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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

28
Abr12

Intento (27)

sociodialetica


“A existência de uma classe oprimida é a condição vital de toda a sociedade fundada no antagonismo de classes. A emancipação da classe oprimida é a condição vital de toda a sociedade fundada no antagonismo de classes. A emancipação da classe oprimida implica, pois, necessariamente, na criação de uma sociedade nova”
Karl Marx, 1965. A Miséria da Filosofia. Rio de Janeiro: Editora Leitur, pag 164/5.
26
Abr12

Au Bonheur des Dames 316

d'oliveira

 

 

 

 

 

Testemunho

 

Nas semanas que antecederam o 25 A vivia uma vida estranha. Era advogado, tinha uma larga cópia de clientes “políticos”, fazia, com três amigos, “passagens” de desertores ou de fugitivos políticos pela fronteira de Melgaço, distribuía as publicações da “centelha” uma editora militante e carregada de livros proibidos, conspirava dia e noite e sabia que estava na mira policial. Já fora preso várias vezes por períodos que já pesavam bastante, tinha contra mim um processo a aguardar melhor prova e todo o meu correio era censurado. Em meados de 73 fora, mais uma vez, convocado à sede da DGS (pseudónimo marcvelista da PIDE) e saíra de lá graças a um inspector a quem inadvertidamente uma vez, numa frequência na faculdade, passara o ponto. O homem, agradecido, lá me livrou daquela mas eu sabia (e sei-o hoje, por consulta aos 11 processos de que fui alvo pela pide) que o meu futuro próximo passava por uma estadia de maior duração na cadeia.

 

Paralelamente, a mina vida sentimental estava encalhada.

 

A percepção dessa situação tornou-se tão nítida que comecei a estudar seriamente a hipótese de me exilar.

 

Tinha a meu favor o estar já licenciado, possuir um passaporte e estar livre do serviço militar. Acrescente-se a este excelente panorama um outro factor de peso. Fizera, depois, de concluída a faculdade, o Curso Superior de Direito Comparado. Graças aos conhecimentos e amizades aí travados, conseguiinteressar algumas pessoas, nomeadamente a Secretária Geral da “Faculté Internationalle pour l’Einsegnement du Droit Comparé”, Madame Regina de Sollá y Canizares, que me prometeu um pequeno lugar na estrutura da organização. O salário era modesto mas pelo menos dava para dormir e comer. Por outro lado, o Professor Robertson, com quem fiz a cadeira de “Direitos Humanos” propunha-me um outro emprego na Comissão de Direitos Humanos em Estrasburgo. E, para coroar o bolo, o Professor Doutor Ferrer Correia garantira-me (graças também às recomendações dos Professores Orlando de Carvalho e Carlos Mota Pinto) que tudo faria para que a Gulbenkian a cuja direcção já pertencia me desse uma bolsa para um doctorat 3eme cycle.

 

As dificuldades eram apenas de ordem familiar: os meus pais já tinham o o outro filho exilado e tinha de resolver o problema de um casamento falhado. Sabia perfeitamente que do outro lado a vida não era só rosas mas o sufoco que sentia cá começava a ser insuportável.

 

Tomei a decisão de partir definitivamente perto da Páscoa de 1974. O pretexto seria a sessão de primavera da Faculdade de Direito Comparado onde, entretanto, sigilosamente, me inscrevi. O Doutor Férrer Correia conseguiu-me a respectiva bolsa e a Faculdade garantia-me um alojamento, refeições e todos os direitos de inscrição.

 

Uma única pessoa estava ao par desta minha disposição: um amigo antigo, Rui Feijó, que discutiu com amizade, bom senso e ternura este meu passo. E, mais do que isso, garantiu-me que explicaria a minha decisão, a duas ou três pessoas com quem não me atrvi a falar, entre elas o meu sogro, Jorge Delgado, que ainda hoje considero e venero.

