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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

20
Dez11

Frases Que Ficam

O meu olhar

Um primeiro ministro que aconselha os cidadãos a abandonar o país é o mesmo que um nadador salvador que pede aos banhistas para, em caso de sinal de afogamento, fazerem um esforço para aproveitarem a corrente e irem afogar-se para outra praia.”

Bruno Nogueira, Tubo de Ensaio, TSF, 21 de Dezembro de 2011

20
Dez11

Diário Político 180

mcr



Fixem este nome: Kim Jong-Un

 

 

 

Morreu uma criatura a todos os títulos desinteressante para não dizer algo que me traga algum processo judicial. Ou coisa pior!

 

O morto herdou do finado pai o posto de Presidente da Coreia do Norte, perdão da República Popular Democrática da Coreia e, segundo tudo indica, deixá-la-á ao mimoso filho, acima nomeado que, aos seus vinte e quatro aninhos, já é general de quatro estrelas.

 

Como se vê o triunfante marxismo-leninismo em versão coreana do norte reinventou o conceito de monarquia absoluta e hereditária de que já não se tinha memória.

 

Andei anos a queimar pestanas lendo sólidos cartapácios de Marx, Engels, Lenin, Stalin (até esse!...) e Mao. Não contente, avancei por epígonos, iconoclastas, heterodoxos e demais autores de esquerda.
Nunca vislumbrei quaisquer referências abonatórias das práticas em uso  neste curioso e esfomeado país. Receio mesmo que os pais fundadores do comunismo insultassem com toda a espantosa verve que possuíam (e nesse ponto – mas não só - Marx é imbativel ) a corja que se instalou no comando do Partido e do Governo da RPDC. Porque os dois ditadores finados e o próximo que se anuncia não surgiram do nada. Há um Partido de figuras servis mas acomodadas que os toleram, que os amparam, que são por eles amparadas. E há um conjunto de Partidos e de governos todos mais populares e democráticos uns que os outros que os apoiam de longe ou de perto, que os defendem, que impedem a comunidade Internacional de intervir com a mesma capacidade com que de longe em longe vai interferindo noutras regiões qualificadas de ditatoriais. Mas de sinal contrario, claro.

 

Neste onda mansa e desculpabilizadora aparece um bem próximo que (sic) reafirma «a sua posição de respeito e de solidariedade para com a soberania da República Democrática Popular da Coreia - RDPC, o direito que lhe assiste a determinar o seu rumo próprio de desenvolvimento em condições de paz e não ingerência nos seus assuntos internos, e o objectivo da reunificação pacífica da nação coreana».



 

E acrescenta: 
«Lembrando a posição há muito expressa face a fenómenos e práticas da realidade política coreana com as quais não se identifica, reafirma a solidariedade para com o povo coreano perante as pressões, agressões e tentativas de desestabilização do imperialismo, a que, desde a Guerra da Coreia, no início dos anos 50, o povo coreano e a RDPC têm estado permanentemente sujeitos»,

 

Também não podia faltar o repúdio pela “agenda intervencionista do imperialismo, designadamente dos Estados Unidos, na península coreana e região da Ásia-Pacífico».

Este partido “expressou as suas condolências ao povo coreano e à direcção do Partido dos Trabalhadores da Coreia pelo falecimento do seu dirigente Kim Jong-Il»

 

Relembre-se, apenas, que o imperialismo citado deve ter a ver com a intervenção americana (e mais tarde das Nações Unidas) após a invasão da Coreia do Sul pelos exércitos do Norte. Mais tarde serão as tropas sulistas que tentaráo passar o paralelo 38º mas, queira-se ou não, o começo da guerra foi desencadeado pelo Norte. Ao fim de três anos e três milhões de mortos, celebrou-se um armistício que deixou os dois territórios exactamente como estavam antes. Sem guerra mas sem paz e com um povo dividido.

 

Todavia, e será bom relembrá-lo, a Coreia do Sul é a 13º ou 12º economia do mundo, o pais é próspero, enquanto a Coreia do Norte, com um PIB 16 vezes inferior, é continuamente vítima de fomes dramáticas e só não está esvaziada de população porque as fronteiras são vigiadas pela sua polícia política. O que não impede fugas constantes e deserções. DE militares, de diplomatas, de membros do Partido, enfim de qtodos quantos se apanham fora da pátria bem amada mas mal alimentada. E, já agora, convirá informar que é a Coreia do Sul quem tem literalmente alimentado o povo do norte pelos constantes envios de géneros alimentícios. O norte já tem a bomba atómica mas não consegue dar de comer aos seus cidadãos.

