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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

22
Abr12

estes dias que passam 271

d'oliveira

Lamento mas é assim mesmo! 

 

Andou por aí muito boa gente a iludir-se sobre este primeiro "tour" das eleições francesas. Como de costume, tomavam os seus desejos pela realidade, coisa que, pior do que a "doença infantil", representa o mundo de ignorância em que alguma (muita) esquerda se enredou desde há muito.

Sem surpresa, François Holande, o candidato socialista, o tal que não tinha carisma (e, de facto, tem muito pouco),  aparece em primeiro lugar com mais de 28% dos votos. Também não é surpresa o segundo lugar de Sarkozy, justamente castigado pelas suas diabruras, pela desenvoltura com que andou em zig-zag desde que se apanhou no Eliseu.

A partir daqui as coisas tornam-se mais interessantes. Faço parte dos que sempre acharam que a FN de Martine Le Pen teria um excelente resultado. Perdi as ilusões sobre este tema quando vi o papá da criatura atirar Lionel Jospin para fora da carroça, sem apelo nem agravo. A extrema-direita francesa tem um percurso conhecido e, apesar do bloqueio, consegue manter-se no terreno e nas corridas eleitorais. 

Mas mesmo para mim, que apostava no terceiro lugar de Marine, a desenvoltura com que ela deixa o pobre Melenchon a seis pontos de distância é notável. Também eu, que sempre achei o cavalheiro desinteressante, com um discurso velho e relho, carregado de narizes de cera, apostado a não reconhecer que o mundo mudou, pensava que ele ficaria num quarto lugar muito próximo da FN. Não ficou. Está reduzido ao eleitorado comunista e a uma pequena fímbria de compagnons de route. Ou seja, é uma inutilidade, mesmo se os votos que obteve sejam absolutamnte essenciais a uma eventual vitória de Holande. 

Todavia, não será Melenchon a negociar apoios mas a direcção do PCF que apostou neste "mau negócio". Aliás, mesmo se as sondagens dão numa segunda volta a vitória a Holande sobre Sarkozy (54-46%), as verdade dos resultados expressos aponta apenas para 43% dos votos expressos (Junto aos resultados de Melenchon, os de Jolly -2% - e os dos dois candidatos trotskistas que junto não chegam ao resultado desta última).

Todavia, nada garante que a clientela da FN vá toda precipitar-se nos braços de Sarkozy. em primeiro lugar porque conhecem o homem. depois, porque muito em breve há eleições cruciais para a extrema direita que nunca sonhou com a Presidência da República.  

Não sou um especial admirador de Hollande. No entanto, já aqui escrevi, vai para dois ou três anos, que este vieux routier socialista não era tão frágil como o pintavam. O homem soube conquistar o aparelho socialista, ultrapassar serenamente muitos dos "elefantes" da mesma praça e impor-se aos militantes mesmo se o ruído se fazia à volta de Ségolene Royal, sua ex-companheira e candidata vencida por Sarkozy, ou Martine Aubry a poderosa dirigente do PS o reduzia a mais um personagem na paisagem.. Na discreta penumbra a que se remeteu, Holande refez as suas redes de apoiantes, deixou os (e as) habituais tenores cansarem-se e apareceu imparavel. 

E apareceu imparavel sobretudo para todos quantos (de Direita mas sobretudo de Esquerda!...) apostavam numa grande abstenção. Votaram mais de 80% dos eleitores! Ora aqui está outra lição para todos quantos apostavam na hipótese Melenchon baseados numa fraca participação que obviamente daria mais peso à votação militante e radical. O povo, tantas vezes invocado, tem mais juízo e mais tino do que os que, inebriados pela ideologia, se recusam a fazer a "análise concreta da situação concreta" como Lenin propunha.

Há, claramente, neste resultado, muito de rejeição de Sarkozy que obviamente deveria, como aliás é hábito nas eleições francesas,  aparecer mais forte do que o seu challenger. Mas há também uma clara aposta na "força tranquila" (desta vez muito mais clara...) de Hollande. 

