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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

05
Abr11

Acaso: mais que uma probabilidade!

sociodialetica

Desisto.

Milhentas vezes entre as agruras mais herméticas tento recordar-te e esquecer-te. Como criança saída dos bancos da ilusão arquitecto o início do romance para que me falta o engenho.

Conheço a história. É banal. Mais uma história de amores e desencontros. Literatura de cordel com todos os ingredientes: paixão, ternura, orgasmo, separação, saudade e dor. Igual a tantas outras. Só precisava de encontrar um início. Um exórdio imaginado, poético, esplendoroso, atractivo.

Grande vaidade pretender que a chama que nos consumia, os poemas que fizemos, as lutas que travámos, os olhares que flamejámos, as carícias que tacteámos, os silêncios que interpretámos, os sonhos que partilhámos, as saudades que amargurámos eram diferentes, mais sublimes e eternos.

Milhões julgaram captar na palma das suas mãos fechadas a eternidade do arrebatamento, o espraiar da contemplação amada.

Está tudo dito e redito, pintado, musicado e representado na multiplicidade das culturas. Sexo aqui e morte ali. Saudade  contemplativa nuns e arrebatamento conquistador noutros. Prelúdio e fuga ontem e expressionismo amanhã.

Só falta explicar como nos cruzámos quando nenhum de nós poderia estar naquele local, precisamente naquele segundo, porque fugimos sonhando-nos, quando teimamos em ressuscitar o que a sobrevivência esmagou.

Talvez um dia ainda conte essa história, se for capaz.

05
Abr11

Frases Que Ficam

O meu olhar

Ficamos a saber há uns anos atrás que o Governo não é competente para mandar cortar 250 sombreiros mas é competente para negociar um pedido de auxílio internacional com o Fundo e com o FMI. Mas isto faz algum sentido? Parece que está tudo maluco. O Governo teve um Plano de Estabilidade chumbado no Parlamento, agora ia negociar em gestão corrente um novo programa provavelmente mais duro do que aquele que apresentou e foi chumbado por todos os partidos.

Pedro Adão e Silva na TSF

05
Abr11

Au Bonheur des Dames 278

d'oliveira

 

 

O verde e o vermelho

Ou como é que isto acontece

Ou Portugal no seu melhor

 

Permitam as leitoras que use os dois tradicionais “grandes” clubes para ilustrar o folhetim de hoje. Devo declarar que nada tenho contra os dois clubes que nunca fizeram parte do meu fraco imaginário desportivo e, muito menos, contra das duas cores. Sou da praia de Buarcos, o mesmo é dizer do mar verde e da angústia vermelha dos naufrágios, da raiva vermelha da fome que era muita entre os meus amigos de escola primária. E da esperança que nunca morria e que aliviava o fardo de vidas cansadas que se dividiam entre o mar e a mina do Cabo Mondego.

Todavia, mister é que se recorra à história recentíssima dos dois clubes que no passado dividiam as claques portuguesas, os títulos de campeão e os elogios do regime que via no futebol um dos escapes da asfixiante vida política nacional.

No Sporting, tradicional clube dos “talassas”, dos filhos família, houve eleições. O resultado logo que foi conhecido alimentou uma fogueira de vaidades e escândalo. Inconformado com a derrota nas urnas, um dos concorrentes, o segundo, batido por umas escassas centenas de votos, veio protestar. Que, á boca das urnas todos o davam por vitorioso, que as anomalias verificadas entre votações para diferentes órgãos sociais pressupunham tremendas chapeladas mesmo se, como ocorria, a contagem dos votos tivesse sido pública. E vá de apelar surpreendentemente ao vencedor no sentido deste se retirar e permitir nova jornada eleitoral. E, caso isso não ocorresse, a sempiterna ameaça da acção cautelar. Portugal descobriu há poucos anos a acção cautelar mas tem feito dela um uso intensivo. Com isto, na maioria dos casos, não se pretende obter justiça mas tão só empatar adversários, tribunais, vida normal, à espera de um milagre ou do efeito devastador do tempo decorrido.

