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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

14
Ago11

Intento (3)

sociodialetica
“A razão não deve sobrevalorizar uma experiência imediata; deve pelo contrário pôr-se em equilíbrio com a experiência mais ricamente estruturada. Em todas as circunstâncias, o imediato deve ceder ao construído.”
Gaston Bachelard, A Filosofia do Não – Filosofia do Novo Espírito Científico”, Editorial Presença, pag. 135
11
Ago11

Intento (2)

sociodialetica
 “a metodologia económica deve servir para superar as frustrações dos economistas perante o continuado insucesso das teorias que têm vindo a apresentar ao longo do tempo, sem com tal se negar a existência de um largo e estabilizado conjunto de conhecimentos que constitui o corpus da ciência económica”
Manuel Jacinto Nunes, Epistemologia e Metodologia Económica. 2004, Imprensa Nacional, pag. 175
09
Ago11

Intento (1)

sociodialetica
“Só a tomada de consciência da convergência das epistemologias pode fundar uma epistemologia da convergência. Chegou o tempo de passar da confrontação das culturas a uma cultura da confrontação”
Georges Gusdorf, “O gato que anda sozinho”, Interdisciplinaridade. Antologia. 2006, Campo das Letras, pag.30
08
Ago11

Um Porto pleno de turismo

José Carlos Pereira

 

Circular nestes dias de Agosto pela cidade do Porto dá-nos a sensação de estarmos numa cidade verdadeiramente cosmopolita, com turistas de diferentes nacionalidades, jovens e menos jovens à descoberta dos recantos da urbe portuense. Os monumentos, os museus, as ruas e as esplanadas enchem-se de pessoas curiosas de saberem mais e de desfrutarem daquilo que o Porto tem para oferecer.

Na sexta-feira subi ao topo da Torre dos Clérigos e aí encontrei dezenas de turistas estrangeiros a subirem a íngreme escadaria e a visitarem a Igreja. Hoje vi a Rua de Santa Catarina cheia de gente, com muitos e muitos estrangeiros a circularem de mapa na mão e às compras nas lojas da baixa.

As entidades públicas deveriam olhar para esta nova realidade, muito potenciada pelos voos low-cost, e prepararem melhor a cidade e as suas infra-estruturas para receber os milhares de turistas que nos visitam. Há ainda muito por fazer para que o Porto seja uma cidade onde apeteça (sempre) voltar. 

08
Ago11

Diário Político 171

mcr

A menina dos 14 segundos

 

 

 

Novidades da pátria madrasta chegam a conta gotas via uma coisa chamada “Correio da Manhã” que eu nunca tinha folheado, ou pelo mais razoável “JN”

 

Fiquei avisado quanto ao primeiro depois de uma rápida olhadela. A coisa pareceu-me tão extraordinária que, por pouco, o comprava. Só para ver se a primeira página correspondia ao resto. Felizmente a senhora do quiosque deu-me licença para o folhear. Livra! E é aquilo o jornal que mais se vende no torrãozinho. Começo a perceber porque é que a “moody’s” nos quer mal.

 

Deixemos, todavia, esta amostra eloquente do espírito luso e passemos às novidades.

 

 Uma jovem deputada, noviça nestas coisas do Parlamento mas desejosa de mostrar serviço, entendeu testar a velocidade de atendimento do 112 ou do INEM, não se percebe bem. 14 segundos demorou o outro lado a atender. A prometedora parlamentar encheu o peito de ar e, zás, catrapás!, arreou a giga numa dessas excelsas comissões onde, pelos vistos, qualquer um tem assento.

 

Deixando de lado a legalidade do gesto, a legitimidade da amostragem, a utilidade do telefonema, temos que a criatura observou que duns propagandeados cinco segundos de resposta (verificados em média em 60% dos casos) se passava para catorze! Um escândalo, bramiu! Uma vergonha!

 

Tivesse ela meditado 15 segundos, quinze minutos, vá lá, e teria percebido que mesmo 15 miseráveis segundos é um bom tempo de resposta sobretudo se for o máximo possível. É que os famosos cinco segundos de média num total de 60& de casos analisados, são isso mesmo: uma média. E uma média notabilíssima, deve dizer-se, duvidosamente alcançável a todo o tempo e em todos os casos.