 

73 passou e em Janeiro e Fevereiro de 74 fui planeando a minha saída. Não contava, porém, com o golpe das Caldas. Nessa altura, um dos colegas de escritório, que entretanto fazia a tropa no Porto, deu-me a conhecer as conspirações militares em curso. E sabendo, por portas travessas, das minhas habilidades de passador, requisitou-me amavelmente para a rodada seguinte da revolução. Fui encarregado de arranjar uma flotilha de carros e respectivos condutores para levar para a fronteira os conspiradores no caso da coisa dar para o torto.

 

Claro que estou a resumir, muito, muitíssimo, essas semanas exaltantes de preparação do 25 de Abril. Ele também não se descozia demasiadamente, mas o pouco que ia adiantando era de tal modo embriagador que, num ápice, adiei os meus projectos de exílio imediato. Ao fim e ao cabo, dizia a mim mesmo que ou ganhava e ficava, ou partia com os meus clientes. E mesmo que já não fosse exactamente um rapazola (tinha 33 anos feitos...) o simples cheiro da revolução no ar dava-me asas.

 

Arranjei o grupo que me pediam e que, por mera justiça, refiro mais uma vez: Maria João Delgado, então ainda minha mulher; Teresa Feijó, uma boa amiga, corajosa e que já dera provas ao esconder com o risco que se sabe, o meu irmão em casa dela; Rui Feijó, membro da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, antigo membro da “rede Shell”, dono de uma quinta onde muitas vezes se refugiaram perseguidos políticos. Como suplente, contava ainda com o meu sogro, Jorge Delgado, antigo militante do PCP e responsável político que também estivera anos na cadeia.

 

Como facilmente se perceberá, não convinha alargar este grupo, por várias razões. Segurança, em primeiro lugar. Depois, cinco carros a chegarem a um ponto de passagem de fronteira, conhecido pelos locais e pelos contrabandistas já era um risco forte. Finalmente, do lado dos revolucionários também não era de prever que houvesse uma multidão ansiosa por fugir. Prevíamos que a nossa clientela não ultrapassasse a dúzia, pelo menos para uma situação radical qual seja a de passarem a salto para Espanha e daí, se fosse caso disso, serem por nós transportados até perto da fronteira francesa.

 

Como é da história, o golpe correu ainda melhor do que se esperava e nós os cinco ficámos do lado de cá da História. Ainda bem, devo dizê-lo, que nestas coisas entendo sempre que o razoável é inimigo do óptimo. Estivemos na brecha, divertimo-nos, entusiasmámo-nos, conseguimos o queríamos e bonda. Puta que pariu as condecorações e os heroísmos inúteis.

 

Até à sua morte, o Rui telefonava-me logo pela manhã do dia 25 e começava sacramentalmente: Olha lá, valeu a pena, não valeu? E eu respondia invariavelmente, que sim, que valera a pena e que se fosse preciso, recomeçaríamos. Depois caíamos numa daquelas conversas de bica aberta que terminava mais cedo ou mais tarde numa almoçarada.

 

Hoje, ontem, aliás, que já passou a meia noite, recordo com saudade e alegria o Rui (e o Jorge Delgado) que estavam dispostos a prescindir de comodidades e a arriscar muito, quase tudo, por uma ideia e um gesto.

 

Não é este o mundo com que sonhámos, não é esta a vida que, na noite e no desassocego, nos obcecava. Mas estamos melhor do que nesses meus primeiros trinta e três e naqueles primeiros sessenta anos destes dois heróis desconhecidos.

