ideias idênticas geraram a politica infame “Klasse gegen Klasse” na Alemanha e deram a Hitler o tempo e a oportunidade de consolidar o seu poder e de, na passada, mandar algumas dezenas de milhares comunistas para os campos de concentração (enquanto alguns luminares da citada politica se retiravam para um duvidoso e perigoso exílio em Moscovo, de onde nem todos, justiceiramente, regressaram).

A rapaziada que se reuniu em Viseu rejubila. Vão ser necessários. De facto, as expectativas de haver uma vitória por knockout (do PSD, claro) são demasiado elevadas e pouco credíveis. Assim sendo, resta uma vitória mitigada do partido daquele inventado Passos Coelho (tirado da cartola de um qualquer malabarista retirado da ribalta política). E isso implicará ou governo minoritário (e ele nem sequer tem a escassa estaleca do seu rival “socialista”) ou um governo de coligação. Afastados que estão (por razões obvias) o PC e o BE, resta ao momentâneo líder do PSD a companhia do CDS. Dirigido por um homem que em questões de inteligência, senso politico, cultura e habilidade o deixa a quilometro numa corrida de 200 metros barreiras. Vai ser divertido mesmo se, como se sabe, igualmente trágico.

Mas suponhamos que um acaso, uma má vontade dos deuses, dá ao PS uma também escassa maioria relativa. Aí o cenário não é melhor. Por um lado a imbatível vaidade de Sócrates vai, espera-se, confrontar-se com os efeitos do susto e com a aumentada gravidade da crise. Donde é imperioso uma coligação. Dadas as características do PC e do BE, mais uma vez, e não seria novidade!, eis que o recurso ao CDS se torna lógico. Ora, como já se disse, o dr Portas está para Sócrates como o verdadeiro Sócrates o grego estava para um pobre diabo de Atenas.

Resta a hipótese mais sinistra de todas: os dois partidos do centrão coligarem-se para fazer frente à situação. Com esta gente e estes dirigentes o que é que podemos esperar, alem de um enterro pobre e às escondidas?

Lembremos ao distraídos que tudo indica que a Espanha já se safou do pior. E isso, longe de ser uma boa notícia para nós, é uma má notícia. Somos dispensáveis. A Europa passa bem sem nós. Aliás, passa melhor sem a pedinchice lusitana. Nem o Algarve nos salva. Fora do euro somos uma Tunísia mais próxima e menos quente. E com mais campos de golfe.

Que desperdício!

22
Mar11

Prostituição

sociodialetica

Amélia mandou o primeiro berro entre os gemidos da mãe, ajudada pelas mãos hábeis e calejadas da parteira de experiência de muitas dores e alegrias.

De Amélia cantarão os poetas mas naquele momento tão honrosos futuros eram insuspeitos. Apenas se sabia que seria mais uma boca para comer. Os poucos labores com o gado não permitiam antever alternativas sem ir para a cidade, perto em quilómetros e longínqua em afectos e desencontros.

Ali bem junto, a menos do desvanecer de um grito, se comemorava acontecimento semelhante. Em quarto particular de mil cuidados renovados, Marco entrava na vida, ainda sem nome, também chorando. Um choro eloquente de vontade e determinação, no dizer dos pais, que fazia antever radiosos sucessos. Bastava olhar aquele perfil ainda disforme e imberbe para se descobrir os traços de nobreza, há séculos empacotado por antepassado que em campos de batalha se destacou.

Calcorreando as mesmas terras e caminhos, vale luxuriante de verde tragado por vacas obedientes à sua missão leiteira, pouco os identificava como filhos do mesmo Deus. Frequentaram os mesmos primeiros anos de instrução, onde a sagacidade não os distinguia, mas as convivências, práticas e apoios familiares desvaneciam qualquer proximidade.

Amélia a custo terminou os estudos obrigatórios e Marco continuou o seu estóico percurso de aprendizagem e cabulice. Alguns anos mais tarde, entre pénis endurecido e sensações até então desconhecidas Marco pensou em Amélia feita olhar doce de entrega, seios de bicos salientes marcando a chita e pernas morenas bem torneadas. Perante a insistência das recordações ainda procurou que seus passos se cruzassem com os dela. Todos os dizeres ficaram mudos, todos os actos por praticar. Ganhou rijeza e recordações daquele andar bamboleante.

Talvez porque signo e mapa astral lhes traçavam algumas estradas comuns, nos desencontros de famílias e possibilidades tão distintas, ambos rumaram para o Porto em datas próximas: uma para trabalhar a dias e esperar que algum arranjinho lhe garantisse o sustento, outro para frequentar estudos universitários e dar escape a alguns dos sues impulsos.

Amélia foi empregada em casa da Foz, palmilhou os passeios do Castelo do Queijo, teve senhor e dono de bolsa larga e potência reduzida, enrolou incautos com champanhe em ambiente nocturno. Soube encontrar o desafogo económico numa permanente instabilidade e na incerteza da duração do vigor e encanto do seu corpo. O vinte e cinco de Abril apanhou-a em ascensão profissional. A sua vida continuou igual com alguns entusiasmos e contratempos, manifestações e instabilidades. Apenas as preocupações da mãe viuva, alertada na missa para os horrores que se viviam na cidade, exigia de Amélia uma apressada recolha de informação e a transmissão de algumas ideias feitas.