 Curiosamente, o apelo do vencido, não parece ter sido acompanhado pelos restantes derrotados nem, sobretudo, pela massa associativa que, espera-se, deveria ter uma palavra a dizer. Mas isso que importa se há uma vaidade ferida, uma ânsia de poder, mesmo se o bolo é parco e se a realidade é confrangedora (eventual quarto lugar, nenhuma esperança quanto a títulos, situação financeira insustentável).

Também o Benfica passa um mau momento. Ou melhor, o seu momento tem-se agravado. Não é vitória do seu mais perigoso rival na Luz mas também é. O Porto ia imparável a caminho de mais um título que, nem uma derrota no estádio benfiquista poria em grande risco. Todavia, nem isso foi poupado à hoste vermelha. Perderam, sem apelo nem agravo, e não foram capazes de  enfrentar a dura realidade.

Por junto, apagaram as luzes e ligaram os aspersores de água do relvado numa tentativa infantil e triste de empanar a natural alegria dos campeões e a habitual festa que se segue. Digamos que procederam como arreeiros se é que os arreeiros tem assim tão mau perder. Envergonharam a sua massa associativa, ou pelo menos parte dela, a parte que vive com dignidade e entusiasmo desportivo as vitórias e as derrotas. O actual silêncio de muitos dos seus principais responsáveis poderia traduzir vergonha mas temo-o bem, pode muito bem significar apoio disfarçado à grosseria.

As reacções das elites dirigentes do Benfica e do Sporting (deixemos de lado os restantes clubes sem que isso signifique uma absolvição dos seus passados, presentes e futuros pecados) são uma boa metáfora do que se passa a nível político. Ninguém se sente 4responsável ou responsabilizado; todos bradam contra a situação presente; todos acusam reais ou imaginários adversários; todos apelam a uma unidade sem princípios, sem bases, sem confronto nem troca de argumentos.

A massa nacional assiste dorida, espantada (e anestesiada?) a este estúpido confronto. Nas secretarias partidárias é à faca que se disputam os lugares de candidato a deputado. Ninguém está seguro pelo que todos procuram acautelar o seu minguado posto de pai da pátria.

Ninguém põe em causa as regras do jogo. Vale a pena ter uma assembleia a constituir por molhadas de deputados, as mais das vezes desconhecidos, ou mal conhecidos, dos eleitores? O modelo de desenvolvimento proposto (ou aceite) pelos partidos maioritários tem alguma viabilidade? Ontem, mesmo, nas páginas do “Público” o Presidente do C.A. do Metro do Porto afirmava que tal como0 está este é mais um Titanic que avança a todo o vapor contra o iceberg dos credores. Que durante todos estes anos, os seus irresponsáveis accionistas, tiveram mais olhos que barriga, que nunca pararam para ver em que pé estavam as contas, quanto é que custava o recurso ao crédito, avalisando todas as pretensões de alongamento das linhas mesmo se fosse improvável a conquista de quantidades significativas de passageiros.

Muitos (ou todos) autarcas do Grande Porto querem ter metro à porta, vias rápidas, auto-estradas SCUT que sirvam os novos dormitórios especulativos em que converteram as suas municipalidades. Tudo sem pagar, ou a custo ridículo. E estádios, claro (só agora é que um conhecido ministro cavaquista vem pôr em causa os que por aí se construíram e que permanecem pavorosamente desertos de espectadores e repletos de credores). E outras obras de fachada, mesmo se disfarçadas sob o título de culturais, sociais ou desportivas.

Alguém, durante a enxurrada de créditos fáceis e de fundos europeus, terá sonhado com uma república bananeira em que os indígenas se acocoravam debaixo do falso caule, de boca aberta pronta a deglutir a banana já às rodelas, para não dar trabalho.

“E não dá para salada de fruta?”

“Dar não dá mas pode-se pedir à chanceler Merkel ou ao Conselho Europeu. Quem tem boca vai a Roma...” 