 

É por isso que me entristecem, me indignam, me repugnam certas atitudes e palavras de quem, ao que parece,faz tábua rasa das diferenças entre viver livre ou viver com medo e sem esperança. A luta política, sobretudo se feita a partir de equívocos, meias verdades, fuga às responsabilidades, comuns e pessoais, não pode, não deve, ser pretexto para atirar fora a água do banho com a criança dentro. Por muito que pese a Vasco Lourenço, a Mário soares ou a Manuel Alegre, o 25 A não tem donos. Os senhores associados da25A, nada seriam sem os seus soldados, nada seriam sem o calor popular e, desculpem-me lá, demoraram muito tempo a perceber que o país estava doente. Os senhores exilados nunca estiveram sozinhos lá fora. Daqui iam continuamente notícias apoios de toda a espécie e aqui se praticavam diariamente actos concretos contra va ditadura que os espulsara. Muito boa gente, cá, foi sendo espancada, privada de emprego, presa por defender aqui, sem testemunhos internacionais, sem simpatias internacionais, sem campanhas internacionais, o que eles defendiam honrosamente lá fora.

 

 

 

À memória de Jorge Delgado (“Sérgio”, na clandestinidade) e de Rui Feijó, cidadãos do mundo e da liberdade,

 

 

 

Por mcr,( “Vargas” num tempo longínquo de que não tem saudade) em Lisboa aos 25 e 26 dias do mês de Abril 

 

A gravura: fotograma do filme "A estratégia da aranha" de Bertolucci: o herói, que será vitima dos fascistas, desafia o poder destes dançando ao som da "Giovinezza" hino sagrado dos fascistas italianos. Bravata e coragem num filme belíssimo que ainda não foi editado em cd. Se alguém tiver uma cópia noutro suporte faça-me o favor de ma emprestar para eu o poder gravar

 

25
Abr12

25 de Abril Sempre!

José Carlos Pereira

 

Desta vez não pude concordar com Mário Soares. Por muito que se discorde das políticas seguidas pelo Governo, isso não pode servir para colocar em causa as comemorações do dia fundador da democracia portuguesa, o 25 de Abril de 1974, na casa que representa todos os portugueses. 

À semelhança do que fizeram Eanes e Sampaio, Soares deveria ter estado na Assembleia da República para evocar a data que, precisamente, nos permitiu ter divergências e proclamá-las sem receios. Não lhe faltariam oportunidades para manifestar a sua oposição à política do Governo. A solidariedade com a Associação 25 de Abril - provavelmente sentida com a perda de regalias e direitos por parte dos militares... - é uma justificação menor para um dos pais do regime democrático.

25
Abr12

As comemorações de Abril no local certo

JSC

 

Há alguns anos que não ia até à baixa no 25 de Abril. Deixei de ir porque aquilo tinha-se transformado numa feira, com farturas, pipocas e outras coisas afins, por onde as pessoas se passeavam sem ligar nenhuma aos animadores das comemorações, apenas ouvidos por meia dúzia de apaniguados.

 

O ambiente politico instalado, o facto de estarmos a ser governados por um grupo de pessoas sem qualquer sentido do que é o país, porque ou estão a cuidar dos seus próprios interesses ou estão a mando da troika que indiretamente nos governa, por tudo isto e porque todos os dias nos dão notícias ruins, sem aparecer uma única que aponte alguma esperança ou expectativa de dias melhores, por tudo isso, decidi ir até à baixa, sentir o pulsar do 25 de Abril, ver se o ambiente mudou e se a revolta e angustia que paira no ar transportou para o centro da cidade as pessoas, os cravos, as canções, as palavras de Abril.

 

Ao aproximar-me da Avenida dos Aliados dei conda das dezenas e dezenas de polícias nas esquinas, equipados com cassetetes bem compridos e muitos outros polícias dentro das carrinhas estacionadas nas proximidades, em locais estratégicos. Cá está a tolerância zero que o governo anunciou para o 25 de Abril, comentei.

 

Nos passeios laterais vendiam-se cravos a um euro. Muitos cravos. Às tantas do fundo da Praça apareceu uma manifestação significativa e bem ruidosa. Eram os do Projecto Es.col.a. Um dos cartazes anunciava um projecto de escola autogestionante. Uma manifestação à parte, que subiu a avenida, parou junto à Câmara, voltou a descer a Avenida e seguiu para cumprir o seu objectivo.