A próxima jogada vai depender da capacidade da FN em se manter fora da esfera de influência de Sarkozy (coisa que não aconteceu na anterior presidencial...) e no que decidirão os eleitores mais radicais de François Bayrou. Se, como pode ocorrer, estes se juntarem em massa a Sarkozy (até há pouco apenas haveria, quanto muito, 40%), as coisas poderão ser mais difíceis para o candidato socialista. 

Bayrou deixa uma mensagem ambígua, quase pedindo a ambos os candidatos finalistas que façam a sua parada. É um discurso perigoso mesmo se declarou a percentagem da extrema direita um "escândalo". É o que resta da velha UDF... é pouco, é tristonho e prova que, quanto a ideologia, estamos conversados. Do outro lado da barricada, Melenchon jura que se deve fazer tudo para bater Sarkozy. Incondicionalmente. Convenhamos que esta declaração é importante mas notemos, en passant, que também aqui apenas se vê uma espécie de frente de recusa. É pouco e prova, uma vez mais, que a candidatura Melenchon era apenas uma federação de descontentes cujo eixo é o PCF. 

Os próximos dias vão ser curiosos. 

 

 

 

 

22
Abr12

Intento (25)

sociodialetica
 “O incognoscível é o fundamento em que repousa todo o nosso conhecimento e todo o nosso saber”
Arthur Schopenhauer in Will Buckinghan, al., Tous Philosophes. Les grandes Idées tout simplement. Editions Prisma, 2011, pag. 136
21
Abr12

A CP quer acabar com a linha do Douro?

José Carlos Pereira

A CP prepara-se para dar mais uma machadada na linha do Douro (a derradeira?). Depois de sucessivos governos terem prometido a requalificação e a electrificação da linha ferroviária, pelo menos até Marco de Canaveses, investindo uns largos milhões em expropriações e na supressão das passagens-de-nível, a verdade é que a linha electrificada suburbana termina agora em Caíde (Lousada) e a CP prepara-se para ficar por aí. Adicionalmente, a empresa pública pretende eliminar quinze comboios que asseguram a ligação de Marco de Canaveses a Caíde, o que causaria grandes transtornos às populações que se servem do transporte ferroviário, representando dificuldades acrescidas em tempos de crise. Já hoje muitos marcoenses que pretendem servir-se dos comboios suburbanos se vêem obrigados a deslocar-se de automóvel até Caíde, o que não tem qualquer racionalidade económica.

Pelo caminho, recorde-se, fomos convivendo com o abandono a que foi votada a linha internacional do Douro, o encerramento de estações, o definhamento dos serviços prestados e o encerramento da linha do Tâmega.

Num período de forte restrição dos investimentos públicos e numa região que nunca conquistou o peso político necessário para bater o pé em Lisboa perante os governos e os directórios partidários, o investimento na requalificação da linha do Douro até Marco de Canaveses está condenado para os próximos anos. Disso não tenho dúvida. Mas, como quem não tem cão caça com gato, ao menos que seja assegurado um serviço eficaz de ligação à rede suburbana, permitindo que cidadãos de Amarante, Marco de Canaveses, Baião, Cinfães, Resende e outros municípios do interior possam dispor de ligações rápidas e a horas convenientes para o Porto e demais aglomerados urbanos.

Neste percurso, os dois principais partidos de poder em Portugal não estão inocentes. Por isso, foi deprimente assistir à estafada troca de argumentos entre os dois lados da barricada esta semana na Assembleia da República. Os presidentes das Câmaras Municipais de Amarante, Baião e Marco de Canaveses já anunciaram a sua presença na manifestação agendada para amanhã à tarde, na estação de comboios de Marco de Canaveses, e deputados dos dois partidos já anunciaram o mesmo. Mas convém que saibam que as populações estão fartas de palavras e querem actos concretos de quem exerce o poder e não proclamações para eleitor ouvir.

Fui durante anos um grande utilizador da linha do Douro e compreendo bem que os jovens marcoenses se batam pelo reforço da linha ferroviária, de que dependem para chegar à universidade e aos seus empregos. Infelizmente, a sociedade foi empurrando as populações para o transporte rodoviário e, durante muitos anos, tudo contribuiu para que o serviço ferroviário definhasse. Hoje, as circunstâncias económicas mudaram e volta a ser determinante ter uma oferta de comboios à altura das necessidades.