 

Mas isto de pensar no essencial, nem que seja só por um escasso quarto de hora, parece não estar ao alcance da jovem estreante do PPD. Eu não sei onde é que vão buscar os candidatos ao Parlamento, ou, pior ainda, atrevo-me a supor que sei...

 

E o que sei é mau, desagradável, pouco recomendável. O parlamento não atrai os mais inteligentes, os mais talentosos, os mais brilhantes. Nem sequer os que mais se distinguiram nos estudos ou na profissão que abraçaram.

 

A jovem heroína deste pequeno arruído no início da silly season deverá vir das juventudes partidárias ou de algo da mesma substância e do mesmo teor. Ou seja, de pouco, quase nada: Muito boa vontade, muita ambição, muito tarefismo, fidelidade q. b. a quem controla o aparelho, a secção, a distrital, ou lá o que seja. 

 

Dir-me-ão daí que faço, de um pequeno episódio, demasiado caso. Desculpem, mas não. A intervenção extemporânea e insensata da criaturinha, numa comissão que tem graves e importantes afazeres e responsabilidades redobradas nos tempos que correm (e já não falo nos que se aproximam), o à-vontade com que tripudiou sobre serviços em que os portugueses acreditam, em que confiam e de que esperam êxito no eventual caso de a eles terem de recorrer, exigiriam da deputada, estudo, cuidado, reflexão e atenção. Nada disso ocorreu. Mesmo se, depois veio uma esfarrapada comunicação a tentar desfazer o mal entendido.

 

Esta jovem deputada deveria, no mínimo sair da comissão onde se pavoneia e para a qual provavelmente não serve. Quais são os seus conhecimentos profissionais, as qualidades, a experiência que a atiraram para esta comissão? Urge sabê-lo para não corrermos o risco de, mais dia menos dia, apanharmos com algum projecto de legislação saído de tão turbilhonante cabecinha.

 

Ou, pior, de alguém com responsabilidades e passado, se sentir ofendido pelas injunções da criatura e achar que não vale a pena levar a cabo funções sujeitas a uma tutela deste género e qualidade. As pessoas têm o direito de ser defendidas de deputados/as ansiosos/as e desejosos/as de fama rápida.

 

Por favor ofereçam à criatura quinze meses de estudo sério, fora do parlamento. Com exame no fim. Para bem dela e, sobretudo, nosso. 

 

*d'Oliveira, algures no vasto mundo e sem saudades da pátria ingrata

 

06
Ago11

(2) Ciclo de Negócio, CRISE e crise do euro

sociodialetica

(Continuação de artigo anterior com o mesmo título »»»)

 

5. Numa linguagem muito simplista podemos dizer que ao longo do tempo as actividades económicas têm altos e baixos. Subidas e descida ao longo do século, ao longo da década, ao longo do ano, ao longo do mês, ao longo da semana, ao longo do dia. Em qualquer escala do tempo tem crescimentos e decrescimentos, evoluções mais rápidas e dinâmicas mais lentas. Os economistas passaram a chamar-lhes ciclos, distinguindo uns dos outros, ou pelo nome dos economistas que chamaram a atenção para a sua existência (ex. ciclos de Kondratief; ciclos de Juglar) ou pelo tempo decorrido desde um “ponto de partida” até um “ponto de chegada” que tem uma posição relativa semelhante ao ponto de partida (ex. ultralongo, longo, médio, curto, infracurto). Por vezes também os identificam pelo tipo de mercado em que se manifesta, havendo uns (ex. bolsa de valores) mais sensíveis que outros (ex. da construção civil).

Associada a esta oscilação também foi surgindo dois tipos de análises das temáticas económicas: conjuntural e estrutural. A primeira atende essencialmente aos movimentos de subidas e descidas, ao momento em que estamos na evolução cíclica; a segunda privilegia a tendência de evolução, a dinâmica de conjunto.

Numa primeira leitura podemos dizer que não é de espantar estas dinâmicas conjunturais, tantos são os intervenientes na actividade económica (ex: a comprarem ou a venderem, a pedirem ou a concederem crédito, a pouparem ou a aplicarem recursos), tantas são as intenções com que o fazem (ex: para adquirirem dinheiro ou bens, para fazerem aplicações durante uma vida ou segundos; para satisfazerem a sua ânsia de poder ou para ter lucros), tantas são os encontros e desencontros entre vontades, tão diversa é a informação com que promovem as suas acções (sendo habitual falar em simetria ou assimetria da informação), tanta é a diversidade institucional dos intervenientes (ex. famílias com muitos ou poucos recursos, empresas localizadas numa aldeia ou multinacionais, instituições públicas ou privadas, fábricas metalúrgicas ou gestores de fundos de pensões), tanta é a diversidade sejam quais forem os critérios considerados. Quando olhamos para esta diversidade podemos falar da anarquia da produção, da troca e da repartição de rendimentos.