    

 

01
Abr11

Da Democracia-nação à Democracia-mercado

sociodialetica

1. O Estado é uma parte da sociedade, entendendo esta como a totalidade das relações entre as pessoas. Autonomiza-se enquanto estrutura política, cujo conteúdo é determinado pela referida totalidade. O Estado é um factor de coesão da unidade de uma sociedade (o que simplistamente se pode designar como “organização política da nação”) e, simultaneamente, uma condensação dos diferentes grupos sociais em presença, uma expressão da correlação de forças entre esses mesmos grupos, cada um deles com dinâmicas, estruturações e racionalidades diferentes.

Desta complexidade da relação entre a sociedade e o Estado resultam leituras possíveis totalmente diferentes: (1) “o Estado é um instrumento político dos grupos sociais dominantes”, na medida em que a sua vertente mais importante é ser uma expressão da correlação de forças; (2) “o Estado é uma instituição soberana que impõe a sua vontade à restante sociedade”, na medida que é uma estrutura política que possui o poder, incluindo o poder coercivo; (3) “o Estado é uma estrutura política com autonomia de existência e de acção, mas que, em última instância reflecte as complementaridades e contradições da sociedade em que se insere”, na medida em que se considere a globalidade dos elementos presentes.

Optamos por esta terceira posição, ficando por esclarecer qual é o peso relativo da autonomia e da dependência, o que remete para uma infinidade de factores influenciadores, estrutural e conjunturalmente determinados.

 

2. Nos últimos trinta anos tem-se privilegiado, por razões ideológicas, a relação entre o Estado e as facetas das relações sociais que habitualmente se designam por “economia”. Dessa deliberada preferência e da organização adoptada na mundialização da economia resultaram diversos processos de enfraquecimento da autonomia relativa do Estado.

Em primeiro lugar, o funcionamento dos mercados sem uma intervenção do Estado para além da sobredeterminação jurídica e a livre circulação dos capitais e dos bens conduziram a um aumento da concentração e centralização do capital privado à escala mundial, aumentando a força social dos grupos económicos e o seu domínio de sectores estratégicos. Ao mesmo tempo os Estados enfraquecem a sua capacidade de negociação e intervenção.

Enquanto antes as multinacionais necessitavam de obter o apoio dos Estados para se instalarem num país, passam a ser os Estados a competirem entre si para atraírem empresas para a sua região. A deslocalização das empresas à escala mundial dá-lhes ainda mais capacidade de manobra e domínio.

Em segundo lugar, uma parte crescentemente significativa do capital assume a forma de capital-dinheiro e movimenta-se nos mercados bolsistas. Cresce a importância do capital fictício. A capacidade de reprodução e ampliação deste faz com que os valores transaccionados diariamente na bolsa ultrapassassem o produto anual mundial. O capital especulativo tem mais capacidade de manipular as bolsas e os câmbios que os governos. Para além disso influencia ou controla sectores nevrálgicos do funcionamento da sociedade, como por exemplo os fundos de pensões e a dívida pública.

O consumismo e a facilidade de recurso ao crédito, o esquecimento deliberado de que, em algum momento, as dívidas têm de ser pagas, conduziram a um sobre-endividamento generalizado que torna o capital financeiro simultaneamente fragilizado, enquanto credor,  e dominante, captando sempre e sempre mais rendimentos à escala mundial.

Em terceiro lugar, esta financiarização da economia exigiu uma ampliação significativa da economia paralela com um peso elevado e crescente na economia mundial. Esta economia paralela existe sem qualquer viabilidade de controlo da parte dos Estados ou quaisquer outras instâncias reguladoras. Desenvolvem-se à margem do sistema fiscal e reduz o financiamento do Estado e da sociedade. São as máfias que dominam uma parte crescente do produto mundial.

Em quarto lugar a volatilidade do capital das empresas, a sua ramificação por todo o mundo e a facilidade com que a propriedade muda entre grupos dominantes fazem com que a capacidade de decisão dos Estados diminua. Nas questões económicas os seus parceiros deixam de ser os restantes Estados, embora formalmente e no direito internacional o continuem a ser, e passam a ser os grupos económicos, os difusos proprietários do capital. Esta dificuldade de identificação dos representantes do capital em cada momento debilita as possibilidades de luta dos cidadãos e grupos sociais pelos seus direitos, o que, indirectamente, enfraquece o Estado, enquanto expressão política dessa mesma sociedade.