Creio, no entanto, que a verdadeira motivação da CP pode estar naquilo que Armindo Abreu, presidente da Câmara de Amarante, denunciou: a desarticulação do serviço da linha do Douro provocará uma diminuição da procura de passageiros e acabará por justificar a supressão de ligações ao Porto. Tudo (aparentemente) fácil…

20
Abr12

A mentira sistémica

sociodialetica
(Imagem retirada de Somente Is@)

 

Alguns portugueses estarão a favor do atual governo, outros estarão contra. É assim em democracia mesmo que a abstenção atinja 99,9% (o que não foi o caso), mesmo que se identifique os portugueses com uma equipe de futebol cuja eficácia dependa do treinador, mesmo que a memória seja curta e a desinformação muita, mesmo que se admire mais o sorriso, o sexy ou o vigor do candidato que as suas ideias, mesmo que se fique inebriado pelo ondular das bandeiras de uma certa cor no vento da manifestação encomendada.

 

Todos amamos a democracia, mesmo que lutemos contra esta forma de democracia. Por isso todos amamos que os membros do governo sejam honestos e sinceros. Quando assim não é estamos perante uma questão de moral, que a todos merecerá condenação.

 

Já não falamos do flamejante verde de esperança – que esvoaça e encanta, rola e rebola pelos corações durante a campanha eleitoral – que se metamorfoseia, por encanto do apregoado realismo antes desconhecido, num cinzento sem futuro, quando governam.

 

Falamos da mentira construída, elaborada, organizada, meticulosamente estruturada, planificada até ao detalhe. A mentira enquanto forma de fazer política.

 

Foi o que aconteceu com o corte dos subsídios de férias e Natal na função pública. O Ministro das Finanças anunciou o corte de meio subsídio em 2011 e afirmou perentoriamente que era uma medida excecional e que não se repetiria. Aqui ainda não mentiu, mas também não falou verdade. No futuro não seria metade, mas todo.

 

Depois o Governo anunciou o corte dos referidos subsídios em 2012 e 2013. Ainda só começava a aumentar a insolvabilidade de muitas famílias, que contaram com essas remunerações nos seus planos de despesa a longo prazo, já o Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares anunciava que se prolongaria para 2014. Poucos acreditaram nessa afirmação, habituados que estamos ao desbragamento linguístico e desfaçatez do mesmo. Quando o Primeiro-ministro vem falar em começar apenas a repor, parcialmente, em 2015 percebeu-se claramente que só a total anarquia governativa ou uma mentira muito bem acordada tinha sido estabelecida. Depois das declarações da Ministra da Justiça prevendo a continuação do corte para além 2015 percebemos que estamos perante uma mentira que devia fazer corar qualquer diabo nas chamas do inferno.

 

Concorde-se, ou não, com esta política, a falsidade e a mentira vai para além dos valores éticos de cada um de nós. Ou será que já nem os temos, até isso deixámos roubar-nos?

 

19
Abr12

Autoelogio

JSC

 

Enquanto o primeiro ministro andava por Londres a duvidar do futuro e a dizer que o líder da UGT não é uma pessoa confiável porque, segundo o primeiro ministro, a ameaça de que pode romper com o acordo da concertação social é coisa para entreter o zé pagode e só vai durar até ao 1.º de Maio, enquanto estas matérias importantes se passavam em inglês, o Ministro da Finanças pregava um valente autoelogio, no coração da alta finança, em Wall Street, perante uma plateia de responsáveis pela crise que assola todos os países, nada mais nada menos que os homens e mulheres dos bancos de investimento e   'hedge funds', a que se juntarão instituições financeiras tão notáveis (a facturar com a crise)como Goldman Sachs, Merrill Lynch e JP Morgan .


 Vitor Gaspar, no autoelogio proferido, até foi capaz de garantir que as medidas de austeridade não afectam os grupos mais vulneráveis da população porque os menos favorecidos têm sido protegidos   nos cortes na Segurança Social,  no sistema de saúde e mesmo no aumento d os impostos. Vitor Gaspar garantiu, ainda, a tão interessada plateia, que os portugueses estão completamente dispostos a sacrificar-se e a trabalhar mais para que o programa de ajustamento seja um sucesso.