 

Não sabendo exactamente (porque nunca foram explicitadas) quais as práticas politicas que o partido citado  condena na Coreia, e esperando que as malévolas manobras imperialistas nada tenham a ver com a comida enviada pelo Sul, custa-me um pouco a perceber como é que se analisa á luz do pensamento marxista, do materialismo dialéctico, do idem histórico, do pensamento diamático, da análise concreta da situação concreta (Lenin) a natureza do Partido e do Estado na Coreia do Norte. E a falta de liberdades sejam elas quais forem desde a sindical à de viajar, de eleger livremente os seus representantes para já não falar do desastre absoluto em que aquele país se tornou.

 

E aposto que, daqui a dias, sempre prosseguindo na correcta linha “internacionalista” de não ingerência nos assuntos internos de outro país e de outro partido irmão, este mesmo partido saudará a eleição do general de quatro estrelas Kim Jong-Un para a chefia do Estado e do Partido coreanos.

 

Tudo em nome da paz, do progresso, da amizade entre os povos, do internacionalismo proletário e dos “amanhãs que cantam”.

 

É “pró” que estamos!

 

 

d’ Oliveira fecit a 19.XII.11

 

 

 

19
Dez11

Triste, mas real

J.M. Coutinho Ribeiro

"Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm, nesta altura, ocupação. E o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos. Estamos com uma demografia decrescente, como todos sabem, e portanto nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que, das duas uma, ou consegue, nessa área, fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se, sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa encontrar aí uma alternativa".

 

Quem proferiu estas palavras foi Pedro Passos Coelho. São palavras chocantes? São. São ainda mais chocantes proferidas pelo primeiro-ministro? São. E, como é óbvio, preferia não as ter lido. No entanto, para as interpretar, temos que descer à realidade. E a realidade diz-nos que não há, de facto, possibilidade de colocar os professores. E como ninguém tem o condão de criar esses empregos, sobra uma de duas hipóteses: ou os professores a mais ousam mudar de vida, ou terão mesmo que emigrar. E o que é válido para os professores, é válido para qualquer profissional. Tenho pena. Mas é assim mesmo e não vale a pena escamotear a realidade.

19
Dez11

Diário Político 172

mcr

 

 

Lembro-me como se fosse hoje. Era Coimbra e  o meu ano de caloiro e subitamente numa noite caiu a notícia do ataque indiano a Goa. Circulavam, ainda que muito clandestinamente, notícias sobre uma eventual invasão do “Estado Português  da Índia” mesmo se também se propalava que tal ameaça era de incerta realização.

 

Aliás a guarnição da Índia tinha caído para pouco mais de três mil e quinhentos homens, sabendo-se até que as tropas que tinham ficado lá estavam praticamente desarmadas. Não havia força aérea, os meios navais eram ridículos, não havia artilharia digna desse nome, não havia defesa anti-aérea ou anti-tanque.

 

Há quem afirme que o Governo Português (ou melhor Salazar) desarmara deliberadamente as tropas portuguesas de Goa Damão e Diu para evitar uma investida dos indianos. Não evitou.

 

Salazar  portou-se neste capítulo como um facínora. Exigiu a defesa a outrance e o sacrifício inútil a tropas que se viram invadidas por uma força dez vezes superior. Mas esta desproporção aumentava caso se tenha em conta que as tropas que entraram pela “Índia Portuguesa” eram todas de elite. Do mesmo modo a frota que atacou os dois ou três pequenos barcos de guerra portugueses (um aviso do tempo dos afonsinos e duas lanchas!!!....) era de tal modo superior em poder de fogo, tonelagem, numero de soldados e marinheiros que só por brincadeira se poderia falar em combate. Foi um massacre!