Só por simplificação de raciocínio, por soberba humana de pretendermos impor à realidade os nossos pensamentos, poderíamos admitir que a economia, uma forma concentrada de falarmos na sociedade, evoluiria de forma simplista: a uma variação constante, a uma taxa de variação constante, ou algo semelhante.

A este propósito poderíamos percorrer a longa história da Filosofia sobre a relação entre o homem e a sociedade (ou a sociedade e o homem), sobre a natureza humana, sobre a liberdade. Excluiríamos Deus porque as ciências sociais (ciências e não meras lucubrações) assentam na laicização da sociedade, na hipótese de partida de que a dinâmica da sociedade é construída pela própria sociedade, de que há “leis naturais” que gerem os agregados humanos. Mas reencontramo-lo nos debates sociológicos do primado do homem sobre a sociedade (com o paradigmático Max Weber) ou da sociedade sobre o homem (com a referência a Durkeime). Os economistas discutiriam, o que não faremos agora, se são as conjunturas que determinam as estruturas ou se, pelo contrário, são as estruturas que determinam as conjunturas. Provavelmente discutiriam com a imprudência idealista de não destrinçarem a diversidade epistemológica (formas diferentes de pensar) da unidade ontológica (dinâmica global das relações sociais de produção e troca).

 

6. Contudo, mais importante é percebermos que, por detrás da anarquia, despontam probabilidades, regularidades, relações essenciais entre os actos, concatenações lógicas, o que podemos designar por leis científicas do funcionamento dos ciclos.

Leis que podem ser facilitadas ou contrariadas pela acção dos homens, pelo que se costuma designar por política económica, mas que, nesse contexto de conflito continuam a existir. (Para se aprofundar esta questão seria necessário distinguir entre “política económica” e “gestão económica”, entre “superação de contradições” e “desvio de contradições”). Leis, no entanto, que já se perfilavam a partir do momento em que utilizamos a palavra “ciclo” porque ela pressupõe a aceitação de uma sucessão de evoluções que se repetem no tempo, independentemente (ou através) da forma como isso acontece.

Porque este pequeno texto é o caminho para chegarmos a um melhor entendimento do que actualmente se passa com a moeda da União Europeia, com o euro, vamos concentrar a nossa atenção no ciclo de negócios, na fase da crise e em algumas das suas leis.

 

7. Para não entrarmos em grandes preciosismos técnicos, admita que vai a andar de barco e que há uma ondulação forte. Admita que está a subir uma onda, atinge o seu ponto mais alto. A essa situação segue-se uma descida, uma diminuição de nível, até atingir o ponto mais baixo. Chamemos-lhe a «fase um» da sua navegação. Atingido o nível mais baixo assim continuará durante algum tempo, mais ou menos dilatado conforme a frequência das ondas. Chamemos-lhe a «fase dois» da navegação. Finalmente começa novamente a subir até atingir um nível médio ao que tinha atingido na onda anterior. Chamemos-lhe «fase três». A subida continua até novamente atingir um cume, no qual nos mantemos algum tempo. É a «fase quatro».

Transpondo esta navegação para os ciclos podemos, grosso modo, dizer que a fase um corresponde à crise, a dois à depressão, a três à recuperação e, por fim, a quatro à expansão. Poderíamos adoptar outro tipo de classificações, mas esta parece-nos simples e compreensiva.

Claro que a dinâmica económica não é tão simples, como provavelmente não seria a própria navegação, porque uns ciclos sobrepõem-se a outros ciclos de tipo diferente, porque há uma tendência de evolução de longo prazo, porque existem diferenças de comportamento entre sectores de actividades e entre países, entre mercados locais e globais (apesar de desde 1968 estarmos numa fase de crescente sincronismo), entre empresas (a falência de umas pode ser a centralização e crescimento de outras, por exemplo). Mas a descrição aqui feita parece-nos suficiente para os nossos propósitos.

