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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

01
Mar11

Au Bonheur des Dames 269

d'oliveira

 

Há cinquenta anos...

 

Há cinquenta anos, Portugal era um país estranho. Havia um governo e um regime que não convenciam os cidadãos. Não era só o caso Delgado, as intentonas militares ou a perda da Índia. Era mais grave e mais fundo. O Estado Novo era um cadáver adiado. O vigor inicial, que durou até finais da guerra, cambaleou mas recompôs-se graças á guerra fria. Todavia, e isso é bom que se lembre, a década de cinquenta foi, do ponto de vista ideológico, um deserto, um deserto que crescia.

Atente-se neste pequeno exemplo: aí por volta de 58, um grupo de intelectuais de Direita fundou uma revista, “Tempo Presente”, para combater o alegado monopólio da Esquerda no campo da Cultura. A revista, e julgo-me insuspeito, era bem feita, combativa, tinha alguma colaboração inteligente (abria aliás com um grande tema: Ezra Pound e os Cantos, sobretudo o “Canto contra a Usura”). Neste país, ou antes, naquele país chamado Portugal, existiam nessa mesma época duas revistas claramente de Esquerda (Vértice e Seara Nova) também mensais, também combativas, também bem feitas. Com uma diferença: essas duas revistas (a que se viria juntar, já nos anos sessenta, O Tempo e o Modo) estavam sujeitas à censura. Ou seja, não conseguiam dizer tudo o que queriam, no modo que queriam. Bem pelo contrário: Não há memória de haver um simples número que tivesse vindo da Censura sem cortes.

Relembre-se, para o grande número de “esquecidos” que agora pulula por aí a chorar saudades por Salazar e a suspirar pelos bons velhos tempos (mesmo se, curiosamente, a idade média das criaturas, as dê como quase contemporâneas do 25 A ou dos cinco, dez, anos anteriores, os impeça absolutamente de terem uma noção clara e vivida desses anos de “paraíso triste”, ressabiado, antiquado, pundonoroso e sacristão) que o peso da censura não se reduzia apenas ao corte de artigos, á proibição de notícias, à obliteração das opiniões expressas. A coisa era pior e mais grave: os custos económicos originados pelo facto de se ter de refazer a composição tipográfica (até nas listas de “livros recebidos na redacção”, havia eventualmente cortes  e obrigatoriedade de “recorrer” a composição!...) eram altos. Como é que pequenas empresas cujos directores volta e meia eram detidos, cujos produtos tinham custos agravados conseguiram subsistir onde a “Tempo Presente” faliu?

Pois por terem leitores e assinantes. Por terem o apoio anónimo de gentes de todo o lado que inclusive lançavam campanhas de ajuda e faziam a distribuição militante (não há que ter medo da palavra) da publicação.

O Estado Novo, que até apoiava as  publicações afectas, já não tinha público. Nem sequer os mais combativos conseguiam romper a muralha de indiferença (quando não de desprezo) com que as pessoas os brindavam. A “frente universitária” estava perdida desde há muito. A greve de 62 apenas confirmou o que já se sabia desde a luta contra um negregado decreto 40900 que reduzia a já escassa autonomia das Associações de Estudantes.

A Mocidade Portuguesa (que nunca foi organização que se visse e, muito menos, que provocasse entusiasmo) era uma inominável chatice. A “Legião” era olhada pela imensa maioria como um triste grupo de malfeitores e denunciantes que ninguém respeitava e a propósito da qual circulavam anedotas brejeiras. O partido que concorria a eleições e nomeava os próceres locais e regionais não tinha quadros, entusiastas, propagandistas ou defensores. A “União Nacional” não era atraente para quem quer que fosse. Nem sequer o “regime” a respeitava. “Aquilo”, para o melhor, era uma agência de empregos e, para o pior, um ninho de ladrões e corruptos. Os deputados da Assembleia Nacional eram geralmente desprezados e ridicularizados. Havia mesmo jornais (e não obrigatoriamente os raros que não eram absolutamente a favor do regime) que faziam gala em dar cobertura aos dislates mais evidentes produzidos em S. Bento. A ideia geral que se tinha destes pais da pátria conseguia ser pior, infinitamente pior, do pior que hoje corre contra o Parlamento.