Marco foi progredindo nos estudos, tropeçando aqui, rogando pragas às maledicências dos professores ali, aproveitando entusiasticamente festas, boites, praxes e outras tantas alegrias juvenis. A revolução apanhou-o em fim de curso, quando já se antevia uma mudança de estatuto social. Os calores das mudanças sociais, moldadas pelos sofrimentos de muitos em longos anos, não eram propícios à apresentação das suas parcas gotas de sangue azul. De azul só os gloriosos dragões que elevaram a magia nortenha a glória nacional.

A UDP foi uma boa roupagem naqueles tempos árduos. O discurso era aceite, Marco ascendia a cargos de chefia, numa predeterminação de chefia gerada no nascimento. Com comunistas nada. Brincar com as vastas propriedades, verdes, recheadas de animalejos não era aceitável. As terras eram benção divina. Depois foi politicamente independente, militante contestatário do PSD, apoiante do PS no dia seguinte à derrota daquele, numa acrobática movimentação com apoio em múltiplas plataformas. A inteligência não era muita mas o discurso eloquente e o jogo de rins espantoso.

A Amélia chamaram prostituta e a Marco político. É bom que a linguagem distinga o que de semelhante só é aparência. Amélia fornicou com muitos. Marco fornicou muitos. A ambos se paga mas só Amélia dá prazer.

 

22
Mar11

Diário Político 162 d

mcr

 

 

4 oú sont les neiges d'antan?

Sempre que posso (e tenha os cacaus necessários) venho até Paris. Gosto imoderadamente desta cidade, da sua história, dos cafés e dos bistrots, dos museus e das esplanadas, do bulício e, por que não?, da calma de certas zonas. Dói-me ver alguma da destruição dos meus bairros favoritos. É um café em Saint Sulpice que desaparece para dar lugar a uma loja caríssima e deserta. É uma livraria junto de Saint Germain que é comida por outra negociata de alto luxo, igualmente deserta. É a rue de Seine inteiramente canibalizada por galerias de arte. Eu adoro galerias de arte mas uma rua inteira? Esta gente não perceberá que ao tornar monotemática uma rua a faz menos atraente?

Outro exemplo: na rue Princesse havia um bar, o Birdland, cujo proprietário tinha uma colecção gigantesca de discos (LP) de jazz. Tinha tudo ou ainda mais! Pedia-se um demi e um disco, fosse ele qual fosse. E assim se passava um bom pedaço. O Birdland continua mas parece que os discos já se foram. A rua agora é toda de bares com música ao vivo. Coortes de miúdos vem de toda a parte para lá. Ainda ontem tive de explicar a um rapazinho inglês onde era a rua.

É o progresso, dirão. Será? À custa da variedade, da qualidade de vida, do bulício de gentes diversas?

Mas nada, mesmo nada, me retira o prazer simples de flaner entre deux rives. De fazer pequenas compras, modestas compras, nos pequenos negócios que se mantêm. Logo no primeiro dia, zarpei para a rua des Poitevins onde a Relma vende papeis de encadernar maravilhosos. O difícil foi escolher. Num alfarrabista perto compulsei, guloso mas desanimado uma belíssima edição das Memórias do Saint Simon. O preço, não sendo baixo, era quase suportável. Mas como é que se transportam oito grossos volumes, belamente encadernados? Fiquei-me por uma antologia das memórias numa honrada edição pochothéque que mesmo assim apresenta mil e muitas páginas.

No hotel, na salinha dos pequenos almoços, ou seja, na entrada, um casal francês dispõe-se a marchar para o Pompidou. “C’est pas évident...” declara a madama de mapa em punho. Compadecido, intervenho: saia para a rua, tome a rua de Hautefeuille até ao fim, atravesse as praças de St André e St Michel e tout droit, ponte, cité, Saint Denis (achei por bem não recomendar as peripatéticas, aliás raras pela manhã) e tome a terceira ou quarta transversal à direita, atravessando o bd Sebastopol e já está!

Mais vous êtes un vrai parisien extasia-se a francesa. Pás du tout madame, un vrai portugais! Dos que ainda amam a velha cidade que, aliás, acolheu, muitas centenas de milhares dos nossos. E as cidades conhecem-se à pata, pedibus calcantibus, como se dizia nos tempos de Coimbra.