Porque a nossa cultura construiu a ideia de “progresso”, porque o funcionamento harmónico da actividade económica pressupõe que se venda o que foi produzido, que o procurado seja encontrado, que haja rendimentos para comprar os produtos, as fases consideradas “normais” são a recuperação e a expansão. A depressão é uma fase transitória para se atingir essa tão almejada “normalidade”. Por outras palavras, apenas a crise é considerada “anormal” e de facto assim a podemos considerar porque é o período de explosão dos conflitos, das desarticulações, das contradições. No entanto, tenhamos bem em conta, a crise é uma fase tão importante quanto as outras na reprodução do sistema capitalista. Mais, sendo a anarquia parte integrante da produção, troca e repartição do rendimento do capitalismo, a crise, ao resolver dramaticamente as tensões e os antagonismos que aquela propicia, tem uma função insubstituível na continuidade do sistema

Concentremos, pois a nossa atenção na crise.

 

8. As manifestações visíveis da crise são conhecidas: as mercadorias não são vendidas, as empresas têm carências de dinheiro para fazer face aos seus compromissos, muitas dívidas não são pagas, reduz-se o investimento privado (ou a sua taxa de crescimento), atenua-se a criação de emprego e aumenta o desemprego, intensificam-se as falências. As perspectivas de lucro diminuem, o pessimismo penetra em quase todos os interveniente no processo. A queda das cotações nas bolsas de valores é, frequentemente, o primeiro sinal estrondoso de se estar a viver uma fase de crise.

Concomitantemente agravam-se as desigualdades sociais, intensificam-se as tensões sociais. Estas manifestam-se de forma conflitual. Por um lado, as dificuldades existentes para grandes camadas populacionais, a violência ética das desigualdades, o desespero da criação do dia seguinte podem conduzir a situações de ruptura revolucionária. Por outro, a insegurança, a passividade que o desemprego gera numa estratégia de sobrevivência e a incerteza podem gerar uma submissão passiva. Num caso ou noutro o sentido das opções políticas pode ser muito diverso.

A crise é uma expressão do excesso. Faz todo o sentido dizer que “é a miséria na opulência”. Há excesso de mercadorias (mercadorias que estão inseridas num processo de valorização, que são capital, capital-mercadoria) em relação às possibilidades de venda. Há excesso de produção (capital produtivo) em relação às necessidades de produção para o mercado. Há excesso de dinheiro (capital-dinheiro) em relação às possibilidades de utilização rentável, sendo entesourado.

As crises do ciclo de negócios são crises de sobreprodução, crises de excesso de capital. A sua superação passa por uma destruição desse excesso de capital em relação à taxa de lucro esperada.

De um ponto de vista lógico tanto poderíamos falar de excesso de produção como de falta de consumo, sendo a sobreprodução a outra face do subconsumo. Contudo a relação hierarquizada entre produção, repartição do rendimento, troca e consumo, o primado da produção e a condução da dinâmica pelo capital (privado) fazem com que o essencial seja a sobreprodução, sendo a sua manifestação fenomenológica o subconsumo. A superação da crise, no quadro do sistema capitalista, passa inevitavelmente pela destruição espontânea, e dolorosa, de capital sob as suas diversas formas. A leitura pelo subconsumo, permite, no entanto, uma política económica de atenuação da crise, de impedimento dos seus efeitos mais nefastos para as populações.

 

9. Começámos o antigo anterior por chamar a atenção para o ciclo do capital: aplicar o dinheiro num processo produtivo, produzir mercadorias com um valor superior, vendê-las e retomar novo ciclo.

Na aproximação da crise, numa fase última de alta conjuntura, é frequente já começar-se a sentir as dificuldades de venda, as quais são inicialmente registadas pelo comércio (a retalho e por grosso) e só posteriormente pela indústria, pelas actividades produtivas. O tempo que decorre entre a aplicação do dinheiro (D) e o seu retorno (D’) amplia-se. O sector industrial, em sentido lato, começa a mostrar-se menos lucrativo, de mais difícil e incerta rentabilização. Entretanto os mercados de títulos financeiros continuam com elevados níveis de rentabilidade e de rápida rotação do capital (que pode aumentar pela ânsia de liquidez), com tendência para aumento da importância relativa do capital fictício.