 

Quando estes manifestantes desciam a Avenida surgiram duas manifestações pelas ruas laterais da Câmara. De onde vêm estes? Vêm da PIDE, é a manifestação da Associação 25 de Abri, responsável pela comemoração, informaram-me. Milhares e milhares de pessoas encheram a Avenida dos aliados. Reacenderam a chama, os cânticos, as palavras de Abril. Limparam a alma.

 

Valeu a ‘pena ter estado lá. Por ter encontrado amigos e conhecidos que não via há muitos anos. Por, tal como eu, muitos deles também não irem lá há muitos anos. Valeu a pena. Afinal de contas “tudo o que Abril encerra” continua vivo. Foi bom senti-lo na Rua, exactamente onde Abril aconteceu.

25
Abr12

Viva o 25 de Abril de 1974

sociodialetica

 

1. Decorria o ano de 1971.

 

A União de Estudantes Comunistas preparava, obviamente na clandestinidade, mais algumas acções com os estudantes portugueses. Por sugestão do Partido Comunista foram editados uns postais em homenagem à liberdade com uma frase sobre a sua utilização na construção da Revolução Democrática e Nacional.

 

Por muitos esforços que faça não consigo recordar-me nem da imagem nem da frase que a subescrevia. Mas recordo-me da longa discussão que aquela iniciativa teve na Direção da UEC. Muitos de nós defendíamos que a missão das nossas vidas era lutar pela conquista da liberdade mas não acreditávamos que assistíssemos a essa alvorada redentora. Todos nós sabíamos que a liberdade seria obtida mas poucos admitíamos que fosse em nossas vidas. Todos sabíamos que o fim do fascismo era inevitável, mas poucos acreditávamos que estivesse para breve. Uma coisa eram as análises políticas que se faziam, que mostrava que o regime de então abria brechas em várias frentes (colonial, diplomático, económico, etc.), outra coisa era transformar essas leituras racionais numa convicção de curto prazo.

 

O postal foi amplamente distribuído. Continuava o fascismo, amolecido pelo sorriso e hesitações de Marcelo Caetano, mas com a continuação da PIDE/DGS, com as cargas policiais, com a censura, com a guerra colonial, com os mais salazarentos à espera do momento de disferir o golpe. Poucos sonhávamos que em nossas vidas assistíssemos à Revolução de rutura e pudéssemos lutar de face descoberta pela construção de uma sociedade que correspondesse aos oito pontos da Revolução Democrática e Nacional:

  • Destruir o Estado fascista e instaurar um regime democrático;
  • Liquidar o poder dos monopólios e promover o desenvolvimento económico geral;
  • Realizar a Reforma Agrária, entregando a terra a quem a trabalha;
  • Elevar o nível de vida das classes trabalhadoras e do povo em geral;
  • Democratizar a instrução e a cultura;
  • Libertar Portugal do imperialismo;
  • Reconhecer e assegurar aos povos das colónias portuguesas o direito à imediata independência;
  • Seguir uma política de paz e amizade com todos os povos.

Mas foi em nossas vidas que tal aconteceu.

 

 

2. Quando o 25 de Abril de 1974 aconteceu estava em Paris, com minha companheira e dois filhos, um com mês e meio de idade.

Estava em Paris por um conjunto de acidentes.

 

O primeiro foi no início da década de 70 terem-me proposto que passasse à clandestinidade. Em termos práticos significava ser funcionário político, mudar de identidade, passar a residir onde fosse necessário, romper totalmente com a família e os amigos por questões de segurança, aumentar os riscos de ser preso e torturado com maior severidade. Estava de acordo com essa mudança de vida mas diversas contratendências impediram a sua concretização.