 Vitor Gaspar é o maior. Lamentável é que Vitor Gaspar não consiga vislumbrar quão fácil é o papel que ele tem desempenhado. Consolidar as finanças públicas à custa do empobrecimento generalizado da população e dos cortes em tudo que é serviços públicos essenciais é uma tarefa que qualquer um, nem precisava de ser da área da economia ou das finanças, realizava sem grande dificuldade, desde que tivesse estofo moral para tanto.


Compaginar o equilíbrio das finanças públicas com desenvolvimento económico, mesmo que muito moderado, é que seria digno de louvor.


O pensamento de Vitor Gaspar, em matéria de finanças publicas, e a sua prática discursiva, aproxima-o de uma outra figura, também muito segura de si e que afiançava, a propósito das matérias orçamentais:  “Sei muito bem o que quero e para onde vou mas não me exija que chegue  ao fim em poucos meses”. O resultado foi, como se sabe, deixar o país a pão e água, durante anos e anos. 

 

Mas o que pensaria Vitor Gaspar da política do Ministro das Finanças se em vez de estar no topo da cadeia estivesse colocado do meio para baixo? Será que continuava a ver as janelas de sucesso que agora diz que existem? Será que sentiria que estava a ser protegido pelas políticas de austeridade que estavam a implementar?


A verdade é que Vitor Gaspar está no topo e no topo irá continuar. Quando deixar de ser ministro, seja qual for o estado do país, espera-o um conselho de administração de um mega grupo ou o regresso ao híper bem remunerado cargo que a Comunidade Europeia lhe destinará.

18
Abr12

Despedir, Despedir sem direito a indemnizações

JSC

 

O Governo considera que ainda há muita margem para limitar as indemnizações por despedimento em Portugal. Uma delas é analisar inclusive o fim da consagração das indemnizações no Código do Trabalho.

 

 

No novo estudo sobre as indemnizações, a que o Dinheiro Vivo teve acesso, o Governo conclui que os regimes de indemnizações obrigatórias, como existe em Portugal, é coisa de país pouco desenvolvido

 

Será que foi isto que aprovaram na tão proclamada concertação social?

16
Abr12

Como seria se o PEC IV tivesse sido aprovado?

JSC

O número de falências é assustador.  Li algures que só no distrito do Porto e no de Braga faliram mais de 620 empresas, desde o início do ano.


O Diário de Notícias informava que desde o início deste ano foram já à falência 1.650 empresas em Portugal, correspondendo a uma média de 17 falências por dia. Estes dados revelam uma subida de 45% face ao mesmo período do ano passado.

 

Mas não são apenas as empresas a declarar falência: A situação é ainda mais grave nos particulares. De acordo com o Instituto Informador Comercial, no primeiro trimestre do ano foram declaradas insolventes 2.700 pessoas singulares, o que significa um aumento de 140% face aos três primeiros meses do ano passado. Ou seja, diariamente, 30 pessoas são declaradas falidas pelos tribunais.

 

Hoje o Diário Económico diz-nos que  houve um aumento de 143% no número de restaurantes em falência, no primeiro trimestre. Este é apenas um dos muitos sectores em dificuldades.

 

No conjunto dos três primeiros meses do ano houve um aumento de 51,5% nas falências. O problema no sector é, contudo, bem mais grave. Aquele número de falências corresponderá apenas a 10% do total dos encerramentos, uma vez que apenas contemplam os que encerram por decisão judicial.

 

As razões apresentadas assentam nas medidas de austeridade, na quebra no consumo das famílias e no aumento do IVA. Na verdade o governo deve ter avaliado mal o impacto da subida da taxa de IVA. A taxa de IVA a 23%  na restauração, na electricidade, no gás só poderia ter como consequência a forte retração do consumo, a paralisação da economia. 

 

O aumento de receita fiscal esperado pelo aumento da taxa de IVA mais que será anulado pelas perdas efectivas de IRC, de IRS, de IVA (que as empresas encerradas deixam de entregar), da Taxa Social Única, a que acresce o aumento da despesa pública com o pagamento dos subsídios de desemprego.

 

Perante um país paralisado economicamente, paralisado pelo medo, e cada vez mais despovoado ocorre-me perguntar: Como estaríamos se o PEC IV tivesse sido aprovado?