 

Em Coimbra, um bando de esgrouviados direitistas e nacionalistas organizou um cortejo nocturno com rezas e bandeiras à mistura que passou diante do pequeno grupo onde eu estava olhando-nos como se fossemos satiagrás (desculpem a grafia mas era isto o que se chamava aos pacifistas indianos que anos antes tinham entrado por Goa dentro para exigir a libertação da colónia). As forças vivas locais, a legião e a carneiragem (ou seja uma imensa maioria) desfilavam atrás dessa gentuça a quem de repente dera o béri-béri patriótico. O espectáculo alem de grotesco era repelente. Sabia-se que as nossas tropas praticamente desarmadas pela canalhice governamental não poderiam resistir. Que se resistissem, teriam armas e munições antiquadas para apenas um par de horas, que o alcance das suas armas era inferior ao dos assaltantes e que do banho de sangue nada resultaria porquanto nenhum país amigo (?) tinha tropas na região para evitar o colapso da “nossa” Índia.  E que Nehru tinha o apoio dos afro-asiáticos, da Rússia e eventualmente de mais uma boa dúzia de países ocidentais para já não falar na indiferença de muitos outros para os quais a presença portuguesa na Índia era uma anomalia.

 

Nada disto comoveu o Governo e as elites portuguesas que, pura e simplesmente, exigiram a impossível vitória e a mais que certa morte do pequeno grupo militar português.

 

Em trinta ou quarenta horas tudo estava resolvido no meio da apatia ou da indiferença dos cidadãos goeses que não só não apoiaram os portugueses como pouco ou nada vitoriaram os seus libertadores. Seguiram-me meses penosos e infames de campos de concentração para os soldados feitos prisioneiros sem que nada justificasse a demora em os repatriar. E à chegada foi o que se viu. Entraram como réus de alta traição e passaram anos a ser acusados de cobardia por quem na comodidade das suas casas queria saber de sangue de heróis mortos e de gestos desesperados.

 

Cinquenta anos depois, custa-me ver alguns títulos de jornais que falam deste desastre como de um fait divers, como se o sofrimento de alguns milhares de homens, a morte de alguns raros soldados e marinheiros que tentaram resistir, fosse algo de gracioso. Não foi. Esta história, a de Goa e do seu fim  e do destino dos seus soldados regressados, é um exemplo de tudo o que de miserável e infame caracterizava o Estado Novo. E do engano que corria por cá quando se falava de combates rua a rua, de resistência, de glória, das bombardas de Diu e dos sinos da velha Goa. Nada disso era verdade, claro, mas não obstou a que uma onda histérica de patriotismo corresse o país de lés a lés ao mesmo tempo que se incomodavam os cidadãos que mantiveram a cabeça fria. Um dos meus amigos, que já foi deste blog, sofreu mesmo uma detenção pela policia por não se ter levantado á passagem da manifestação de desagravo promovida em Coimbra. Outros, como eu, puseram-se a salvo, e viram semi-escondidos a patrioteiraça  caminhada entre espanto e indignação. Foi há cinquenta anos mas a vergonha ainda hoje a sinto. 

d'Oliveira fecit 17/18 Dezembro

* na gravura: planta de Goa, circa 1750

 

18
Dez11

Estes dias que passam 259

d'oliveira

Vaclav Havel

 

A morte surpreendeu-o (?) aos setenta e cinco anos. Ou aos setenta se lhe retirarmos os cinco em que esteve preso. Ou até mais (ou menos) se recordarmos que durante quarenta anos viveu num pais esmagado pelo amigo (?) soviético.

 

Para a gente da minha geração, cada morte destes camaradas do centro europeu é um sinal e um aviso. sinal da idade, claro, mas aviso de que cada vez temos menos tempo para dizer o qque foi a nossa aventura nos tempos obscuros em que cá e lá se partilharam a aventura da resistência, do anseio de liberdade, do desmitificar de verdades prontas a servir e que hoje nem lugar têm no museu das obsolescências. Vaclav Havel juntou várias vidas, a de dramaturgo, a de politico em duas eras distintas e a ainda mais difícil altura, em que o pais nascido depois de 1918, na derrocada do Império Austro-húngaro, da partição em duas entidades nacionais diferentes. Havel era contra porventura por temer a menorização política  que obviamente resultou para os dois novos países.

 

Não sei se por cá correm obras traduzidas de VH. Recomendaria (em francês) “le rapport dont vous êtes l’object” e já agora todos os seus ensaios, sobretudo um sobre Bohumil Hrabal outro checo nosso contemporâneo que tem livros cá editados.