 

O segundo, e o mais importante, foi ter havido uma forte investida da PIDE/DGS contra a União de Estudantes Comunistas e vários dos presos terem-me indicado como responsável político por algumas Faculdades de Lisboa.

 

O terceiro, em 1971, na sequência da realização, em Budapeste, da reunião que levou à constituição da União de Estudantes Comunistas. Em Budapeste porque os elementos que iam de Portugal tinham que fazer vários despistes de viagem para não serem seguidos e num país socialista a segurança era maior. Em Budapeste porque assim foi proposto por Álvaro Cunhal e Carlos Brito, membros da direção do Partido Comunista também presentes. Tinha instruções rigorosas para saber qual era a minha “situação conspirativa” ao regressar a Paris, antes do meu regresso ao país. Entretanto soube que já tinha sido denunciado por diversos militantes presos e havia que avaliar se devia regressar ou não. O elemento de contacto em Paris, perante esta informação respondeu “mesmo que tenhas sido denunciado o que queres que eu te faça?”. Limitei-me a dizer “nada” e a apanhar o comboio em Austerlitz. Um pequeno acontecimento que me valeu vários meses de perseguições, ameaças de morte e sobretudo de inquietudes sucessivas para a minha filha, muito bebé.

 

O quarto foi ter fugido de Portugal com dois destinos que se não concretizaram. O primeiro destino seria Bruxelas onde pensava obter o estatuto de “refugiado político” e garantir uma vida relativamente estável com a família. Paris foi mais forte e aí fiquei durante vários meses à procura de emprego e depois a fazer contabilidade de custos numa empresa. Uma Paris que me acolheu na angústia do exílio e na mesquinhez perversa dos emigrantes políticos portugueses. O segundo destino seria Moscovo para onde não fui porque numa das visitas da minha companheira a Paris ela ficou grávida e a burocracia soviética queria alguém para trabalhar sem os impedimentos de dois filhos.

 

Enfim, estávamos em Paris, comigo a ganhar pouco mais que o salário mínimo nacional, a habitar em Bourg-la-Reine num casa com pouca coisa, mas agradável.

 

 

3. No 25 de Abril, as informações que nos chegavam eram de golpe de estado, transformado em revolução pelas manifestações, pelo aparecimento rápido dos partidos políticos que tinham estado na clandestinidade (PC, há décadas, e PS, recentemente), pela dinâmica das populações, pela forte atividade das organizações populares já existentes (como os sindicatos) ou então criadas (comités para isto e para aquilo).

 

Os dias entre o 25 de Abril e o 1º de Maio foram vividos com grande intensidade. Por um lado tudo cheirava a liberdade e ao fim do fascismo. Por outro apareciam os apelos dos militares à calma popular e a figura sinistra do Spínola. Sabíamos que este era uma figura importante no enfraquecimento do regime – pelas suas posições sobre a guerra colonial –, mas também sabíamos que não seria com ele que a liberdade efetiva chegaria.

 

Começámos a prepararmo-nos para regressarmos ao país. Fosse como fosse era lá que tinha que estar. Chegava de ir para a beira do Sena olhá-lo com a nostalgia do mar português. Chegava de não andar com dinheiro na algibeira para não cometer a loucura de comprar um bilhete de comboio para Portugal. Simultaneamente, os filhos exigiam-nos prudência e saída planeada. Na empresa, Ogimex, pediram-me para adiar a saída para encontrarem quem me substituísse. Talvez também para me oferecerem uma comovente festa de despedida. Entretanto chegou-me a convocatória para o serviço militar, mas só para Julho.

 

 

É assim que respondo à pergunta de Baptista Bastos: “Onde estava no 25 de Abril?”

 

24
Abr12

Diário Político 178

d’Oliveira

 

 

 

Um passo em frente, dois à retaguarda

 

Parece que a Associação 25 de Abril decidiu não comparecer nas festividades oficiais da data. Ao que sei, o coronel Vasco Lourenço, criatura excelente mas jamais um politico, entende que o actual Governo não representa de nenhum modo o “espírito do 25 A”!