E justamente, de Coimbra, manda-me o Miguel Cardina um mail a convidar-me para assistir ao seu doutoramento lá para fins de Março. Fico contente por ele, ao ver que finalmente acabou (ou quase) os seus trabalhos. Anos a estudar a déviance maoísta. Ao que li, convidou todos os que lhe forneceram depoimentos. Outro tempo, outra vida. Fui, por um par de anos, um compagnon de route, ou talvez mais, de facto mais,  dos primeiros maoístas nacionais. A desilusão deu-ma Paris nos idos de 68. Na “Git-le-Coeur”, ponto de venda dos “cahiers marxistes-leninistes” que piedosamente conservo, conheci alguns dos lideres da coisa e apesar do acolhimento efusivo irritou-me o seu tom conselheiral, a ortodoxia a outrance, o palavreado redutor e a incapacidade de perceber o mundo em que se moviam. De certo modo, eles não eram a doença infantil mas antes a senil do comunismo...  E por cá, ainda se tornou pior: incontinência verbal, acriticismo a toda a prova, imitação basbaque do que vinha na Pekin Information e pouca leitura dos clássicos. O maoísmo luso dos anos setenta em diante era muito Marta Harneker em versão reader’s digest revolucionária. E Staline sempre nos corações deles!

De todo o modo, era preciso fazer a história daquilo. Ou começá-la. E aí está o jovem Miguel Cardina. Espero que saia rapidamente uma edição da tese. Legível, por favor, e dispensa-se grande parte do aparelho crítico. Basta a bibliografia, Miguel.

Da pátria chega-me via blog notícia da manif dos à rasca. Ou melhor, crítica do manifesto. Eu não li o manifesto, era o que me faltava. Contentei-me com um resumo jornalístico e em achar que a tal cantiga dos Deolinda era fracatível. Medíocre, mesmo. Letra e música. Mesmo assim, melhor do que a parvoíce que vai representar a pátria dos heróis do mar nobre povo à Eurovisão. Desculpem, aquilo pode ter humor mas é uma merda em termos musicais e/ou poéticos. Parece que foi o povo (ou alguém por ele?...) que contrariando um júri deu a vitória aos rapazes. E agora vamos todos (até eu que odeio o festival da Eurovisão, que é uma piroseira azeitada desde que começou) passar pela vergonha habitual de ficar em último e de ler nos jornais o que os outros pensam da nossa participação.

Às vezes pergunto-me se os meus conterrâneos sabem o que é democracia. Isto, este concurso idiota, não o é. É algo de tonto, falível a qualquer manipulação, faz lembrar as eleições internas nos partidos. Na véspera, um candidato matreiro paga as quotas dos amigalhaços e aí vai disto.

Chega domingo, a partida é mais logo mas ainda vamos dar uma bicada no museu Guimet. Ao fim de dois andares somos escorraçados pelo calor. Chauffage a fundo que nos coze lentamente. E viemos com um mínimo de roupa, à francesa. A D pede para regressarmos a pé. Previno-a que são pelo menos quatro quilómetros senão cinco. Afogueada pela sauna museográfica resmungou que podiam ser dez. E por aí viemos de rota batida num Paris deserto e domingueiro comer as últimas moules marinière e fugir dali para não sermos

 ceux qui crévent d’ennui le dimanche aprés midi

parce qu’ils voient venir le lundi

et le mardi, et le mercredi, et le jeudi, et le vendredi

et le samedi

et le dimanche après midi

 

(Prevert.Paroles, tentative de description..., livrinho comprado no Outono de 1960: o mundo era mais jovem, eu também, e estava abrasado pela esperança e pelo amor.

 

As gravuras: beatniks, fotografia de grupo diante da City Light Books. S Francisco

Sous les pavés la plage? Ou o milagre francês de juntar o sol e o mar e a ideia de revolução?

 

21
Mar11

… E a Costa do Marfim?

JSC

Na Costa do Marfim realizaram-se eleições que foram perdidas pelo até então Presidente Laurent Gbabbo. Apesar de derrotado, este senhor não só se recusa a entregar a presidência ao ganhador como ataca, indiscriminadamente, os civis que exigem a reposição da legalidade eleitoral.

 

Desde Dezembro que já foram mortos cerca de 400 civis e as atrocidades continuam. A última acção violenta das forças fiéis a Laurent teve como resultado mais de 30 mortos.

 

Pelos vistos a violência que o Presidente derrotado exerce sobre a própria população não causa engulhos nos proclamados defensores da invasão de países independentes, para levarem até lá a democracia e as acções humanitárias. Parece que a Costa do Marfim não produz petróleo.

 

Obama, Sarkosy e Ciª nada anunciam para a Costa do Marfim. É como se aquela violência mortífera se passasse num outro planeta, de que nunca ouviram falar. É por isso que devemos desconfiar das intenções de gente pouco escrupulosa, para quem a vida humana pouco vale ou vale apenas para servir de pretexto ao desenvolvimento de acções de consolidação de influências territoriais e de apropriação de matérias-primas.

 

Tudo o mais é conversa, que vale tanto como as campanhas de desinformação dos Kadafis deste mundo. Um dado novo e preocupante: quem ousar discordar das cruzadas modernas corre o risco de ser apontado como estando a cometer um crime e até pode vir a ter um registo especial no seu cadastro. Todo o ambiente comunicacional está preparado para ver o lado dos países invasores. A Costa do Marfim não conta para o totoloto das nações exportadoras de acções humanitárias.