A transferência da decisão da relação Estado-Estado para a relação Estado-empresa foi tanto mais grave quanto menor é o desenvolvimento económico-social das sociedades.

O neoliberalismo conseguiu os seus objectivos por duas vias convergentes:  (1) aumento do poder económico dos grandes grupos económicos à escala mundial, em consequência da livre circulação de capital e bens (não de homens, que não usufruem dessas liberdades e passam a ser um subproduto da actividade económica); (2) “emagrecimento do Estado” como objectivo político pré-estabelecido

Em síntese, nos últimos trinta anos temos assistido a um enorme enfraquecimento da autonomia dos Estados e da sua capacidade de influenciar a reprodução das sociedades. Simultaneamente aumenta a sua dependência dos grupos sociais economicamente dominantes.

O peso relativo da autonomia diminuiu (consequência de acto deliberado, imposição ideológica e resultado da globalização) e o da dependência aumentou.

 

3. Diminuindo a autonomia e aumentando a dependência, podendo rondar a subserviência, a política pode fazer-se sem objectivos, sem ideias, sem projectos de transformação da sociedade. O Estado abandona o “pretendemos contribuir para construir uma sociedade melhor” pela banalidade de que “a função do Estado é criar oportunidades aos cidadãos”.

Esvaem-se os objectivos, subvalorizam-se os programas políticos, intoxica-se a população com o pânico, promove-se a incapacidade de reflexão sobre os grandes problemas nacionais e internacionais, personaliza-se a política.

Ser político é uma carreira profissional como a de ser médico ou carpinteiro. É a “classe política”. Os candidatos a políticos só têm de fazer uma carreira adequada: escolher certos cursos, criar criteriosamente “amizades”, pertencer às juventudes de um partido susceptível de ganhar as eleições, sujeitar-se sorridentemente a subserviências enquanto “passa a mão pelo pêlo” de poderosos, estar disponível a “baixar a espinha” mesmo quando lhe causa algum desconforto. Mesmo com tão “dolorosos” procedimentos têm uma grande vantagem: não precisam de exercer uma actividade profissional, nem de cansar os neurónios com laivos de cultura.

Se alguns partidos políticos mantêm uma postura tradicional de luta por uma sociedade melhor, se muitos militantes em todos os partidos ainda têm uma chama de idealismo, ideologia e utopia transformadora, “a personalização da política”, generalizadamente seguida, “destruiu os padrões de voto antigo e tradicionais”.

Os políticos “dão a cara” mas quase toda a política (leis, planos, propostas) é feita por gabinetes privados, com nomes nacionais ou estrangeiros. Recém-licenciados, formatados pela universidade, funcionários dessas empresas, elaboram políticas que decidem da vida de todos os cidadãos. Esta contratação de serviços tem várias vantagens para o Estado: escusam de saber de um assunto para exercerem um cargo político, distribuem milhões a amigos ou futuros amigos, criam um coro de vozes apoiantes e intoxicadoras da opinião pública, compram-se votos e novos caciques mediáticos. Só não tem vantagens para a esmagadora maioria dos cidadãos.

O vazio de ideias está frequentemente associado a uma política de medo. É preciso em cada dia prognosticar que o amanhã poderá ser pior. E só o não será porque lá estão os super-homens que crescem e se reproduzem no Estado.

 

4. Esta evolução é designada por alguns como a passagem do Estado-nação ao Estado-mercado.

Este Estado-mercado, entretanto, enfrenta, como diz Napoleoni, em O Lado Obscuro da Economia, uma dupla crise: “uma crise de racionalidade e uma crise de legitimidade”. Uma crise da racionalidade porque é incapaz de solucionar nenhum dos grandes problemas nacionais ou internacionais. De legitimidade porque “um Estado fraco não pode proteger os seus cidadãos”. “Consequentemente esse Estado também não pode contar com a lealdade dos mesmos”. A elevada abstenção eleitoral é uma das suas facetas.

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