O sucesso das aplicações financeiras e o início das dificuldades comerciais e industriais fazem com uma parte do capital-dinheiro se desvie destas actividades para aquelas aplicações, o que aumenta a “euforia” nos mercados financeiros. Frequentemente esta “euforia”, a aparência de que tudo “corre às mil maravilhas”, é já uma fase prévia da crise de sobreprodução, é uma primeira manifestação desta.

Porque se trata de uma expansão nos mercados financeiros que tem como contrapartida uma retracção do investimento nos sectores produtivos, porque já existem dificuldades de venda das mercadorias e há o perigo de rompimento do pagamento das dívidas, porque essa expansão financeira assenta mais sobre o capital fictício do que no financiamento às empresas, essa dinâmica financeira também se rompe.

Por estas razões uma das primeiras manifestações explícitas da crise são, frequentemente, as brutais quedas de cotação dos títulos nas bolsas, o “pânico” bolsista, o não pagamento das dívidas (o aumento do crédito mal parado), a falta de liquidez da banca e das instituições cuja rentabilização assentava nas aplicações bolsistas.

A aparência é a de que estamos perante uma crise financeira. Admite-se que as dificuldades sobrevenientes são uma sua consequência: que é a crise financeira que gera a crise no sector produtivo, no conjunto da economia. Contudo a sequência efectiva é outra: é o despontar da crise de sobreprodução que empola e retarda a crise financeira, é esta que revela em plenitude a crise.

 

10. Também a crise que actualmente vivemos parece ter sido gerada por uma crise financeira (localizada nos EUA, do subprime, tendo como momento nevrálgico a falência do Lehman Brothers), mas a crise actual, do capitalismo em fase de globalização, nem foi exportada pelos EUA (embora o que aí aconteceu tenha fortes impactos nos restantes acontecimentos), nem é o resultado de acontecimentos financeiros. É uma crise de sobreprodução tendencialmente mundial.

A sua dinâmica obedece às leis económicas das crises, particularmente evidentes quando estamos perante grandes crises. Contudo as formas que aquelas assumem dependem das características da dinâmica social em cada momento.

A crise actual enquadra-se nas características aqui traçadas, mas assume especificidades, essencialmente resultantes da hegemonia do neoliberalismo, das características da globalização e do tipo de “política económica” adoptada.

A sua análise permitirá ver de forma mais clara a situação actual, nomeadamente a crise do euro, assunto de que nos ocupará em próxima conversa.

05
Ago11

Au Bonheur des Dames 292

d'oliveira

A Pereira o que é de Pereira ou

 

O triunfal  regresso do filho pródigo

 

Os leitores estarão recordados de uma “carta a um amigo...”(au bonheur... nº 282”) onde se exprobava a falta de notícias de um certo Pereira, a quem se confiara tarefa difícil e trabalhosa mas de muita enxúndia cultural. A saber, digitalizar um improvável e desaparecido livro de versos, obra delirante de um capitão Pereira (outro!) que nos anos 40, exactamente aliás em 1940, celebrara a pátria em versos extraordinários se é que extraordinário pode alguma vez significar o inconcebível. Era a época da guerra lá fora, da paz podre (mas apetecida...) cá dentro e da exaltação patriótica dos centenários (1140, 1640 e o ano que corria). Pereira, capitão e autor de diversas novelas e desse incontornável “Grandezas de Portugal” levava a sua vis poética a extremos absolutos. Era, se me permitem, a fotografia verdadeira do regime do Estado Novo na sua mais crua vertente cultural: versos absurdos, de pé quebrado mas não engessado que celebravam a glória lusa em tudo o que ela tinha de arrebique e ouropel.

 

A juventude esquerdista dessa época atirou-se ao livro com uma unção e uma aplicação  que só a solidão do jardim à beira mar plantado no meio de uma guerra atroz e, na altura, absolutamente favorável ao Eixo, justificava.

 

Em vez de críticas, eventualmente perigosas e definitivamente inúteis, às eructações poética do capitão António Joaquim Pereira, aquela rapaziada, aplicou-se estudiosamente a decorar o maior número de quadras da obra e cumprimentavam-se recitando-as.