 

Morre um homem bom e mais do que isso um “herói do nosso tempo”, mesmo se esta expressão é, como se sabe, carregada, de segundos terceiros e mais sentidos.

 

A minha geração está de luto (é assim ou não?, caro João Vasconcelos Costa) um pouco por Havel e muito, se calhar muito mais, por nós.

 

 

 

18
Dez11

Au Bonheur des Dames 302

d'oliveira

 É bom saber que ainda há quem tenha trabalho (agora e no futuro)

 

Leio no conspícuo Expresso um tocante apontamento sobre a vida do inefável senhor Miguel Relvas. Esse mesmo o que fala grosso para poupar o 1º ministro que gosta (ao contrario do antecessor) de falar fininho. Sª Ex.ª terá dito que, se cair o Governo, ele tem para onde ir presumindo quem o ouve que no eminente pensamento relviano “há mais vida alem da política”.

 

Contas feitas, verifica-se que aos cinquenta aninhos de idade, o fogoso politico já leva vinte e quatro de deputado e dois de governante. Ou seja vinte e seis anos. Tirando a infância, a adolescência, os penosos anos passados até perfazer o 12º ano, verifica-se que de vida útil e adulta, presumindo-se que esta começará aos vinte e um, S.ª Ex.ª tem três aninhos de eventual trabalho não político. Em cinquenta anos dá 6% o que sabe a pouco.

 

Claro que os seus anos parlamentares não terão sido para lamentar. S.ª Ex.ª desempenhou, nos intervalos da sua laboriosa vida parlamentar vários cargos em diversas empresas, mostrando bem de que rija têmpera se faz um dirigente politico tous azimuts. E no meio de tudo isso ainda se licenciou num desses misteriosos cursos úteis para a Pátria, para o mundo e sobretudo para o amor próprio de quem se revê neste pais de falsos doutores. É obra! 

 

Se eu fosse alguém mal intencionado, acrescentaria que a criatura há-de ter vivido um autêntico pesadelo com tantas e tão desvairadas tarefas e preocupações.  Que isso ou o tornou melhor ou, mais certamente, pior, que andar na labuta da política, dos negócios, do estudo, com responsabilidades familiares não é pêra doce. Nisso não se distingue muito do politico exilado que, coitado, até em Agosto de um funesto ano teve de dar à perninha para se licenciar. O povo unido na praia, nas vacanças, nos trópicos, no bem bom e ele, truca que truca a dar ao cerebelo e às restantes vísceras pensadoras.

 

Relvas, Miguel, não lhe fica atrás, bem pelo contrário. Com cinquenta anos de vida e vinte seis de política ei-lo todo lampeiro a mostrar de que farinha é feito.

 

Ora toma!  

 

16
Dez11

Fracturas...

José Carlos Pereira

O deputado Pedro Nuno Santos assarapantou ontem o país com as declarações que vieram a público e que foram produzidas num convívio partidário em Castelo de Paiva. Pedro Nuno Santos, recorde-se, é vice-presidente do grupo parlamentar do PS e preside à distrital de Aveiro. Foi candidato derrotado à presidência da Câmara de São João da Madeira e líder da Juventude Socialista.

O deputado socialista traz consigo, ao que se vê e ouve, os vícios de uma forma de estar na política muito “jotinha”: proclama-se o que vem à ideia, desde que seja “fracturante”. Pedro Nuno Santos, no calor do jantar, disse aos seus camaradas de partido aquilo que até pode corresponder ao seu pensamento, mas que nunca poderia verbalizar num evento público, veiculando para os militantes do PS uma posição que estes, naturalmente, terão presumido ser a do partido no seu todo. As suas responsabilidades de deputado e vice-presidente da bancada parlamentar do maior partido da oposição deveriam impedi-lo de usar a “imagética criativa”, como se lhe referiu Carlos Zorrinho. Ainda por cima com os microfones pela frente…

Quem deve, paga e tão rápido quanto possível, desde que isso não coloque em causa a sua própria capacidade de honrar os compromisso. Negociar é uma coisa, fazer “ameaças” com desabafos deste género – ponham-se finos… - é absolutamente irresponsável.