 

Primeiro pensei que a notícia era pura reinação! As comemorações são de uma chateza insuportável, os cavalheiros que nelas comparecem distinguem-se, na sua ponderada uniformidade, por trazerem cravos vermelhos na lapela e por, todos os anos, dizerem gravemente as mesmas três coisas bem embrulhadas nos mais conspícuos narizes de cera que ornamentam a discursata sensaborona dos nossos festejantes.

 

Noutros anos, a época já quente puxava a quase totalidade da população para as praias e aquilo que as televisões nos transmitiam era uma liturgia lúgubre e uma passeata pela Avenida da Liberdade. Sempre as mesmas caras, ou cada vez menos que a coisa foi há quase quarenta anos e a Parca não perdoa.

 

Este ano, em consonância com as chuvas, tardias mas preciosas, e o ambiente soturno em que vivemos, nem essa réstia de alegria balnear parece consentida aos portugueses.

 

Mas não foram razões meteorológicas que suscitaram a indignação do excelente coronel, ex (ou ainda?) deputado do PS. Foi, pelos vistos, a política governamental, o nacional-troikismo que indignou o brioso soldado.

 

Quem se lembre do que tem sido a governação nestes últimos dez ou quinze anos, espanta-se de que só agora o também companheiro Vasco, na veste pundonorosa de vestal defensora das virtudes de Abril, se indigne. Ao que parece, não terá, visto, suspeitado, sequer sonhado com o que por aí vinha. Ou seja, não terá atentado no rumo suicidário da despesa pública, no retraimento da economia nacional, no crescente deficit das contas no desregramento dos projectos quiméricos em que vários governos, esquecidos das anteriores intervenções do FMI (ou ignorantes do mais trivial conhecimento da Economia) afundavam alegremente a pátria amada.

 

Mas deixemos isso e lembremos, uma vez por todas, o “espírito de Abril2. Recordemos o que vinha no Programa do Movimento das Forças Armadas e que foi sendo tornado público nos dias seguintes à vitória do pronunciamento militar.

 

Se bem se lembram o dito manifesto falava vagamente na democratização da vida política (mas não em partidos!) era definitivamente indefinido em relação à democracia pretendida, citava uma “via democrátic”a para se encontrar uma “política ultramarina que conduza à paz entre os portugueses de  todas as raças e credos (!!!)” E bonda. Ou não só. Falava na criação de um governo civil (note-se bem) num prazo de três semanas.

 

E por aqui nos servíamos.

 

É bem verdade que quase toda a gente rejubilou. Bastava a queda do regime, da policia política (mas não em África), das autoridades civis, o fim da censura, a libertação dos presos políticos (que não estava prevista para todos) e o regresso dos exilados (e também nem todos eram cordialmente convidados a regressar sem problemas...). A composição da junta de salvação nacional era o perfeito exemplo do que se vem de dizer Uma clara maioria de oficiais generais bastamente conservadores, alguns dos uias claramente à direita de Spínola.

 

O Portugal mais interessado deu tudo isso de barato. Queria, ansiosamente, um momento de respiro, e isso ninguém o nega começou logo a meio da manhã do próprio dia 25.

 

A adesão popular ultrapassou tudo o que a tropa insurrecta esperava. E o regime caiu quase sem um tiro , ou com duas rajadas para o quartel do Carmo.

 

Mas o “espírito” era nebuloso. E de tal modo o era que, mesmo nas reacções mais a quente, havia para além do alivio e do aplauso (e da incredulidade) uma pergunta que o precipitar dos acontecimentos e a acção dispersa mas em avalanche de diferentes forças, grupos, e entusiasmos largamente modificaram a incipiente proposta militar.