 

Algum leitor mais conhecedor da etnografia africana, terá lido alguma coisa acerca do povo Dogon (por exemplo “dieu d’eau” de Marcel Griaule) e seguramente ter-se-á interessado pelos cumprimentos que dois ou mais indivíduos dessa etnia trocam quando se encontram. A coisa pode demorar mais do que uma missa extensa. Cada um dos interlocutores tentará desmultiplicar-se em saudações mas o outro usará da mesma receita e a conversa segue um interminável ritmo de cumprimentos in crescendo que só acaba quando um dos conversadores esgota o seu arsenal de elogios. Pois o mesmo se passava nesses amargos anos em que aos horizontes fechados de cá correspondiam outros ensanguentados para lá dos Pirineus (e até para cá, porquanto era a época da grande purga franquista, da vingança, do maquis que resistia, das prisões atulhadas e dos processos políticos). Vi e ouvi gente dessa época divertir-se como cabindas a trocar versos do inefável capitão. E tal foi o meu espanto que não parei até conseguir que um amigo querido (e desaparecido precocemente) me arranjasse uma fotocopia do livro que sem êxito, tenho insistentemente procurado por tudo o que é alfarrabista.

 

Os meios que o computador põe à disposição dos que não são informaticamente analfabetos como eu, permitem digitalizar e preparar tudo de tal modo que se possam imprimir verso e reverso das páginas, enfim, permitiam falsificar, melhorando até, a obrinha inestimável. Já o fizéramos em relação a um livro sobre poesia portuguesa do século XX em que precisamente faltava o último fascículo, esgotado ou desaparecido que os vendedores me forneceram, por excepcional favor, também em fotocópia.

 

Todavia, desta vez, Pereira, o falsificador, talvez por ser um mero civil, um paisano doublé de artista plástico, começou a enredar. Os meses passavam e nem a digitalização saía nem Pereira, o amigo, aparecia.

 

Rapariga nova a passar-lhe  descuidada a alcance de tiro? É que a boi velho, erva tenra, e Pereira, o galã, tem uma reputação de alto gabarito a defender nesse campo sempre difícil e conturbado da guerra dos sexos. Mas, mesmo pensando isto, esperando, admirado e invejoso, isso, a demora começava a ser alarmante. Ou o gajo está a montar um harém suicida, que na idade dele isto deve levar-se com muita calma e chás de tília, ou esqueceu-se da encomenda. E vá de pôr a boca no trombone por interposto post já acima referido.

 

Mas de Pereira nem sinais! Até que, há dias, pesaroso, apareceu. Nada acontecera de importante excepto uma mudança de servidor de internet que inclusive o privara do duvidoso prazer de me ler. Afinal, Pereira também asneia nestas coisas. Foi a CG quem o industriou para recuperar este baluarte da boa literatura. E hoje mesmo, num dia de chuva forte em plena Galiza, recebo no café onde há acesso livre à internet a notícia de que está tudo pronto. É chegar, recolher as folhinhas e mandar encadernar. E a minha biblioteca ficará enriquecida com mais um dislate absoluto que testemunha os ásperos tempos.

 

Seguem para exemplo as quadras nº 386e 393 (que no original vêm evidentemente em números latinos):

 

O saneamento começa.

 

Não escalda. Tem brandura.

 

Pois, e então? Ora essa!

 

É benévola a Ditadura.

 

 

 

Temos General Carmona,

 

É alma bondosa e pura.

 

É a vela bujarrona,

 

Desta nossa Ditadura.  

 

Se isto não é de chorar de pura em0oção gozosa então nada nos resta senão o suicídio.

boas férias, ó escassos mas fieis leitores. e pouca chuva.

Pereirinha, tu és o maior!

 

 

 

01
Ago11

expediente 15

d'oliveira

 

 

com uma dúzia de livros, na esperança de uns quilos de mexilhão e muito peixe, mcr retira-se por duas semanas para Areas na Galiza, praia calma mas sem ondas.

Estará ligeiramente à direita, diante de "A Postiña" sob um guarda sol e a ler desalmadamente. nos intervalos, mirará as jeunes filles en fleur que lhe passarem ao alcance do lúzio lascivo e bem atento que isto de praia tem muito que se lhe diga.

À uma e tal termina a sua penitência banhista, almoçará e retirar-se-á majestosamente para para uma sesta reparadora.

Em chovendo, irá ás cidades mais próximas derreter os parcos maravedis em mais livros , discos e dvds.

ao fim de 15 dias extenuado de tanto canseira, voltará á civilização (?) e à pátria madrasta para se desgostar novamente.

E para escrevinhar as prosas que aqui publica.

Até lá boas férias ou algo semelhante a isso. 

 

 

 

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