Se isto era assim, e era-o, então como é que o regime se aguentava? A pergunta não é ociosa. De facto, o Estado Novo aguentava-se pela inércia, pelo medo, pela vigilância policial, pela ignorância e pelo analfabetismo. O país era rural, o medo do desconhecido (e do “comunismo”) era atiçado desde os jornais até aos altares. E pela propaganda mesmo se esta já não conseguia convencer os ingénuos. Reinava um medo, um medo inerte e pesado, uma tristura infindável, “isto foi sempre assim”, “meter-se em politica é meter-se em sarilhos” e a ideia persistente de que a democracia era o caos e a violência desatada. Havia, eventualmente, nesse receio algum eco da absurda violência dos anos da “república velha”, das bombas, das milícias desatinadas pelas ruas espancando cidadãos indefesos e liquidando adversários. E o medo mais subtil de perder o “trabalho”: num país em que a escassa classe média estava na função pública ou em empregos cujos patrões por necessidade ou oportunismo se relacionavam com o poder ou militavam na legião, a ideia de ser preso trazia uma segunda ameaça, o despedimento. Não foi um, nem dez, nem cem o número de casos de pobres diabos presos por uma denúncia anónima (e foram aos milhares, estas, bem representativas de um odioso estado de espírito) ou por prestarem alguma colaboração a elementos da oposição que se viram ameaçados de desemprego ou foram mesmo para o olho da rua. Não foram um, nem dez, nem cem, os patrões (e mesmo os grandes patrões industriais) que expulsaram empregados e operários seus por serem real ou falsamente “políticos”, subversivos, “reviralhistas”.

A sociedade portuguesa do Estado Novo (que a nova direita finge conhecer) era assim: pequena, mesquinha, vingativa e invejosa.

Mas era também de uma dependência anormal em relação aos poderes fácticos e, claro, ao poder politico.

Em Portugal, sabia-se quem mandava: Salazar. E quem obedecia: todos ou quase todos os súbditos. Entre aquele e estes, pouco ou nada havia. Ou melhor: entre o solitário de S Bento e a população mexiam-se umas quantas criaturas, serviçais, diligentes, absolutamente fungíveis, sem especial pensamento próprio, ideologia clara e autonomia.

Havia também uma "oposição" trilhada entre um partido comunista vigoroso, mas profundamente enfeudado ao PCUS, os restos do republicanismo reviralhista, e uma diminuta franja onde se acotovelavam todos os descontentamentos, todas as emoções juvenis e a esperança desarmada. Tudo junto, não passava de uma minoria activa, corajosa mas fortemente vigiada.    

A ideia que os “monopólios”, as “grandes famílias”, a “banca” e a “industria” tinham poder era um pouco desfocada. Tinham o poder que lhe permitia quem mandava. E habituaram-se a isso de tal modo que, no 25 de Abril caíram sem grande estrondo. Ou, pelo menos, vacilaram fortemente. Os poderes quase absolutos tem esta característica: secam tudo, ou quase, à sua volta. A fraqueza dos agentes económicos (não vale a pena falar nos políticos por quase inermes), mesmo depois do pequeno interregno de Marcello Caetano era congénita. Ao bramido do PREC não souberam opor senão a fuga para o estrangeiro, renunciando a defender o que era seu, exportando apressadamente parte do seu dinheiro e deixando desamparados os seus técnicos e os seus quadros formados nos últimos anos do Estado Novo, a partir sobretudo da década de sessenta. 

Os jovens (ou não tão jovens) conservadores actuais que se repartem uma boa fatia da opinião nos media, fingem não ver isto, não saber isto, ou pua e simplesmente passam ao lado e lá vão branqueando o regime antigo, mesmo se o não viveram e, muito menos, o conheceram ou compreenderam. É uma nova Direita moderada e descomplexada que, zurze na Esquerda batida pelos ventos da história e pela débacle dos governos socialistas destroçados pela crise (que não viram, não perceberam e não sabem combater).

Conviria lembrar a alguma Esquerda ainda acordada e crítica estas verdades de algibeira. E propor um debate claro e sério não apenas sobre os erros do presente mas muito sobre excessos passados, praticados ao som de sereias desdentadas que mesmo nos anos cinquenta já tinham mostrado que propunham a perdição. A Esquerda portuguesa, ou boa parte dela, ainda não quis joeirar a sua fragmentada herança, separar os valores da obra pífia da República e tentar inventar um futuro mais sadio e menos complexado. Entretanto, campam os oportunismos, os esqueletos no armário e a defesa a outrance do indefensável.

A Direita moderna agradece. E o futuro possível arrisca-se a parecer, cada vez mais, um ontem banal mas repintado de fresco.  Assim não vamos lá.       

 

na gravura: uma "solex": andava pouco, pedalava-se muito, fazia barulho e poluía forte e feio. Mesmo assim, não era barata.

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