 

Se o MRPP logo advertiu que era preciso cautelas com o golpe da “militaragem” (sic) outros grupos e personalidades tentaram rapidamente tornar explícito o que não se lia no “programa” e, nos meses que se seguiram a coisa foi tomando formas (e não forma) suscitando um aceso debate que nem sequer os mais avisados militares (por todos Melo Antunes)  tinham previsto.

 

Todavia, o país viveu durante vários anos um regime tutelado por militares mesmo se, importa notá-lo, se gozasse de amplas, amplíssimas liberdades. Mas houve tutela, disso não há qualquer dúvida e poderemos, aliás, situá-la quase até ao fim do mandato de Eanes, ele mesmo eleito para a função por ser militar e ter chefiado a última movimentação das forças armadas. Isso mesmo ficou patente não só pela forte oposição de Sá Carneiro mas igualmente de Soares, civilista avisado e inteligente que já não o votu para a reeleição. E recordemos que nos primórdios do PRD (que depois terminou como terminou...) havia um indisfarçável sentimento anti-partidos se não anti-parlamentar e a crença no messias quase ditatorial mas populista.

 

Eu não sei o que move o senhor coronel Lourenço. Mas vejo ou, pelo menos, temo-o, que mesmo se a intenção possa ser generosa, anda por ali uma qualquer saudade do tempo em que a tropa mandava e nós pouco mais éramos que mancebos. Já o senhor coronel Saraiva de Carvalho viera com a ideia de um novo 25 A, ignorando que a história quando se repete é sempre como farsa e farsa as mais das vezes sanguinolenta. Agora vem este homem que esteve contra Otelo em alguns momentos decisivos (e por isso um muito obrigado) acusar o actual Governo, democraticamente eleito, note-se, de um par de crenças que nunca escondeu.

 

 E contra acções que, custa relembrá-lo, estavam claramente inscritas no acordo que o anterior governo (que ele, Lourenço, apoiava) celebrou com a troika. Acordo esse claramente motivado por uma política funesta e disparatada contra a qual, aqui, me fui elevando desde o primeiro dia.

 

Pessoalmente não me aquenta nem arrefenta a indignação de Vasco Lourenço. E menos ainda as súbitas adesões de Soares e Alegre (tão amigos que eles eram...) que cheiram, custa dizê-lo, a mero oportunismo politico que é a moda do momento.

 

38 anos depois, a reflexão cada vez mais crucial sobre a nossa História recente continua por fazer. Em vez disso temos estas declarações tremendas e pomposas que escondem um uivante vazio de pensamento politico.

 

E, mais ainda, de Esquerda. 

 

Como se estivéssemos prestes a recuar não 38 mas setenta e oito anos! Só falta encontrar um professor de Finanças Públicas, tímido, misógino, religioso e autoritário.

 

Não houve ainda a revolta dos FiFis mas há pelo menos o pronunciamento dos Vavás...

 

Arre!

 

D’Oliveira fecit 24.4.12 (há trinta e muitos anos estávamos, coração nas mãos, brilho nos olhos e uma louca esperança acesa, a prepararmo-nos para todas as eventualidades. Correu tudo bem. E hoje?)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        

 

 

 

 

 

 

 

         

 

24
Abr12

Intento (26)

sociodialetica
 

“Qualquer criança quando, após o aleitamento, se separa definitivamente da mãe e se torna um ser distinto, recebendo dos outros os alimentos necessários à sua existência, passa a ser um devedor. Não dará um passo ou fará um gesto, não alcançará a satisfação de uma necessidade, não exercerá nenhuma das suas faculdades de nascença, sem mergulhar no imenso reservatório de utilidades acumuladas pela humanidade. [sendo] devedor para com todos, [cada homem deve à colectividade um esforço de solidariedade].”
Léon Bourgeois, 1896, in Pech, Thierry. 2011. Le Temps des Riches. Anatomie d'une sécession. Paris: Seuil. pag. 169/70

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